Notas iniciais
Hei, amores! Olha eu postando quase atrasada! É bem minha cara mesmo ser enrolada. UHASUSIA! Um SUPER OBRIGADA à DCC pela recomendação EXTREMAMENTE fofa e linda! Gamamos aqui. UJSIUJAISA! Eu e a Bia amamos os comentários do capítulo passado! Muito obrigada ao Alexandre, DCC, imouto kawaii, Mariana Lótus, kihchi, Ruth Echelon, paozinhois, Lucy, UchihaMarina, Salvatore Romanov, Utau_chan, Hitoha Marui, Lola, j2rugila, Mapa, Miyu, Flower, LuOrtensi, Ti Rorschach e Safira Rosa! Seus lindos!

Depois das primeiras horas da manhã, Sam achou que Taylor estava meio tenso, não parecendo tão atencioso e simpático com os pacientes como de costume. Não que ele estivesse agindo rude, ou desinteressado. Mas era como se houvesse algo que ele não conseguisse tirar da cabeça e isso o distraísse um pouco do trabalho.

– Sam, pode tirar dois tubetes de sangue do Sr. Stein. – Taylor pediu com a mão no ombro do eletricista da cidade que já tinha seus sessenta anos. – Ele também vai recolher um potinho de urina. Mande para o laboratório com esses pedidos de creatinina, ureia, sódio, potássio, ALT, AST, glicose, hemoglobina glicada e PSA para o sangue, e para a urina um EQU. – Ele entregou a requisição dos exames ao loiro.

Sam assentiu e pediu para que o Sr. Stein o acompanhasse à salinha de coleta. Ele preparou a agulha, colocando-a na seringa, e os tubetes. Depois passou o elástico no braço do eletricista e então um algodão com álcool sobre a região em que picaria a agulha.

– Pode apertar o punho, senhor Stein? – Pediu. – Não tem medo de agulhas, certo?

– Já fiz muitos exames de sangue para me assustar com agulhas, menino. – Disse o senhor, sorrindo simpático. – E como vai a sua mãe, Sam?

– Ah, ela vai bem. Firme e forte como uma leoa. – Sam brincou, e o Sr. Stein se inclinou um pouco para frente, mal se importando com a picadinha da agulha quando Sam encontrou uma boa veia para a coleta. – Pode relaxar a mão, Sr. Stein.

– Será que um velho charmoso que nem eu não teria alguma chance com a sua mãe? – Ele sussurrou e ondulou as sobrancelhas, fazendo Sam arregalar os olhos.

– Sr. Stein! – Sam riu enquanto trocava os tubetes, enchendo mais um.

– Oh, me chame de Marcus, filho.

– Já virei filho, é? – Sam afastou a seringa após terminar. Sua mãe tinha cinquenta anos e ainda era uma linda mulher. Solteira em uma cidade pequena, é claro que os solteirões de mais idade ficavam de olho.

– Você sabia que eu e sua mãe tivemos um rolo quando éramos adolescentes? Brigamos por bobagem naquela época... E eu acabei deixando-a escapar para o seu pai. Fui um tolo. – Marcus esfregou as mãos com arrependimento. – Ano passado minha esposa faleceu por conta do câncer de mama, você deve se lembrar.

– Sim, eu lembro. – Sam falou com ar de pêsames. Foi um choque para a cidade. A Sra. Stein era a diretora do colégio, dava aulas e muitas crianças choraram a morte dela. Era um amor de pessoa e vivia criando eventos para Canmore, como o Dia da Venda da Cesta de Piquenique, ou o Baile dos Casais, o Festival de Inverno e vários outros. – Foi uma grande perda.

– É, eu a amava muito. Mas, ainda assim, eu não queria terminar meus últimos anos sozinho. – Sr. Stein admitiu. – Eu amei sua mãe no passado. Por que não uma segunda chance?

Sam sorriu e colocou a mão sobre o ombro do senhor.

– Quem sou eu para negar a alguém uma segunda chance para o amor, Sr. Stein? Se quiser, eu posso até convencer minha mãe que está na hora de ela também encontrar outra pessoa. Sabe, eu sei ser bastante persuasivo. – Colocou uma mão na cintura e piscou, cúmplice.

Sr. Stein riu, se levantando.

– Você cresceu e se tornou um ótimo rapaz, Sam.

– Obrigado. Mas eu sei que está falando isso apenas porque quer a minha ajuda. – O loiro brincou, abanando a mão. – Agora vá recolher esse xixi antes que eu mude de ideia sobre você ser meu futuro padrasto!

Depois que o Sr. Stein deixou a clínica, parecendo mais bem humorado do que nunca, Taylor e Sam finalmente tiveram um momento de descanso, pouco antes do horário do almoço. Taylor se jogou num dos sofás da sala de espera da clínica, colocando o braço sobre os olhos ao deixar a cabeça cair sobre o encosto do móvel.

– E eu que achava que o passeio com o Damien no final de semana iria te ajudar a relaxar... Mas você parece mais cansado essa semana do que na última! – Sam se sentou na poltrona próxima. – O que está acontecendo? Não me diga que Damien anda te cansando tanto assim... – Colocou um dedo sobre os lábios. – Assim acabo pensando bobagem... – Sorriu travesso.

– Nem comece a pensar esse tipo de coisa! – Taylor avisou, erguendo a cabeça e arregalando os olhos. – Você é impossível. Nunca conheci alguém tão safado. – Revirou os olhos.

– Hunf, sou um adulto jovem e saudável. Qualquer homem na minha idade pensa nessas coisas com frequência. – Sam se defendeu, cruzando os braços. – Agora me conte o que aconteceu? Você está meio estranho hoje.

– Não, não estou. – Taylor teimou e se levantou, rumando em direção a onde havia uma térmica com café que sempre trazia de casa. Tinha de fazer bastante café, já que sempre precisava deixar um pouco para Damien.

– Está sim! Não acredito que você não vai me contar. Eu! Seu melhor amigo! – Sam dramatizou o seguindo.

– Melhores amigos? – Taylor riu divertido. – Nos conhecemos mal tem dois meses! Não que eu não tenha me afeiçoado a você...! – Emendou ao ver a expressão de pura mágoa exagerada do loiro, que colocou uma mão sobre o peito e deixou o queixo cair em ultraje.

– Não acredito nos meus ouvidos. Nunca me senti tão desprezado antes! Eu vou-me embora daqui! – Foi Sam que começou a se afastar e Taylor, apesar de saber que aquilo era pura encenação para que se sentisse culpado e contasse o que o loiro queria, correu atrás de Sam, impedindo-o de sair da clínica.

– Está certo! – Taylor falou arrastado e derrotado, olhando para cima como se pedisse paciência. Sam abriu um sorriso de tubarão e correu para o sofá, se sentando ali e abraçando uma almofada como se eles fossem duas colegiais e Taylor estivesse prestes a lhe contar a fofoca mais quente do momento.

Conformado, Taylor também se sentou no sofá.

– Quando acordei domingo pela manhã, Damien estava deitado nu na minha cama... Me abraçando por trás. – Colocou ênfase na palavra. Seu coração acelerou simplesmente por lembrar daquilo. – Nu! – Repetiu alterado.

Sam gargalhou.

– Sério?!? – Perguntou com as duas mãos sobre a boca, seus olhinhos azuis brilhando.

– Sim! – Taylor exclamou indignado, se erguendo. – Aí ele me veio com uma história de sonambulismo! E pior que eu nem posso achar que ele está mentindo, porque excesso de álcool pode desencadear crise de sonambulismo nas pessoas! – Agitou os braços. – E depois sabe o que ele fez? – Olhou significativamente para Sam, que apenas deu de ombros de forma inocente, tentando (e falhando) esconder o quanto estava achando o relato hilário. – Ele simplesmente se levantou e saiu caminhando nu do quarto, exibindo aquela bunda branquela dele. – Balançou a mão, como se apenas branquela não definisse por completo o traseiro do ruivo, mas ele não conseguisse encontrar outras palavras.

– E você queria que ele estivesse mentindo? – Sam se acomodou melhor no sofá, olhando para Taylor com um sorriso sabido.

– O quê? – Taylor piscou os olhos, não captando a pergunta por um momento.

Sam rolou os olhos.

– Que ele estivesse mentindo sobre o sonambulismo? Preferia que ele tivesse subido nu na sua cama de propósito? – Mirou o médico intensamente ao esperar por uma resposta, captando perspicaz a forma como ele gradualmente foi ganhando uma coloração avermelhada nas bochechas, assim como a maneira como abriu a boca, mas não conseguiu encontrar o que dizer.

– N-Não é isso que eu estava falando! – Taylor conseguiu exclamar com dificuldade. – Eu nem deveria ter contado sobre isso. – Deu as costas e caminhou em direção à sua sala de atendimento.

– O quê?! – Sam gritou. – E me tirar o gostinho de tirar sarro da cara do Damien sobre isso depois!?

– Você não pode falar a ele que te contei! – Taylor se virou na mesma hora, à porta do consultório.

Sam sorriu endiabrado.

– Ah, eu posso. – Cantarolou.

– Sam...

– Aliás, acho que vou até mesmo ligar para ele para tirar satisfação. Ninguém molesta o médico da cidade dessa forma e sai completamente impune. – Falou, tirando o celular do bolso.

Taylor voou para o sofá, pulando em cima de Sam para tentar arrancar o celular da mão dele. Sam gritou e esticou o braço, tirando o aparelho do alcance da mão de Taylor. O loiro de alguma forma conseguiu escapar e os dois começaram um pega-pega pela clínica. Taylor ameaçava Sam de todas as formas, mas este apenas ria e o provocava um pouquinho mais, perguntando se ele havia visto o tamanho do ruivo, se ele tinha cabelos vermelhos lá embaixo também e coisas assim.

Foi nessa situação que foram encontrados pelo próximo paciente que entrou na clínica.

Taylor parou de imediato, pigarreando e fingindo que nada de estranho estivera acontecendo segundos atrás, como ele prestes a esganar Sam, ou coisa parecida. Não, não. Ele não era tão imaturo assim. Aquele olhar de perplexidade da Sra. Evelyn não significava que ela possivelmente ou nunca iria voltar ali, ou iria contar para meia cidade que o novo médico era pirado. Ou ambos.

– Bom dia, Sra. Evelyn. – Taylor cumprimentou-a formalmente, forçando um sorriso simpático. – Por favor, me acompanhe até o consultório. – Pediu, praticamente arrastando-a pelos ombros ali para dentro. Quem sabe assim ela esquecia mais rápido o que havia visto.

Sam só conseguiu parar de rir após vários minutos depois que Taylor fechou a porta do consultório. Ah, Damien ainda sofreria em suas mãos também!

XxxX

Davi caiu de bunda no chão quando um dos meninos mais velho da escola, que vivia criando encrencas e arruaças entre e durante as aulas, o empurrou no meio do pátio.

– Eu vi a boneca na sua mochila! – Daniel exclamou apontando o dedo para Davi, chamando assim atenção de todas as crianças no pátio. – Você é uma bichinha! Meu pai diz que bichinhas são nojentas! Deve ser por isso que sua mãe te abandonou! – Ele riu e teve acompanhamento de outros meninos e até meninas, ainda que a maioria olhasse tensa para a cena. No entanto, quando Daniel começou o coro chamando Davi de bichinha, muitos acompanharam.

Davi se levantou sentindo um sufoco no peito, enquanto seus olhos ardiam. Ele mal soube como conseguiu pegar a mochilinha, tamanho era o tremor em suas mãos. Ele correu nem sabia para onde, ouvindo Daniel gritar mais alguma coisa que não entendeu, porém que causou mais risadas.

O menino acabou topando com uma das professoras da escola, que dava aulas para as primeiras séries. Ela segurou o menino pelos ombros, olhando-o preocupada ao vê-lo chorando, ainda que Davi chorasse silencioso, apenas com as lágrimas escorrendo pelas bochechas pálidas. Ele passou o dorso da mão pela bochecha, fungando e tentando engolir o choro.

– Davi, o que aconteceu, querido?! – A professora Hillary perguntou, acariciando a cabeça do menino. – Está machucado? Não se sente bem?

– Eu quero ver o Sam! – Ele murmurou com a voz um pouco falha, ainda fungando de leve e tentando secar os olhos.

Hillary não tinha ideia de quem fosse Sam, chegou a pensar que era algum outro aluno da escola, mas apenas pelo apelido era difícil dizer.

– Eu posso te ajudar a encontrar o Sam... Ele é daqui do colégio? – Perguntou.

– Não... Ele é meu amigo. – Murmurou quase inaudível, abaixando a cabeça.

Achando que poderia tratar-se de um amigo imaginário, Hillary decidiu levar Davi para a sala da pedagogia e ligar para o pai do menino.

– Está certo. Vem comigo, meu amor, vamos te ajudar a encontrar seu amigo Sam. – Ela disse, se erguendo. Davi aceitou pegar a mão da professora e segui-la até a sala.

Quietinho, ele se sentou numa das cadeiras enquanto Hillary fazia uma ligação. Ele achou que ela tivesse o número de Sam e que fosse com ele que ela conversava; no entanto, no meio da ligação Davi conseguiu entreouvir o nome de seu pai e isso disparou um alarme dentro de sua cabeça. Não queria falar com o pai! Queria falar com o Sam! Só Sam iria entender!

Davi pegou novamente a mochila e pulou da cadeira, escapulindo da sala da pedagogia. Ele conhecia um defeito na grade que cercava a escola e, através dela, conseguiu sair do colégio sem ser visto pelos guardas da entrada.

Ele correu assim que estava do lado de fora, nem pensando que não sabia onde Sam morava! Mas não devia ser longe...

XxxX

John estralou o pescoço e se espreguiçou em seguida. Ficou surpreso ao ver que já tinha passado do horário do almoço. Ultimamente ele andava trabalhando mais do que o normal. Talvez estivesse precisando de uma folga. Seria bom para os meninos também. Desde aquele dia no orfanato Davi andava mais quieto ainda. John não queria pensar na insinuação que Sam fez sobre o seu filho... Ele era tão pequeno, tão doce, tão inocente. Com certeza o loiro havia falado aquelas coisas apenas para preocupá-lo e perturbá-lo. O que Davi tinha era saudade da família reunida, só isso.

O moreno iria planejar um final de semana no rancho e tinha certeza que o filho mais novo voltaria mais animado.

Com o estômago reclamando, John decidiu que era hora de parar e almoçar. Ele já estava quase abrindo a porta da sala quando seu celular começou a tocar e só então se deu conta de que deixara o aparelho sobre a mesa.

Estranhou ao ver que era da escola dos meninos.

– Alô?

– Sr. Reynard, tudo bem? Aqui é Hillary, uma das professoras do Davi. – A mulher disse com um ar amigável. – O senhor poderia vir buscar o Davi na escola mais cedo? O encontrei chorando no pátio e acho melhor ele não voltar para a aula por hoje.

John entrou em estado de preocupação de imediato. Ele fez mais algumas perguntas rápidas, que a professora respondeu de pronto. Ela informou que já era a terceira vez que encontrava Davi chorando na escola, mas que ele sempre dizia que tinha apenas caído e queria voltar para a sala de aula. Agora, ela começava a desconfiar que alguém estivesse implicando com o menino durante os intervalos. John chegou a perguntar de maneira rude por que ela não ligara para contar isso antes, mas frente ao pedido de desculpas da mulher, percebeu que não era momento para ficar xingando a falta de responsabilidade dela por celular.

Queria logo buscar o filho, abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem.

Ele saiu do orfanato apressado, sem nem falar com ninguém. Pegou as chaves e ligou o carro.

No meio do caminho, pouco antes de chegar à escola, recebeu outra ligação.

– Sr. Reynard! – A mesma mulher exclamou em um tom ansioso assim que ele atendeu, e isso colocou todos os sentidos de John em alerta.

– Sim. O que houve?

– O Davi... Ele... Ele...

– Pare de gaguejar e diga o que aconteceu! – John praticamente gritou, apertando o volante, e isso certamente não ajudou os nervos de Hillary, que gaguejou ainda mais.

– Ele não está em lugar nenhum! O procuramos pela escola inteira e nada. Ele tinha pedido para ver um tal de Sam antes... Eu o trouxe para a sala da pedagogia, mas ele deve ter percebido que eu estava conversando com você e, aproveitando que eu estava distraída, escapuliu sem que eu visse. Nós estamos achando que ele saiu escondido para encontrar essa pessoa.

John abriu e fechou a boca diversas vezes tentando formular uma resposta coerente, mas se falasse o que gostaria, era possível que Hillary nunca mais quisesse olhar na sua cara e ele recebesse um pedido formal para retirar seus filhos do colégio. Então simplesmente desligou o celular na cara da professora e desviou de caminho, afundando o pé no acelerador. Ele sabia bem quem era o culpado por aquele ato de rebeldia do filho.

Ele precisava encontrar Davi. Por Deus! Ele era apenas um menino e nunca havia saído sozinho antes. John não queria pensar no pior, mas era difícil não imaginar ele se perdendo e sendo raptado por pessoas ruins.

John não saberia dizer como conseguiu chegar à clínica onde Sam trabalhava. Sua raiva e seu desespero eram tão grandes que era um milagre ele não ter batido o carro no trajeto até ali.

– Onde ele está? – Perguntou praticamente aos gritos assim que entrou na clínica. Alguns pacientes estavam esperando e olharam para ele como se ele tivesse alguma doença mental muito grave. – Onde está o meu filho, Samson?!?

Sam tomou um susto ao ver John praticamente derrubando a porta da clínica e berrando daquela forma descontrolada. Porém isso não importou ao rapidamente compreender que um dos filhos dele havia sumido.

– Davi sumiu? – Perguntou, pois se fosse Teo, não haveria motivos para John achar que estaria com ele. Saiu de trás do balcão, pegando a jaqueta pendurada em um cabide. – O que aconteceu?

Taylor, também tendo escutado a gritaria, saiu de dentro de sua sala naquele momento, já finalizando mais uma consulta. Todos olharam expectantes e também preocupados para John, que afundou a mão nos cabelos enquanto andava de um lado para o outro, querendo apenas encontrar seu filho. Teve tanta esperança de que ele talvez tivesse encontrado o caminho até a clínica, mas, pela expressão de Sam, Davi não havia aparecido ali.

– Uma professora ligou dizendo que encontrou o Davi chorando e pediu que eu fosse buscá-lo. Depois ela ligou de novo avisando que ele havia pedido para ver “um tal de Sam” e desaparecido! Eles procuraram na escola toda, mas aparentemente ele fugiu. – John parou de andar e colocou as duas mãos no rosto, esfregando-o com força. – Ele nunca tinha feito isso. Foi influência sua! – John acusou.

Sam teria xingado John pela acusação e eles dariam início a uma daquelas suas discussões sérias, mas sua prioridade era o menino e ele resolveu não revidar. De certa forma, aquilo era mesmo sua culpa, pois Davi havia fugido para encontrá-lo. Bem, Sam então daria um jeito de achá-lo antes que escurecesse, ou algo ruim acontecesse.

– Eu vou procurá-lo. – Sam rumou para fora da clínica. – Taylor...

– Não precisa dizer nada. Eu também vou ajudar. – Taylor se prontificou, retirando seu jaleco. – Pessoal, teremos de remarcar as consultas.

Ninguém reclamou, pelo contrário, das três pessoas que estavam na salinha de espera, anteriormente batendo papo e bebendo chá, uma delas, um homem de uns sessenta anos que trabalhava na mercearia da cidade, se dispôs a ajudar.

John ficou surpreso com como aquelas pessoas aceitaram ajudar sem nem pestanejar. Ele estava tão cansado e preocupado que nem tentou se opor quando Sam subiu na sua caminhonete com o médico novato atrás. Passaram na casa do “desocupado” e deixaram Taylor lá com a promessa de que Damien também ajudaria a procurar.

– Obrigado. – John disse em um tom baixo antes que o médico descesse do carro. Ele estava um pouco envergonhado pela forma que agiu diante dele e dos pacientes.

– Eu e Damien procuraremos em outro carro. – Taylor falou e correu para dentro da casa.

– Nós deveríamos começar pelas praças. – Sam falou, tamborilando os dedos contra a porta com certo nervosismo.

John não falou nada e saiu dirigindo pela cidade, passando pelas praças devagar, olhando com cuidado para cada uma na esperança de ver o filho.

“Por favor, que nada aconteça com ele... Por favor... Por favor...”, não conseguia parar de repetir enquanto apertava o volante com tanta força que seus dedos já estavam roxos.

– Eu sei que não sou um bom pai, mas não deixe nada acontecer... Por favor, por favor. – Murmurou em um tom baixo, sem nem ao menos se dar conta de que estava verbalizando seus pensamentos.

Sam olhou para John. Bem, aí estava um dos motivos para estar apaixonado pelo idiota. Sem conseguir se controlar, ou pensar no quanto era óbvio que o que receberia em troco era outra rejeição, o loiro colocou uma mão sobre a de John, cujos dedos já estavam brancos de tanta força que ele usava ao segurar o volante.

– Nós vamos achá-lo. Nada de ruim vai acontecer com ele, ok? – Disse com uma segurança absoluta que escondia suas próprias dúvidas e temores.

– Eu gostaria de ter a sua confiança. – John disse em um sussurro. Estava nervoso demais para se dar conta do toque de Sam, muito menos para se irritar com ele. Naquele momento tudo o que sentiu foi alívio, já que não estava só. Com certeza já teria desmoronado se estivesse sozinho naquele carro.

Havia um sinal vermelho à frente. Ele parou, sem tirar os olhos da coisa maldita que deveria ficar verde logo para que ele pudesse continuar procurando o filho.

– Você falou por experiência própria? Odeia o seu pai?

Sam não estava esperando por aquilo, que John não rechaçasse de imediato seu toque e muito menos que resgatasse aquilo que havia falado na última discussão que haviam tido. O medo realmente mostrava outro lado das pessoas, às vezes pior, às vezes melhor. Tenso, o loiro recolheu sua mão, voltando a olhar para janela atrás de Davi.

– Eu o odiava. Mas agora isso não importa mais. – Murmurou. – Ele está morto.

O sinal abriu e John arrancou no mesmo instante. Ele guiava o carro bem devagar, quase parando em cada esquina para que pudessem olhar com calma em busca do menino.

– Eu não quero que o Davi me odeie. – John disse após incontáveis minutos em silêncio. Ele continuaria falando, mas seu celular tocou e ele atendeu ansioso, esperando que talvez fosse uma boa notícia. Mas era apenas a babá dos meninos dizendo que para casa Davi não havia voltado e que Teo estava esperando angustiado por notícias do irmão.

– O Teo diz que ele não parou de falar no tal Sam. Ele não está com essa pessoa?

– Eu estou com ele. – John olhou um momento para o loiro antes de voltar sua atenção para o volante. – E ele não sabe de nada. Está ajudando a procurar. Diga ao Teo que eu vou levar o irmão dele para casa, Sra. Hudson.

Eles encerraram a ligação e John olhou para Sam pelo canto do olho.

– Teo disse que Davi não parou de falar em você desde aquele dia. – Comentou. – Você o impressionou.

Sam não conseguiu falar nada.

Acabou caindo em um choro silencioso, virando o rosto para a janela para que John não percebesse.

Ele era daquelas manteigas derretidas que choravam até com as cenas mais bobas de filmes de comédia romântica. Como poderia continuar se segurando numa situação como aquela, e ainda após escutar que o menino não parara de falar sobre si? Seu coração se encheu de carinho e ainda mais ansiedade e preocupação. Ele havia fugido para procurá-lo, droga! Sua consciência pesava e a aflição o atingia em cheio, como flechas.

O carro continuava a avançar, agora em uma área já mais afastada da cidade, e, pela visão periférica, entre os cílios molhados, Sam viu algo que lhe chamou atenção.

– Pare o carro! – Berrou, fazendo John pisar com força no freio. Sam pulou para fora da caminhonete e correu desesperado até a pequena praça já meio abandonada na periferia de Canmore, numa área de poucas casas e vários pinheiros.

Davi estava sentado em um velho balanço, de cabeça baixa, sem se balançar.

– Davi! – Sam gritou ainda correndo até o menino. Davi ergueu o rosto inchado pelas lágrimas ao escutá-lo e, arregalando os olhos, saltou do balanço e correu o pouco que restava de distância entre ele e o loiro.

Sam caiu de joelhos e abraçou o menino com força, sentindo que Davi começava a chorar e soluçar, segurando forte, com as mãozinhas pequenas, sua jaqueta.

– Está tudo bem. Está tudo bem. – Murmurou, apertando-o contra seu peito e se esforçando para segurar seu próprio choro espalhafatoso de alívio. – Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui agora, pequeninho. Você não está mais sozinho. – Garantiu.

John ficou observando a cena um pouco mais afastado. Havia parado a caminhonete de qualquer jeito no meio da rua e desceu correndo para ir falar com o filho, mas seu corpo estancou completamente ao ver aquela cena. Como Davi podia ter se apegado tanto a Sam? John nunca havia visto o filho abraçar ninguém daquela forma. Nem a mãe, nem o irmão e muito menos ele. E como Sam podia ter tanto carinho pelo seu filho e tratá-lo com tanta dedicação depois de tudo o que John já havia dito e feito para o loiro?

Com um suspiro e ainda incerto se deveria se aproximar ou não, começou a andar até os dois em passos lentos.

– Davi? – O chamou em um tom incerto, cauteloso. Ele deslizou os olhos pelo corpo do filho e percebeu que os joelhos estavam ralados.

Sam se afastou de Davi, deixando o menino ir para os braços do pai. Davi, no entanto, abaixou a cabeça, parecendo temeroso.

– P-Pai... D-Desculpa... – Murmurou com medo na voz, iniciando um choro que agora transmitia o medo de receber um sermão do pai. – E-Eu desobedeci... – Soluçou.

John ignorou o pedido de desculpas do menino e o puxou para seus braços, o abraçando apertado. Ele sentia algumas lágrimas nos olhos e não lutou para contê-las mesmo sabendo que seu pai havia repetido a vida inteira: “homens de verdade não choram”. Ele estava feliz, aliviado e que se danasse o resto.

– Nunca, nunca, nunca mais faça isso, Davi. – John disse com a voz embargada. – Se você quer ser amigo dele, tudo bem. Eu não vou proibir. Mas nunca mais me dê um susto desses. Eu te amo, filhote. – Sussurrou quase sem voz.

Davi chorou mais ao ouvir isso e disse, baixinho, que não fugiria outra vez. John manteve o filho nos braços por mais um tempo, até afastá-lo para olhar os joelhos ralados.

– Você caiu? – Perguntou preocupado.

– Eu estava andando e tropecei. Mas não foi nada...

– Temos que lavar e desinfetar. É melhor o médico novo dar uma olhada em você para garantir que está mesmo tudo bem. Aliás, não avisamos ninguém que o encontramos. – Dirigiu-se ao Sam. O moreno estava um pouco sem jeito pela forma que havia falado com o filho na frente do loiro. Não estava com vergonha da cena, mas a maldita voz do pai ficava insistindo em sua cabeça que um homem não agia daquela forma.

– Eu ligo. – Sam se prontificou e discou para Taylor, contando as boas notícias.

Taylor pediu que passassem no restaurante de Camille para que ele desse uma checada nos joelhos do menino.

Depois, Sam se abaixou, apoiando as mãos nos joelhos, e sorriu para Davi.

– Já que agora fomos liberados por seu pai para sermos amigos, vou querer receber visitas em casa, ou te ver mais seguido no orfanato, ok? – Falou ao menino, piscando um olho para descontrair.

Davi abriu um sorriso de orelha a orelha.

– Mesmo?! – Perguntou empolgado.

– Mesmo, mesmo. – Sam garantiu e, sorrindo ainda mais animado, pegou Davi de surpresa e o ergueu pelos tornozelos, deixando o menino pendurado de cabeça para baixo. Davi soltou um gritinho de surpresa. – Mas agora vamos te levar até o médico novo para tomar uma injeção! – Brincou, fazendo o menino gritar de novo.

Davi se debateu, rindo, e Sam teve de virá-lo, ou iria acabar deixando-o cair. Resolveu colocá-lo sobre um de seus ombros, e deu um tapinha na bunda dele.

– É o que meninos fujões merecem, sabia?! Eu já tomei muitas injeções na vida. – Sam brincou e fez umas cosquinhas no menino. Davi riu de uma maneira muito adorável.

– Sério?! – Ele perguntou admirado.

– Mas é segredo, ok? Não conte pro seu pai. – Sussurrou conspiratório, olhando de esguelha para John com um sorriso no canto dos lábios, antes de soltar Davi de volta ao chão. Não era tão forte para aguentar o peso dele por muito tempo.

– Não conto. – Davi sussurrou em retorno, tentando disfarçar a olhadela que lançou para o pai.

– Corrida até a caminhonete? – Sam perguntou.

– Sim! – Davi começou a correr na frente, e Sam o seguiu parecendo tão criança quanto o pequeno.

John observou a dinâmica entre os dois e acabou girando os olhos. Por um lado estava feliz por causa do sorriso no rostinho do filho, por outro estava com receio por achar que havia colocado a mão em uma casa de maribondo ao permitir a amizade daqueles dois. Mas nada superava o frio no estômago ao pensar que ele teria que conviver mais com Sam. Já estava difícil se controlar longe dele... Como faria ao tê-lo tão perto?

E algo dizia que ele não poderia insistir na técnica de tratá-lo mal, já que, ao fazer Sam sofrer, também faria Davi sofrer.

Sua vida acabava de ficar um precipício mais complicada.

Notas finais
Hm, parece que John vai ter que ficar pertinho do Sam mais do que ele gostaria. AIUSHAJSOJIOA Eu e a Bia nessa fic tentamos trabalhar um pouco de vários problemas da sociedade (racismo, machismo, homofobia...), não sabemos como é no Canadá. E apesar de obviamente ser um país mais "evoluído" que o Brasil em várias questões, lá também deve existir preconceito, em maior ou menor grau. Enfim, obrigada a todos acompanhando e, em especial, comentando! Beijos no coração!