Notas iniciais
O tempo em "Peças Infernais" é algo que me marcou muito. Todo ele está comprimido no coração de Tessa e o tempo de Will, inevitavelmente, iria acabar antes.Essa fanfic é sobre a reação de Tessa ao descobrir que Will tem poucos segundos valiosos de vida...

Tessa se encaminhou até Magnus, os olhos vidrados e a postura curvada. Ele percebeu, enquanto Tessa se sentava, que ela estava tremendo.

– Como ele está? – perguntou, cauteloso.

Ela respirou fundo e olhou para o chão.

– Ele está morrendo, Magnus. – ela sussurrou, e Magnus pôde sentir o coração dela se esmiuçando naquelas palavras. Sua voz estava embargada. – Hoje ele não conseguiu da cama. Meu Will está acamado, Magnus. Como?

Ele pressionou gentilmente o ombro dela com seus dedos magros, e a olhava com compreensão, como se já tivesse passado por aquilo.

– Como o quê? – ele perguntou.

– Como isso aconteceu? – ela parecia em um estado de transe.

– Ontem mesmo ele só tinha 17 anos. Nós tínhamos 17 anos.

– Essa é a realidade dos imortais, Tessa. O tempo passa rápido, pois essa é uma de suas características. Mas, para nós, imortais, ele passa ainda mais, já que nem o percebemos. Depois de um certo período, ele perde a importância. – ele deu de ombros, mas Tessa continuava encarando o chão. – Porém, quando amamos, o tempo começa a ser contado novamente. Cada segundo passa a ser valioso. É assim que funciona.

– Não deveria ser assim. – a voz dela estava baixa, como se estivesse em estado de choque e tentasse compreender a situação em que se encontrava. — Will é tão bom. Tantas pessoas más vivem eternamente e...

– Will explodiria o mundo com seu brilho se ele fosse eterno, Tessa. – ele interrompeu, não numa tentativa de animá-la, mas como se declarasse um fato irrefutável. — É demais para o planeta aguentar.

Ela sorriu um pouco, o coração sofrido se amolecendo ao lembrar dos olhos e do sorriso do marido. Eram realmente muito brilhantes e podiam iluminar o dia – e a vida – de qualquer pessoa.

– Com o tempo, Tessa – continuou Magnus -, você vai descobrir que vale a pena sofrer no futuro para ter momentos felizes no presente. Que é melhor amar do que não o fazer, mesmo que o amor tenha seu preço, especialmente para os imortais. Que é melhor ter lembranças do que não ter nada para se apegar e ficar pensando no que realmente fez e viveu em tantos anos. Uma verdadeira crise existencial, e a nossa é particularmente difícil, já que são tantos anos para se analisar e...

Magnus foi interrompido pelo aperto forte da mão de Tessa na sua. Quando olhou para ela, seus olhos estavam arregalados e lágrimas corriam pelo seu rosto.

– E depois, Magnus? – os olhos dela se moviam constantemente, como se ela procurasse uma saída para o depois. — E meus filhos? E meus netos?

Haviam várias perguntas dentro dessas – será que verei todos morrerem? Será que aguentarei isso? Será... – e o desespero de Tessa era tão grande que o feiticeiro sentiu seu coração se apertar. Ele tentou falar da maneira mais calma possível.

– Tudo tem seu tempo, garota.

Ele balançou a cabeça – já deveria ter considerado que Tessa não era mais uma garota.

– Mas eu nunca estarei preparada. – ela respondeu com a voz embargada, começando a soluçar pelo choro cada vez mais desenfreado. – Nunca estive preparada para a morte de Gideon, ou de Charlotte, ou de Henry. Muito menos estarei para a de meus filhos e...

Magnus virou Tessa para si e pegou firmemente em seus ombros, enquanto ela tentava lutar contra os soluços. Ela estava entrando em pânico.

– Tessa! – ele a sacudiu uma vez. — Tessa, se acalme! Respire fundo!

Tessa fechou os olhos e fez o que Magnus mandou, diversas vezes, até ele perceber que a respiração dela estava se regularizando.

– Você sabia que isso ia acontecer quando concordou em se casar e ter uma família com Will.

Ela balançou a cabeça.

– Mas, agora, que tudo está chegando e está tão perto... Oh, Magnus, como você consegue?

Magnus lembrou-se de Will que, muitos anos atrás, lhe fez essa mesma pergunta, imaginando que Jem estava morto.

– Como eu disse a Will, eu suporto o que é insuportável, e sigo em frente. Só isso.

– Will? – perguntou ela, confusa, e enxugando as lágrimas dos olhos.

– Quando ele achou que Jem estava morto. – respondeu com cautela.

– Oh. – ela soltou, voltando a cabeça para o horizonte, provavelmente pensando que, pelo menos, sempre teria Jem. Então seu rosto se contorceu, como se punisse a si mesma por pensar algo assim. — Ao menos, Jem não sofrerá tanto quanto iria se... estivesse em condições normais. Os símbolos de Irmão do Silêncio diminuem os sentimentos, certo?

Magnus simplesmente assentiu.

Ele ainda a olhava atento, pronto para recuperá-la de mais algum possível ataque de pânico, mas ela continuava olhando para o nada com uma expressão de dor que Magnus não aguentaria observar por muito mais tempo.

Ele respirou fundo.

– Tessa. – chamou-a, mas ela continuava olhava para o horizonte, os olhos desesperados. – Tessa Gray, olhe para mim. – ele chamou com mais convicção. Lentamente, ela virou-se para encará-lo. – Você é uma das pessoas mais fortes que conheço. Você já conseguiu encarar muitas situações inesperadas e terríveis, e soube lidar muito bem com elas. Essa situação é mais uma. E você saberá, Tessa, você já sabe, que Will não poderia ter tido vida melhor e mais feliz, e nem seus filhos, e nem seus netos. Você saberá que deu o melhor de si para eles. E se lembrará do amor deles por você, Tessa, e tudo terá valido a pena.

Tessa encarava Magnus, pensativa.

Subitamente, ela o abraçou.

Ele ficou surpreso mas, depois de um tempo, retribuiu o abraço. Era raro conquistar amizades verdadeiras, e achava que havia acabado de conquistar uma para a eternidade. — Obrigada, Magnus. – ela sussurrou.

– Sempre pode contar comigo, Tessa. – ele se afastou dela e apontou o Instituto com um movimento da cabeça. – Agora vá e aproveite seus segundos valiosos.

Tessa estava com os olhos inchados e vermelhos, mas acenou com a cabeça determinadamente e se dirigiu ao Instituto.

Ah, o primeiro amor, pensou Magnus.

A diferença é que Tessa também tinha construído uma família, e não teve a experiência de amar somente uma pessoa mortal, mas várias, e de maneiras diferentes. Isso fazia Magnus pensar – será que cada tipo de amor dói em um lugar diferente do coração? Ou todas as dores são tão esmagadoras quanto as que já sentira? Fazia tanto tempo que perdera algum parente que já até se esquecera de como era.

Tessa tivera frutos de seu ventre, derivados de seu amor com Will. Magnus não poderia ter frutos de seu ventre, claro, mas às vezes pensava em como seria ter uma família e amar como marido, pai, avô...

Ele observou Tessa entrar no Instituto e fixou o olhar onde sabia que era o quarto dela e de Will. Viu a figura dela se entrando no quarto e se jogando nos braços do marido. Talvez ele não tivesse coração suficiente para amar tanto e aguentar todo esse amor em forma de sofrimento depois. Mas isso era algo para se pensar no futuro, se – e somente se – decidisse ter uma família algum dia.

Quem sabe.

Ele tinha a eternidade pela frente para decidir.

Notas finais
WIIIIIILL T____________________________TEspero que tenha gostado do texto! :DE, também, que eu tenha transmitido pelo menos um pouquinho dos sentimentos de Tessa e de ter falado sobre esse ser que causa nas nossas vidas - o tempo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!