Notas iniciais
Voltando, aos poucos, mas voltando.

Ian estacionou em um café, quatro quadras adiante.

- Eu, pessoalmente, acho que deveríamos ter voltado ao hotel...

- Relaxa, Amy. Não precisamos ficar enfurnados no hotel o tempo todo...

- Você é tão teimoso, Ian!

Amy falou ranzinza, porém, resignada. Ian respondeu com pouca paciência.

- Bah! Conversa fiada. Deixa disso, Amy.

- Eu sabia que você não poderia ter mudado muito...

- Mas, EU MUDEI! Você é quem consegue me tirar do sério às vezes!

- Tá vendo? É sempre você! Você quer café? Bebamos café então!

Ela passou por Ian, dando um encontrão em seu ombro, e entrou na cafeteria.

- O que é que deu nela? (Jonah)

- Ela era tão apagadinha... Amy tá puro fogo agora! Da cor dos cabelos! (Hammer)

- As mulheres dessa família são um perigo! (Jonah)

- Calem a boca, estúpidos!

Ian falou, alterado, pelo surto de Amy e os comentários inoportunos dos primos. Jonah e Hammer riram, e começaram a entrar logo após Ian. Até pensaram em fazer piada, mas talvez não fosse uma boa ideia... Amy já estava sentada em uma mesa. Dois minutos depois de sentarem, uma garçonete de cabelos cumpridos e relaxados, pintados de vermelho granada, apareceu, mascando um chiclete de tuti-fruti. Cacheava as pontas dos cabelos enquanto falava, olhando diretamente para Ian.

- Bom dia, o que vão querer?

- Um cappuccino, por favor. (Amy)

- Simples com creme. (Magno)

- Um descafeinado. (Jonah)

- Donnuts, e um café sem leite. (Hammer)

- Então, por favor, dois cappuccinos, um descafeinado com creme, um simples com creme, um café sem leite e uma porção de donnuts. (Ian)

Ian precisou repetir o pedido de todos, porque a garçonete não anotou enquanto os outros falavam. Ela estourou o chiclete, então falou, melosa.

- Só isso, querido?

- Não sei. Você quer mais alguma coisa, Amy?

- Não, Ian, obrigada.

A mulher estava irritando Amy. Não era que estivesse com ciúmes... Claro que não! Apenas queria que a mulher respeitasse a presença feminina na mesa. Conversaram pouco enquanto esperavam. Mas não demorou mais que 5 minutos. Ao que parecia, a tal da ruiva estava ansiosa por voltar... Ela se abaixou mais do que precisava para por o pedido na mesa. Amy estava realmente incomodada.

- Você pode ir, querida... Se precisarmos de mais alguma coisa, chamamos...

A garçonete saiu resignada, lançando a Amy um olhar antipático. Todos começaram a beber e Hammer a comer.

- E então? (Jonah)

- Bem, acho que temos o que analisar... (Amy)

- Sim, creio que vamos ter um norte apenas depois de vermos o que conseguimos... (Magno)

Conversava, quando já estavam acabando Ian pediu a conta.

- Amy foi a primeira a se mexer para pegar a carteira. Ian segurou a mão dela.

- Não, eu quis café, eu pago...

- Ah, Ian, pelo amor de...

- Não, Amy, eu insisto. E isso vale para vocês também . Eu pago e sem discussão!

Resmungaram que tudo bem, Ian pagou a conta. Quando Estavam para sair, apareceu um rapaz pálido, de cabelos e olhos negros. Ele tinha um ar hitlerioso. Parou em frente à mesa.

- Amélia Cahill?

- Sim... Eu o conheço?

- Eu a vi na biblioteca, não lembra?

Ela se lembrava de tê-lo visto. O que realmente queria perguntar, era como sabia seu nome, e o que estava fazendo ali...

- Você esqueceu algo na biblioteca.

O que seria? Algum documento? Ele estendeu um papel enrolado em forma de canudo e ela se levantou para pegar. Empalideceu e sentiu-se vertiginosa quando leu. Ian percebeu, levantou, se postou ao lado dela. Passou um braço por trás de suas costas e pegou o papel de suas mãos trêmulas. Só precisou ler duas coisas “Atestado de óbito”, “Amélia Hope Cahill” Ele amassou o papel com raiva e lançou um olhar irado para o rapaz.

- Vamos sair daqui...

Falou para os outros ainda encarando o garoto nos olhos.

- Ah, que comovente. O filho de Luke convocando os filhos das outras descendências, mas em favor de quem? Um filho metido a artista de Jane, um filho cabeçudo de Catherine, um monstrinho de Tomas... E você, cabelos de fogo, de que cova saiu?

Ian começou a puxar Amy para fora. Ela estava quase como um peso morto. Atrás deles, Magno e Jonah vieram, também de cara fechada. Por último Hamilton pegou o último donnut. Ele rasgou o donnut com os dentes na cara do garoto, rosnando, depois seguiu. Viajavam calados, Amy e Ian no banco da frente. Amy olhava para fora da janela, em busca de calma e esquecimento, quando de repente, teve um vislumbre de Isabel acenando de dentro de uma loja. Aquilo era demais. Amy desmaiou. Isso Ian viu.

- Merda! Ela desmaiou!

Não era do feitio de Ian xingar, todos olharam para frente instantaneamente. Magno passou as mãos no rosto de forma exaurida.

- E então, hospital agora? (Hamilton)

- Arriscado, muito arriscado. Melhor cuidar dela no hotel mesmo... (Magno)

Foram para o hotel. A maneira que Ian carregava Amy fazia parecer que ela estava apenas dormindo. O saguão estava vazio, então ninguém os incomodou. Ian a pôs na cama.

- Ela precisa de um banho frio, para acordar... (Magno)

- E vai querer um chá, eu acho... Cora sempre grita por chá quando está estressada... (Jonah)

- E um calmante, e remédio pra dor de cabeça, e talvez algum para enjoo... (Ian)

Ian andava de um lado para o outro, perturbado.

- Quem vai...

- Eu vou comprar os remédios! (Jonah interrompeu)

- Vou providenciar o chá! (Magno)

-Vou ver se alguém suspeitou de algo lá em baixo... (Hammer)

Elephant Gun — Beirut

Obvio, ela era uma garota, e era prima deles. Ninguém ia querer ajudar a levar ela pro chuveiro frio! Merda, Ian xingou mentalmente. Tirou os sapatos e a camisa, trocou a calça por uma bermuda leve. Difícil foi deixa Amy de calcinha e sutiã e leva-la para o banheiro. A pôs de pé dentro do box, apoiou-a contra seu corpo e segurou-a com um braço. Com a mão livre ligou a válvula fria do chuveiro. A água gélida bateu contra os corpos quentes, por um segundo os pulmões se contraíram e os corações pararam, como se morressem, para então explodirem em vida novamente. Amy abriu os olhos em um lampejo, atordoada. Percebeu estar debaixo de um chuveiro, seminua, arfante, e colada a Ian, tão despido quanto ela. Tudo isso em um milésimo de segundo, era como uma descarga elétrica no cérebro. Tentou se afastar e se sustentar sobre as próprias pernas, percebeu que não poderia, não tinha força. Todo o seu sustento vinha da força do braço de Ian. Ele começou a abrir a válvula quente. A água ficou morna. Os músculos de Amy relaxaram, ela amoleceu nos braços do rapaz, ele a apertou um pouco mais, firmando-a melhor. Depois do susto, do desespero, do espanto, a reação de Amy foi repousar a cabeça pesada na cava do ombro de Ian.

- Amy, você já está se sentindo pelo menos um pouco bem? Quer que eu a leve ao hospital? Tá sentindo alguma coisa?

Ian perguntou baixo, transbordando preocupação. Ela deu um suspiro longo, cansado e arrastado.

- Não, não. Eu vou ficar bem. Nada de hospitais.

Respondeu contra a pele dele. Ian se arrepiou, era um esforço sobre humano estar naquela situação de maneira imparcial. Amy se sentia fraca até para levantar a cabeça. Tanto que nem tinha vontade de sair de perto de Ian, do jeito que fugiria normalmente em uma situação como aquela.

- Vamos sair dessa água... (Ian)

Ele desligou o chuveiro, se pôs rapidamente em um roupão e pôs Amy em outro. Carregou-a, sentou-a na cama e se sentou também, encostando as costas na cabeceira.

- E então, Amy, vamos lá... Que diabos aconteceu, ou está acontecendo pra você desmaiar assim?

Os olhos dela se encheram de lágrimas, não respondia. Ian não conhecia aquela Amy. Mesmo quando estava com medo, de alguma maneira, ela se mostrava forte. Agora estava em frangalhos, desarmada, desprotegida, sentada na beira da cama e se apoiando nos joelhos pra chorar.

- Ah, não, por favor! Tudo menos chorar... Preferiria que você fizesse igual a Natalie e quebrasse o quarto inteiro... – Ela estava ficando ainda mais vermelha, começava a soluçar, Ian estava ficando seriamente desesperado. – Não, Amy. Não, não, vem aqui. Não chora.

Ela engatinhou para Ian, sentou-se entre suas pernas com o corpo transversal ao dele. Ian dobrou as pernas e a abraçou, era como se assim pudesse cerca-la e protege-la por todos os lados. Amy soluçou mais um pouco até que conseguiu se acalmar o suficiente para falar.

- Primeiro sonhei com Isabel, e com fogo, meus pais, Irina e Lester, seus fantasmas gritando para que eu fugisse. Eu ia morrer no sonho, então hoje ganhei aquele atestado de óbito depois de já ter acordado. E então no caminho de volta eu vi Isabel, Ian! Ela voltou, ela fugiu e vai querer pegar o Dan, sua irmã, e... Ela vai querer pegar você! Ela jurou! E se ela matou uma vez, pode matar de novo!

Amy falava rapidamente e com uma voz chorosa. Ian a apertou um pouco mais, estava pensativo e preocupado. Seria possível que a mãe tivesse realmente conseguido fugir? Afagou os cabelos de Amy e beijou-lhe a cabeça. Nessa hora Magno chegou com uma caneca quente de chá e Jonah com um saco exagerado de remédios.

- E aê, prima! Já está numa nice? (Jonah)

- É, Amy. Você está se sentindo melhor? (Magno)

Hamilton chegou correndo.

- Gente! – Ele para na porta – Huuuuummm! – Olhando para Amy e Ian – Sento que , alguém, se não estiver melhor, vai melhorar rapidinho...

Amy não pôde deixar de sorrir, mesmo ainda estando com o rosto meio vermelho. Acenou afirmativamente com a cabeça dizendo que estava bem. Ian estava sério, refletindo. Deixaram os remédios e o chá, então resolveram sair. Ian levantou o queixo de Amy, para que ela o olhasse nos olhos.

- Eu gostaria muito de dizer que você deve ter se enganado, mas conheço Isabel... Mas, ainda assim, posso te garantir uma coisa. Se ela veio primeiro atrás de nós, é porque esses anos na cadeia realmente fizeram muito mal à cabeça dela. Ela está agindo por puro impulso, e instinto de vingança. Ela nos considera os grandes culpados, e a mim, em especial, a pior espécie de traidor do sangue. De fato, agindo assim, ela fica muito mais violenta e perigosa, mas também descuidada e previsível... Ela não vai atrás dos menores enquanto não tiver nosso couro, e eu te garanto, asseguro. Ela NÃO vai ter.

Ele usou uma das mãos para pegar a caneca de chá em cima do criado mudo e dar para Amy.

- Beba. Você precisa acalmar seu espírito... E também se aquecer e descansar. Dormir se possível. Decidiremos o que fazer depois.

Ele beijou a testa de Amy, levantou e foi trocar de roupa. Ela aproveitou para fazer o mesmo. Já estava escovando os cabelos e tinha bebido metade do chá quando Ian voltou do banheiro. Ele olhou para ela medindo seu estado. Tinha as feições de homem de negócios, nesse momento se parecia com seu pai, Vikram, e mais que nunca parecia um Lucian. Estudando, medindo a situação para tomar decisões. Tinha os ombros tensos.

- Ian?!

- Sim?!

- Obrigada...

Ele se sentou na cama enquanto murmurava um “por nada” meio sem jeito. Ela tomou mais um gole de chá e se deitou. Era como se seus olhos a traissem, mostrando que ainda queria colo. O impulso também foi mais forte que o pensamento racional de Ian Kabra. Ele voltou lentamente para a cama de Amy, ela pôs a cabeça em seu colo, e Ian novamente afagou seus cabelos.

- Durma, Amy. Vai ter bons sonhos. Sonhe com seus finais de semana com Grace, com o sorriso de Hope, com a lembrança do abraço de Arthur. Sonhe com a loucura e a comida de Nellie, com o ronronar de Saladim, Sonhe com seu tio Ship. Sonhe bons sonhos de suas memórias mais felizes, sonhe com seu futuro lindo e brilhante. Eu sei que o terá.

A suavidade da voz de Ian e o carinho nos cabelos fizeram Amy dormir mais rápido. Ian procurou o celular dela e anotou o número de Daniel., depois desligou o aparelho e saiu.



Notas finais
Espero que gostem e que tenham reparado bem nas atitudes dos personagens...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.