Café, Ciúmes e os Acasos do Amor

14 Você se preocupa com o Sam, papai!


Notas iniciais
Olá. Bia postando. Vamos lá a mais um cap. Será que o Damien e o Taylor deixaram de ser duas portas? Muito obrigada a Bii devon e a Marina Lótus pelas recomendações fofíssimas! Eu e a Mila ficamos que duas bobas alegres depois de ler xD E muito obrigada também a DCC, Mateo lettore, Safira Rosa, UnknownAna, lucy, Ruth Echelon, Heloisa unleashed, Mariana Lótus, imouto kawaii, Michele, Flower, JDeschamps, LuOrtensi, kihchi, MilaScorpions, Mapa, Agridoce, paozinhois, Bomer, Fern, Ti Rorschach, nilla, Leonardo e Rafaella Lima pelos comentários. Amamos cada um. No mais, boa leitura.

Na sexta feira à noite, Damien e Taylor passaram no restaurante de Camille, após a academia, depois de tomarem banho nos vestiários. Eles jantaram, naquele clima estranho e, após a janta, Damien subiu para o andar superior para jogar videogame com os gêmeos.

Já Taylor ficou um tempo conversando com Camille sobre trivialidades. Charlie em dado momento botou na cabeça que queria passar o final de semana na casa do padrinho quando soube que Taylor e Sam planejavam limpar o lugar, e Damien acabou concedendo.

Depois de tudo combinado, Taylor buscou um pouco de ar na varanda. Ele adorava a visão que o restaurante oferecia das montanhas. Era relaxante e, definitivamente, considerando o quanto estava dolorido por conta da academia, ele bem que precisava relaxar. Seria perfeito ter alguém para lhe fazer uma massagem mais tarde, mas não era como se pudesse pedir uma ao Damien.

Céus, sua relação com Damien havia virado uma completa bagunça. “É minha culpa.” Pensou, apoiando os cotovelos no parapeito da varanda e tapando o rosto para abafar um suspiro chateado.

– Eu amo essa vista. – Foi Dakota quem saiu para a varanda também, olhando para o horizonte. Ela percebeu o jeito cansado do médico e resolveu tentar conversar. – Eu e Carl costumávamos dar uns beijos escondidos aqui quando éramos mais novos. – Ela riu nostálgica. – O tempo voa.

– Voa mesmo. – Taylor assentiu, atraindo o olhar da moça. – Parece que foi ontem que eu tinha sua idade e estava terminando a faculdade, me preparando para a residência. – Brincou com ela.

– Às vezes esqueço que você é mais velho. Quero dizer, você tem um ar tão jovial e eu já sou casada com três filhos. – Ela balançou a cabeça com diversão. Seus cabelos castanhos, com as pontas onduladas, seguiram o movimento de maneira graciosa. – Mas hoje, você parece cercado por uma nuvem negra. Isso certamente não ajuda a manter as rugas longe, sabia?

Taylor soltou uma risada espontânea, mas ela novo esvaneceu. Ele olhou para as montanhas de novo, pensando no quanto ele era ínfimo frente a toda aquela grandeza.

– Ando com algumas bobagens na cabeça. – Mordeu o lábio inferior.

– Bem, eu vivo com bobagens na cabeça. Algumas a mais não vão atrapalhar em nada. – Dakota sorriu, dando a entender que estava aberta a escutar. – Às vezes até mesmo os médicos precisam de alguma ajuda, sabe? Quando eu era mais nova, pensei em ser psicóloga.

– Sério? – Taylor a olhou sorrindo leve. – E por que não se tornou uma?

– Ah... Eu engravidei logo que saí do colégio, Taylor. Filhos são uma benção, mas no momento errado eles atrasam alguns sonhos. – Deu de ombros. – Quem sabe você não me dá um gostinho de como é ouvir os problemas dos outros? – Piscou-lhe um olho.

– Você já sabe ser bem persuasiva. – Taylor sorriu no canto dos lábios, mas então suspirou de novo, colocando a mão atrás da nuca. Desabafar o que estava sentindo certamente ajudaria. Era frustrante não ter ninguém com quem conversar em Canmore e não ter coragem para entrar em contato com os amigos que deixara em Ottawa. Ele tinha Sam ali, mas não podia falar com o loiro sobre aquilo, obviamente. – Eu não sei por onde começar. Eu só sei que parece que vou explodir nos últimos dias.

– Comece por aí então. Por que parece que irá explodir? – Dakota sentou-se no banco de dois lugares que havia na varanda e deu tapinhas no espaço ao seu lado.

Taylor sentou-se ao lado da moça, apoiando a cabeça na parede.

– Acho que... Comecei a gostar da mesma pessoa que um amigo gosta. E acho que é recíproco entre eles. Isso me faz sentir horrível. Eu não consigo segurar o ciúmes, a inveja, chame do que quiser. Eu nunca senti isso e não sei como lidar, ou disfarçar. Parece que está me consumindo, faz com que eu me sinta podre por dentro por ter esse tipo de sentimento. Eu acabo agindo como um imbecil. Eu fico repetindo que fico feliz por meu amigo, mas... – Taylor tentou puxar o ar, mas ele pareceu descer espesso e ardente por seus pulmões, como inspirar um gás nocivo. Ele dobrou as pernas e usou os joelhos de apoio para seus cotovelos, escondendo o rosto com as mãos. – Ah, meu Deus... Eu sou um invejoso filho da puta. Eu queria estar no lugar do Sam! Mesmo querendo que ele também seja feliz e sabendo que ele o merece muito mais do que eu!

Dakota ergueu uma sobrancelha.

– Do Sam?

Taylor arregalou os olhos e virou o rosto para ela, apavorado.

– Sam está solteiro, não está? – Ela perguntou confusa. Com aquele relato, foi fácil entender que o novo médico era homossexual, mas não era momento para demonstrar surpresa com isso. Aliás, para ela aquilo era tão natural quanto um homem amar uma mulher. – Meu irmão Scott é gay também... Ele e Sam tiveram um rolo há alguns meses, mas não foi adiante. Desde então Sam está solteiro... Scott saberia se ele não estivesse. Acredite, ele saberia. – Garantiu. Usando seu dom de psicóloga, ela já havia escutado bastante seu irmão mais velho chorando as pitangas por causa de Sam.

Taylor desviou o olhar. O romance entre Sam e Damien realmente era bastante secreto. Talvez Damien não quisesse perder a fama de mulherengo. Ou apenas não estivesse pronto para sair do armário. Bem, os motivos não importavam, o que importava é que havia dado com a língua nos dentes enquanto desabafava. Acabou ficando em silêncio, sem saber como consertar aquilo, e Dakota entendeu que havia muita história que ela não conhecia ali.

Suspirando, ela colocou uma mão sobre o ombro de Taylor.

– Bem, isso também não é da minha conta. Eu só queria dizer uma coisa: não se martirize tanto. Amar alguém mexe com a gente de uma maneira inexplicável. Às vezes fazemos coisas que nunca achávamos que faríamos. Em outras, temos pensamentos egoístas, insanos e descontrolados. Amar não é algo tranquilo. Não quando há paixão envolvida. Amor e paixão juntos geram um redemoinho incontrolável nas pessoas. Há desejo de dominar, de possuir, de abraçar e beijar, de fazer o alvo desses sentimentos completamente nosso. Sentir essas coisas não te faz podre, Taylor. Só te faz humano. Talvez você nunca tenha se apaixonado dessa forma antes e não sabe muito bem como é... Mas acredite, você não está fugindo da regra. – Ela sorriu reconfortante, com um carinho nas costas do médico. – Agora basta você aprender a lidar com todos esses sentimentos. Entender cada um deles. E, se não há mesmo esperanças, deixá-los pegar carona com o vento das montanhas e lentamente esvanecerem. Deixará uma dorzinha onde eles haviam se cravado, mas outra pessoa aparecerá para plantar outra semente onde aquela foi arrancada. Mas agora... É melhor ter certeza das coisas antes de permitir-se sofrer e abrir mão do que sente. Nunca é bom tirar conclusões precipitadas das situações e das atitudes das pessoas, sem ter todas as informações ou confirmações. Deve ser assim com a medicina, não é? Não dá pra fazer o diagnóstico de uma doença sem antes fazer todo o exame e testes, e esmiuçar todas as suspeitas.

Taylor olhou para Dakota por um momento, incapaz de encontrar o que dizer. O que ela havia falado... Lhe deixava com ainda mais dúvidas e indagações, assim como mais confuso do que nunca. Porém, deixou seu coração muito mais leve, como se tirasse um peso enorme de suas costas e desafogasse seu peito. Ele sorriu para a garota e a abraçou apertado, agradecido.

– Você daria uma ótima psicóloga.

– Eu sei. – Ela sorriu.

XxxX

Taylor acordou revigorado na manhã de sábado. Ele já havia ligado para Sam, no dia anterior, e o loiro havia adorado a ideia de dar uma geral na casa de Damien. Charlie estava dormindo no quarto junto com o ruivo. A menina havia teimado de passar o final de semana junto com eles, e Carl e Dakota não se opuseram.

Depois de se vestir, Taylor foi para a cozinha e preparou um café da manhã bem gostoso para ele e Charlie (porque só Deus sabia quando Damien iria acordar), e depois pegou um pedacinho de papel e escreveu uma mensagem nele. Assim que tudo pronto, ele levou um pouco do café numa térmica, junto com uma xícara, até o quarto do ruivo.

Lá, encontrou Charlie dormindo junto com Damien. O ruivo deveria ter ficado com medo de rolar por cima da menina, porque estava dormindo meio encolhido no canto da cama, enquanto Charlie se espalhava por boa parte do colchão. Taylor riu com a imagem, achando-a um tanto adorável. Ele largou a térmica e a xícara, junto com o bilhete, no criado-mudo ao lado de Damien, e depois sentou-se no outro lado da cama, fazendo um carinho nos cabelos de Charlie.

A menina piscou preguiçosamente, soltando um bocejo.

– Quer ficar um pouquinho mais na cama? – Taylor sussurrou para a pequena. Antes de irem dormir, ela havia insistido que queria acordar cedo no outro dia.

Charlie piscou um pouquinho mais.

– Não... – Resmungou e, surpreendentemente, levou-se, esticando os bracinhos para pedir colo.

Taylor sorriu e a pegou nos braços, erguendo-se e saindo do quarto junto com ela.

– Preparei um café da manhã bem gostoso para você! – Taylor contou, o que fez a menina se sacudir pela curiosidade.

Damien tinha um sono pesado, mas como ficou preocupado com a possibilidade de achatar Charlie sobre o colchão no meio da noite, ele não dormiu lá muito bem e acordou com a voz de Taylor falando com a menina. Ele resolveu continuar fingindo que estava no vigésimo sono e, só depois de ter certeza de que os dois haviam deixado o quarto, foi que abriu os olhos. O clima entre ele e Taylor não estava dos melhores e o ruivo andava evitando qualquer contato muito direto.

Ele se sentou na cama e se espreguiçou. Não podia mais deixar que a casa ficasse uma zona como estava. Era necessária a existência de mais quartos extras limpos para eventualidades como essa de Charlie fazendo birra para dormir na casa do padrinho.

Sei... Casa do padrinho. Queria era ficar perto daquela bola de pelo!” Damien pensou enciumando.

Ele ia levantar quando viu a garrafa de café e um bilhete sobre o criado mudo. Franzindo a testa, ele pegou o papel e sentiu o coração se aquecer e se encher de esperança ao ler o que estava escrito: “Desculpe pela forma como agi essa semana. Eu não estava nos meus melhores dias. Estamos bem?”.

Sem que ele percebesse, seus lábios acabaram deslizando em um sorriso. Um sorriso que ele não havia conseguido abrir nenhuma vez naquela semana.

Se sentindo revigorado, Damien saltou da cama e foi até o banheiro, jogou água no rosto e escovou os dentes. Voltou para o quarto, pegou a garrafa e foi correndo para a cozinha. Ao entrar, não se segurou e acabou indo até Taylor e dando um beijo estalado na bochecha do rapaz. Sua vontade era de dar um beijo na boca, mas... Charlie estava na cozinha os observando atentamente e um beijo na boca depois daquela semana estranha com certeza faria tudo ir por água abaixo de novo.

– Bom dia! – Disse animado. Virou para a afilhada e deu um beijo estalado na bochecha dela também. – Bom dia! – Disse para ela.

Taylor colocou a mão sobre a bochecha após o beijo, enquanto seu queixo caía uns centímetros. A forma como seu coração começou a bater feito um cavalo de corridas o deixou bastante desorientado também, enquanto suas bochechas esquentavam perigosamente. Bem, aquilo certamente significava que eles estavam bem, certo? Taylor acabou sorrindo abertamente, mas rapidamente se deu conta do que fazia e se voltou para a geladeira, para pegar a geleia de uva que Charlie havia dito que gostava.

– Você acordou milagrosamente cedo. – Taylor comentou, enquanto Fubá circulava pela cozinha, parecendo mais agitado do que nunca. Ele pulou nas pernas de Damien e começou a latir, parecendo pedir colo.

– Padrinho, ele quer carinho! – Charlie avisou.

– Eu não acordei de tão bom humor assim para pegar essa bola de pelo. – Damien resmungou enquanto ignorava solenemente o cachorro. – Fui dormir cedo por causa da Charlie. Aí acordei cedo. – Mentiu. Quer dizer, meio mentiu. Ele foi dormir cedo, mas ficou se revirando na cama e quando acordou ainda estava com sono, mas o bilhete de Taylor fez com que se sentisse ligado numa tomada de 200 volts. – Vocês vão mesmo limpar a casa hoje?

– Vamos! Sua casa é muito suja, padrinho. – Charlie falou, levando um pedacinho de bolo à boca enquanto olhava inocentemente para o ruivo.

Estou levando puxão de orelha de uma menina de três anos!” Damien pensou exasperado.

Depois, Charlie deu o resto do pedaço do bolo para o Fubá, que prontamente se esqueceu da ignorada que recebeu de Damien.

– Sam deve chegar a qualquer minuto. Você não se importa não é? – Taylor perguntou, retornando à mesa e se sentando. – Ontem enquanto jogava videogame com os gêmeos não entendi se tinha falado “tudo bem, podem limpar” ou “por Deus, vão se ferrar.” Desculpe, Charlie. – Taylor pediu, colocando a mão sobre a boca após o ‘palavrão’.

Charlie riu cúmplice junto com Taylor.

Damien girou os olhos enquanto se servia de uma boa dose de café.

– Eu estava mesmo pensando em limpar... Mas já que vocês fazem taaaanta questão, podem limpar. – Ele respondeu. – Só não façam bagunça. Se bem que... Acho que é impossível deixar pior do que já está.

– Isso é verdade. – Taylor concordou com um ar solene, fazendo Charlie rir e dar mais um pedaço de comida para o Fubá.

– A casa do padrinho parece mal-assombrada. – Charlie arregalou os olhos.

Nesse momento, a campainha tocou. Deveria ser Sam, que avisou que chegaria cedinho, pois, segundo ele, para colocar aquela casa nos trinques, eles teriam de usar o máximo de tempo disponível e ainda corriam o risco de não conseguir.

O ruivo tomou um gole do café e pensou no que Charlie disse enquanto Taylor se levantava para ir atender a porta. Quando era pequeno, ele também acreditava que aquela casa tinha algo de estranho e muitas vezes havia corrido para o quarto da mãe para dormir abraçado junto a ela. Depois que ela se foi... Bem, o ruivo não queria pensar nisso; não queria pensar em seus avôs, senão seu bom humor acabaria indo para o espaço.

Sam entrou na cozinha daquele jeito espalhafatoso, fazendo com que Damien voltasse ao presente. Ele ficou surpreso ao ver o filho fujão de John acompanhando o loiro.

– Você conseguiu convencer o John a te deixar trazer o menino? – Ergueu a sobrancelha enquanto Davi se escondia atrás de Sam.

– Bem, eu não tive muita parte no convencimento. Hoje pela manhã John apareceu na minha porta junto com o baixinho aqui, falando que ele havia insistido para passar o final de semana comigo. – O loiro encheu o peito cheio de orgulho e bagunçou os cabelos de Davi, que ficou com as bochechas avermelhadas. – Não precisa ficar com vergonha, Davi. Aquele ruivo ali é grande e feio, mas não morde.

Taylor não conseguiu suprimir a risada enquanto voltava a sentar.

Fubá latiu e correu para Davi, se sacudindo todo e ficando de barriguinha para cima, implorando por carinho. Davi se ajoelhou e começou a acariciar o filhote, com um sorrisinho nos lábios. Charlie fez bico, parecendo ciumenta com a cena.

– Podem sentar e comer, eu fiz comida a mais porque sabia que você viria. – Taylor falou.

– Hey! – Damien reclamou emburrado. – Eu não sou feio! Grande sim, mas feio não. Não sou feio, né Charlie? – Perguntou manhoso para a menina.

– Não, o padrinho é o mais lindo! – Charlie falou, mas não foi lá com muita atenção porque ela continuava querendo atrair a atenção de Fubá de volta para ela.

– Viu! Criança é sincera! – Damien estufou o peito, e tanto Taylor quanto Sam rolaram os olhos para aquilo.

Sam pegou Davi no colo e o levou até a torneira, para que ele lavasse as mãos. Depois se sentou à mesa colocando o menino ao lado de Charlie.

– Estou mesmo morto de fome. – Sam falou sem cerimônia, pegando uma das torradas.

Davi olhou para Charlie.

– Oi... – Ele murmurou.

– O Fubá gosta mais de mim. – Ela respondeu cruzando os braços.

Damien estava tomando o café e começou a tossir, engasgado, com a fala da afilhada.

– Charlie! – A repreendeu. – O Davi é visita! Você não pode falar assim com ele. A bola de pelo gosta dos dois. E se for pra ele gostar mais de alguém... Gosta mais de mim! Olha como ele não larga do meu pé!

Taylor escondeu o rosto entre os braços com a fala do ruivo. Ele era pior do que todas as outras crianças juntas!

– Mentira! Ele gosta mais de mim! – Charlie teimou, geniosa.

– Fubá gosta de todo mundo igualmente, crianças. Até desse cabeça de cenoura convencido. – O médico apontou para o ruivo com o polegar. – Todo mundo vai poder brincar com o cachorro depois da faxina.

– O Damien anda tão carente que fica querendo se achar amado até pelo cachorro. – Sam cantarolou falsamente inocente, implicando com o ruivo por conta do médico.

– Carente? Eu? – Damien perguntou. – Só não te mostro a carência por causa das crianças. – Provocou em tom de brincadeira. Se as crianças não estivessem por perto daria uma prensada em Taylor na frente de Sam pra ele ver a tal carência. Ok, ele não faria isso, mas não custava nada sonhar.

– O que é carência? – Charlie perguntou, errando um pouquinho o sotaque da palavra.

– É querer carinho. – Davi explicou. Aparentemente, não havia se chateado com a demonstração de ciúmes da menina quanto ao cachorro. Seu pai dizia que ele já era um menino crescido, e meninos crescidos precisavam ser mais maduros.

– Padrinho quer carinho! Eu dou carinho pro padrinho! – Charlie conseguiu descer da cadeira e correu pro colo do ruivo.

Taylor se levantou também, levando seu prato para a pia. Ele sabia que escutaria aquele tipo de provocação entre Damien e Sam ao convidar o loiro para passar o final de semana ali. Porém, era justamente essa a razão do convite. Ele precisava se acostumar com aquilo e entender o que realmente se passava dentro de si. As palavras de Dakota voltaram-lhe à mente, acalmando-o, enquanto respirava fundo.

– Eu vou ir caçar quais produtos de limpeza, vassouras e outras coisas têm nessa casa. – Avisou, saindo da cozinha. É, ele tinha de se acostumar, mas também não seria de uma hora para outra. Mas ele esperava conseguir entregar seus sentimentos ao vento até o final de domingo, se tudo corresse bem. Afinal, nem ele entendia direito o que eram esses sentimentos. Amor? Paixão? Ciúmes? Inveja? Ele e Damien se conheciam há uns três meses! Isso era mesmo possível?

Depois de comerem, as crianças ficaram distraídas com Fubá, então Damien aproveitou para se aproximar de Sam e mostrar o bilhete.

– Ele deixou essa manhã na minha cabeceira. Isso tem que dizer alguma coisa, né? – Perguntou ansioso.

Sam leu o bilhete.

– Isso parece dizer que ele quer que o clima fique bom. E que alguma coisa o chateou durante a semana. Eu me pergunto o que foi... – Sam acariciou o queixo. – Quem sabe ele percebeu que gosta de você e está achando que você é hétero? Por isso não queria que você ficasse tocando muito... Sabe, eu falo por experiência própria. Quando eu tinha treze anos, me apaixonei por um dos garotos héteros da escola. Ele me tratava bem e vivia sendo fofo comigo, mesmo com todo mundo suspeitando que eu fosse gay, mas isso apenas me machucava mais, porque doía receber apenas uma ínfima parte do que eu realmente queria.

Damien levou uma das mãos aos cabelos e os bagunçou.

– Ah, isso é tão frustrante! – Exclamou irritado. – Eu queria o poder de ler a mente dos outros! – E baixou o tom de voz para continuar falando já que sua voz alterada atraiu a atenção das crianças. – Como eu vou saber se ele não ficou foi com nojo de mim? Eu nunca me senti tão inseguro na vida, Sam! Tem horas que eu sinto como se tudo aqui – Colocou a mão sobre o peito. – fosse me sufocar!

– Credo, assim você até eu fico com dúvidas sobre o meu gaydar! – Sussurrou Sam exasperado. – Vou lavar a louça. Me ajude a tirar a mesa. E vamos ver como esse final de semana rola. Ficarei de olho nas reações do Taylor quando você estiver por perto. – Ele suspirou. – Tente deixar toda essa insegurança de lado. Você é um cara incrível, Damien. Sei que Taylor já deve ter percebido isso.

Damien decidiu não insistir no assunto. Era óbvio que ele se sentia inseguro. Era Taylor quem era incrível. Ele conseguiu superar o acidente em que se envolveu e estava reconstruindo a vida. Ou melhor, estava tentando reconstruir, mas Damien sabia que faltava uma parte e ele ajudaria Taylor a se reconciliar com o irmão. Só estava um pouco difícil localizar o garoto. Mas, de qualquer forma, Taylor não se deixou consumir pela dor, ao contrário do ruivo que não conseguia deixar o passado para trás e esquecer o sofrimento que passou quando a mãe faleceu e os avôs o deixaram vivendo como um intruso. Era doloroso demais e ele não conseguia sequer pensar muito no assunto.

Ele passou a ajudar o loiro com a louça, pois sua mente estava novamente indo para pensamentos que decididamente o ruivo não queria ter naquele momento. Sam começou a lavar, Damien a secar e Charlie e Davi se prontificaram a empilhar as louças limpas sobre a mesa para que depois Damien as guardasse nos armários.

– Não vão derrubar. – O ruivo advertiu a afilhada e Davi. O menino já parecia um pouco mais à vontade com eles.

Depois Taylor voltou com uma lista de coisas que estavam faltando e que Damien teria que comprar para que eles pudessem fazer a faxina direito.

– Vou aproveitar e comprar logo metade das coisas no supermercado. A dispensa tá meio vazia... – Disse sem jeito ao lembrar que provavelmente não havia nada para que as crianças fizessem um lanche mais tarde.

– Ótimo! Eu fui fazendo uma lista de compras durante a semana também. Você pode levar. – Taylor avisou. – Nós vamos começando enquanto isso. Preparados para a aventura?

– Sim! – Charlie exclamou, pegando na mão de Davi. – Vamos viajar pelo mundo da sujeira da casa do padrinho! – Ela esticou um braço para o alto.

Sam gargalhou.

– Essa aí sabe bem onde se meteu. – O loiro zombou.

Damien fez uma careta enquanto escrevia uma nota mental de nunca, nunca, nunca mais deixar a casa chegar naquele estado outra vez. Ele se aproximou de Taylor para pegar a lista e fez questão que seus dedos roçassem nos dele ao pegar o papel.

– Vou tentar não demorar. – Disse ao médico.

Taylor se arrepiou com o toque e com o tom rouco do ruivo. Deuses, agora tudo que Damien fizesse ele acharia sexy? Ele olhou rapidamente para Sam ao pensar nisso, sentindo-se culpado, mas o loiro estava brincando com Fubá junto com as crianças e nem deu bola pros dois.

Depois que Damien saiu, os quatro começaram a “trabalhar”. Bem, no início o que mais aconteceu foram brincadeiras. Charlie e Davi mais aprontaram juntos do que ajudaram, o que já era esperado. Fubá abocanhou uma das toalhas para limpar o chão e saiu correndo com ela pela casa, jogando pingos de cera e água para todos os lados. Sam quebrou um vaso sem querer e Taylor abriu uma porta que na verdade era um armário e mil coisas caíram lá de dentro, espalhando mais pó por tudo que era canto.

– É impressão minha ou estamos piorando as coisas? – Sam perguntou, enquanto Charlie passava correndo por eles, seguida de Davi, os dois brincando de pega-pega junto com Fubá. Charlie pegou uma mini-vassoura e montou nela, fingindo erguer voo e, sem querer, bateu com o cabo da vassoura num balde, derramando água no chão.

Davi passou por ali e escorregou, caindo de bunda e molhando as calças, já Fubá sapateou pela poça e começou a beber aquela água não lá muito limpa.

– Erm... Talvez? – Taylor perguntou sorrindo culpado.

Mas as coisas ainda viriam a piorar. Inesperadamente, um enorme rato saiu do armário que Taylor havia aberto.

– AAAAAAI, UM RATO! – Sam berrou e correu do bicho.

Charlie gritou também e saiu correndo junto com o loiro. Fubá começou a latir para o rato, mas quando o bicho avançou contra o cachorro, tanto Fubá quanto Davi também correram, Fubá ganindo e Davi gritando.

Ok, Taylor era o cara mais velho dali. Deveria ser ele a lidar com o bicho. Se livrar do rato de maneira digna e máscula. Ele sabia disso. Mas havia um problema... Taylor tinha fobia de ratos. Ele podia lidar com aranhas, baratas, besouros, o que fosse. Mas ratos, não, ratos definitivamente eram o seu ponto fraco. Então quando o bicho mudou de direção e correu contra seus sapatos, Taylor jogou a vassoura contra ele e correu para a sala, subindo aos tropeços num dos sofás junto com o resto da tropa.

– Você tem que fazer alguma coisa!!! – Sam exclamou para ele. – Aquele monstro vai comer o Fubá!

– Eu vou morrer. – Taylor murmurou, encolhendo-se e abraçando uma almofada. – Eu não acredito que tem até um rato dentro dessa casa!

– AAAH! ELE TÁ ALI! – Charlie berrou, apontando para a entrada da sala, o que fez todos berrarem ao mesmo tempo.

John atravessava o jardim da casa de Damien em passos não lá muito firmes e bem contrariados. Depois que deixou Davi na casa de Sam e voltou para a sua, percebeu que o filho havia se esquecido de levar a escova de dentes. Como o menino havia se esquecido de colocar uma das coisas mais importantes dentro da mochila? O homem bem sabia que não deveria ter deixado Davi arrumar sozinho a própria mochila, mas quis que fosse assim para que o filho começasse a ter noções de responsabilidade. John certamente o deixaria se virar se tivesse esquecido qualquer outra coisa, mas a escova de dentes estava totalmente fora de cogitação.

Ele estava pensando no que diria ao menino sobre ser mais cuidadoso quando ouviu berros vindos de dentro da casa. John arregalou os olhos e sem pensar duas vezes correu até lá, abrindo a porta e dando de cara com aquela zona armada: todos estavam pulando em cima do sofá enquanto gritavam e um rato enorme zanzava de um lado para o outro da sala.

– Que diabos?! – John não conseguiu não xingar ao ver aquela cena. Ele avançou, pegou uma vassoura pelo meio do caminho e começou a correr atrás do rato para matá-lo.

A gritaria apenas aumentou enquanto John tentava acertar o bicho. Milagrosamente, o moreno conseguiu acabar com o animal, mas a visão de um rato morto esmagado no piso não agradou a nenhum dos que haviam se refugiado em cima do sofá. Charlie e Davi soltaram exclamações de nojo, Taylor pareceu ficar verde e escondeu o rosto na almofada, implorando para que John se livrasse “do corpo”.

Já Sam entreabriu os lábios, olhando chocado para o rato morto, seus olhos reviraram e ele perdeu a consciência, desabando em direção ao chão.

John, ao perceber que Sam estava perdendo os sentidos, correu até o sofá e conseguiu amparar o loiro, segurando-o em seus braços e evitando a queda.

– Samson! – O sacudiu, tentando fazer com que ele voltasse a consciência. – Sam! – Exclamou em um tom mais alterado e totalmente sem ar, preocupado e não percebendo que os outros iriam notar isso. Ou nem tanto já que ainda estavam em estado de choque pelo “corpo” estendido no meio da sala.

Sam abriu lentamente os olhos, ainda meio tonto, mas ofegou baixinho ao se ver no colo de John, com o rosto dele tão perto. Suas orelhas queimaram e seu corpo se agitou como sempre acontecia quando ele o tocava.

– E-Eu estou bem. – Murmurou.

John não conseguiu conter o suspiro de alívio quando o loiro, ainda trêmulo, abriu os olhos e falou com ele. O olhou por alguns segundos, certificando-se de que ele estava bem, antes de perceber o que estava fazendo. John praticamente largou Sam no chão e foi recolher o corpo do rato e dar um fim dele.

Quando voltou, já foi logo reclamando:

– Se eu soubesse que você iria trazer o meu filho para um chiqueiro não o teria deixado com você! – Resmungou para Sam.

– Ai, por favor! – Sam falou se erguendo e alisando a camiseta para retirar alguma ruga invisível do tecido. – Você leva seus filhos para um rancho que deve ser um chiqueiro de tão sujo, com bosta de cavalo e vaca para tudo que é lado, e quer reclamar disso daqui? Me poupe, John!

– Você tem uma ideia completamente equivocada de como é no campo! – John retrucou mal humorado.

– O Sam podia ir pra o rancho com a gente pra ver como é, pai! – Davi pulou do sofá e correu até o pai. John arregalou os olhos e encarou Sam sem saber o que dizer. Ele absolutamente não queria ser obrigado a passar um final de semana com o loiro.

Sam percebeu o pânico nos olhos de John. Ele também não gostaria de passar um final de semana junto com o moreno, não se realmente se importasse com sua sanidade e bem-estar. Mas Sam já estava acreditando que era um tanto masoquista e, principalmente, tinha um prazer mórbido em irritar John.

– Ah, seria mesmo fantástico! Eu iria adorar conhecer o rancho de vocês. – O loiro abriu um sorriso forçado, cheio de falsidade, para John, desafiando-o silenciosamente a negar um desejo do filho. Isso o fez sentir-se podre, por usar uma criança dessa forma, mas John parecia despertar o pior de si em alguns momentos.

– Nós conversamos sobre isso outra hora, Davi. – John disse não querendo cortar a ideia de uma vez. Mas ele bem sabia que, se o menino insistisse no assunto, ele não conseguiria dizer não. Era incrível como Davi ficava feliz quando Sam estava por perto. Totalmente o oposto do pai. – Você tem certeza de que quer passar o final de semana nesse lixão?

– Nós vamos limpar, pai. Vai ficar limpinho que nem o meu quarto! – Davi sorriu. – Agora tá parecendo o quarto do Teo.

– Talvez seja melhor eu ficar até que o desocu... Digo, o Damien volte. Pode aparecer outro rato. – John disse um pouco incerto.

Taylor, que havia se recuperado do mal-estar, levantou-se do sofá e olhou seriamente para John.

– Por favor, eu preferiria que você não ficasse. Você e Damien brigaram no outro dia, e é melhor evitar outra confusão. Mas eu agradeço por ter ajudado com o rato. – Falou. Também era verdade que não o queria ali porque não suportava homofóbicos como ele. Não queria um deles sob o teto em que morava.

Sam, notando o clima pesado e com medo que John retrucasse com alguma grosseria, pegou o moreno pelo braço, apertando-o de leve.

– Eu te acompanho até a porta. – Disse.

John puxou o braço não suportando o toque de Sam. Era horrível senti-lo e ser o máximo que poderia ter.

Sam o olhou entre a raiva e a mágoa, e caminhou em direção à saída, esperando que John o seguisse.

O moreno foi até a porta em passos pesados, tentando não se arrepender da forma como agia. Ele tentava se convencer de que era o melhor a ser feito. Não podia permitir que seu coração tivesse alguma esperança de ter algo com Sam. Isso não era possível.

– Amanhã à noite vou buscar o Davi na sua casa para não ter que vir aqui. – Disse em um tom seco.

– Faça como quiser. – Sam falou igualmente seco e abriu a porta, dando passagem para John.

Ele observou o loiro se afastar e se virou para Davi que havia o seguido até a porta.

– Se comporte. – Falou para o menino.

– Pai... – Davi começou a falar em um tom incerto e isso nunca era algo bom. John sabia que viria alguma “bomba” a seguir. – Você ficou todo preocupado com o Sam... Por que trata ele mal depois?

John engoliu em seco e desviou os olhos do filho.

– Eu não fiquei preocupado com ele. – Mentiu.

Os lábios do pequeno começaram, lentamente, a tremer, e os olhos se tornaram mais úmidos que o normal.

– Mentiroso! – Ele gritou e correu de volta para dentro da casa. John deu um passo à frente, pronto para seguir o filho, mas Sam colocou uma mão sobre o peito dele.

– Você ir atrás dele agora apenas piorará as coisas. – Murmurou, mas firme.

John decidiu não discutir mais. Apenas deu um olhar para o filho e suspirou.

– Cuide dele. – Pediu antes de sair.

Sam o observou por alguns segundos, sentindo aquela típica dor que sempre ficava ruminando em seu peito após alguma interação com John. Suspirando também, ele fechou a porta, recolocou um sorriso em seu rosto e foi tentar animar o filho do idiota que não conseguia parar de amar, menino por quem também tanto havia se afeiçoado.

Notas finais
Melhor diálogo do capítulo: - Fuba gosta mais de mim. - Não. Ele gosta mais de mim. - De mim! - Não! De mim!!!! E o Taylor lá tendo que aguentar a birra das crianças hauhauhauahuhauhua Esse Damien. A história do rato foi baseada em um fato real... Eu: "Mila, apareceu um rato aqui em casa. Meu pai saiu correndo atrás dele com uma vassoura enquanto eu e a minha mãe corríamos pra o lado contrário"... Mila: "Isso tem que entrar na história! Sam e Taylor gritando por causa do rato" ahauhauhauhauhauhuahua E, por favor, não batam no John. O coitado é confuso, mas não é uma má pessoa. Tenho certeza que o Cupido Davi vai dar um jeito nele xDD Beijos!!! Bia Yuuji.