Café Encanto e os Doze Portais Mágicos
2 Capítulo 1: O Armário das Tralhas
Auroria era uma cidade que parecia viver à margem do tempo. Suas ruas sinuosas e prédios antigos, de pedra escurecida pelo tempo, contavam histórias que ninguém se dava ao trabalho de ouvir. Poucos habitantes tinham coragem de perguntar por que as noites eram tão densas e silenciosas, ou por que os ventos que sopravam da colina pareciam sussurrar palavras em línguas esquecidas. Era o tipo de lugar onde lendas antigas se misturavam à rotina, mas ninguém queria admitir que acreditava nelas.
Amy Lock – ou Ametista – chegou a Auroria muito antes de ter idade para entender o significado de recomeços. Aos 12 anos, foi encontrada na beira de uma estrada por Grimelda Sombrafenda, após um acidente de carro fatal, que ceifou a vida de seus pais. Grimelda, uma senhora um tanto peculiar, que sempre andava vestindo seus estranhos bordados coloridos, com luvas de tricô, coque baixo e cabelos grisalhos, olhos quase pretos e sempre acompanhada de Argus, seu papagaio cinza com manchas douradas, sempre falante e sarcástico. Sem parentes vivos que pudessem cuidar de Amy, Grimelda a acolheu como uma filha. Desde então, a dona do Café Encanto tornou-se sua única família, ensinando-a a sobreviver na peculiaridade interiorana de Auroria.
Agora, com 22 anos, Amy dividia sua vida entre concluir a faculdade de literatura e o trabalho no Café Encanto, onde ajudava Grimelda nas manhãs movimentadas. O café não era apenas um ponto de encontro para os habitantes, mas também um refúgio para aqueles que vinham em busca de algo mais – histórias, conselhos ou talvez respostas que só Grimelda parecia ter.
Nos últimos dias, Grimelda havia recebido dois hóspedes inesperados. O primeiro era Júlio Valemont, um sobrinho distante do velho Tobias Ravencroft, coveiro da cidade e dono do cemitério local, que viera passar as férias de verão com ele, mas estava ajudando Grimelda no café, pois, naquele mês de setembro, parecia estar mais movimentado do que o normal. Jovem e extrovertido, Júlio tinha 19 anos e um sorriso fácil que encantava os clientes, o rosto repleto de sardas e manchas vermelhas do sol, contrastavam bem com seus olhos azuis cobertos por óculos redondos e cabelos longos e ruivos cobertos por uma boina de velho que ele insistia em usar. Ele se ofereceu para ajudar no café enquanto estivesse na cidade, mas, para Grimelda, parecia que ele mais atrapalhava do que ajudava.
Além dele, o café contava com a obstinada presença de Cassandra Halloway, filha mais nova do prefeito, uma patricinha de 15 anos que desprezava tudo em Auroria, e, como castigo pelas notas ruins no internato de elite da capital, teve que trabalhar no café de Grimelda por decisão de seus pais, Gerald e Elizabeth Halloway. Com suas roupas de grife e postura arrogante, Cassandra tornava sua aversão ao lugar evidente em cada palavra que proferia. Agora, forçada pelos pais a passar o verão na cidade, ela ocupava suas tardes de forma irritante, reclamando de tudo e de todos enquanto ocupava uma das mesas mais próximas à janela.
Naquela manhã, o café estava especialmente movimentado. Júlio corria de um lado para o outro, tentando atender os pedidos, enquanto Grimelda observava tudo com olhos atentos e uma xícara de chá nas mãos. Cassy, como de costume, estava sentada com o nariz empinado enfiado no celular, ignorando qualquer tentativa de conversa, enquanto seus curtos cabelos dourados refletiam a luz do sol de verão que entrava pela fresta da cortina entreaberta na janela frontal do café, e seus olhos chocolate nem piscavam com as informações que passava rapidamente na tela de seu telefone.
Foi quando ele entrou… o jovem Dorian Brexon.
Dorian tinha uma presença que fazia o ar ao redor parecer mais denso. Alto, com cabelos castanhos que caíam levemente sobre a testa e olhos verdes penetrantes, ele não parecia pertencer àquele lugar. Vestia um casaco cinza, mesmo no calor do final do verão, e usava luvas de couro preto que cobriam suas mãos por completo – um detalhe que Amy notou imediatamente e logo estranhou.
— Quem é ele? — Amy perguntou a Júlio, enquanto servia uma xícara de café a um cliente, falando num tom cuidadosamente baixo, somente para Júlio ouvir
— Ouvi dizer que é um jornalista — respondeu Júlio, inclinando-se de maneira um tanto conspiracionista. — Veio da capital para pesquisar sobre o folclore da cidade. Mas tem algo estranho nele, não acha? — disse Júlio num sussurro quase inaudível, como se temesse a áurea do jovem mistério.
Amy concordou silenciosamente, assentindo com a cabeça, voltando-se para o café do cliente ordinário da mesa n.º 4.
Dorian se acomodou em uma das mesas do fundo, retirou um caderno de capa vermelha surrada e começou a fazer anotações rápidas. Amy não pôde evitar observar o cuidado com que ele mantinha as mãos cobertas o tempo todo, mesmo ao virar as páginas, servir-se com o café, ou até mesmo para comer os biscoitos com geleia de blueberry. Foi então que, ao ajustar as luvas, ela viu de relance algo que parecia uma tatuagem na mão esquerda dele – um símbolo intrincado que brilhou por um instante, ou talvez fosse apenas sua imaginação… pelo menos, foi que ela disse a si mesma enquanto balançava a cabeça tentando tirar aquelas imagens indecifráveis de sua mente.
No entanto, a maior surpresa veio quando Dorian, ao se levantar rapidamente deixando apenas uma nota de alto valor na mesa, esqueceu o caderno surrado sobre a mesa ao sair. Amy só percebeu o objeto abandonado quando Júlio o encontrou enquanto limpava as mesas.
— O que fazemos com isso? — ele perguntou, segurando o caderno — Parece velho e surrado — continuou Júlio fazendo uma cara de desgosto — isso vai atacar minhas alergias!
Grimelda apareceu do nada, como de costume, e tomou o caderno das mãos dele.
— Deixe comigo — disse ela, sem explicar, enquanto guardava o caderno misterioso numa caixa velha de madeira, que Amy viu de relance por detrás do balcão, enquanto a velha Grimelda abria o tão famigerado armário das tralhas, que ficava nos fundos do café, sendo a zona mais “fora dos limites” para todos que trabalhavam ali, pois a velha Sombrafenda dizia guardar ali suas receitas secretas dos pães e doces, da qual a chave, ficava num cordão que a velha jamais tirara do pescoço.
Logo em seguida, Grimelda soltou dos fundos um rouco “estou indo alimentar Argus, e já retorno. Quero tudo limpo!”, sendo a oportunidade perfeita para a Amy, curiosa como sempre, tentar finalmente desvendar o mistério do armário de velharias e tralhas.
Vendo que a idosa saíra, e aproveitando a rara oportunidade de estar sozinha no café – pois o jovem Julio saiu para comprar mais farinha e açúcar, enquanto Cassy finalizara o expediente –, tocou na maçaneta velha que fedia a ferro velho, apenas para sentir um frio que lhe subiu pelo braço, fazendo-a ver em sua mente uma imagem estranha, cheia de cores, portões e criaturas estranhas, envoltas em páginas cheias de símbolos e anotações em uma língua que ela não reconhecia. Algumas páginas traziam desenhos de algo que parecia um portal – um círculo intrincado com runas ao redor.
Foi então que tudo mudou.
O ar ao redor ficou pesado, e o armário de tralhas no canto começou a emitir um brilho suave. Amy sentiu um choque percorrer sua espinha e fechou o soltou a maçaneta rapidamente, mas não antes de Grimelda aparecer novamente na porta dos fundos, com uma expressão alarmada, acompanhada de Argus, o tagarela aviário.
— Eu disse para ficar longe daí! — ralhou Grimelda, fazendo com que Amy soltasse a maçaneta no susto, caindo com a bunda no chão, ainda sem entender o que havia acontecido.
Antes que pudesse responder, Dorian entrou abruptamente novamente no café, fazendo a campainha do sino na porta soar mais alto do que o normal, com os olhos fixos em Grimelda, como se soubesse de algo mais absurdo do que as visões estranhas que Amy acabara de ter em sua mente.
— Parece que esqueci meu caderno de anotações e entrevistas por aqui — disse ele, sua voz baixa, mas carregada de intensidade e um tanto ofegante, como se tivesse corrido em busca de um mero bloco de notas.
Amy se encolheu sob o olhar de Dorian. Era como se ele pudesse enxergar através dela, diretamente para o momento em que tocou na maçaneta.
— Eu... — começou, mas sua voz falhou.
— Aqui está seu caderno querido! — Grimelda interveio, indo buscar o artefato, logo retornando e estendendo-o a ele antes que Amy pudesse dizer mais alguma coisa.
Dorian o pegou, mas não sem antes lançar um olhar demorado para Amy, com uma expressão impossível de ser decodificada.
— Agradeço. — disse ele, com uma leve inclinação de cabeça, parecendo confirmar se o livreto havia sido mexido ou algo parecido. — Fiquei com medo de perder minha pesquisa.
— Bem, poderia ter usado um computador. São bem populares hoje em dia. — Amy sorriu falsamente, ainda confusa com o peso das palavras, mas logo fora interrompida por Grimelda
— Acho que era só isso não é mesmo meu bom rapaz? — disse a velha inquieta, enquanto o conduzia até a porta — Por hoje já estamos fechados, mas se precisar, podes voltar amanhã!
Dorian, ainda sério, conforme se retirava do local, murmurou algo que Amy não conseguiu ouvir. O ar no café parecia voltar ao normal, mas Amy ainda estava tensa. Júlio, retornando com a farinha e o açúcar, enquanto entrava pela porta dos fundos do estabelecimento, percebendo a expressão pesada no ar, aproximou-se com um sorriso brincalhão.
— O que foi isso? Ele te hipnotizou? — perguntou, enquanto limpava outra mesa. — Você parece caidinha por ele — disse entre risos, ao mesmo tempo que guardava as compras
— Foi estranho, só isso — respondeu Amy, distraída. — Ele é estranho — sussurrou para si mesma, como se estivesse precisando ouvir aquilo
Grimelda voltou ao balcão, pegou sua xícara de chá e suspirou profundamente.
— Amy, venha cá.
Amy obedeceu, sentindo o peso do olhar da mulher.
— Há coisas neste mundo que você ainda não entende — disse Grimelda, sua voz baixa, mas carregada de preocupação. — E espero que continue assim por enquanto. Mas quero que me prometa que não vai se envolver com esse homem. — disse de uma forma tão séria, que as palavras pareciam perfurar a mente da jovem — não os conhecemos, ele é um forasteiro. Tenha cuidado.
— Mas o que será que havia naquele caderno? — perguntou Amy, quase em um sussurro. — Que tipo de entrevistas e pesquisas ele anda fazendo por aqui?
— Não sei querida, mas não é da nossa conta — respondeu Grimelda, antes de se virar e voltar à cozinha.
Amy ficou ali, em pé, com as palavras da mulher ecoando em sua mente, tendo seus pensamentos interrompidos por Júlio.
— Dona Grimelda — soltou de repente — terminei tudo que tinha para hoje — falou enquanto sorria com os olhos, estando visivelmente sujo de farinha — vou indo para a casa de meu tio Tobias! — finalizou enquanto pegava suas coisas
— Tudo bem Júlio. Nos vemos amanhã — finalizou enquanto colocava Argus na gaiola, que parecia bizarramente calado no dia de hoje — Amy, querida, vamos para casa também? — disse olhando carinhosamente para a jovem que terminava de limpar o chão
— Vou depois Tia — respondeu Amy, ao lembrar que sempre a chamou de Tia, pois era mais simples assim — quando terminar aqui, vou aproveitar os livros aqui para terminar uns trabalhos da faculdade que estou adiantando, tranco tudo, e lhe encontro em casa.
— Tudo bem. Eu e Argus já vamos indo, então — disse já saindo pelos fundos, e trancando a porta atrás de si.
***
Naquela noite, enquanto caminhava de volta para casa, o céu de Auroria estava especialmente estrelado, mas a luz das estrelas parecia não tocar o chão. A sensação de desconforto não a abandonava, como se algo tivesse sido despertado quando tocou na maçaneta, algo que nunca havia acontecido antes.
É lógico que ao longo desses 10 anos em que morara com a velha Grimelda, sempre pensara nas formas mais mirabolantes de entrar naquele armário velho, mas nunca sentira nada parecido, e nem alcançara êxito, tendo sempre o mesmo retorno da Tia Grimelda “na hora certa, você saberá e saberá por mim”. Se bem que, não é como se o sonho dela fosse herdar o café! Queria mesmo era escrever livros e viajar pela Europa. Esse era seu sonho!
Ao passar pelo portão do cemitério da cidade, Amy ouviu um ruído estranho, como o som de passos esmagando folhas secas, que a fez despertar de suas fantasias. Ela parou e olhou ao redor, acendeu a lanterna da bicicleta – que estava com pneu furado –, mas não foi possível enxergar ninguém. Um arrepio percorreu sua espinha, e ela apressou os passos, tentando ignorar a sensação de que estava sendo observada, agradecendo mentalmente por morarem perto do café.
Quando chegou à casa de Grimelda, a luz da sala estava acesa, e a figura da mulher podia ser vista através da janela, sentada em sua poltrona favorita com um livro nas mãos. Amy entrou rapidamente, trancando a porta atrás de si.
— Você está atrasada — comentou Grimelda sem desviar os olhos do livro.
— Tinha muitos trabalhos para adiantar — respondeu Amy, jogando a bolsa no sofá. — E tive a sensação de que alguém estava me seguindo, enquanto passava pela rua do cemitério.
Grimelda fechou o livro e olhou para ela com seriedade.
— Não se preocupe. Enquanto eu estiver aqui, você está segura.
Mas a expressão de Grimelda não transmitia tanta confiança quanto suas palavras.
***
Na manhã seguinte, Amy chegou cedo ao Café Encanto, determinada a ignorar os eventos do dia anterior. Júlio já estava lá, enchendo xícaras de café e falando demais, como de costume. Cassy havia aparecido também, ocupando seu lugar habitual, mas agora estava acompanhada de um grupo de adolescentes que pareciam tão deslocados quanto ela.
— E então, como foi a noite? — perguntou Júlio, enquanto empilhava pratos. — Algum sonho estranho com o rapaz das luvas? — falou com um sorriso assustador — aposto que está apaixonada por ele!
— Deixe isso para lá, Júlio — respondeu Amy, revirando os olhos. — Ele parece ser bem mais velho, e nem faz meu tipo — afirmou a jovem, mas querendo apenas desviar do assunto.
A porta do café se abriu, e Dorian entrou novamente. Desta vez, Amy tentou não o encarar, mas seus olhos foram automaticamente para suas mãos, ainda cobertas pelas luvas de couro. Ele se aproximou do balcão, onde Grimelda já estava pronta para atendê-lo.
— Quero um café expresso e uma torrada, por favor — Falou rapidamente, já se assentando no balcão — Ah, e preciso de um lugar para ficar — disse ele — Aparentemente, a pesquisa ainda vai demorar uns dias, e ao falar com algumas pessoas da cidade, me recomendaram falar com a Senhora.
Grimelda ergueu uma sobrancelha.
— Não temos uma pousada na cidade, mas talvez você encontre algo no antigo casarão perto da colina. É velho, mas com uma boa limpeza, dá para aguentar um pouco.
Dorian assentiu, como se já soubesse disso.
— Perfeito. Obrigado.
— E de ontem para hoje… onde você passou a noite? — indagou Cassy curiosamente por detrás da tela do celular
— Bem… eu fiquei no carro que eu aluguei na capital — disse o rapaz um tanto envergonhado — O café estava bom Senhora. Obrigado pela dica. Vou indo — acrescentou Dorian com aparente pressa em sair dali
Ele saiu novamente, deixando o ar do café pesado.
Júlio se aproximou de Amy e murmurou:
— O que será que ele quer aqui?
Amy não respondeu, mas algo dentro dela sabia que essa não seria a última vez que seus caminhos se cruzariam, e passou o restante do dia tentando ignorar a crescente inquietação que parecia ter se alojado em seu peito desde a interação com Dorian, somado ao episódio da maçaneta, como se algo em seu subconsciente lhe afirmasse que os dois eventos estariam ligados. Apesar do esforço, suas mãos tremiam levemente enquanto atendia os clientes, e sua mente vagava frequentemente para o caderno surrado de capa vermelha.
No final da tarde, quando o movimento diminuiu, Cassandra se aproximou do balcão com uma expressão entediada.
— Sério que é só isso que vocês fazem aqui? Servem café, limpam mesas e... limpam livros velhos acumulados por uma velha solteirona? — disse entediada, ao notar que seu celular estava sem bateria
— Ninguém pediu para você ficar — respondeu Amy, cansada do tom de Cassandra.
— Meus pais pediram, e isso é pior — rebateu Cassy, cruzando os braços. — Essa cidade inteira é um tédio. Eu preferia ter ficado no internato para um curso de verão — esbravejou como se isso fosse uma penalidade ainda pior.
Júlio, que ouvia a conversa enquanto limpava as mesas, se aproximou com um sorriso zombeteiro.
— Talvez seja melhor você ficar quieta, Cassy. Dizem que quem reclama muito da cidade acaba preso nos mistérios de Auroria.
Cassandra o encarou, cética.
— E o que isso significa? Você é completamente lunático garoto! — disse enquanto se distanciava do rapaz, como se ele tivesse algo contagioso e extremamente nocivo
— Só que... coisas estranhas acontecem aqui. Existem tantas lendas estranhas em Auroria — disse ele, inclinando-se para frente como se contasse um segredo. — Você sabia que o casarão na colina foi abandonado porque todos os antigos moradores desapareceram… misteriosamente e sem deixar rastros?
Cassandra revirou os olhos, mas Amy sentiu um arrepio incomum. O casarão sempre fora um lugar evitado pelos moradores, mas o fato do jornalista misterioso, vulgo Dorian, estar hospedado no local, trazia uma nova camada de mistério.
— Isso é só história para assustar crianças — disse Cassandra revirando os olhos — será se eu já posso ir? — pontuou impaciente.
Júlio deu de ombros, mas Amy ainda pensava na soma de eventos nos últimos dias.
***
Ao cair da noite, Amy decidiu que precisava de respostas. Enquanto Grimelda dormia em sua poltrona, ela saiu de casa silenciosamente e seguiu em direção ao casarão. A cidade estava silenciosa, com apenas o som de insetos noturnos preenchendo o ar.
O casarão na colina parecia ainda mais imponente sob a luz da lua. Suas janelas estavam quebradas em alguns lugares, e as tábuas da varanda rangiam sob o peso de Amy quando ela subiu os degraus.
Ela hesitou antes de tocar a maçaneta, mas a porta se abriu antes que ela pudesse sequer encostar.
— Estava esperando você.
A voz de Dorian veio de dentro, grave e carregada de mistério. Ele estava no centro da sala, cercado por pilhas de livros antigos e mapas espalhados em uma mesa de madeira.
— Por que você está aqui? — perguntou ele, sem olhar diretamente para ela.
Amy engoliu em seco.
— Eu... eu precisava saber o que está acontecendo. O que há nesse caderno?
Dorian finalmente levantou os olhos para ela, e Amy percebeu que eles tinham um brilho quase sobrenatural.
— Este caderno contém segredos que conectam Auroria ao que existe além. Ele não é apenas um objeto — disse ele, aproximando-se lentamente. — Ele é uma espécie de chave.
Amy sentiu seu coração acelerar.
— Uma chave para quê?
Dorian parou à sua frente e levantou a mão esquerda, ainda coberta pela luva.
— Para lugares que você não deveria conhecer.
Antes que pudesse responder, Amy viu um movimento no canto da sala. Uma sombra alta e indistinta parecia se formar, quase como se estivesse saindo das páginas do caderno sobre a mesa. Ela deu um passo para trás, mas Dorian ergueu a mão, como se estivesse controlando a sombra.
— É por isso que Grimelda lhe pediu para você não mexer no armário — disse ele, sua voz firme. — Agora que tocou nela, você está conectada a isso também.
Amy sentiu o chão ceder sob seus pés, mas de alguma forma permaneceu de pé, enquanto, ao mesmo tempo, se questionava de como ele sabia que ela não podia tocar no armário, e que loucura foi essa com o caderno?
— Conectada como? Como você sabe sobre o armário das tralhas? Quem é você? — falava tão apressadamente, como se as frases rugissem de seus lábios numa pressa desesperadora
Dorian a observou por um longo momento antes de responder:
— Há um portal em Auroria. E você acabou de despertar o caos.
Amy acordou com um sobressalto, o coração disparado como se tivesse corrido uma maratona e o corpo pingando suor. A luz pálida da manhã entrava pelas frestas da cortina, e o familiar cheiro de café recém passado invadia o quarto. Ela levou a mão à testa, tentando afastar a sensação de que algo estava errado.
O casarão. Dorian. O caderno. Tudo parecia tão vívido, mas agora parecia impossível. Ela jamais teria coragem de ir até aquele lugar sozinha, muito menos confrontar alguém como Dorian, um completo desconhecido, cheio de marra, mistério, segredos…, mas que intrigava a jovem Amy.
"Foi só um sonho", ela pensou, ainda incerta, enquanto corria para tomar um banho extra gelado para despertar de vez desse pesadelo louco e sem sentido algum.
Após se arrumar, tentando forçadamente esquecer do sonho/pesadelo, desceu as escadas, encontrando um café da manhã deixando por Grimelda com um bilhete que dizia “Sai mais cedo para fazer compras. Vou comprar frutas para fazer geleias e doces. Nos vemos no café”.
***
Ao chegar no café, Amy viu Grimelda organizando o balcão enquanto Júlio preparava as mesas. Cassy, como de costume, estava sentada com as pernas cruzadas, mexendo no celular e parecendo entediada e fazendo o que fazia de melhor… nada!
— Dormiu bem, querida? — perguntou Grimelda, sem olhar para Amy.
— Sim, acho que sim — respondeu Amy, embora sua voz não soasse tão convincente.
— Que tom desanimado é esse? — pontuou Júlio — sonhou com o bonitão e ele te dava um fora?
— Bonitão? — exclamou Grimelda — que bonitão?
— O jornalista da capital! Amy está caidinha por ele — brincou Júlio, mas faltando matar a velha do coração
— O que? Não te falei para ficar longe dele Ametista? — pontuou a senhora com uma seriedade quase maternal, ainda chamando a moça pelo nome de nascença
— Eu… Eu nem o conheço Tia. Nunca conversei com ele — “pelo menos não no mundo real” pensou a jovem com uma expressão indecifrável no rosto — É que o Júlio tirou o dia para me atazanar — finalizou com um sorriso amarelo, fuzilando Júlio com os olhos
— Calma Amy — Júlio arregalou os olhos — foi… foi só uma brincadeira Dona Sombrafenda! — falou enquanto tentava acalmar a situação
Após essa pequena confusão, Amy tentou se concentrar no trabalho, mas a estranha sensação de desconforto persistia. Toda vez que pensava em Dorian, lembrava do sonho e do episódio da maçaneta, e como um mal presságio, a porta do café se abriu, com a campainha sinaleira da porta, acordando Ametista que avistou o jovem Dorian novamente.
Ele, que logo se sentou em um canto abrindo um livro qualquer, enquanto anotava coisas em um caderno simples, causava em Amy um arrepio na nuca, como se ele soubesse de algo que ela não, mas que ela precisava descobrir.
— É a sua zona — disse Cassy voltando os olhos para seu celular, direcionando sua fala à Amy — eu já atendi todas as minhas mesas de hoje. Bati a meta. — falou como se fosse uma exímia conquista
— Júlio? — disse Amy inquieta, como se o jovem Dorian lhe desse medo — Eu fico lhe devendo uma! — pediu com olhos suplicantes
— Está bem. Mas vai lavar os pratos por uma semana inteira! — Disse Júlio limpando os óculos circulares no avental
— Poxa… ok… — respondeu Amy relutante — combinado.
— Bom dia Dorian. — Exclamou Júlio ao se aproximar da mesa de Dorian, que sentia o olhar distante de Amy em sua nuca, como se estivesse decifrando o jornalista misterioso — O mesmo de sempre? Um café e uma torrada, certo?
— Só uma xícara de chá. Camomila. — falou sem ao menos olhar para o garçom, continuando suas anotações abstratas com a caneta preta de tinteiro
— Ok. Um chá a caminho.
E a manhã foi seguindo, com Dorian lá, bebendo chás e mais chás, estudando e lendo livros que Amy nunca havia sequer ouvido falar, anotando coisas sem parar em cadernos, e nem piscava os olhos, como se a vida dele dependesse dessa pesquisa.
Ao final da manhã, quando o movimento diminuiu, Amy decidiu sair um pouco dali para caminhar e almoçar, tendo ido até a praça das tulipas, no centro da cidade, para voltar a escrever sua história do exame final, onde resolveu comer seu almoço de sempre… sanduíche de atum.
O ar ali estava mais frio do que deveria, mesmo com o calor do verão. As sombras das árvores ao seu redor pareciam mais profundas, mais densas. Um dos galhos caiu de repente, e o som ecoou pela praça que estava incomumente vazia, como se estivesse algo para acontecer.
Amy se levantou do banco de madeira, deu um passo para trás, mas algo chamou sua atenção. Havia um som, baixo e rítmico, como uma batida fraca, vindo do casebre do outro lado da rua.
Thump.
Ela olhou ao redor, pensando que talvez estivesse ouvindo coisas. Quanto soara novamente.
Thump. Thump.
A origem do som, parecia ser da casa do Sr. Elliot Morris, um velho maluco que contava histórias de terror, e odiava todo e qualquer ser vivo, mas que havia falecido no verão anterior, estando a casa completamente abandonada desde então. Era impossível. Aquela era uma parede sólida de tijolos, e não havia ninguém ali.
— Está tudo bem aí, Amy? — A voz de Júlio a fez pular. Ele estava ali, na praça, completamente “do nada”, segurando dois baldes de tinta e uma sacola de materiais para pintura.
— O que você faz aqui? Achei que ia me cobrir hoje no café — respondeu ela, tentando esquecer mais essa loucura
— Saí para comprar tintas — falou enquanto mostrava as latas e pincéis nas sacolas — Me ofereci para pintar a fachada do café, e Dona Grimelda amou a ideia!
— Entendi.
— E você? O que faz aqui e porque está tão estranha? — questionou o rapaz
— Eu… Eu vim para a praça para me concentrar no meu trabalho da faculdade, e... achei ter ouvido algo — disse ela, tentando parecer calma. — Vindo da casa do velho Morris — apontando discretamente para a casa velha do outro lado da praça
— Provavelmente algum rato — disse ele, dando de ombros. — Meu tio disse que ele não tinha parentes, e a casa ficou fechada desde o verão passado. Deve estar infestada de ratos e outros bichos peçonhentos
Mas Amy sabia não acreditava ser apenas um rato.
***
Mais tarde, retornou para o café para ajudar com os fregueses da tarde, e, enquanto limpava o balcão, ela notou que Dorian ainda estava por lá. Ele passara o dia inteiro no café, estudando livros e fazendo anotações, e pelo que o Júlio havia dito, estava mais sério do que de costume. Seus olhos brilhando sob a luz fraca do final da tarde, e as mãos embaladas pelas luvas, trabalhavam arduamente na leitura e escrita.
— Você está bem? — perguntou ele, sem rodeios vendo que Amy o encarava.
Amy hesitou e se assustou, como se ele tivesse lido sua mente.
— Por… Por que não estaria? — disse a jovem desconcertada, fingindo que estava limpando o balcão
Ele inclinou a cabeça, como se analisasse sua resposta.
— Não sei. — Respondeu Dorian seco — Eu estava aqui pensando. Às vezes não sabemos a diferença entre o sonho e a realidade.
Ela parou com o pano ainda em suas mãos, e encarou-o.
— O que você disse?
Dorian deu um leve sorriso, mas seus olhos permaneceram sombrios.
— Nada importante. Faz parte da minha pesquisa dos folclores locais. — Soltou sem precedentes enquanto sorria levemente com o canto esquerdo do lábio
Amy sentiu o sangue gelar. Será que ele sabia? De alguma forma, ele sabia do sonho? “Não! Estou ficando louca! Isso sim!”, disse a jovem dentro de sua mente, tentando focar no trabalho, quando ouviu a voz grave do rapaz novamente.
— Saberia me dizer se o tal de Júlio que trabalha aqui, poderia me ajudar a organizar o casarão da colina neste final de semana? — Ele falou numa casualidade, como se fossem colegas e conhecidos — A casa precisa de uns reparos, e vi ele hoje pintando a faixada do local com muito esmero… talvez… ele possa me ajudar
— Ah sim. Claro! Vou falar com ele amanhã. Geralmente eu fico até o expediente fechar, mas ele sai mais cedo que eu… — respondeu relutante tentando disfarçar o desconforto que sempre sentia na presença dele
— Bem. Então é isso. Vou deixar o dinheiro aqui e já vou indo. Até amanhã Ametista — disse ele se levantando e saindo pela porta, rápido como um raio, antes mesmo que Amy pudesse perguntar a ele “como ele sabe que meu nome é Ametista?”.
Quando finalizou toda limpeza, ao começar a desligar as luzes, olhou de relance para o armário de tralhas, que guardava os segredos da Grimelda, e sentia que o local a atraía, fazendo sons como os da casa do velho Morris.
Amy não conseguia tirar o som do depósito da cabeça. Decidiu evitar totalmente o local, mesmo sabendo que algo chamasse por ela, resolvendo não pensar mais nisso. Com isso, Amy trancou todo o estabelecimento como de costume, retornando para casa.
Mais tarde, naquele mesmo dia.
Grimelda parecia alheia ao comportamento inquieto de Amy, movendo-se pela casa com sua habitual energia. Mesmo com a idade avançada, havia algo de vigoroso nela. Seus olhos pequenos e brilhantes eram atentos demais, como se soubessem mais do que deixavam transparecer.
— Amy, você está distraída hoje. — Grimelda a chamou enquanto girava uma colher de pau dentro de uma panela de doce caseiro. — Sonhou com algo ruim?
Amy congelou.
— Como sabe que eu...
— Ora, menina, eu sempre sei quando algo perturba você. Está nos seus olhos. — Grimelda deu de ombros e continuou mexendo o doce. — E te conheço desde menina!
Era difícil ignorar o tom tranquilizador, mas também provocativo, na voz da mulher mais velha. Amy queria acreditar que ela estava apenas sendo atenciosa, mas algo dizia que Grimelda sabia muito mais.
Enquanto o doce esfriava, Grimelda limpou as mãos no avental e soltou um assobio curto e melodioso.
— Hora de jantar, meu caro! — anunciou.
Amy ouviu o som de asas batendo. Não demorou muito para que Argus, o papagaio-cinzento de Grimelda, surgisse voando das escadas. Com penas em tons de cinza e uma mancha dourada peculiar em torno do olho direito, ele era tão expressivo quanto sua dona.
— Jantar Grimelda? — perguntou Argus em uma voz rouca e bem articulada.
Amy, mesmo após anos convivendo com aquele animal falante, ainda achava estranho que ele fosse tão... humano. Argus era mais do que um papagaio: ele tinha um jeito de observar as pessoas que fazia Amy se perguntar se ele sabia mais do que deixava transparecer.
— Frutas secas e nozes, como sempre. — Grimelda colocou um pequeno pote no balcão, e Argus desceu de seu poleiro com a elegância de quem está acostumado a ser servido.
— Enjoado. Muitas frutas secas. Enjoado — Argus resmungou, enquanto pegava uma noz com o bico.
Amy riu.
— E você deveria ser menos exigente.
— Argus chique. Argus rei — respondeu Argus, empinando o bico de forma teatral.
Antes que Amy pudesse retrucar, um som estranho veio de fora. Dessa vez, não era apenas um ruído distante; parecia algo arranhando a porta.
Grimelda franziu o cenho e limpou as mãos no avental.
— Fique aqui, Amy.
— Barulho estranho. Amy medrosa — Argus exclamou, inclinando a cabeça enquanto bicava uma noz.
— Só um rato atrevido — respondeu Grimelda, mas Amy não acreditou nem por um segundo. — Vou tomar um banho quente e já jantamos querida. — Grimelda subiu as escadas.
Através da janela da sala, Argus observava atentamente com suas penas ligeiramente eriçadas, enquanto Amy tentava, sem sucesso, se distrair com os programas de TV noturna.
De repente, a porta da cozinha se abriu sozinha, e Argus saiu voando, parecendo um louco, mas não sem antes dizer.
— Rato.
Quando Grimelda voltou para a cozinha, Amy aproveitou a oportunidade para fazer umas perguntas, pois sua mente estava reluzindo como luzes de Natal pulsando no escuro.
— Tia — soltou como um sopro apressado enquanto colocava os pratos na mesa — Sei que já me contou essa história, mas… — ela sentia que ia revisitar uma memória dolorosa — me conte novamente sobre o dia em que me achou na estrada.
— Minha querida — dizia a velha levemente incomodada — já lhe contei tudo que eu sei
— Eu sei Tia. Mas para meu livro que vou ter que entregar como trabalho final, devo escrever uma história autoral, e meio que me inspirei no meu próprio mistério, na minha própria icógnita… Por isso, se pudesse me contar novamente, e com mais detalhes, me ajudaria muito! — exclamou a jovem esperançosa de tirar todas as outras loucuras da cabeça
— Pois bem. — Suspirou ao se sentar — Foi há 10 anos atrás, no outono… eu ainda tinha o Zorya, o labrador preto… se lembra dele? — falou com um sorriso saudoso ao se lembrar do velho amigo, enquanto a jovem assentia com a cabeça — Pois é. Eu tinha saído para levá-lo para passear. Mesmo com a chuva forte que havia caído naquela quarta-feira, e com o frio que sucedera à chuva, se eu não saísse com ele, ele enlouquecia. Gostávamos de andar à beira da Passarela do Rio Sereno, ponte que passa sobre o rio que permeia Auroria. — Continuou enquanto se servia do macarrão que fizera para o jantar — Sirva-se querida, não quero que fiques sem comer — pontuou enquanto voltava a se sentar à mesa — bem… enquanto caminhávamos pela ponte, mesmo debaixo da chuva que já estava mais fraca, notamos uma fumaça após a ponte, na estrada que leva à Auroria, onde notei que tinha um carro azul virado de cabeça para baixo, o que assustara Zorya, e o fizera correr até o veículo. Isso me fez ir atrás dele, e quando me dei conta, você estava lá, próximo ao carro, com alguns arranhões, mas seus pais já estavam sem vida — articulou cuidadosamente ao notar o ar melancólico nos olhos de Amy — no mesmo instante, lembrei que ali perto havia um fazendeiro, e fui até lá pedir ajuda. Ele confirmou que seus pais… bem, confirmou a situação, e me ajudou a levar você para o Hospital Refúgio da Luz Divina, que era o único que havia na cidade. Os socorristas e os oficiais recolheram todas as informações que encontraram sobre seus pais, e, nesse meio tempo, você ficou no Orfanato Elyndra, enquanto tentávamos localizar sua família. — Nesse momento a velha Grimelda interrompeu sua fala ao notar uma lágrima teimosa e solitária rolar pelas bochechas rosadas da jovem Amy — Eu posso parar minha querida
— Não. — Rebateu a jovem enquanto limpava o líquido salino do seu rosto — eu preciso saber
— Ok — continuou Grimelda, enquanto pegava nas mãos de Amy — como estávamos com seus documentos e dados, o antigo prefeito, Alaric Duvall, fez todas as buscas possíveis com o xerife Flint Willowshade, e não encontraram nenhum parente que pudesse assumir sua guarda. Eu lhe visitava todos os dias no orfanato, e levava Zorya comigo, pois você adorava aquele velho cão — sorriu levemente ao se recordar das peripécias do velho Zorya — então, depois de alguns longos meses, convenci o prefeito que viabilizasse sua adoção, e que eu iria cuidar de você, e foi quando conseguimos formalizar tudo e você veio morar comigo, Zorya e Argus. — Concluiu olhando para o pássaro que parecia consolar a jovem Amy com o bico, arrancando um sorriso da jovem
— É, eu tive muita sorte mesmo — sorriu mais sinceramente lembrando de como era grata pela sua vida, por mais complicada que fosse —, mas sinto falta deles, dos meus pais Adelina e Miguel Lock. Queria saber mais sobre eles — segredou com saudade e esperança na voz fina e suave, enquanto acariciava o relicário que sempre levava consigo no pescoço, contendo as fotos de seus pais e os nomes gravados por fora.
— Um dia minha queria… um dia — exclamou Dona Grimelda como se soubesse mais deles do que dizia a moça — Agora termine seu jantar, tome um belo banho e vá se deitar. Amanhã será um longo dia!
*** No dia seguinte ***
Amy acordou com a luz do sol invadindo seu pequeno quarto no sótão do velho sobrado. A brisa matinal trazia o cheiro de café fresco e pão assado, acompanhado por vozes abafadas que vinham do andar de baixo. Espreguiçando-se, ela jogou o cobertor de lado e calçou os chinelos.
À medida que descia as escadas, as vozes tornavam-se mais claras. Grimelda parecia estar falando com alguém em tom urgente, e, para a surpresa de Amy, a outra voz era inconfundivelmente de… Argus.
— Você sabe que isso não pode continuar assim, Grimelda. — A voz do papagaio era mais grave e séria do que Amy jamais ouvira, e numa clareza comunicativa nunca registrada por um papagaio
— Eu sei muito bem. Mas ela ainda não está pronta. Ela nem fez 23 anos ainda! E pela lei, eu posso esperar até lá. — Grimelda soava exasperada como uma barata tonta.
— Se ela não estiver pronta, todos nós corremos risco. Você viu o que aconteceu ontem. Aquele arranhão na porta não foi um rato, os barulhos estranhos… E o armário está ficando cada vez mais hostil!
Amy parou no meio da escada, seu coração acelerando. “O armário? O armário de tralhas do café? Ele possui uma… personalidade?”. Eles estavam falando dela? Do depósito? O que estava acontecendo… pensou ela inquietamente
— Nós temos tempo, Argus. E não ouse insinuar que estou negligenciando meu dever com Éther.
— Grimelda, você já adiou isso por anos. O tempo está acabando e Éther há de ficar impaciente.
Amy, incapaz de resistir, desceu mais um degrau, mas sua sandália escorregou levemente, produzindo um rangido.
As vozes cessaram instantaneamente.
— Amy? — chamou Grimelda, a voz voltando ao tom jovial de sempre.
Amy desceu os últimos degraus, tentando parecer casual, embora seu coração estivesse a mil.
— Bom dia, Tia. Eu ouvi você falando... com o Argus?
Grimelda sorriu e limpou as mãos no avental.
— Ah, estávamos só treinando algumas frases novas, não é, Argus? Sabe como eu gosto de ensinar frases dos livros que eu tanto amo!
O papagaio, abriu as asas como se para um espetáculo.
— O rato roeu a roupa do rei de Roma — Esbravejou Argus, agora com um tom de voz muito mais leve e caricatural
Amy piscou, confusa. A mudança de comportamento era tão repentina que quase parecia ensaiada.
— Certo... — respondeu, desconfiada.
Grimelda colocou uma xícara de café diante dela, mudando de assunto rapidamente.
— Agora, sente-se e tome seu café. Temos um longo dia pela frente, e a dona Cora Windmere virá buscar os biscoitos dela, e vai tirar suas medidas para ajustar seu vestido vermelho para o baile.
Amy obedeceu, mas sua mente continuava voltando à conversa que ouvira. Havia algo ali que não fazia sentido. Grimelda estava escondendo alguma coisa, e Amy estava determinada a descobrir o que era.
— Eu tenho mesmo que ir nesse baile sem fundamento? — murmurou Amy se referindo ao Baile Anual de Auroria, que era sediado todos os anos na casa do prefeito, como uma forma de apresentar aproximar a sociedade auroriense — E para quê trazer a Dona Cora aqui e fazê-la costurar mais um vestido para a mesma ocasião que frequento há 10 anos?! — reclamou ainda mais, como se nem se lembrasse do evento sobrenatural com o papagaio fluentemente humano na cozinha
— É tradição minha filha, e o prefeito conta com nossa presença. E além do mais, não há costureira melhor em toda Auroria, senão a Dona Cora — disse a velha Grimelda enquanto arrumava a bolsa — Ah, e lembre-se que hoje só vamos abrir o café meio período, pois temos que arrumar as coisas para o baile! — falou encerrando o assunto e saindo pela porta da frente — Vou indo na frente ok? Te encontro no café — disse com um sorrisinho atrevido
Mais tarde, no café
O expediente começou como qualquer outro, mas pequenos acontecimentos fizeram Amy se sentir cada vez mais inquieta, e achando um completo absurdo essa história de baile novamente, mas tentava focar nos poucos clientes que apareceram no café naquela manhã, e que, até então, atendia sozinha, pois Júlio iria ajudar seu tio, o Sr. Tobias, dono do cemitério local, que seria um dos principais patrocinadores do baile. Quanto à Cassy, ela simplesmente não foi, pois usou a desculpa que “o baile seria na casa dela” para não ir trabalhar na sexta-feira.
Já fazia algumas horas desde que atendera o último cliente, e estava até considerando fechar mais cedo, pois estava quase finalizando a limpeza do local, quando ouviu soar o suave e estridente do sino acima da porta
— Estamos fechando — pontou sem levar o olhar para a porta, enquanto terminava de esfregar o chão e erguer as cadeiras
— Por causa do baile? — questionou a voz grave, mas conhecida… “Dorian?”
— Ah — Amy se ergueu rapidamente — Sr. Brexon — disse corando de vergonha —sim, estamos fechando mais cedo por conta do baile anual na casa do prefeito… Como o Sr sabe desse baile? — questionou voltando para o que estava fazendo
— Pode me chamar apenas de Dorian. Não sou tão velho assim para me chamar de senhor — pontuou educadamente, mas no mesmo tom seco e finalístico com o qual sempre se dirigia à ela
— Perdão… Dorian. Ainda temos tortas e café, se estiver com fome — falou Amy apontando para o resto de torta no balcão, logo o vendo assentir com a cabeça
— Não se preocupe com a mesa. Eu como no balcão — e conforme ele se dirigia ao balcão, ela notou que ele estava sem a pasta de costume, portanto, sem os livros e cadernos que sempre carrega
— Não trouxe a parafernália? — questionou Amy brincalhona
— Parafernália? — Ele franziu o cenho — Você diz… meus materiais de estudo e pesquisa?
— Sim, sim. Perdão. Se não se importa, vou finalizando a faxina enquanto o Sr… enquanto você come a torta — Sorriu e foi logo retornando para o posto da limpeza da cozinha
— Não me importo. Se importa se eu tirar umas dúvidas com você? — Retrucou o jovem rapaz com um certo desdém na voz
— Comigo? — questionou Amy num tom quase inaudível
— Sim. Com você — Dorian deu um gole na xícara de café — percebi que sua Tia é bem famosa na cidade, e que é a dona do único café na cidade. Devem conhecer bem o povo daqui
— É uma cidade pequena — pontuou Amy vendo um ar diferente em Dorian — todos nos conhecemos aqui. Estou aqui há 10 anos e, desde que comecei a morar com a Tia Grimelda, sempre foi pacato como está agora
— Entendi. E mesmo assim, cheio de folclores e mistérios, não é? — apontou Dorian voltando a ter aquele ar… misterioso
— Eu confesso que não conheço muito do folclore local, pois não acredito muito nessas coisas, mas a Tia Grimelda já foi professora na escola de educação básica aqui em Auroria, e tinha uma ministrava um curso de folclore e lendas locais. Ela vai saber te ajudar em sua pesquisa — disse Amy, pela primeira vez, se sentindo confortável com o jornalista
— E quanto ao baile… você pretende ir? — Dorian perguntou enquanto mantinha um olhar nebuloso com uma sobrancelha arqueada
— Eu? — “porque ele queria saber?” pensou Amy, sem conseguir evitar o leve rubor que tomou suas bochechas — Por que a pergunta? — externou tentando trocar de assunto em sua mente
— Me encontrei com o prefeito assim que cheguei, pois precisava da autorização dele para ter acesso aos arquivos da prefeitura e da biblioteca central… para a pesquisa — verbalizou Dorian numa expressão não tão convincente
— Eu… eu vou. Minha Tia me obrigou, mas eu queria ficar em casa estudando — falou Amy tentando mudar de assunto, ao lembrar que Grimelda pedira que ela tivesse cuidado em não se amigar com Dorian, pois era estranho, e até então, forasteiro
— Então nos vemos lá. Até mais tarde, Amy — se despediu Dorian, já saindo pela porta, tendo, como de costume, deixado o pagamento no balcão
“Nos vemos lá” … Era só o que pairava na mente da jovem Amy. Para sua sorte, o baile desse ano, seria um baile de máscaras, pois como Cassy estava na cidade, o prefeito a deixou decidir o tema, e, agora, ela tinha de agradecer à menina irritante e metida, pois iria aproveitar o baile para descobrir o que conseguisse sobre o misterioso Dorian Brexon.
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