Café em Tóquio
3 A Calma no Meio da Tempestade
Na manhã seguinte, ela regressou ao trabalho como se fosse apenas mais um dia. Assim que entrou no departamento, sentiu alguns olhares pousarem sobre si. Houve quem lhe dirigisse palavras de preocupação genuína, quem demonstrasse simpatia e quem aproveitasse a situação para comentar algo menos agradável. No entanto, tudo aquilo lhe passou ao lado. Já há muito tempo que aprendera a não dar importância à opinião dos outros. As pessoas falavam porque gostavam de falar. Ela limitava-se a continuar o seu caminho.
Ele observou tudo à distância. Reparou nos olhares, nos murmúrios e nas conversas interrompidas quando ela passava. Gostaria de poder fazer algo para a proteger daquele ambiente, mas sabia que ela não era alguém que aceitasse facilmente ajuda.
Durante a tarde, um dos rapazes mais novos do departamento aproximou-se da sua secretária. Trazia um sorriso convencido e uma confiança que ela já tinha visto demasiadas vezes.
— Queres sair comigo um dia destes? — perguntou diretamente.
Ela levantou os olhos do monitor e respondeu sem hesitação.
— Não, obrigada. Não estou interessada em relacionamentos.
A resposta foi educada, mas firme.
Conhecia a reputação dele dentro da empresa. Sabia que colecionava conquistas como quem coleciona troféus e que provavelmente já tinha passado por metade das mulheres do edifício. Não era alguém que despertasse qualquer interesse nela.
O rapaz não reagiu bem à rejeição. Alguns amigos dele assistiram à cena e rapidamente começaram a gozá-lo. O orgulho ferido era algo que ele não sabia disfarçar.
Quando parecia prestes a insistir, uma voz surgiu atrás dele.
— Não tens trabalho para fazer?
O tom era calmo. Demasiado calmo. Mas o olhar que acompanhava aquelas palavras fez o rapaz recuar imediatamente.
Ela ergueu os olhos e viu-o ali. Não disse nada, mas não conseguiu esconder a surpresa.
Pouco depois, durante a pausa, refugiou-se nas escadas de emergência. Gostava daquele lugar precisamente porque quase ninguém o utilizava.
Sentada num dos degraus, segurava um copo de café da máquina enquanto observava a chuva que começava a cair do outro lado da pequena janela.
O líquido estava quente. Mas não sabia a nada. Sem querer, lembrou-se do café que ele lhe preparara.
Daquele aroma intenso. Daquele sabor equilibrado. Da sensação estranhamente reconfortante que lhe deixara.
Gostava de voltar a prová-lo. A constatação apanhou-a desprevenida.
Porque estava ela a pensar nisso? Porque estava ela a pensar nele? Por mais que procurasse uma resposta, não a encontrou.
O telemóvel vibrou na sua mão. Uma mensagem. Depois outra. E mais outra.
Parabéns. Feliz aniversário. Muitas felicidades.
Ficou alguns segundos a olhar para o ecrã. Tinha-se esquecido. Há anos que deixara de celebrar aniversários. Não via utilidade nisso. Para ela era apenas mais um dia igual aos outros.
Mesmo assim, naquele instante, percebeu algo curioso. Entre todas as coisas que poderia desejar, aquilo que mais queria era voltar a beber um café feito por ele.
O resto da tarde passou lentamente. À medida que a hora de saída se aproximava, os colegas começaram a abandonar o departamento.
— Está a chover a potes lá fora. — comentou uma colega enquanto vestia o casaco.
Ela lançou um olhar pela janela. As gotas batiam contra os vidros com violência.
Suspirou. Não tinha trazido guarda-chuva. A meteorologia não previra chuva. Quando começou a arrumar as suas coisas, ele aproximou-se.
— Como estás?
Ela levantou o olhar.
— Estou bem. Obrigada pela preocupação.
Foi uma resposta simples. Mas ele teve a sensação de que ela queria acrescentar algo mais. Algo que acabou por guardar para si.
Saíram juntos do edifício e apanharam o elevador até ao piso térreo. Na entrada despediram-se. Ela dirigiu-se para a paragem. E o azar decidiu aparecer.
Um carro passou a alta velocidade por uma enorme poça de água acumulada na estrada. A onda atingiu-a completamente. Da cabeça aos pés. Ficou imóvel. Encharcada.
Ele observou a cena. Esperava ver irritação. Raiva. Frustração. Mas não viu nada disso. Apenas cansaço.
Uma aceitação silenciosa de quem já estava habituada a que a vida lhe trouxesse mais um problema. Aproximou-se.
— Vou levar-te a casa.
— Não é preciso.
— Estás completamente molhada.
— Não quero estragar os bancos do teu carro.
Sem responder, retirou o casaco e colocou-o sobre os ombros dela. O gesto foi tão rápido que não teve oportunidade de recusar.
Minutos depois, encontravam-se dentro do carro. O som da chuva preenchia o silêncio. O telemóvel dela voltou a vibrar. Ele acabou por ver uma das notificações. Mais uma mensagem de parabéns.
Para quebrar o silêncio, perguntou:
— Recebeste muitos presentes?
Ela esboçou um sorriso quase impercetível.
— Não costumo celebrar os meus anos. Já há alguns anos.
Ele ficou pensativo.
— Mesmo assim, deve haver alguma coisa que gostasses de receber.
Ela respondeu sem pensar.
— Um bom café.
Assim que as palavras saíram, percebeu o que tinha dito. Mas já era tarde. Quando chegaram a casa dela, ele estacionou.
— Então vou fazer-te um café.
Ela virou-se para ele, surpreendida.
— Não precisas de perder tempo com isso.
Ele desligou o motor e olhou-a diretamente nos olhos.
— Eu não me importo.
Havia algo na forma como dizia aquelas palavras que tornava difícil contrária-lo. Enquanto ela subia para tomar um banho rápido, ele ficou na cozinha.
Quando regressou, com roupa seca e o cabelo ainda ligeiramente húmido, encontrou a mesa preparada.
Algo simples para comer. E aquele aroma inconfundível. Comeram em silêncio. Um silêncio confortável.
Quando terminaram, ele colocou a chávena diante dela. Ela levou-a aos lábios. Fechou os olhos. E sorriu. Um sorriso verdadeiro. Daqueles que raramente mostrava. Ele ficou preso àquela imagem.
— Sempre que bebo um bom café… o mundo faz uma pausa.
Ela falava sem desviar os olhos da chávena.
— Durante alguns minutos não existe mais nada. Só eu e o café. Gosto de saborear cada gole.
Quando levantou o olhar, encontrou-o a observá-la com atenção. Como se cada palavra fosse importante. Sem saber como reagir, levantou-se depressa.
Demasiado depressa. O banco prendeu-se-lhe nas pernas. Perdeu o equilíbrio. A chávena escapou-lhe das mãos. O café quente derramou-se sobre uma das suas mãos.
Ele levantou-se imediatamente. Segurou-lhe a mão. Levou-a até ao lava-loiça.
Com um pano húmido começou a limpar cuidadosamente a pele avermelhada. Ela observava-o em silêncio. E algo dentro dela começou a acelerar. O coração. A respiração. Os pensamentos.
Quando terminou, ele continuava a segurar-lhe a mão. Por um instante, nenhum dos dois falou. Ele viu claramente a hesitação no rosto dela. A inquietação. A confusão. Com delicadeza, largou-lhe a mão.
— Acho que está na hora de ir andando.
Ajudaram-se mutuamente a arrumar a cozinha. Enquanto trabalhavam, ela observou-o discretamente. Pela primeira vez com verdadeira atenção.
Depois de terminar viu que por baixo do fato elegante escondia-se um corpo atlético. Os movimentos denunciavam alguém habituado ao exercício físico. Ele reparou.
— Há alguma pergunta que queiras fazer?
Ela desviou imediatamente o olhar.
— Não.
A resposta saiu demasiado rápida. Ele aproximou-se. Ela sentiu a mesa atrás de si. Sem perceber o que ele fazia, ficou imóvel. Uma das mãos dele passou junto ao seu ombro.
Por breves segundos, sentiu a respiração dele próxima do seu pescoço. Um arrepio percorreu-lhe a pele. Ele afastou-se e mostrou-lhe algo. As chaves do carro. Tinham ficado em cima da mesa. O embaraço dela tornou-se evidente.
Foi nesse momento que ambos receberam uma notificação nos telemóveis.
Alerta de tempestade severa. As autoridades aconselhavam a população a permanecer em casa.
Ele aproximou-se da janela. O cenário lá fora tinha-se transformado. A chuva caía com violência. O vento agitava árvores e sinais de trânsito. A noite parecia engolir a cidade.
E mesmo assim dirigiu-se para a porta. Ela segurou-lhe o pulso.
— O que estás a fazer?
— Vou para casa.
— Estás maluco?
Ele sorriu ligeiramente.
— Não. Apenas não quero ultrapassar limites.
Ela ficou em silêncio.
— Não quero que te sintas desconfortável por eu estar aqui.
Foi nesse instante que ela percebeu. Ele era diferente. Talvez pela idade. Talvez pelas experiências. Talvez simplesmente porque a respeitava.
— A tua presença não me incomoda.
Antes que ele pudesse responder, a eletricidade desapareceu. A casa mergulhou na escuridão. Ela suspirou e ligou a lanterna do telemóvel.
Conduziu-o até ao quarto que outrora pertencera ao irmão. Depois de casado, deixara de o utilizar. Escolheu um pijama para ele, embora tivesse dúvidas se serviria.
Ela saiu do quarto para ver o quadro elétrico, mas sem grande sorte, porque a falha de energia era geral. Quando regressou ao quarto, ficou imóvel.
Na penumbra iluminada apenas pela lanterna, viu-o sem camisa. As sombras desenhavam-lhe os músculos dos ombros e do peito.
Ele percebeu o olhar dela. Ela desviou imediatamente os olhos. Mais tarde, sentaram-se na sala. A chuva tornava-se cada vez mais intensa.
— Gosto do estilo simples da tua casa. — comentou ele.
Ela observou a parede branca à sua frente.
— Se formos a haver no fim do dia, as coisas são apenas coisas.
O tom nostálgico não passou despercebido. Ele sabia que aquelas palavras escondiam uma história. Uma história que ela ainda não estava preparada para contar.
Ficaram em silêncio. Até que um relâmpago iluminou toda a sala. Ela estremeceu. Outro surgiu segundos depois. Desta vez mais próximo.
Ele viu o terror no rosto dela. Viu-a levar as mãos à cabeça. Viu o medo tomar conta dela. Aproximou-se lentamente. Tocou-lhe no ombro. Ela reagiu de forma brusca.
— Por favor… não me ponhas lá fora…
A voz saiu quebrada. Desesperada.
— Faço o que quiseres… mas não me ponhas lá fora…
Ele ficou imóvel. Confuso. Mas compreendeu imediatamente. Não era ela que estava a falar. Era uma ferida antiga. Um trauma. Uma memória. Aproximou-se com calma.
Segurou-lhe os pulsos com gentileza. Ela debateu-se. Chorou. Soluçou.
Até que ele a envolveu nos braços. E ela acabou por esconder o rosto contra o peito dele. Quando os soluços diminuíram, ele acariciou-lhe o cabelo.
— Está tudo bem.
A voz dele era firme. Segura.
— Não te vou pôr lá fora. Estás segura.
Pouco a pouco, ela acalmou. Quando voltou a si, afastou-se.
— Desculpa…
Sentou-se no sofá, envergonhada.
— Não tens de explicar nada. — respondeu ele com um pequeno sorriso.
Ela ergueu os olhos. E perdeu-se no olhar dele. Levantou-se.
— Esclarece-me uma coisa, qual é o teu objectivo?
Ele arqueou ligeiramente uma sobrancelha.
— Como assim? O que queres dizer?
— Existem mulheres muito mais bonitas. Muito mais interessantes, do que eu.
Ele sorriu.
— As mulheres que tu consideras bonitas e interessantes muitas vezes são apenas carapaças vazias.
Ela percebeu o significado daquelas palavras. Porque também sabia que encontrar a pessoa certa era uma viagem longa. E muitas vezes dolorosa.
— Eu percebo o que dizes, mas estou em dívida para contigo.
— Não, não estás.
— Já me ajudaste demasiadas vezes.
Ele abanou a cabeça.
— O facto de poder ver o teu sorriso já me chega.
Ela ficou sem palavras. Completamente sem reação. Nesse momento, um relâmpago caiu tão perto que a casa pareceu estremecer.
O estrondo foi ensurdecedor. Ela caiu de cócoras imediatamente. Tremia. Assustada.
Ele ajoelhou-se ao seu lado. Pousou uma mão na sua cabeça. Desta vez ela não se afastou. Apenas fechou os olhos.
Ele ajudou-a a levantar-se. E então ouviu-a murmurar:
— Podes dormes comigo esta noite?
Sabia perfeitamente o significado daquele pedido. Não havia desejo. Não havia segundas intenções. Apenas necessidade de segurança. De proteção. De companhia.
— Sim.
Ela levou-o até ao quarto. Deitaram-se em extremos opostos da cama.
A tempestade continuava lá fora. Mas pela primeira vez em muito tempo, ela sentia-se segura. Minutos depois, adormeceu. Rapidamente.
Como se o simples facto de ele estar ali afastasse todos os monstros que a perseguiam durante a noite.
Ele permaneceu acordado durante algum tempo, a observar o teto. Mais um relâmpago brilhou além da janela.
Inconscientemente, ela aproximou-se dele durante o sono. Até que o corpo dela encontrou o dele. Ele baixou o olhar.
Observou o rosto tranquilo daquela mulher que carregava tantas cicatrizes invisíveis. E, pela primeira vez naquela noite, permitiu-se sorrir.
Horas depois, embalado pela tempestade e pela respiração serena dela, também adormeceu.
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