Caderno de Memórias

1 Capítulo 1 — O começo do começo


Notas iniciais
Oi, gente. Tudo bem com vocês? Eu estou adorando escrever esta fic, pois tenho como inspiração fatos que aconteceram comigo mesma. Claro que não esta viajem toda que acontece na estória, mas eu e minhas amigas realmente temos o nosso "Caderno de Memórias". Espero que gostem, nos vemos nas notas finais... Obs: Capítulo Revisado

"Acho que a única razão de sermos tão apegados em memórias, é que elas não mudam, mesmo que as pessoas tenham mudado."

Pretty Little Liars

Lucy Heartfilia — Nova York

Neste momento eu gostaria de estar deitada em minha cama refletindo, bolando qualquer idiotice que pudesse me fornecer inspiração. Eu precisava relaxar, porém isso ficava meio difícil com uma pessoa desprezível gritando nos meus ouvidos.

Eu estava sentada em uma poltrona de couro – muito confortável, por sinal – fingindo ouvir o longo, extenso, profundo e extremamente chato discurso que minha chefe dava. Que seja, só sei que parei de ouvir depois que notei que havia surgido mais uma mancha na janela imensamente grande do seu escritório e por incrível que pareça, decidi que era mais satisfatório observá-las, do que ouvi-la falar.

— Lucy... – Vejamos... A mancha de cima parece um coelho orelhudo, a de baixo lembra um cachorro e... Nossa, minha chefe deveria “abrir a mão” e pagar alguém urgentemente pra limpar aquela janela antes que o reino animal todo estivesse ali. Aquelas manchas pareciam se multiplicar. — Lucy?! Está me ouvindo? – Oi? Tinha alguém me chamando? — Lucy! Eu estou falando com você!

De repente voltei a mim, praguejando por ter me distraído fácil, mas eu estava tão cansada. As coisas não estavam indo bem pra mim na empresa, eu deveria ouvir o sermão de Levy ao invés de ficar me distraindo com coisas inúteis. Isso nos leva ao meu defeito de número um: perco o foco nos momentos menos oportunos.

Senti vergonha de mim mesma e não pude evitar corar, algo que eu odiava. O que nos leva ao meu defeito número dois: tenho uma facilidade absurda para corar e me colocar em situações vergonhosas.

— Sim, Sra. McGarden. Estou ouvindo. – não estranhei minha voz que afinava três oitavas sempre que eu tentava ser simpática ou impressionar alguém. Talvez esse seja o defeito número três? Nah, posso definir isso como mecanismo de defesa.

Enfim, minha chefe Levy Mcgarden é diretora de uma das maiores revistas de Nova York: “Forever Young”. Confesso que ela não era tão desprezível assim. O problema é que ela coloca pressão demais, não só em mim, como em todos os funcionários da revista. Aos 34 anos, Levy herdou o legado de seu pai e está dirigindo a revista há cinco anos. Sei que ela é uma boa pessoa, só que como nossa revista está perdendo o público de alguns meses pra cá, as coisas estavam meio que difíceis. Parando para analisar isso agora, a atitude de Levy não era tão injustificável.

Como diretora era dever dela não deixar que isso acontecesse, digo, a revista tinha que voltar a atingir as pessoas e para isso tínhamos que fazer um trabalho em equipe. Todavia, isso não era algo que se conseguiria com facilidade. Entre tantos prazos e afins, Levy acabava ficando nervosa e descontava tudo em nós, os funcionários. Como dá pra notar, era tudo uma grande bola de neve.

A “Forever Young”, FG como eu costumo chamar, é uma revista que tem como conceito que, não importa sua idade, o espírito jovem sempre vai estar dentro de você. Eu não deveria reclamar, pois este sempre foi meu emprego dos sonhos. Com 24 anos e formada em Jornalismo, consegui uma carta de recomendação para trabalhar na FG, e há um ano estou aqui como redatora chefe. Eu sempre adorei este emprego e trabalhei duro ara chegar onde estou, o que fazia com que eu me estressasse ainda mais comigo. Levy precisava de algo que desse algum impacto na revista, mas meu bloqueio de inspiração estava atrapalhando tudo. Por isso esta reunião com ela, por isso esta bronca.

— Ouça, Lucy, eu sei que ninguém gosta desta situação. Talvez eu esteja exagerando na preocupação, mas eu preciso que todo mundo dê tudo o que tem ­– dizia ela, enquanto suspirava, levantando-se de sua cadeira para observar a paisagem da grande janela. Isso mesmo, a janela das manchas. — Você é uma das pessoas que sempre inovou aqui dentro, sempre esteve bem disposta. Não consigo entender o que está acontecendo... – disse, olhando novamente para mim.

Não consegui evitar um suspiro. Ela estava certa.

— Na verdade eu também não sei o que acontece, Sra. McGarden. Já tentei fazer de tudo para conseguir inspiração, mas nada me parece bom o bastante. – falei, derrotada. E não estava mentindo, tentei de tudo mesmo: exercícios mentais diários para criatividade, – o que me rendeu uma série de recomposições de músicas infantis, só que em versões meio pornográficas – ouvi músicas com direito a incenso pela casa toda, visitei exposições, fui à workshops e simplesmente nada.

Franzi o cenho ao lembrar-me da ideia maluca que Juvia e Erza tiveram para me ajudar na inspiração: queriam que eu seguisse nosso ex-professor de História e fizesse uma pesquisa sobre como ele levava sua vida depois de tantos anos. Eu sabia que isso era uma necessidade delas de matar a curiosidade sobre ele, nosso primeiro amor platônico. Óbvio que aquilo era loucura, e eu não era louca. Pelo menos não muito. Deixei essa ideia pra trás, precisava me concentrar nas palavras de Levy.

Eu já não conseguia olhar nos olhos dela. Eu me sentia envergonhada, com raiva de mim mesma. Eu sabia que era capaz, porém nada adiantava, não conseguia pensar em nada.

— Lucy nós precisamos de algo, qualquer coisa. Se peço isso a você, é porque é uma das melhores e não estou brincando. Não me faça pensar que você é incapaz, Heartfilia.

Sorri com aquilo. Apesar de Levy ter a estatura pequena, ela conseguia ser uma mulher muito dura, arrancar um elogio de sua boca era algo quase impossível. Agora aquilo era uma questão de honra! Afinal de contas meu pior inimigo seria eu mesma, e não poderia deixar isso acontecer.

— Sra. McGarden, eu juro que não vou decepcioná-la. Em uma semana, talvez até menos do que isso eu lhe trarei a melhor matéria que esta revista poderia ter! – falei, convicta. Fechei meus punhos e cerrei meus lábios, acho até que arregalei meus olhos. Mas não importa, aquela era a minha cara de poderosa e forte e eu iria provar que era capaz!

— Tem certeza, Lucy? Vamos manter os pés no chão, certo? – ela estava incerta. Ora, se eu estava dizendo é porque iria cumprir, certo? Certo!

— Claro que tenho certeza! A Sra. vai ver, será um sucesso! – eu não sei de onde aquela empolgação veio, mas ela estava ali e eu tinha que aproveitar.

Levy soltou um suspiro de “eu não acredito que ela vá conseguir, mas eu vou desistir porque eu não tenho escolha e não posso me esquecer de rezar para que dê certo”. Por que será que eu não gostei daquele suspiro?

— Tudo bem, Lucy. Vou confiar em você. Já está liberada, vá para casa e aproveite bem, pois hoje é sexta-feira e use o seu fim de semana para pensar em algo. Conto com você.

Levantei-me da poltrona tão rápido que quase derrubei tudo. Defeito número quatro apresentado. Essa era uma característica minha simplesmente adorável: eu era mais desastrada do que os três patetas juntos.

Sorri amarelo para Levy e saí apressada, desejando um bom final de semana a todos. Assim que pus os pés fora da empresa, senti uma brisa agradável em meu rosto. Estávamos em junho e o verão já começava a se manifestar. Por sorte o prédio da revista não era muito longe do apartamento no qual eu morava, poderia ir andando.

Cheguei em casa empolgada, retirando o vestido social que usava, bem como meus sapatos de salto alto. Vesti meu short, uma camiseta, calcei meus chinelos, prendi meus cabelos loiros em um coque frouxo e estava pronta para começar a escrever! Sentei-me no sofá com meu notebook e um pacote de biscoitos. Nada de músicas desta vez, quero tentar ter inspiração de uma forma mais natural. Olhei meu relógio que marcava 17h15. Certo, mãos a obra!

Tudo bem, Lucy Heartfilia, você vai ter uma ideia bombástica e vai conseguir não só colocar a revista em alta de novo, como também deixar sua chefe orgulhosa!

Esse era o pensamento que tramitava na minha mente. Eu conseguiria, com certeza conseguiria.

[...]

Eu não conseguiria...

Olhei no relógio que já marcavam dez horas da noite e nada. Minhas lágrimas já não paravam de sair. Eu era uma inútil! Eu achava mais interessante a formiguinha que andava pelo chão do que o notebook a minha frente, com a página do Word totalmente em branco.

Atire-me no sofá e imediatamente meus pensamentos voaram para tempos atrás, onde tudo era muito mais fácil. Cresci em Catskill, uma pequena cidade aqui do Estado de NY, que fica mais ou menos a duas horas da cidade de Nova York. Lá, passei anos maravilhosos da minha vida. Conheci as duas melhores amigas que alguém poderia ter e nós acabamos por criar laços muito, muito fortes.

Juvia, Erza e eu praticamente crescemos juntas. Como sempre dizíamos, se fôssemos irmãs não seríamos tão amigas quanto somos agora. Juvia e eu nos conhecemos com nove anos de idade, na terceira série. No início não éramos tão próximas, mas o fato de que ela morava quase em frente a minha casa e que sentimos uma verdadeira afinidade ao brincarmos de “roubar dinheiro do nosso chefe” ajudou bastante. Desde então, viramos unha e carne, fome e vontade de comer, Débi e Lóide... Com Erza as coisas foram um tanto quanto diferentes.

Na casa ao lado da minha morava uma senhora. Nós nunca demos importância a ela até a chegada de Erza. O motivo? Bem, Dona Poluchka — ou Codinome Poluscão, como nós a chamávamos — era avó dela. Com a separação dos pais, Erza preferiu se mudar para Catskill para morar com ela. Até aí, tudo bem. Porém, com a aproximação de Erza, Juvia e eu nos sentíamos ameaçadas. Achávamos que Erza queria destruir nossa amizade e a partir daí, criamos uma implicância com ela. Toda vez que aprontávamos alguma coisa e nos pegavam no flagra, a culpa era de quem? Juvia e Lucy? Nope! A culpa era da Erza.

Com o passar dos anos nós acabamos vendo que Erza não era tão ruim — porque na verdade as ruins éramos nós — e ela acabou virando nossa melhor amiga também. De Débi e Lóide, passamos a ser As Três Mosqueteiras, As Três Patetas, As Três Espiãs Demais e qualquer coisa que víssemos que acabasse por envolver três melhores amigos na TV ou algo do tipo.

Nós fazíamos tantas idiotices na época e pensar nisso agora dá uma vergonha danada. Mas, para menininhas de 14 anos tudo aquilo era o máximo. Em uma das nossas ideias de amizade, decidimos criar um Caderno de Memórias, porque nós queríamos lembrar de tudo que fizemos quando fôssemos mais velhas.

Assim, dêmos início ao nosso “diário coletivo”. Escrevíamos tudo mesmo: loucuras, romances, indignações. Tudo. É claro que tínhamos que guardar tudo a sete chaves pra ninguém ler, porque se aquilo caísse em mãos erradas nós iríamos apanhar de muita gente. E bem, nenhuma de nós era boa de briga.

Lembrar deste caderno me dava uma nostalgia incrível, e apesar de dez anos terem se passado desde a criação dele, havia pouco tempo que nós tínhamos o atualizado.

Há três meses Gray, o namorado de Juvia havia a pedido em casamento, presenteando-a com um lindo anel de prata, todo perolado, com um diamante azul bem no centro. Era lindo. O brilho nos olhos de Juvia era quase maior do que o brilho do anel, e todas estávamos felizes pela nossa amiga. Claro que ela pegou nosso diário e escreveu tudo. Detalhe por detalhe. Palavra por palavra. Sentimento por sentimento.

De nós três, Juvia Loxar era a mais romântica e a mais ingênua. Ela sempre acreditava nas mentiras dos outros. Mas eu, como amiga protetora e carinhosa que sou, sempre abria os olhos dela. Obrigada, de nada.

Com seus longos cabelos azuis e olhos negros, Juvia sempre teve uma beleza estonteante. Como ela tinha uma grande dificuldade em dizer “não” para as pessoas, acabava ficando com todos os meninos que se aproximavam dela. O que nos rendeu, é claro, a famosa frase entre nós: na época de puta da Juvia. Óbvio que ela não gostava. E óbvio que nós adorávamos irritá-la com isso.

Porém a época de puta dela teve seus dias contados, quando a mesma conheceu Gray. No início eu e Erza não gostávamos dele, mas depois simpatizamos com ele. Gray é um cara legal e faz Juvia feliz, então... Esse foi um dos motivos que a fez ir embora. Depois de formar-se em Análise e Desenvolvimento de Sistemas ela acabou recebendo uma proposta de emprego maravilhosa e se mudou para NY com Gray, que já residia lá. Isso foi há dois anos.

Erza Scarlet era a nossa protetora. Ela parecia ser a mais lerda de nós, porém em vários momentos se mostrou mais sábia. Quando eu e Juvia queríamos aprontar, ela era a “arregona” que no final sempre acabava aceitando e ainda por cima levando a culpa. O Codinome Poluscão proibiu Erza de sair com a gente várias vezes, mas sempre dávamos nosso jeitinho. Não tem como não sorrir diante dessa memória. Acabamos por colocar o apelido dela de “mãe” e, mesmo que ela não demonstrasse, ela amava quando a chamávamos daquela forma.

Depois de formada em design, Erza mudou-se para Westbury e sério, ela tornou-se uma pervertida depois de começar a fazer trabalhos particulares de design para uma loja de Sex Shop da cidade. Morando sozinha ela deu vazão a tudo que ficou trancado quando ela morava com sua avó. Virou uma rebelde, seus cabelos vermelhos e olhos castanhos muito expressivos acentuaram essa definição.

E eu... bem, eu continuava sendo eu. Também me mudei para NY — Manhattan, para ser mais exata — por conta do emprego de redatora. Acontece que nossos planos saíram pela culatra. Sempre sonhamos em morar juntas, casar juntas... Enfim, aqueles sonhos bobos e adolescentes. Mas a vida não é um planejamento, não é mesmo? E por mais que fôssemos amigas, as responsabilidades deram um jeito de nos afastar um pouco. Nós estudamos juntas na Universidade de NY, porém, não nos víamos com tanta frequência.

Nós aprendemos que crescer não é fácil, choramos diante da ideia de ter que tomar decisões, de ter que caminhar com as próprias pernas. Eu gostava de morar sozinha, era como uma jornada de autoconhecimento e eu precisava disso pra ter certeza de que estava no caminho certo, que eu era quem eu queria ser.

Mas, ao lembrar-me das palavras de Levy, da responsabilidade que eu tinha em mãos, da promessa que eu fiz a ela e mim mesma de dar o meu melhor, eu tive certeza de que nunca quis tanto voltar no tempo, no período em que éramos três garotas cheias de sonhos, escrevendo memórias em um caderno esperando que nossos netos fossem ler tudo aquilo. Eu queria voltar pra época em que nada era problema, na época em que as pequenas coisas, pra aquelas três meninas, era tudo.

Suspirei mais uma vez, e não resisti a vontade de pegar o nosso caderno. Sim, ele estava comigo. Tive que controlar a vontade de escrever um “Preciso Desabafar”... É, este era um dos quadros que escrevíamos no nosso amado diário. Foleando aquelas páginas coloridas e alegres eu fiquei feliz. Feliz porque eu sabia que eu tive uma infância maravilhosa e divertida. Que passei minha adolescência de uma forma idiota, mas inesquecível, risonha. E naquele momento eu soube que mesmo na minha fase adulta eu poderia sempre contar com minhas amigas. Que eu teria sempre aquela criança feia, mas feliz, dentro de mim.

Gargalhei ao ver nossas fotos antigas coladas em nosso caderno. Com certeza éramos crianças feias, mas felizes...

Meu riso foi se apagando aos poucos ao lembrar-me do que tínhamos combinado. Amanhã voltaríamos a Catskill para enterrar nosso bem mais precioso: nosso caderno de memórias.

Foi uma decisão que tomamos juntas. O fato de seguirmos caminhos diferentes agora deixava claro que em nosso caderno não escreveríamos mais nada juntas. Nosso plano era enterrá-lo, pra que depois de alguns anos nós o desenterrássemos pra relembrar nossas histórias.

Vamos colocá-lo numa caixa e enterrá-lo. Nenhuma de nós sabe se ele ainda vai estar lá e inteiro quando chegar a hora de voltar. Por mais dolorosa que a ideia de desfazer-se do caderno seja, no fundo eu sabia que o que nós queríamos era uma garantia que no futuro ainda nos veríamos. Que teríamos um compromisso.

Guardei o caderno na gaveta a qual ele pertencia, voltando pra frente do notebook. Eu estava sem fome alguma. Não sabia se era devido ao meu progresso inexistente ou se era porque me sentia ansiosa, ou devido a ambos. Eu tinha a intuição de que amanhã, quando voltássemos a Catskill algo mudaria. Talvez isso me rendesse a matéria...

Naquela noite, apesar de nenhum progresso, adormeci com um sorriso nos lábios diante das memórias relembradas. Eu não fazia ideia da loucura que estava por vir, mas o pressentimento de que eu adoraria e surtaria a cada minuto não me deixou por um instante sequer.

Notas finais
Bom, gente. Era isso. Realmente espero que vocês tenham gostado. Esse é o tipo de história que eu classifico como "válvula de escape". Sabe quando a gente chega em casa cansado e só que se divertir com algo? Este é meu intuito. Realmente espero que gostem dessa viagem louca que eu estou criando. Beijos, até o próximo!