Caderno de ideias
33 Diferença

TRIS
- Uma vida é uma vida, Quatro. Não importa o que ela fez
Tobias me encara, irritado. Ele não gosta que eu use seu nome da Audácia, somente o verdadeiro. Tori, a única outra pessoa na sala, também não parece muito feliz. Ela odeia Jeanine tanto quanto eu.
Nenhum dos dois entende. Meu ódio por ela jamais me permitia matá-la. Não posso confiar em meu julgamento agora.
- Tris ... — Tori diz meu nome lentamente, frustrada. — Ela matou seus pais. Quase matou você. Matou mais de metade da sua facção. Transformou a Audácia em zumbis. A culpa de tudo isso é dela.
- Eu sei. — Soo mais firme do que realmente me sinto. — Mas temos que descobrir o que ela sabe.
- Jeanine Matthews não vai simplesmente se entregar, Tris. — Tobias me lembra amargamente. — Ela vai encontrar um jeito de fugir.
- Podemos mantê-la na simulação. Ela merece isso. E eu posso vigiá-la.
- Não. — Tori é categórica. — É perigoso demais.
- Sou a única aqui que pode descobrir o que ela sabe. É a nossa melhor chance. Tobias ...
Ele franze os lábios e cruza os braços, mas não nega de imediato.
- Tori?
- Tudo bem. — Tori cede com um suspiro. — Mas você não vai fazer isso sozinha, Tris. Estarei de olho em você.
Apenas faço que sim com a cabeça, sem me importar com os termos. O acordo já foi feito.
Tobias é o primeiro a sair da sala, mas Tori segura meu pulso e me detém antes que eu o siga.
- O que foi?
- Tris, eu descobri uma coisa. — Ela anuncia. — Acho que você vai gostar disso.
Ela abre um arquivo no computador que está sobre a mesa, e me aproximo para poder ler. Meus olhos se arregalam de surpresa.
- Mas o que ...?
- Erudição, esqueceu? — Tori dá uma pequena risada sem humor. — Quando eu era garota, havia um soro que aumentava a capacidade cerebral. Depois, descobri sobre o soro da Audácia. Foi preciso você aparecer para me fazer realmente ligar os pontos, mas ...
- São cinco soros. — Percebo. — Para as cinco facções.
- Sim, e acho que podem ser bem úteis.
Discutimos por algum tempo, até chegarmos à conclusão de que uma combinação é a nossa melhor chance.
- Vai levar algumas semanas. — Tori avisa. — Ainda tenho contatos na Erudição. Vou tentar puxar algumas cordas.
Faço que sim novamente, sabendo o que isso significa. Vou ter que me manter em guarda.
No fim, leva mais de um mês, mas enfim o soro fica pronto. Tori permite que eu o aplique pessoalmente, e Uriah é meu guarda-costas.
A mulher está apenas sentada ali em sua cela, encarando a parede de pedra com um olhar vago que aprendi a odiar. Há hematomas em suas costas, lembrete de seus ataques de fúria quando está lúcida. Exceto quando estou por perto. Aparentemente, seu prazer em me provocar é maior do que sua vontade de fugir.
Mesmo sabendo quem ela é e o que fez, ver os hematomas em sua pele clara e os ossos aparentes por conta da magreza me deixa doente.
- Jeanine? — Chamo.
Ela se vira ao ouvir o som de seu próprio nome, me encarando com a cabeça levemente inclinada. Há uma faísca em seus olhos, algo como reconhecimento, mas ela se mantém em silêncio.
- Sabe quem eu sou? — Pergunto.
Ela meramente faz que sim com a cabeça.
- Então diga.
- Você é Beatrice Prior.
Assinto. Há um tom em sua voz, algo que, fosse ela outra pessoa, eu teria interpretado como gratidão, até mesmo afeto. Repreendo a mim mesma por pensar assim. Jeanine Matthews não tem sentimentos.
- Sente-se. — Ordeno. — E fique parada.
Ela obedece prontamente. Injeto o soro e mal tenho tempo de segurá-la antes que Jeanine caia em meus braços, inconsciente.
Duas semanas se passam, e Jeanine permanece inconsciente. Evitei vê-la o máximo que pude mas, no fim, não posso mais protelar. Fico surpresa ao encontrar Cara ao seu lado.
- Oi, Tris.
- Oi. — Respondo, sem jeito. — E aí, como ela está?
- Estável. — É a resposta. — Nenhuma mudança.
Posso odiar Jeanine, mas a ideia de vê-la em coma por tempo indefinido me agrada ainda menos.
- E como estão as coisas na Erudição?
Antes que Cara possa responder, ouvimos um murmúrio quase ininteligível Sou a primeira a identificar a fonte do som: Jeanine.
- Tris ... — Cara está quase sussurrando, seus olhos arregalados de surpresa. — Fale com ela.
- O que?!
- Apenas fale.
- Está bem. Ahn ... Jeanine? Acho que a Cara enlouqueceu. Ela pensa que você pode me ouvir.
Cara faz uma careta para minha provocação, mas logo abre um sorriso vitorioso ao ver os cílios de Jeanine tremularem. É um movimento mínimo, mas está ali.
- Incrível! — Ela exclama, fascinada. — Ela reage à sua voz, Tris.
- Mas ... Pot que? Como isso é possivel?
- O soro da memória. — Ela explica depois de alguns minutos de silêncio. — Você foi a última pessoa que ela viu. É possível que tenha se atido à sua imagem e formado novas memórias a seu respeito.
Um arrepio percorre meu corpo enquanto compreendo suas palavras. Agora estou ligada, talvez para sempre, à pessoa que matou meus pais.
Me torno presença constante ao lado de Jeanine depois disso. No começo é estranho, mas logo nossas conversas unilaterais se tornam algo natural, apenas mais uma parte da rotina.
Alguns dias depois, Uriah corre ao meu encontro durante um treino de tiro.
- Tris, preciso que venha comigo. Agora.
Imagino o motivo e apenas o sigo. Logo paramos em frente à cela de Jeanine, onde Tori nos espera. Sua postura é tensa.
Entro imediatamente, no mesmo instante em que os olhos de Jeanine se abrem. Aquelas íris cor de vidro se fixam em mim.
- Bea ... Trice? — Sua voz é hesitante, e sua testa se franze em confusão. — Não. Tris.
Ouvir meu novo nome saindo de seus lábios me parece tão errado que não consigo me conter, simplesmente corro. Só quero me afastar daqui. Dela.
- Tris? — Seu tom é mais alto agora, suplicante. — Beatrice! Tris! Tris!
Ignoro o chamado. Jeanine continua até o som do meu nome se transformar em um grito longo, alto e penetrante, e então silenciar de vez. Não preciso estar lá para saber que alguém a nocauteou.
Corro sem parar até meu corredor secreto e me jogo no chão, com as costas contra a parede e a cabeça entre as pernas. Fico ali até sentir uma mão tocar meu ombro. Pulo de susto, mas é apenas Christina. Ela senta ao meu lado.
- Que diabos foi aquilo, Tris?
- Eu não posso, Chris. — Confesso. — Não posso.
- Pode sim. — Ela declara. — Aquela não é a Jeanine que conhecemos, Tris. Você não percebeu?
Penso na forma como ela gritou por mim, como seus olhos me procuraram, e concluo que Christina tem razão. Aquela não é a Jeanine Matthews que conheci.
Quando finalmente volto à sua cela, acho que ela está dormindo, mas então seus olhos se abrem.
- Beatrice! — Seu tom é de alívio. — Que bom! Pensei que você não voltaria.
- Você matou meus pais. Minha facção. — Rosno. — Tem sorte de estar viva.
Jeanine engasga de leve, parecendo absolutamente chocada com minhas palavras.
- Tris ... — Sua voz agora é cautelosa, desconfiada. — Do que você está falando?
É a minha vez de ficar surpresa. A confusão que vejo em seus olhos é dolorosamente real.
- Antes de acordar aqui ... Do que você se lembra?
Vejo uma ruga surgir entre suas sobrancelhas perfeitamente arqueadas, o que significa que Jeanine está rralmente tentando me responder.
- Eu me lembro ... Que você me visitou uma noite. Nós discutimos. — E, subitamente, há emoção genuína em seus olhos quando ela se inclina em mjnha direção. — Tris, me desculpe. Sinto muito, eu juro! Pensei sobre tudo o que você disse e ... Vou manter seu segredo. Prometo. Ninguém vai saber que você é Divergente. Pode ... Pode contar comigo, Beatrice.
Não sei o que dizer ante essa versão de Jeanine, uma versão que parece mais nova, mais suave. Acabo dizendo a primeira coisa que me vem à mente:
- Obrigada.
Jeanine me surpreende abrindo um pequeno sorriso e estendendo uma das mãos para pegar a minha. Alguma coisa na forma como nossas mãos se encaixam parece certa. Quase ... Reconfortante.
JEANINE
Não entendo. Observo os olhos de Tris, vendo a desconfiança em seu olhar. Por que ela não acredita em mim?
- E sobre o Projeto Abnegação? — Tori, uma das novas líderes da Audácia, inquire. — O que sabe sobre isso?
- Nada. — Respondo. — Não sei de nada.
Uma das iniciandas da Audácia, com uma bonita pele de oliva, dá um passo à frente, seu rosto retorcido de ódio.
- Você não quer lembrar. — Acusa. — Está reprimindo.
- Já chega!
A voz é tão familiar que nem preciso olhar para saber quem falou. Beatrice, é claro.
- Tris ...?
- O soro torna impossível mentir, certo?
- Não. — Tori responde. — Só muito, muito difícil.
Tris se vira para mim, seus olhos duros como pedra, soltando faíscas de raiva.
- Jeanine. — Seu tom é tão duro quanto sua expressão. — O que você sabe sobre o Projeto Abnegação?
- Nada. — Repito. — Mas eu posso descobrir.
- Não é necessário. Já sabemos de tudo. — Ela quase rosna, se voltando para Tori e a garota morena. — Pronto, Christina. É verdade.
A garota, Christina, morde o lábio e me encara por um momento.
- Sim, parece que é. Não precisamos mais mantê-la aqui.
- Eu a escolto de volta pra Erudição.
- Está bem, mas Zeke vai levar vocês. — Tori declara. — Não quero você sozinha com ela, Tris. Essa mulher é uma ameaça.
Quero bater nela. O que Tori quis dizer? Eu não machucaria Beatrice, nem que minha vida dependesse disso.
- Está bem.
Agora tenho vontade de bater em Beatrice também. Por que ela não me defendeu? Mas esqueço tudo isso quando a vejo estender uma das mãos para me ajudar a levantar. Ela ainda está do meu lado.
Permito que me ajude e logo estamos em um trem, a caminho da Erudição. Beatrice se acomoda no chão, entre o rapaz, Zeke, e eu.
- Obrigada. — Digo. — Por ter me ajudado no julgamento.
- De nada. Não que você mereça.
Não consigo evitar recuar, magoada com a hostilidade em sua voz.
- Beatrice ... O que é tudo isso? O Projeto Abnegação?
Beatrice balança a cabeça em uma negativa.
- Você não adora informação? Descubra por si mesma.
E depois disso ela não fala mais nada, tampouco Zeke. É uma viagem silenciosa. Quando o trem desacelera, Beatrice estende uma das mãos e segura meu pulso esquerdo, o que está mais perto dela.
- Mas o que ...?
- Não pense. — Ela responde. — Apenas faça o que eu fizer.
Ela recua alguns passos, tomando impulso, e percebo um segundo antes de acontecer. Sou puxada para fora do trem quando Beatrice pula, e perco o equilíbrio. Meu joelho esquerdo bate no concreto com força, mas meu orgulho me faz ficar calada.
- Nada mal. — Beatrice diz ironicamente, quase em tom de brincadeira. — Para uma cimento.
- E você aprendeu bem rápido. — Retruco antes que possa me conter. — Para uma careta.
Beatrice solta uma risada, mais un bufo do que um riso propriamente dito.
- Vamos logo. — Diz. — Não temos o dia todo.
Eu tento acompanhá-la, mas meu joelho atingiu o chão com mais força do que pensei, e mal sustenta meu peso. Beatrice é rápida e impede que eu caia.
- O que foi?
- Meu joelho. Acho que ... Bati no chão com muita força quando saltamos.
- Tá, sem problemas. Se apoie em mim.
Obedeço. Beatrice é forte o bastante para sustentar meu peso e ainda se mover com desenvoltura, mesmo sendo tão pequena. Após alguns minutos, porém, noto seu rosto começando a ficar vermelho pelo esforço. Tento me apoiar menos, facilitar para ela, mas descubro que é impossível.
- Mais algum machucado?
Demoro um segundo para perceber que ela está falando comigo.
- Não. — Minto. — Foi só meu joelho.
Posso ver, pela forma como franze os lábios, que ela não acredita em mim.
- Deixa comigo. — Zeke diz enfim. — Descanse, Tris.
Ele me apoia pela cintura sem a menor cerimônia ou esforço. No ritmo lento estabelecido por minha perna ferida, demoramos a chegar à sede de minha facção. Logo, porém, estou em meio aos médicos da Erudição e vejo Beatrice se afastar. Chamo seu nome e ela se vira.
- Não vai nem se despedir?
- Tchau, Jeanine.
Não sei o motivo, mas não quero deixá-la ir.
- Venha me ver. — Peço. — Eu ... Eu vou descobrir a resposta. Prometo.
- Eu não prometo nada.
E, com essa resposta seca, ela se vira e sai. Sei, com toda certeza, que Beatrice não vai voltar.
TRIS
Um mês se passa. Não consigo tirar as palavras de Jeanine da cabeça. Ela pareceu tão sincera quando prometeu descobrir de que estava sendo acusada. Será que ...?
Algo.mais forte do que eu me faz pular em um trem para a Erudição. Quando digo que quero ver Jeanine, sou imediatamente conduzida até sua sala.
Ela está sentada atrás de uma elegante escrivaninha, com óculos de leitura na ponta do nariz do nariz e os cabelos presos em um coque. Não está mais tão magra, e usa um elegante terninho azul-claro. Seus olhos se erguem ao me ouvir. Seu rosto imediatamente se transforma, iluminado por um sorriso.
- Beatrice!
- Oi, Jeanine.
O homem que me conduziu até ali se retira, nos deixando completamente a sós.
- Tris, eu ... — Jeanine tira os óculos e os coloca delicadamente sobre a escrivaninha. — Eu vi os arquivos. Vídeos de segurança, memorandos, pesquisas ... Tudo. Eu já sei o que fiz.
O silêncio enche a sala, e tudo o que consigo ouvir é a respiração de Jeanine, cada vez mais rápida e pesada. Não, tento me convencer. Ela não pode estar ...
- Beatrice. — Sua voz treme por causa das lágrimas. — Eu ... Eu sinto muito, muito mesmo!
Eu sei quem ela é. Sei o que ela fez. É por isso que avanço, encurtando a distância entre nós, e enrolo meus braços ao redor de seu pescoço.
Jeanine leva um segundo, mas enfim sinto seus braços ao meu redor. Ela é mais alta do que eu, então sua cabeça descansa no alto da minha.
- Beatrice ... Tris ... Eu sinto muito. Por favor, me perdoe. Me perdoe.
Ela apenas continua repetindo essas palavras por um longo tempo, até se acalmar. É a primeira vez que a vejo tão ... Humana. Tão vulnerável. Tenho que admitir, não é uma mudança ruim.
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