Andava pela rua, era de tarde. Sua cabeça doía. Estava tentando assimilar se tudo o que aconteceu no dia anterior era real. O portão enorme, a criança se transformando em um monstro enorme, aquela voz estrondosa. Nada era tão real e tão imaginário para Will.

Sentou-se em frente a uma loja de cachorro-quente, abriu a mochila procurando por comida. Sua boca estava seca, se não bebesse água, com certeza iria passar mal. O sol refletia em sua testa cheia de suor e seus olhos tremiam. Levantou-se e foi caminhando em direção a nada. Não sabia nem pra onde ia, só queria andar.

– Socorro ! — Um grito baixo soa na virada de um beco que, por mais calor que esteja naquele momento, aquele lugar dava um frio na barriga.

Uma mulher, idosa. Will pode observa-la por um instante. Suas mãos estavam tremulas e seus olhos fundos com medo. Havia um homem na frente da mulher de aparência brusca, touca preta e braços forte. Em sua mão, segurava uma arma. Will jogou-se na frente da mulher.

– Primeiro, você não ta com calor com essa touca, cara? Meu Deus ! — zomb0uo do ladrão.

– Tio — Disse, analisando Will por inteiro e depois corrigiu-se — Quer dizer, moleque, saia da frente. Seu sangue esquentou, suas mãos estavam coçando. Fazia tempo que Will não batia em uma pessoa. Desde quando ele estava na terceira série, onde quebrou o dente de um menino por ele ter chutado sua mochila.

– Saia, agora ! — Retrucou tentando por força em sua voz, mas o cansaço não ajudou.

– Desculpa chiquitita, hoje não vai dar — Estendeu sua arma e puxou o gatilho. Will arregalou os olhos, estava prestes a morrer. Sua barriga embrulhou, seu coração batia tão rápido quanto a velocidade da bala indo acertar diretamente sua cabeça. Estendeu suas mãos, seus olhos escureceram.

– Pilordium Vívila — Gritou com as mãos estendidas.

As balas pararam diante da sua face em uma distância de menos de 10 cm. Fizeram uma volta de 360 graus e correram para o ladrão que, já não estava mais ali no beco, pois havia fugido assim que acabara de atirar.

A mulher olhava fixamente para Will, não sabia se estava com medo ou agradecida. Quando voltou ao normal, olhou para a mulher que estava andando para trás aos poucos. Não sabia o que tinha acabado de fazer. As palavras soaram em sua boca como quando pensamos alto demais. Olhou para suas mãos que estavam aparentemente normal. Voltou-se para avistar a mulher, mas já havia desaparecido.

A cabeça de Will parecia explodir, tinha tantos problemas em sua vida e agora, acabara de descobrir que consegue fazer balas virarem-se a 360 graus. É muita coisa para um menino que nem casa tem mais.

O dia já estava a entardecer. Caminhava sem rumo. Já não estava tão quente quanto antes. A hora estava passando tão rápida que parecia que a cada respirada que se dava, era um ano perdido.

A noite chegou. Will estava sentado da calçada e suas pernas doíam. Andou muito e pra lugar nenhum. A rua onde estava, encontrava-se deserta. Era possível ouvir sua respiração. As luzes dos prédios apagadas, rua sem carros.

Uma voz soa ao seu ouvido. A mesma que ele ouvira na noite passada gritando um feitiço contra aquele terramus. Aquela voz lhe causava arrepios. Seu corpo tremia de ponta a ponta.

"Olhe para frente" dizia ela. Olhou para os lados a procura de onde estava saindo aquela voz. "Olhe para frente" insistia a voz. Hesitou.
Olhe para frente!" soa com mais ordem.

Will olhou para frente, um corvo morto estava grudado junto a uma parede de tijolos quebrados. Seus olhos ficaram fundos. Estava quase a meia hora ali e não tinha nota as pegadas de sangue que o corvo fez e nem notado o animal morto.

Levantou-se da calçada. Arregalou os olhos e pôde ver melhor o sangue escuro do corvo escorrendo pela parede. Andou devagar, seu coração se apertou. Seu peito começou a pulsar. Um nó na garganta foi surgindo. Engoliu seco. Quanto mais próximo chegava do animal, mais queria sair dali. Parecia que algo empurrava sua perna para perto e mais perto. Olhou para os lados. Nada. Estava a poucos centímetros de distância do animal jogado e preso a parede.

"Abra-o", soou a mesma voz. Deu um passo para trás.

"Agora". O cheiro estava forte. Will chegara a ficar tonto. "Não tenho mais tempo. Abra o corvo. Agora Will Azeste !".

Suas pernas tremeram. Nunca ficara tão pálido ao ouvir seu nome. Parecia facadas entrando e saindo de sua alma. Logo após um tempo, esticou seu braço, com a outra mão tampou o nariz. Fechou os olhos e chocou seus dedos para dentro do animal horrendo. Algo tocou em sua mão. Sentiu vontade de vomitar, mas assim que puxou, viu que era um bilhete.

Um bilhete retirado do intestino de um corvo. Passou as unhas em suas pernas para ver se tudo era realmente real e quando deu-se por si que nada era mais real que aquele momento, abriu o bilhete. Suas mãos tremeram. Estava curioso em saber o que ali estava escrito. Forçou seus olhos para enxergar as letras na escuridão, pois a luz do poste estava bastante fraca. Quando conseguiu estabilizar seus olhos, leu o que o tal bilhete dizia com letras pequenas e borradas.

"Isso não pode demorar, devo ser rápido, se estás lendo esta carta provavelmente estou preste a ser morto. Preste bem atenção, vim de um mundo distante, bem diferente do seu, você é o escolhido, espíritos vieram me pegar, estou preso, você é o único que pode me salvar. Você verá coisas extremamente assustadoras em sua jornada e terá de provar para todos e para si mesmo sua enorme bravura, não demonstre medo e nem desanimo ao longo da missão, isso é tudo que eles querem. Você fará novos amigos ao longo do caminho porém não se apegue com eles, você terá que sacrificar um por um. Você sabe onde estou, basta se esforçar, ao longo da missão você entenderá, não questione o que está havendo, apenas obedeça. Tudo o que aconteceu com você foi por um motivo e chegou a hora de você descobrir qual é. Agora ande, precisamos ser rápidos, os espíritos aqui me vigiam bastante e esperam apenas um simples sinal para cortar-me em pedaços. Não posso mais me comunicar com você, entrarei em contato assim que você realmente precisar, você não está sozinho, terá minha ajuda, não enrole, temos pouco tempo."

Uma veia em sua testa pulsou. Seu coração palpitava até sua garganta. Um nó na sua barriga foi-se surgindo. Começou perdendo todas as forças em suas pernas. Suas vistas ficaram tontas. Não aguentou ficar consciente. Desmaiou. Ali, no meio da rua em meio ao sangue do corvo morto atirado naquela parede destruída.