Cadê você, filhota?
6 Sem pena
Notas iniciais
Verne de novo? Amália abre a porta do armário para guardar a roupa limpa. Fico feliz que tenha gostado dele, mas existem outros autores, sabia? William a encara. Por um instante, pensa que a ficção se estendeu para a realidade. Amália está sorrindo. Faz anos que não a vê sorri.
Os russos são muito chatos. Prefiro aventuras, diz, provocativo. Não diga parvoíces. Todos os livros são uma aventura. Amália aperta seu tornozelo antes de sair do quarto. O almoço fica pronto em dez minutos. Lave as mãos.
William ainda está com o nariz entre as páginas quando desce os degraus. Amália torce o dela para o livro sobre a mesa, mas não censura. O ruído dos talheres preenche o silêncio. William levanta-se, limpa a boca com as costas da mão e recolhe os pratos para lavar. Depois beija a bochecha de Amália e sai pela porta dos fundos.
Aonde você vai?
Não me espere!
A margem do rio é o melhor lugar para ler. O gorgolejo da água o acalma. Apenas a escuridão da noite é capaz de afugentá-lo dali. Ao retornar a casa, observa Amália servir a mesa. Não sente culpa do sentimento tredo que lhe cresce no peito.
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