Café amargo - DESromantize
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Luxuoso. Confortável. Vazio. Solitário.
Peguei uma caneta e escrevi no tanzaku rosa o que eu desejava dizer sobre amor, sobre o nosso amor, sobre o fim dele. Fiz minhas malas e deixei o desejo sobre a cama quando saí.”
— Você deu um fora no Krum com um bilhete? – Draco perguntou enquanto terminava seu macaron.
— Nós já estávamos acabados, mas ele insistia que ainda havia algo, que podíamos seguir assim, mas eu não podia, só dei o ponto final que ele não teve coragem de dar aquela noite no restaurante.
— Vocês... voltaram a se ver depois disso?
— Claro que não, Viktor deve ter dito a si mesmo que estava muito ocupado ou o que eu acredito, que ele percebeu que não me amava e queria uma amiga com quem pudesse dividir a cama. – Hermione contou enquanto terminava sua xícara enquanto Draco engasgava com sua bebida. – Você está bem?
— Estou. – respondeu o sonserino ainda vermelho e tossindo. – Então é por isso que está aqui? Está de namorinho com o Weasel há quase um ano e ainda não esqueceu o troglodita?
Hermione abriu a boca indignada e pronta para responder quando a barista retornou. A mulher retirou as xícaras e pratos e depositou um pequeno copo de água gaseificada para limpar o paladar de ambos e dois pedaços de tiramisù perfeitamente polvilhados com café e chocolate.
A grifinória jamais admitiria, mas parecia que ele havia adivinhado o que ela pretendia pedir em sua sequência de autodepreciação naquele lugar.
— Quando eu terminei com Viktor não havia volta, jamais namoraria outra pessoa se ainda sentisse algo por ele. Claro que demorou algumas semanas para que eu conseguisse realmente superar tudo aquilo, afinal eu estava apaixonada por ele, queria me casar... Passei esse tempo entocada na casa dos meus pais sem ninguém saber que eu havia retornado para a Inglaterra.
“Depois desse período obviamente fui atrás dos meninos, eu sentia tanta falta deles, falta de segurança, da estabilidade doce do passado que mesmo que o mundo estivesse desabando eu podia ter a certeza que encontraria algo a que me agarrar com eles.
E com o tempo foi exatamente o que aconteceu, tudo tinha voltado ao normal até que...
— O cabeça de cenoura começou a dar em cima de você como o desesperado que ele é. – falou Malfoy. – Não posso culpa-lo, alguém lento como ele jamais teria outra oportunidade além de se aproveitar de um momento de fraqueza emocional para conseguir alguém como você.
— Não foi assim, eu e Ron, bem nós nunca tivemos a oportunidade e...
— Claro que você defenderia ele, se ele é tão perfeito assim porque vocês terminaram?
— Como sabe que terminamos?
— Eu já disse Hermione, não sou burro: seu celular não para de tocar e você está fingindo que não percebe, logo não quer falar com quem está te ligando, mas não o desligou, ou seja, quer que essa pessoa saiba que não está atendendo.
— Certo, nós terminamos. – Hermione bufou indignada em assumir que o raciocínio do outro estava correto. – E sim eu quero que ele perceba que não vou atendê-lo.
— Você finalmente caiu na realidade e percebeu que esse relacionamento não tinha nenhuma chance de um futuro frutífero, afinal você já era demais pra ele na escola, agora então...
— Não é nada disso Malfoy. – Hermione respondeu após abocanhar um pedaço do doce em seu garfo e depois apontar o mesmo para ele. – E pare de menosprezar o Rony, ele é um cara incrível.
— Então vamos à pergunta que faria Rita Skeeter arrancar os cabelos obviamente tingidos dela: por quê? Por que abandonar o final feliz de um livro de contos infantis? Afinal os mocinhos não se casam no final?
— Não é um final feliz se não há amor recíproco.
Draco que também levava um pequeno pedaço do doce à boca parou do meio do caminho e depositou o talher carregado no prato, falando de forma menos descontraída que anteriormente.
— Até os mais idiotas, menos Crabbe e Goyle, perceberam que Weasley era apaixonado por você mesmo que ele fosse cego demais para perceber sozinho, logo é você que não o ama.
— É pior, eu o amo, daria minha vida por ele se tivesse sido necessário durante a guerra.
— Estou falando de amor passional Hermione, você o ama?
— Não, não dessa forma. Meu amor por ele, eu fui descobrir da pior forma, é tão fraternal quanto o que tenho por Harry.
“Mas eu estava tão feliz por estarmos reatando nossos laços, por termos alcançado uma zona estável de conforto e uma aura azulada e tranquilizadora parecia finalmente se assentar à moldura dos momentos familiares que eu vivia n’A Toca.
Parecia tolice jogar tudo isso para o alto porque o que eu sentia por Rony não era a paixão avassaladora que eu havia vivido com Krum, aliás eu já havia tido provas demais que amar daquela forma só conseguiu me machucar.
E Rony, mesmo sendo do jeito único dele, eu via que se esforçava, ele tentava me acompanhar nas leituras e assim como Harry me apoiou firmemente a reatar meus estudos. Ele era carinhoso e atencioso, além de muito divertido, Rony com todo seu cuidado havia pavimentado um novo caminho para a minha estabilização pessoal.
Mas não demorou muito tempo para que, já com meu emocional e psique saudáveis novamente, eu percebesse que não era um amor mais brando, apenas diferente.
Porém Rony havia feito tanto por mim, eu não podia simplesmente rejeitar toda a dedicação que ele tinha dado, resolvi que poderia conviver com essa percepção e quem sabe no futuro eu não me apaixonasse? Tudo era possível.
Tudo era possível, inclusive as coisas seguirem o rumo oposto do que eu desejava, Rony era bom, mas não era o tipo que me atraía, por mais que eu quisesse, por mais que eu me esforçasse o amor não veio e eu me vi refém do amor do meu namorado, me vi refém da minha incapacidade em magoá-lo, só de imaginar que eu poderia fazê-lo chorar, deprimi-lo, me causava uma ânsia em poder mantê-lo seguro de mim mesma. Voltei a me colocar em segundo plano, preteri os meus sentimentos aos dele.”
— Se estava conformada com essa vida medíocre o que a fez mudar de ideia? – Draco perguntou em tom amargo.
— Não julgue minha vida Malfoy, não te dei esse direito! Você mais do que ninguém sabe o que é ter uma vida medíocre para atender a satisfação de outras pessoas. – Hermione rebateu ácida. – O que mudou foi que ontem foi nosso aniversário de namoro e bem ele preparou uma noite romântica para nós dois, nossa primeira noite.
“Eu já havia percebido que ele estava avançando cada vez mais no nosso “contato” então não foi tão surpreendente quando eu encontrei tudo preparado. Ele tentou criar um clima, uma atmosfera romântica e eu estava disposta a embarcar, começamos a nos beijar...”
— Eu prefiro não saber. – Draco interrompeu-a batendo na mesa.
— Eu não ia contar nada desse tipo! Pare de ser pervertido! O que eu ia dizer é que quando percebi que inconscientemente eu estava planejando como... como fingir um orgasmo eu fiquei estática e notei então as lágrimas que se formavam nos cantos dos meus olhos. – Hermione falava com a voz embargada por um choro novo que ela se recusava a deixar sair. – A que ponto eu havia chegado? Ter que fingir prazer pra satisfazer outra pessoa? Deixar que meu corpo o satisfizesse quando eu tinha a certeza que o dele não me satisfaria?
“Não procurei nem mesmo minha bolsa, apenas vesti minha blusa, peguei minha varinha e aparatei em casa fechando todos os acessos por vias mágicas e trouxas.”
Um silêncio mórbido havia caído sobre a mesa entre os dois. Além dos tilintares no andar térreo o único ruído era a respiração apressada e pesada que saía de Hermione depois de chegar no ponto mais emotivo e pessoalmente aterrador de sua narrativa.
— Pode rir Malfoy, faça uma piadinha suja sobre o quanto é patético ter que fugir de uma transa, humilhe a masculinidade de Rony, pise no meu ego, vamos faça alguma coisa! Afinal não é pra isso que queria tanto saber?! Para esfregar isso na minha cara?! – Hermione começava a se alterar com o loiro e nem percebeu que derrubara o doce em seu rompante.
— Ninguém deve submeter sua felicidade a de outra pessoa Hermione, você passou um ano mostrando para quem quisesse ver que você e ele eram felizes, que você havia superado, que ele era o amor da sua vida, mas o pior é que você não fingiu para o mundo, você fingiu para você mesma, você não o amava, mas tê-lo por perto era melhor do que ficar sozinha? Era melhor ter o cheiro dele na sua roupa do que admitir a verdade? – Malfoy falou olhando friamente para a grifinora que parecia a ponto de bater no mesmo.
— A verdade Malfoy é que eu não fui feita para finais felizes, nunca vai haver na minha vida um amor recíproco, mas quer saber? Que se dane essa merda toda, que se dane você também sua doninha enxerida, isso não é da sua conta. – Hermione falou olhando fixamente nas íris cinza.
Em seguida ela pegou sua bolsa e desceu as escadas deixando para trás um Malfoy estático em sua absorção do momento.
— Isso não é verdade. – o loiro falou.
Surgiram então em cima da mesa algumas notas de dinheiro trouxa que Malfoy tinha certeza que pertenciam à mulher que acabara de sair.
— Grifinora orgulhosa.
Ele então empurrou o prato com seu doce pela metade e observou pelo vidro a pequena figura de Hermione desaparecer na entrada de um beco.
Alguns momentos depois Draco ouviu os passos da barista e logo ela chegou ao seu andar e sentou-se em frente a ele no lugar que há pouco fora ocupado por Hermione.
— É ela não é? Seu amor platônico? – Kylie perguntou.
— Do que está falando? – Draco perguntou em uma careta quase habitual de suas feições finas.
— As coisas que você fala, o jeito que agiu quando ela entrou, ninguém se comporta assim se não está amando. Você se declarou para ela? Foi por isso que ela saiu feito um furacão daqui? – ela perguntou enquanto recolhia o que havia sobrado daquele inesperado café.
— Não e nem irei, o amor só serviu para machucar Hermione, não serei eu aquele que deixará mais uma marca viva nela.
— Mas...
— Mas nada. Traga por favor, um expresso. Não quero mais a sobremesa e coloque esse dinheiro sobre a mesa como crédito na conta dela, pagarei pelo que foi consumido e o que foi quebrado.
— Você acha que ela vai voltar? – Kylie questionou.
— Vai, Hermione tem a estranha atração por coisas amargas.
— Então talvez ainda haja esperança para você. – a mulher rebateu antes de descer as escadas novamente.
— Talvez. – Draco respondeu para o salão vazio.
Fale com o autor