Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
7 Uma coisinha diferente
Notas iniciais
Taylor voltou para a casa de Damien apenas ao final da tarde, já que havia almoçado no restaurante de Camille, algo que vinha se tornando uma rotina. Dali a pouco, realmente começaria a chamá-la de tia. Com isso, pôde aproveitar para checar Charlie após o remédio para a febre e a primeira dose do antibiótico. Felizmente, a menina dormia e tinha diminuído a temperatura no início da tarde.
Ele havia tomado uma decisão ao longo do dia e, enquanto caminhava de volta para casa, pensava em como diria àquilo ao Damien. Bem, o melhor era ser objetivo. Damien havia deixado bastante claro o que pensava sobre os médicos e, consequentemente, sobre si.
Assim que chegou em casa, foi até a cozinha para beber um copo de água. Levou um susto com o prato quebrado com sinais de sangue. O ruivo deveria ter se machucado lavando a louça. Desastrado... Taylor pensou e chegou a sorrir, mas logo seu sorriso esmoreceu. Bebeu um pouco de água e depois rumou para seu quarto e largou suas coisas em cima da escrivaninha. Damien deveria estar no quarto dele, havia percebido pelas luzes acesas atrás da porta ao lado. Teria de bater à porta dele, pois não queria esperar para falar o que tinha entalado na garganta até o outro dia, em que talvez sequer encontrasse Damien acordado.
Damien ouviu os barulhos pela casa indicando que Taylor havia chegado. Ele esperou alguns minutos antes de sair para o corredor e foi, nas pontas dos pés e sem fazer barulho, até a porta do quarto do médico. Ia abrir uma brechinha para ver se ele havia encontrado o presente, mas Taylor escancarou a porta do quarto justamente naquela hora e o ruivo quase caiu de cara no chão.
– Eu... Preciso falar com você. – Taylor disse, segurando um dos braços e desviando o olhar.
– No meio do corredor? – Damien perguntou tentando parecer indiferente, mas com o coração quase saindo pela boca por causa do susto.
– Pode ser na sala então. – Taylor seguiu para lá, já que era um lugar neutro e, por assim dizer, o local onde ‘tudo começou’. Damien o seguiu sem dizer palavra e, assim que estavam ali, Taylor se voltou para o ruivo e adquiriu o seu ar mais sério. – Queria te agradecer por ter me deixado ficar aqui todos esses dias. Amanhã pretendo me mudar para a Light Star e ficar lá até a reforma no segundo andar da clínica terminar. – Disse, referindo-se a uma das duas pousadas de Canmore. – Desculpe qualquer inconveniente que minha estadia possa ter causado. – Encarou Damien por um segundo. Seu peito apertou e o médico achou que era melhor dar o assunto por terminado. – Bem, é isso. – Tentou passar pelo ruivo para voltar ao quarto.
Damien abriu a boca, indignado, e segurou o médico com força pelo pulso.
– Como assim “desculpe qualquer inconveniente que minha estadia possa ter causado”? Que raio de jeito formal é esse de falar? – Damien perguntou irritado, apertando o pulso do médico com firmeza, como se aquele ato pudesse trazer alguma razão a ele e o fizesse desistir daquela ideia absurda. – Está falando comigo como fala com os seus pacientes! Eu não sou seu paciente pra receber tratamento formal!
– Bem, imagino que é assim que uma pessoa sem sentimentos age, não é? – Taylor tentou. Ele realmente tentou. Mas seu autocontrole não era de ferro e uma hora ele iria explodir. – Você com certeza deve preferir não morar sob o mesmo teto que um médico sem coração, que não está nem aí pros seus pacientes! – Seu tom subiu vários decibéis, e ele puxou o pulso, soltando-se de Damien. – Eu, com certeza, não quero morar sob o mesmo teto que alguém que pense isso sobre mim. – Esclareceu, mirando o ruivo com raiva.
Damien trincou os dentes enquanto passava a mão nos cabelos os deixando completamente fora de ordem. Para piorar, o pano que havia enrolado na mão cortada se soltou e caiu no chão, e ao passar a mão no cabelo acabou por sujá-los de sangue. Talvez não devesse ter ido escrever já que obviamente digitar piorara o ferimento.
Aquilo estava virando uma bola de neve.
– Noventa por cento do tempo eu nem lembro que você é um médico! Você não age como os médicos que eu conheço. Por isso eu gosto de você. – Disse as palavras de forma atropelada, sem nem ao menos pensar nelas direito. – Mas me doeu ver a Charlie daquele jeito e você falar conosco como se não se importasse com o sofrimento dela! Eu ainda nem entendi o que ela tem! E eu já te disse que não tenho nada contra você. É contra os médicos em geral! – Com certeza dizer isso não iria fazer Taylor se sentir melhor já que ele era um médico e estava na categoria “médicos em geral”.
Taylor olhou para a mão de Damien. Aquilo o deixou angustiado, e ele sentiu aquela compulsão de puxar Damien para seu quarto para que pudesse lavar aquilo com antibiótico e depois fazer um curativo decente, mas se segurou.
– Claro, quando você se esquece que sou médico, você vai com a minha cara. Mas adivinha, Damien, eu sou médico até a unha do meu hálux! – Exclamou e, frente à sobrancelha erguida do ruivo, se corrigiu corretamente. – Dedão. – Pigarreou. – Eu quis virar médico desde meus dez anos. Batalhei meu sangue por isso. E sabe por quê? Porque eu queria ajudar as pessoas, e continuo querendo. Isso é minha vida. E se você acha que eu nunca me importei em dar uma notícia ruim a alguém... Em chegar numa mãe e dizer que o filho dela terá sequelas neurológicas pelo resto da vida por causa de uma droga de doença genética que não tem cura, ou se nunca sofri ao contar a uma esposa, ou um filho que o pai tem câncer e vai morrer em poucos meses, ou chorei de noite por ter perdido um paciente, bem, então você pode continuar achando que todos os médicos são monstros, ou máquinas que tratam as pessoas de maneira mecânica. Isso é com você. – Deu as costas a ele e caminhou dois passos, mas depois parou e se virou novamente. – E só para que você fique sabendo, a doença da Charlie é uma infecção bacteriana das amígdalas. Eu sempre falo os nomes específicos das doenças porque é importante que as pessoas saibam o que tem em termos médicos, pois no futuro essa informação pode ser importante. Mas estou sempre aberto a dúvidas. Carl me fez várias perguntas no trajeto até a clínica e eu respondi todas. Porque eu me importo. – Disse. – Eu me importo... – Pareceu murmurar as últimas palavras apenas para si mesmo, fraquejando de leve. Certas memórias voltaram a lhe afligir, e Taylor se virou rápido e praticamente correu de volta para seu quarto. – E TRATE LOGO DESSE CORTE! – Gritou antes de bater a porta e se trancar lá dentro.
Damien ficou no meio da sala olhando abismado para o corredor por onde Taylor praticamente havia corrido. Ok, ele admitia: havia sido um puta idiota. Deveria ter seguido o conselho da tia Camille e explicado o motivo para não gostar de médicos, mas agora o estrago já estava feito e a porcaria da bola de neve estava rolando que nem uma louca montanha abaixo. Mas pelo menos Taylor havia ficado tão enfurecido que se esqueceu de insistir, por enquanto, na história de sair de lá e ir para uma pousada. O ruivo sabia que Taylor não sairia da sua casa na surdina e sem falar com ele. E provavelmente quando ele fosse insistir outra vez no assunto estariam mais calmos e Damien poderia argumentar melhor.
– Cuidar da porra do corte… – Murmurou irritado. – O único médico da cidade no momento me odeia. Não é como se eu pudesse pedir ajuda pra ele. – Continuou resmungando enquanto ia até o banheiro para enfiar a mão embaixo da torneira outra vez.
Ele suspirou e torceu para que amanhã as coisas fossem um pouco melhores.
Taylor encostou as costas na porta e escorregou até o chão, colocando as mãos na cabeça, como se sentisse que ela iria explodir. As lágrimas caíram por seu rosto, lágrimas que ele havia segurado durante todo o dia.
Ele se lembrou daquele dia. Da forma como o carro girou rápido e desgovernado com ele, seu irmão e sua cunhada dentro, após serem atingidos por outro carro, cujo motorista dirigia bêbado. Seus ouvidos zuniram assim como naquela noite. Eles estavam sorrindo e rindo segundos antes que acontecesse. A forma como Emily sorria era linda. Era a mulher que seu irmão amava, uma mulher linda, forte e cheia de vida. Era também sua amiga.
Suas mãos ainda carregavam na memória o modo como haviam perdido o controle do volante. E seus ouvidos a maneira como seu irmão e Emily gritaram, e a forma como seu próprio grito se perdeu em meu ao barulho que o carro fez ao capotar. Lembrou-se do pânico ao ver seu irmão ensanguentado e aparentemente desacordado, e Emily gemendo a alguns metros de distância, tendo sido atirada para fora do automóvel em meio àquela loucura. Lembrou-se de checar se seu irmão estava ainda vivo, com lágrimas em seus olhos. Sua cabeça doía tanto naquela hora, provavelmente havia batido contra alguma coisa enquanto o carro girava.
Suas mãos tremiam e sua voz saiu chorosa ao chamar pelo irmão.
“Emily...” Foi a única coisa que Timothy conseguiu murmurar com a pouca consciência que tinha, e Taylor se lembrou de como rastejou para fora do carro, pegando o celular para ligar para a ambulância.
Também se lembrou de como falhou em manter Emily viva até que a ajuda chegasse.
Ele permaneceu chorando por vários minutos, encolhendo-se cada vez mais, abraçando seus joelhos e escondendo o rosto entre os braços. Somente quando estava exausto é que se levantou e foi até a cama. Viu sobre o colchão um pacote de presente que não estava ali mais cedo. Com os olhos inchados, Taylor o abriu e viu o relógio de bom gosto, e provavelmente bem caro, que havia dentro da caixinha.
– Damien... – Murmurou ao se lembrar de tia Camille falando de que Damien costumava dar presentes como forma de pedir desculpas.
Chorou um pouquinho mais depois disso, e adormeceu sobre a cama com roupas e tudo.
XxxX
Damien não viu Taylor no dia seguinte, nem no seguinte e muito menos no outro. Ele meio que estava com medo de encontrar o médico e ele vir de novo com aquela história de sair de lá e ir para um hotel. O ruivo realmente não queria que ele fosse. E por isso o evitou vários e vários dias para não ter que conversar com ele outra vez. Era meio estranho porque viviam na mesma casa e não se viam. Damien acordava tarde e Taylor já tinha saído, mas o ruivo sempre encontrava o bule de café esperando por ele. Depois ele ia para a academia, passava no restaurante da tia Camille, pedia para embrulhar a comida para viagem e comia em casa escondido no quarto.
Em um desses dias, Carl e Charlie apareceram para agradecer ao médico pelo tratamento, mas Taylor já havia ido para a clínica. Por alguma razão que Damien desconhecia, Charlote estava de péssimo humor e deu um chute na canela do padrinho quando ele tentou segurá-la no colo. Ela foi repreendida pelo pai e só chorou dizendo que queria ver o médico bonzinho.
A mão ferida ficou boa. Damien a lavou todos os dias e manteve-a enfaixada. Já não doía mais e ele estava conseguindo escrever normalmente. Seria um baita problema se ele atrasasse os episódios. A última coisa que ele queria era que Gabrielle, a sua editora, aparecesse na porta da sua casa surtando e o deixando maluco por tabela. Na última vez em que ela fez isso, o ruivo praticamente jogou a mala da morena no outro lado da cidade enquanto mandava-a não aparecer nunca mais e que ele iria se aposentar e não escreveria mais porcaria nenhuma. Depois eles fizeram as pazes, claro, mas foi uma situação bem estressante.
O ruivo também passou no prédio onde ficava a clínica, e os trabalhadores que ele contratou para reformar o prédio disseram que em quinze dias a obra estaria pronta. Damien os pagou para estragar o encanamento e atrasar a obra o máximo que pudessem. Eles o olharam com uma cara de “O senhor é doido, mas ‘tá pagando então tudo bem”. Damien não deixaria que Taylor saísse tão cedo de sua casa. Ainda mais estando um clima tão ruim entre os dois.
Naquela tarde, Damien andava pelo centrinho de Canmore, olhando as lojas e pensando se deveria comprar outro presente para Taylor. Talvez ele não tivesse gostado do relógio que o ruivo havia dado no dia da briga. Ele estava olhando uma vitrine quando alguém parou ao seu lado. Num primeiro momento, Damien não prestou muita atenção e, quando olhou outra vez, quase saltou de susto ao ver que era Sam elétrico como sempre.
– Caramba! – Damien exclamou levando uma das mãos ao peito. – Não para assim do lado dos outros. Parece assombração chegando de mansinho!
– Só se for um arraso de assombração. – Sam jogou os cabelos compridos e dourados por cima do ombro. – Mas assombração quem está virando é você! Não te vejo desde aquela noite, e o Taylor praticamente me ignora quando pergunto de ti! Vocês brigaram?
– É, meio que brigamos... Eu falei coisas não muito legais – Damien encolheu os ombros. – Estou pensando em comprar essa caneta tinteiro pra ele. Será que ele vai gostar? Já comprei um relógio, mas acho que ele não gostou.
Sam deu um tapa atrás da nuca de Damien, fazendo o ruivo soltar um som de indignação.
– Pare de achar que vai resolver todos os seus problemas comprando as pessoas com presentes! – O loiro exclamou estafado. – Se tem tanta dificuldade de conversar como um adulto e pedir desculpas, pode ao menos convidá-lo para sair. Aquele lá anda trabalhando feito um doido desde que chegou. Começa de manhã cedo, almoça correndo, e depois fica até o final da tarde. E sempre está com cara de cansado porque fica estudando até tarde. Até eu sei isso, e nem moro com ele. Por que você não o leva para conhecer as atrações turísticas das redondezas? Algum dos lagos, montanhas ou parques... – Sam sugeriu, colocando as mãos na cintura.
– Nós não temos nos topado em casa ultimamente. Quando ele sai, eu ‘tô dormindo, e quando ele volta, eu ‘tô trancado no meu quarto. – Ele quase disse “escrevendo”, mas se freou a tempo. – Eu não estou tentando comprar ninguém com presentes... E não sei se ele vai querer sair comigo. Eu realmente disse coisas ruins.
– É claro que ele vai! Taylor está precisando disso, e não vai se negar. Se quer saber, ele parece mais tristinho ultimamente, talvez justamente porque vocês não andam se falando. – Sam piscou um olho com malícia. – E se vocês saírem, se você quiser, pode até tirar uma casquinha dele. Aposto que ele vai gostar.
Se Damien estivesse tomando ou comendo alguma coisa certamente teria se engasgado e ele só não caiu de cara no chão porque se apoiou no vidro da vitrine.
– Que... Que... Que é que você ‘tá falando, seu doido? – Exclamou exasperado em gaguejos. – Eu sou homem e ele também!
– E daí? Ser homem por acaso me impediu de me agarrar com outros homens na minha vida? – Sam cruzou os braços, mas depois relaxou e abanou a mão. – O meu gaydar apita que nem um louco com o Taylor, e eu nunca erro. Então se você quisesse tirar uma casquinha, duvido que ele iria se importar. Só estava falando. Você faz o que você quer. Ai, que homem sem graça! – O loiro suspirou e prendeu os cabelos em um coque frouxo. – Bem, meu horário de lanche acabou. Vou voltar para a clínica. Tchauzinho! – Jogou um beijinho no ar como despedida e saiu andando despreocupado em direção à clínica.
Damien continuou parado com cara de paisagem, não acreditando que Sam havia insinuado aquilo. Era lógico que ele estava TOTALMENTE enganado a respeito de Taylor. O médico em nada lembrava o jeito de Sam então, não, ele não era gay. O gaydar de Sam estava quebrado. E mesmo que ele fosse gay... Damien não era, ora! Ele gostava de peitões!
Tudo bem, ele ficou meio animado quando viu Taylor saindo do banheiro só de toalha, mas era unicamente falta de sexo. Reação normal para um cara saudável como ele. E tudo bem também que ele achava o sorriso do médico bonito, mas isso não fazia dele gay.
Ou fazia?
O ruivo bateu, de leve, a cabeça na vitrine da loja e ganhou um olhar exasperado da vendedora que estava lá dentro.
Ele decidiu não pensar nisso e considerar a ideia de levar Taylor para um passeio. Talvez uma vista do lago congelado fosse bem melhor do que uma caneta tinteiro e bem mais relaxante também.
Decidido, ele rumou até o restaurante da tia Camille. Com sorte encontraria Taylor por lá e o chamaria para o passeio. Amanhã seria sábado e era a oportunidade perfeita.
Quando ele chegou lá, encontrou os três afilhados amontoados em cima do médico e sua vontade de levar Taylor para passear quase foi para as cucuias. Aquele ladrão de amor de afilhados de uma figa!
– Boa tarde. – Cumprimentou, enciumado, ao se aproximar da mesa.
Taylor parou o truque de mágica na metade, fazendo as três crianças reclamarem.
– Boa tarde, Damien. – Falou não conseguindo encontrar toda sua voz, que saiu um pouco falha. Parecia que faziam eras que não via o ruivo.
– Tio Taylor, continua a mágica! Você disse que ia tirar a carta que eu pensei do baralho! – Phil pediu, ignorando completamente a presença de Damien, que ficou ainda mais exasperado.
– Outro dia eu finalizo a mágica, e ainda ensino vocês como se faz, ok? – Perguntou, conseguindo convencer as crianças, que pareceram empolgadas com a ideia. – Eu preciso voltar para a clínica. A Margareth, dona do mercado, disse que apareceria por lá às duas e está quase na hora.
– Essa mulher é uma bruxa! Ela puxou minhas orelhas quando tentei andar de bicicleta dentro do mercado! – Oliver reclamou indignado. – Eu só estava testando!
Os ombros de Damien caíram quando ele foi solenemente ignorado pelos gêmeos, mas Charlie se aproximou dele, puxou de leve a sua calça e pediu colo. O ruivo prontamente sorriu e pegou a afilhada nos braços.
– Vocês não deveriam estar andando de bicicleta dentro do mercado. – Damien disse enquanto ocupava o lugar vago ao lado do médico, fazendo com que seu braço roçasse de leve no dele. Ele poderia ter sentado do outro lado da mesa, mas quis sentir o calor do médico. Fazia tanto tempo que não se viam e ele sentia falta disso.
De estar perto.
“Merda. Pensamento gay! É culpa do Sam!” Damien pensou desesperado.
Os gêmeos balançaram os ombros e saíram correndo em direção à cozinha, dizendo que iriam pegar mais sobremesa. Charlie estava quietinha no colo do padrinho, esfregando os olhinhos. Não demoraria muito para que ela pegasse no sono.
– Eu preciso conversar com você. Pode ficar só mais um minuto? – Perguntou ao médico.
– Tudo bem... – Taylor murmurou, chegando um pouquinho mais para o lado para que seu braço parasse de roçar no de Damien. Ele estava extremamente consciente da proximidade do ruivo, e isso não era nada bom. – Se for sobre eu continuar na sua casa mesmo depois de dizer que ia sair...
– Não é sobre isso! – Damien o interrompeu rapidamente. – Eu não quero que você saia lá de casa, ‘tá legal? Eu gosto do seu café.
“Porra, Damien. Eu gosto do seu café! Não tinha nada pior pra dizer não?” O ruivo se chutou mentalmente.
– É, bem... – Ele fez um barulho tentando limpar a garganta. Sua voz estava rouca e ele estava com medo de começar a gaguejar a qualquer segundo. Quanto tempo fazia que ele não convidava alguém para um encontro?
Ele gemeu baixinho enquanto se chutava outra vez. Não era um encontro! Só na cabeça de Sam isso seria um encontro.
– Eu encontrei o Sam e ele disse que você anda trabalhando demais então eu pensei que amanhã é sábado e aí achei que nós dois poderíamos ir conhecer algum ponto turístico da cidade já que você só conheceu o básico desde que chegou. – Ele falou num fôlego só.
Taylor olhou aturdido para Damien, porém depois acabou soltando uma risadinha que chegou a lhe fechar os olhos ao perceber o jeito todo atrapalhado do outro ao tentar melhorar o clima entre eles. Não conseguiu resistir. A verdade é que estava achando um porre viver sob o mesmo teto que Damien e sequer vê-lo. Sentia-se sozinho naquela casa enorme.
– Acho uma ótima ideia! – Acabou sorrindo genuinamente. – Eu realmente queria conhecer mais dos arredores... – Se levantou, colocando um dos dreads atrás da orelha. – Então... Nos vemos de noite?
– Sim. – Damien sorriu sem nem acreditar que Taylor realmente havia aceitado ir ao encontro... Quer dizer, ao passeio, com ele. – Vou te esperar pra jantar. Agora vou colocar essa moça na cama antes que ela capote em cima de mim. – Disse bem humorado. Ele sabia que o que ele havia dito não havia sido apagado e que eles eventualmente teriam de falar sobre os problemas de Damien com médicos em algum momento, mas, por enquanto, aquele era um bom primeiro passo.
– Certo. Ainda faltam quatro dias para ela terminar o curso de antibiótico, mas ela já está bem melhor. – Taylor fez um carinho na cabeça da menina, deixou o dinheiro em cima da mesa pelo almoço e saiu do restaurante, sentindo-se bem mais revitalizado.
Quando chegou à clínica, encontrou Sam conversando com a Sra. Margareth.
– Sra. Margareth, pode ir entrando. Eu logo já venho, só preciso escovar os dentes. – Taylor pediu a ela, que assentiu e entrou em sua sala para esperá-lo.
– Alguém parece de bom humor. – Sam cantarolou, apoiando-se ao balcão.
– Damien me convidou para um passeio amanhã. Acho que será bom para relaxar. – O médico comentou indo escovar os dentes enquanto assobiava.
– É mesmo?! – Sam exclamou para que ele pudesse escutá-lo, colocando um ar de surpresa em sua voz. – Quem diria que Damien teria uma boa ideia dessas!
– Você poderia vir com a gente. – Taylor falou depois de terminar de escovar os dentes.
– Ah não! Já tenho um compromisso amanhã... – Sam falou rapidamente. – Minha mãe quer passar o dia comigo.
– Que pena! Bem, talvez uma próxima? – Ele perguntou antes de entrar no consultório.
– É, uma próxima quem sabe... – Sam murmurou, sorrindo de leve.
Não era como se Sam suspeitasse que Damien fosse homossexual, porém, ele havia notado alguma coisinha diferente na forma como Damien olhava para Taylor. Talvez não passasse de mero interesse amigável, mas não custava nada dar um empurrãozinho, caso fosse algo a mais.
Sam, afinal, era um romântico por natureza.
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