Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
6 Desentendimentos
Notas iniciais
Capítulo 06 – Desentendimentos
Taylor se espreguiçou longamente assim que os primeiros raios de sol entraram no quarto. Ele estava tão acostumado a acordar cedo, que nunca se preocupava em usar despertador. Sorte a dele que era sábado e nos finais de semana a clínica só abria sob pedidos porque, quando ele olhou para o relógio, ficou espantado ao ver que já passavam das oito horas. Qual foi a última vez que havia dormido tanto? Nem conseguia se lembrar.
Se levantou rápido, mas se arrependeu devido à dor de cabeça. Ele suspirou e olhou para baixo. Estava sem sapatos e sem camisa, mas não se lembrava de as ter retirado. Olhando pra frente, percebeu que aquele não era o quarto onde vinha dormindo nos últimos dias e, olhando para o lado, levou um susto ao ver Damien dormindo apenas de cueca e acabou caindo da cama, embolado nos lençóis, ao tentar se afastar do ruivo.
Levou a mão à testa.
– Céus, como foi que vim parar aqui? – Se perguntou. Só esperava não ter tido uma crise de sonambulismo e acabado na cama do ruivo. Álcool em demasia era um gatilho para sonambulismo, e ele já havia tido uma crise no início da faculdade depois de um porre na festa de comemoração por ter entrado no curso.
Taylor deu uma espiada em Damien. Felizmente, ele continuava dormindo como uma pedra.
– Menos mal. – Murmurou e se levantou. Estava morrendo de fome, mas ainda precisava de um banho.
Entrou no banheiro, olhou-se no espelho e viu que seus dreads estavam desfeitos e feios... Ele os tinha desde o final da adolescência, quando decidira fazer algo diferente de sua vida além de estudar para entrar na faculdade. Taylor demorou no banheiro, já que tinha de, ao lavar a cabeça, lavar dreadlock por dreadlock, e após o banho precisou refazê-los praticamente de novo, pois já fazia um tempinho que não dava uma “manutenção” e atenção a eles.
Quando saiu do banheiro, sentia-se como novo. Apenas uma toalha enrolava-se em sua cintura, já que suas roupas estavam no outro quarto, e seus cabelos úmidos encontravam-se ligeiramente menores, já que aparou as pontas, e estavam presos por um elástico simples que sempre carregava no bolso da calça, ou no pulso.
Damien ouvia de longe uns barulhos vindos do banheiro, mas continuou com os olhos fechados tentando voltar ao sonho que estava tendo. Ele não lembrava bem o que era, mas tinha a ver com lábios cheios e um sorriso de tirar o fôlego. E, ele assim esperava, com peitões e cabelos loiros (nada de cabelos negros!), apesar de dessa parte o ruivo não ter nenhuma lembrança.
Quando percebeu que não conseguiria pegar no sono outra vez, ele acabou sentando na cama enquanto esfregava os olhos. Ainda estava meio grogue quando a porta do banheiro foi aberta e um Taylor recém banhado e só de toalha saiu de lá. Os olhos de Damien imediatamente dobraram de tamanho e sua ereção matinal que não estava lá muito animada naquela manhã armou uma tenda constrangedora quando o ruivo viu uma gotinha de água deslizar pelo peito do médico e sumir pela toalha.
– O... O que você... Fez... O que você fez com o seu cabelo? – Perguntou com a voz rouca, rezando para que Taylor não percebesse nada, mas só se ele fosse cego para não ver. Agora, sem todo aquele cabelo caindo no rosto, Damien podia vê-lo melhor e reparar como o rosto do médico era bonito.
“Que porra! Por que eu ‘tô prestando atenção no rosto de outro homem e achando bonito? Tô bêbado ainda! Só pode!”. Pensou irritado.
Taylor estranhou a pergunta, levando a mão à cabeça, mas então percebeu que Damien só o vira de cabelos soltos, e eles andavam uma bela bagunça. Deu de ombros.
– Ajeitei e deu uma aparada. Estava cumprido demais, prefiro que não passe tanto dos ombros. – Falou, evitando reparar demais na ereção matinal do ruivo. Não podia culpá-lo. Praticamente todos os homens do mundo acordavam daquela forma. – Bem, vou me arrumar a preparar um café. Pelas olheiras que você está, vai precisar... – Disse, dirigindo-se para fora do quarto.
Damien gemeu, se deixou cair de novo na cama e ficou encarando o teto. A maldita ereção estava dolorida e ele definitivamente não ia resolver aquele problema com a mão. Ainda mais pensando no médico que a fez ficar tão animada daquele jeito naquela manhã.
Não. Ele tinha que tirar isso da mente. Não foi por causa de Taylor. Era falta de sexo. Só isso. Puro e simplesmente.
Gemendo e com dor de cabeça, ele levantou e foi em direção ao banheiro. Um banho gelado daria um jeito naquilo.
Depois do banho e vestido, ele rumou até a cozinha onde encontrou Taylor mexendo no fogão. Ele ficava ainda melhor com os cabelos amarrados, mostrando melhor seu rosto. “Pare de reclamar!” Damien se xingou mentalmente.
– A culpa foi sua. – Disse, enquanto ocupava um dos lugares vagos na mesa.
Taylor se virou com um sobressalto.
– Caramba, você quase me mata do coração! – Exclamou e se virou de novo para terminar aquelas panquecas, mas então se tocou do que o outro havia falado e se voltou novamente para ele. – O que foi minha culpa?
– Nós dois dormindo na mesma cama. – Damien respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Você capotou na minha cama.
– Não tenho culpa se sua casa é enorme e eu me confundi com os quartos. Era só você ter me acordado e me mandado para o outro quarto. Aliás, pra que ficar só de cueca dormindo comigo? Sinceramente... – Se virou de novo, antes que Damien percebesse seu constrangimento. O jeito era tentar deixá-lo constrangido também.
– Eu tentei te acordar, mas você estava absolutamente capotado. Eu poderia ter feito qualquer coisa que você nem sentiria. – Damien balançou os ombros. – Só consigo dormir na minha cama, então tive que dividi-la com você. Acho que é a primeira vez que dormi na mesma cama com alguém e não fiz nada... – Disse enquanto apoiava as mãos na mesa e olhava para cima pensativo. – E eu gosto de dormir nu, mas achei que te deixaria muito escandalizado se você acordasse e desse de cara com o meu amigo tão cedo.
– Não me diga que nunca simplesmente dormiu com a sua ex-namorada, sem fazerem nada? – Taylor perguntou abismado, ignorando a parte em que Damien poderia ter feito o que quisesse com seu corpo que ele nem sentiria. – Ah, esqueça, eu não quero saber. E você fez bem em manter a cueca. Aqui, seu café. – Serviu uma xícara e entregou ao ruivo. – Estou surpreso por você ter levantado tão cedo hoje.
– Os pais da Julie eram muito carrascos. Nós dormimos juntos pouquíssimas vezes e geralmente era escondidos em um dos meus carros bem longe daqui. – Damien fez uma careta ao se lembrar dos ex-futuros sogros. Aceitou o café que Taylor oferecia, tomou um gole generoso e não conseguiu conter um gemido ao sentir o sabor. – Depois que nós terminamos, eu fui meio cafajeste. Passei por uma fase ruim.
– Deve ter sido dessa fase que saiu a sua fama de Don Juan. – Taylor revirou os olhos e se afastou para colocar os pratos na mesa, assim como as panquecas. Ele derramou mel por cima delas e depois pegou alguns morangos que havia picado, colocando sobre o mel. – Fiz várias... Se estiver servido. – Se sentou à mesa.
Damien não estava lá com muita fome, mas se serviu para não fazer uma desfeita ao hóspede.
– Nós tínhamos terminado e ela foi embora da cidade. – Damien comentou enquanto mexia com a comida. – E a esposa do Carl estava para ter os gêmeos. Pensei que ia perder a amizade dele também, que ele teria uma família e se afastaria de mim. Carl estava tão louco com o nascimento das crianças que não percebeu o quanto ficou distante. E eu comecei a beber e transar com qualquer mulher que se mostrasse interessada. – Deu um sorriso amargo. – Eu já tinha perdido tudo uma vez. Por que não aconteceria de novo? Era o que eu pensava. Foram meses horríveis e eu fiquei aqui remoendo minha raiva pelo Carl sendo que ele nem suspeitava sobre isso. Aí um dia ele apareceu aqui pedindo desculpas pelo sumiço, dizendo que estava trabalhando como um louco para fazer um pé-de-meia para quando as crianças nascessem, e me convidou para ser o padrinho. Ele falou tudo sorrindo mesmo com toda a carga que foi jogada em cima dele, e eu só consegui ser um idiota egoísta naquele tempo. – Os ombros de Damien foram caindo à medida que ele falava. – Merda. Eu nunca falei nada disso nem para o Carl. Não sei por que fico falando para você. – Resmungou enquanto dava uma garfada generosa no prato.
Algo atingiu o peito de Taylor naquele momento. Ver Damien se abrindo daquela forma, por conta própria... Sobre algo que ele nunca havia contado a ninguém. Aquilo mexeu de verdade com Taylor, que mal conseguiu encontrar palavras para confortá-lo.
– Você não foi egoísta, Damien. – Murmurou, sem desviar o olhar do ruivo. – Você apenas estava com medo de perder um amigo. O importante é que você entendeu a razão do sumiço e não deixou a amizade entre vocês se abalar, pelo contrário, ela apenas cresceu. Sabe aquele ditado “me diga com quem andas, e te direi quem és”? Carl e Sam são duas pessoas maravilhosas, assim como Camille e Dakota. Acho que isso diz alguma coisa sobre você, não é? – Perguntou retórico, depois pigarreou e bebeu um pouco de café, se perguntando se não estava parecendo um idiota bajulador. Mas apenas falava o que sentia. – Para um destruidor de corações, até que não está nada mal. – Brincou para amenizar a seriedade da conversa.
O que Taylor disse deixou Damien tocado, mas ainda assim continuava se considerando egoísta pelo seu comportamento na época. Ele nunca foi bom em falar as coisas. Ele deveria ter chamado Carl para conversar e dizer tudo que estava lhe incomodando. Porém, ele não o fez. Ao contrário. Se fechou mais e mais. Depois ele tentou pedir desculpas e contar a história toda para Carl, mas não conseguiu e, para “provar” sua amizade, comprou dúzias e dúzias de presentes para os gêmeos.
Por isso, por ser tão fechado e ter tanta dificuldade para se expressar, que ele se surpreendia com a forma como Taylor o fazia falar como uma matraca sem freio. E o médico nem precisava forçá-lo para isso. Bastava olhá-lo e Damien já se via compelido a derramar todos os seus sentimentos. Até mesmo os que ele lutava tão arduamente para manter escondidos.
Ele abriu a boca para responder, mas a campainha tocou, interrompendo a conversa.
Quando foi atender deu de cara com Carl e a pequena Charlie estava no colo do pai.
– O que estão fazendo aqui tão cedo? – O ruivo ergueu as sobrancelhas.
– O que você está fazendo acordado tão cedo? – Carl rebateu. – Esquece. Cadê o Taylor? A Charlie tá com febre! – Exclamou desesperado.
Damien percebeu que a menina estava vermelha e respirava com dificuldade.
Carl adentrou na casa sem esperar convite e logo deu de cara com Taylor, que saíra também da cozinha.
– Sente-se aqui com ela no colo. – Taylor demandou já entrando em modo profissional, e Carl obedeceu imediatamente. – Conte-me tudo que aconteceu.
– Até ontem de noite ela parecia bem. Só agora de manhã que acordou com febrão de 39,5º e reclamando de dor de garganta. – Carl explicou rápido e desesperado, como qualquer pai coruja.
Taylor assentiu e buscou algo em sua mala. Era uma lanterninha e um abaixador de língua.
– Florzinha, eu preciso que você abra a boca o máximo que puder, ok? Fica calma e respire pelo nariz. Tentar respirar pela boca é que está te deixando nervosa e assustada, porque dói e sua garganta está inflamada... Eu estou aqui para cuida de você, então não precisa mais ter medo. – Ele pediu com jeitinho para Charlie que, com os olhinhos chorosos, consentiu. – Ela está com nariz escorrendo, ou entupido? Tosse? Coceira nos olhos? Dor nos ouvidos? – Taylor começou a encher Carl de perguntas enquanto examinava a boca e a garganta da menina.
Carl negou tudo, menos a dor de ouvido de que ela também havia se queixado, e Taylor concordou. Depois checou o nariz da menina e, de sua maleta, tirou também um otoscópio, com o qual verificou os ouvidos de Charlie, que já chorava baixinho, mas se mantinha quietinha.
Por fim, Taylor massageou o pescoço da menina em busca de alguma adenopatia. Encontrou algumas proeminentes.
– Ela vomitou ou teve náuseas desde que acordou? – Perguntou por fim.
– Sim... – Carl falou ainda mais preocupado. – Vomitou um pouco antes de virmos para cá.
– Certo. – Taylor concordou novamente. – Há mais ou menos 50% de chance que Charlie esteja com uma faringoamigdalite estreptocócica. Por isso ela vai ter de tomar antibióticos. Já a dor de ouvido é apenas reflexa, devido à dor intensa na garganta. A febre vai ceder mais rápido com antitérmico. Geralmente para crianças o tratamento é amoxacilina por dez dias. – Informou rapidamente. – Pode-se se dar também, em casos em que a criança não pode fazer o curso de antibiótico por esse tempo, uma injeção de outro antibiótico, em dose única. Você sabe se a Charlie tem alergia a penicilinas? Ou qualquer motivo que a impeça de tomar medicação por dez dias? Algumas crianças fazem muita diarreia com amoxacilina...
Damien viu e ouviu toda a conversa sem entender bulhufas do que o médico havia dito e pelo olhar totalmente assustado e em pânico de Carl ele também tinha entendido muito pouco.
– Vocês, médicos, conseguem ser sempre sem coração. – Damien vociferou. – Não vê que a gente não entendeu nada do que você disse? Como quer que o Carl escolha isso assim? A filha dele tem algo grave? É isso? Vocês só saem falando essas coisas complicadas e fazendo perguntas que não sabemos a resposta como se não tivéssemos sentimentos e não estivéssemos sofrendo pelos nossos entes queridos!
– Damien, não fale assim! Taylor não é o médico que tratou a sua mãe para que você fique surtando desse jeito! – Carl o repreendeu. – Eu realmente não sei que doença é essa... Só não quero que a minha filha sofra como ela está sofrendo agora. – Disse enquanto abraçava a menina que chorava baixinho. – Charlie nunca precisou tomar antibiótico, então não sei dizer se ela tem alergia a ele. Só tentando para descobrir.
Taylor olhava completamente chocado para Damien. Aquilo que havia sentido no peito mais cedo... Quebrou-se. E doeu. Doeu bastante ouvir aquilo vindo dele. Balançando a cabeça, ele voltou-se para Carl e Charlie.
– Vamos para clínica. Irei dar a ela a primeira dose do antibiótico e um pouco de paracetamol, e daqui uns dois ou três dias ela já estará bem melhor. – Pediu e, sem olhar para Damien, guiou Carl para fora da casa, rápido, antes que acabasse deixando alguma lágrima cair.
Que ridículo quase derramar uma lágrima por isso. Não era como se não houvesse escutado xingamentos de pacientes nervosos antes. Então por que doera tanto dessa vez?
Ele sabia por quê. Era por conta do que acontecera antes de se mudar para Canmore. Agora, parecia que qualquer questionamento às suas condutas médicas era o suficiente para destruí-lo.
Logo após Taylor, Carl e Charlie saírem, Damien ficou dando voltas pela sala, parecendo um animal enjaulado. Ele bem que queria saber para onde foi todo aquele companheirismo e aquela vontade de se abrir com Taylor que sentia até dez minutos antes. Às vezes o ruivo esquecia completamente que Taylor era médico e acabava dando margem e falando tranquilamente como havia feito enquanto tomavam café.
Irritado, voltou para a cozinha para tentar terminar de comer, mas ele já estava sem muita vontade antes e toda aquela cena terminou por mandar seu pouco apetite para o espaço. Tentou então se ocupar arrumando o lugar, mas só conseguiu quebrar um prato e cortar a palma da mão quando foi tentar juntar os cacos.
Ele gemeu baixinho quando enfiou a mão embaixo da água gelada e em seguida lavou o corte com sabão. Não parecia ser um corte profundo, mas estava bem dolorido. Depois de lavar a mão, enrolou-a em um pano limpo. Ficou dando mais algumas voltas pela casa, com os pensamentos a mil, antes de decidir ir procurar tia Camille.
Damien estava precisando de alguma coisa. Ele só não sabia o que era. Talvez conversar um pouco o ajudasse a clarear a mente.
Assim que a tia abriu a porta, ele ergueu a mão (a mão boa, pois se ela visse o ferimento iria surtar) e desejou bom dia.
– O que você está fazendo acordado tão cedo? – Ela perguntou surpresa.
– Por que todos me perguntam isso? – Retrucou mal humorado e, sem esperar por convite, foi entrando na casa.
A sala da casa da tia era repleta de fotos da família, tanto em quadros como em porta-retratos. Além disso, era cheia de almofadas coloridas e quadros de bom-gosto, porém sem muitos enfeites ou outros decorativos pequenos, já que ela evitava a todo custo deixar à mostra qualquer coisa pontuda ou afiada que pudesse ferir os netos.
Damien foi até o sofá, sentou e colocou uma das almofadas sobre a mão ferida para escondê-la.
– Estou vendo fumaças saindo das suas orelhas. – Camille comentou enquanto fechava a porta. – O que aconteceu?
– Nada. – Damien mentiu.
– Nada? Você não viria até a minha casa a essa hora se não fosse nada. – Ela sentou ao lado dele e, antes que ele pudesse reclamar ou impedi-la, puxou-o fazendo com que ele deitasse a cabeça em seu colo.
Damien fechou os olhos ao sentir os dedos da tia, a pessoa que ele praticamente considerava como uma segunda mãe, fazendo cafuné na sua cabeça. Ela sempre fazia aquilo quando o ruivo aparecia irritado ou triste, desde que ele era apenas um garotinho. Geralmente o ruivo não falava nada sobre o que o afligia e ela também não perguntava, pois entendia que ele tinha dificuldades para se abrir e forçá-lo a falar apenas o afastaria. Porém, naquele momento, Damien estava precisando falar, caso contrário sentia que explodiria.
– Charlie está doente… – Ele disse lentamente.
– Sim, eu soube. Dakota ligou mais cedo falando dos sintomas e eu disse que deveriam procurar o Taylor. Não deve ser nada grave. Está ficando cada vez mais frio. Deve ser apenas uma gripe.
– Não é gripe… Ele começou a falar, falar, falar naquele tom impessoal e distante como se nem se importasse com ela, ou com a gente! Eu nem sei o que a Charlie tem. Ele não explicou. Simplesmente disse o nome de uma doença complicada e que a Charlie teria que tomar antibiótico.
– Taylor é um médico e não um padre ou terapeuta para ficar fazendo discursos de consolo. O trabalho dele exige que ele seja impessoal. – Camille pontuou.
– Ele começou a falar como os médicos que trataram a minha mãe! – Damien estourou.
– Céus, menino, o que você fez? – Camille perguntou após um suspiro.
– Eu disse que médicos não têm coração e que só ficam falando coisas complicadas e mandando a gente escolher como se não tivéssemos sentimentos e não estivéssemos sofrendo pela nossa família. – Repetiu, de forma mecânica, o que havia dito mais cedo.
– Eu não acredito que você disse isso para ele! – Camille exclamou meio assustada, meio furiosa.
Mas ela logo tratou de respirar fundo para se acalmar. Não era culpa de Damien que ele pensasse ou agisse dessa forma. Ela fez ele se sentar e segurou o seu rosto entre as mãos, olhando para o ruivo como se ele ainda fosse aquele menininho assustado que recém havia perdido a mãe e era maltratado pelos avós.
– Taylor não é o médico que tratou a sua mãe. – Camille disse em tom firme.
– Eu sei. Carl disse, mas… – Damien começou a protestar, porém foi prontamente interrompido.
– Os médicos que cuidaram dela, na verdade, nem tiveram culpa naquilo tudo. Seus avós, que Deus me perdoe por falar mal de quem não pode mais se defender, mas foram seus avós os culpados. Eles deveriam ter sentado com você e conversado sobre o que estava acontecendo com a sua mãe.
– Os médicos não a salvaram… – O ruivo disse com a voz fraca. Ele sentia que as lágrimas queriam vir. Era muito difícil falar da mãe sem que aquela vontade louca de chorar não surgisse, mas ele se segurou. Não era mais um menino para se descontrolar assim. – Eles não a salvaram. – Repetiu em um tom mais firme.
– Os médicos não são deuses, Damien. Eles não podem salvar todo mundo. Sei que a sua mãe ainda era muito jovem para partir daquela forma, mas tenho certeza que eles fizeram todo o possível para salvá-la. – Camille falou enquanto o puxava para um abraço. – E você não pode descontar as suas frustrações e mágoas em cima de alguém inocente. Pense o que o Taylor sentiu ao ouvir tudo aquilo!
– Mas...
– Chega, Damien! Pare. Pare de se torturar com isso e não torture também o Taylor. O coitado nem ao menos sabe o motivo do seu estouro e deve ter ficado arrasado. Ele não tem culpa de nada, Damien! – A mulher exclamou com convicção. – Peça desculpas e conte o que aconteceu com a sua mãe. Tenho certeza que ele entenderá e o desculpará.
Damien balançou a cabeça lentamente em uma negativa, e Camille suspirou. Ela realmente chegou a pensar que o ruivo havia superado toda aquela mágoa e dor, mas tudo continuava bem enterrado no coração dele e agora ele derramava esses sentimentos em cima de alguém que era absolutamente inocente e não tinha nada a ver com aquilo.
– Se você detesta tanto assim médicos e não vai conseguir se controlar perto do Taylor, talvez seja melhor que ele saia da sua casa. – Camille falou em um tom cansado.
Ela tinha tido esperanças de que o novo médico pudesse ser um bom amigo para Damien e conseguisse remendar um pouco aquele comportamento totalmente inadequado do rapaz, ajudando-o a pelo menos ter uma vida mais saudável dormindo nos horários certos e encontrando alguma ocupação. Todos já haviam tentado convencê-lo a mudar os hábitos, e ela pensou que talvez um médico jovem e bem intencionado como Taylor conseguisse. Mas era impossível. Camille temia que Damien não tivesse mais jeito.
– Eu… Não quero que ele saia. – Damien, para a surpresa de Camille, falou lentamente. – Me… Me acostumei com a presença dele. Se ele não fosse médico…
– Ele é médico e um dos bons! – Camille o interrompeu. – E ele continuará sendo médico você goste deles ou não. Se você quer que ele fique na sua casa terá de aprender a superar esse rancor. Por enquanto, volte para casa e peça desculpas. – Ela voltou a dizer, mesmo sabendo que ele não pediria desculpas no momento. Pelo menos não de um jeito convencional.
– Eu quero ficar aqui mais um pouco. – Damien disse, voltando a deitar no colo dela. A mulher suspirou e voltou a passar os dedos entre os cabelos ruivos do rapaz.
Eles apenas permaneceram quietos, sem tocar em qualquer outro assunto, até que Damien se sentiu mais calmo e decidiu voltar para casa.
Camille ficou observando-o descer a rua em passos lentos e pensou que talvez devesse conversar com Taylor. Pedir que ele fosse um pouco paciente. Porém, por enquanto, ela esperaria alguns dias para ver como as coisas se desenrolariam.
Damien, por sua vez, acabou não indo direto para casa. Ele ficou dando voltas e voltas, pensando e pensando. Ele sabia que a tia tinha razão, que Taylor não tinha culpa de nada e que era errado jogar sua raiva em cima dele, mas ainda assim ele não conseguia evitar e muito menos deixar de pensar que tudo o que ele disse tinha um quê de verdade e que os médicos ignoravam os sentimentos da família do paciente.
Enquanto caminhava, lembrou que havia deixado o carro no barzinho onde haviam ido na noite anterior, mas a chave tinha ficado em casa e sua mão realmente estava bem dolorida para dirigir naquele momento.
Quando estava passando em frente a uma loja, algo na vitrine chamou a sua atenção. Bem, ele devia um pedido de desculpas ao médico. Damien sabia que não podia ter falado daquela forma.
Ao chegar em casa, logo percebeu que Taylor não havia voltado ainda. Damien foi até o quarto do médico e deixou o pacote em cima da cama, em lugar bem visível. Depois rumou para o escritório e ligou o computador. Precisava escrever. Escrever sempre era uma das suas melhores formas de fuga.
Ignorando a mão que latejava, Damien se concentrou em começar a digitar o próximo episódio do seriado.
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