Cada dia da minha vida

18 Capítulo 18 – Esperança


Capítulo 18 – Esperança

— Eu te amo – Afonso repetiu, entrelaçando os dedos nos cabelos ruivos num afago suave.

Ele a abraçou até que ela se acalmasse e o choro de ambos desaparecesse, sentindo o coração se agitar pela ansiedade de conversar com ela.

— Meu amor – Amália sorriu, finalmente o encarando.

Afonso respirou fundo quando o peito apertou ao ouvi-la chama-lo assim novamente, e sorriu de volta, não deixando-a dizer mais nada quando uniu seus lábios aos dela, num beijo tão demorado e profundo quanto o primeiro que eles deram. E o mundo se dissolveu, a floresta, a casa da mandingueira, as lembranças, a guerra, como se estar ali com ela agora fosse a única razão para os dois existirem.

Afonso deslizou uma das mãos para a barriga da amada, e Amália fez o mesmo, entrelaçando seus dedos com os dele ali enquanto ainda se beijavam. Afonso suspirou no beijo ao sentir o bebê se mover contra sua mão, e aproveitou o momento para se afastarem e respirar, ou ele poderia facilmente chorar de novo.

— Amália... – sussurrou com um sorriso, descobrindo a sensação de chamá-la olhando em seus olhos outra vez.

— Meu amor – ela repetiu, também sorrindo, e Afonso beijou demoradamente sua testa.

— Como eu esperei por esse momento... Como eu esperei...

— E eu.

— Você lembra... – o ferreiro sorriu, sentindo seus olhos umedecerem novamente e acariciando o rosto da plebeia com uma das mãos – Você lembrou de tudo.

Amália riu e assentiu, permitindo que seus lábios se unissem novamente. E jamais ela interromperia esse beijo também se não precisassem respirar, se não precisassem conversar.

— Vamos... – ele sussurrou – Vamos levantar.

Ela assentiu, deixando que ele levantasse e a levasse junto, parando para encará-la por um momento, buscando a certeza de que ela estava bem, e só então percebendo que ela usava suas próprias roupas, mas sem o colete, e seu cabelo estava adornado com um trançado novo que ele ainda não tinha visto. Afonso olhou para onde a saia se ajustava em volta da gravidez já evidente, felizmente a esse ponto ainda servia bem sem pressionar o local e arriscar machucar o bebê ou a própria Amália, essa seria uma das coisas que precisariam resolver ao voltar para casa. Afonso não resistiu se ajoelhar na frente dela para beijar sua barriga, e sentiu Amália entrelaçar os dedos da mão livre em seu cabelo, a outra estava entrelaçada com a dele. A plebeia estava sorrindo quando ele levantou e a beijou mais uma vez.

— Nosso bebê...

— Está bem – Amália respondeu antes que ele terminasse a frase – Vamos entrar. Não acho que a mandingueira se importará de conversarmos lá dentro.

— Foi ela que encontrou você?

— Foi.

— É bem vindo para ficar – ouviram a voz da mandingueira da porta da casa, alguns metros atrás deles – Vocês dois têm muito a pôr em dia. E estão seguros aqui. Amália está bem, mas deve finalmente retornar com você.

— Muito obrigado! Por acolher Amália. E nosso filho.

A mulher sorriu e acenou com a cabeça em assentimento, indicando um local onde Afonso poderia deixar seu cavalo, já com água e alimento para o animal. Então sua mente começou a trabalhar. Ela sabia que ele viria. Então devia ter motivos para Amália ter estado ali todo esse tempo sem que tentassem avisar a ninguém, ao menos ele acreditava que fora assim. Após acomodar bem seu cavalo, os dois entraram e seguiram para conversar no local onde Amália dormia, enquanto a mandingueira se ocupava de seus afazeres diários em outro lugar da casa.

Os dois sentaram-se na cama e por um longo instante apenas se olharam. Afonso beijou sua testa e entrelaçaram seus dedos com força.

— Esse tempo todo você estava aqui?!

Ela assentiu, secando as lágrimas com uma das mãos.

— Cássio me falou da possibilidade depois de ver alguém na floresta, mas... Depois de procurarmos tanto achei que me frustraria novamente.

— Cássio? Era ele?

— Então era mesmo você?

— Eu vi Virgílio... Ele esteve aqui dias atrás. Não sei se chegou a me ver, mas... Não fiquei pra esperar que me encontrasse. Ouvi um cavalo se aproximando e achei melhor ir embora.

— Era Cássio.

Amália ficou em silêncio por um tempo, pensando nas implicações de ter esperado por Cássio e não ter fugido, se soubesse que era ele, ou se não temesse tanto ser encontrada por Virgílio.

— Depois que eu fugi passei algum tempo na floresta, perdida além da trilha dos viajantes, rezando pra não ser encontrada pelos lobos. Dava pra ouvir os uivos. Pela manhã a mandingueira me encontrou.

Afonso se desligou da conversa por um segundo. Agora seus sonhos faziam sentido!

— Fugiu? De quem, Amália? Os lobos chegaram a você?!

— Eu não sei. Eu acordei presa numa carruagem escura, me lembrando de tudo. A primeira coisa em que pensei foi o bebê. Mas eu não parecia ferida, a única dor foi da pancada que levei na cabeça quando o tumulto na feira começou... – Amália parou de falar de repente – Afonso... Onde está Diana?!

— Diana está bem. Se machucou um pouco, mas está bem. Quando conseguimos nos encontrar no fim do conflito, depois de horas e muitos danos, ela chegou desesperada por ter perdido você. Ela acha que podia ter evitado o que houve.

— Não... Fui eu que a coloquei em perigo. Eu pedi que ela me acompanhasse até o local onde encontrei você no dia que o conheci. Minhas memórias começaram a voltar quando chegamos lá. Então tudo começou. Estávamos juntas, e indo bem. Então se tornou impossível evitar a multidão de pessoas. E não sei o que aconteceu depois... Acordei presa e sem meu colar. Pensei em ladrões, querendo se aproveitar da guerra, e no que pretendiam fazer comigo. Então a primeira pessoa em quem eu pensei foi você, nesse momento parecia que eu nunca perdi minhas memórias, se não fosse pela forma como te tratei...

— Meu amor, você não teve culpa de nada. E eu jamais vou culpa-la. Eu disse que cuidaríamos de você depois da guerra, e é o que vou fazer agora que finalmente achei você.

Amália sorriu e ergueu suas mãos unidas para beijar a dele, sentindo Afonso beijar seus cabelos. Então os dois se abraçaram e ela repousou em seu ombro enquanto ele a envolvia.

— Por algum motivo eu pensei na princesa Catarina. Ela claramente não gosta de nós e essa declaração de guerra e tudo que houve foi muito estranho... Mas não faz sentido. Por que ela mandaria alguém me raptar quando estava tão focada em vingar o atentado do pai?

— Realmente não faria sentido. Até o último momento que a vi ela parecia determinada a isso.

— Eu pensei em Virgílio. Jurava que o encontraria do lado de fora ou que ele entraria na carruagem quando o movimento parasse. Mas quando os homens pararam pra acampar à noite, não ouvi a voz dele.

— Eles fizeram alguma coisa com você?

— Não. E também não deixaram muito claro o que pretendiam fazer ou quem poderia ter ordenado isso. Um deles entrou pra verificar se eu estava acordada e bem presa, e eu roubei uma faca presa na armadura dele sem que percebesse. Já tinha tentado soltar meu pulso das cordas, mas em vão. A faca resolveu. Um deles voltou novamente depois, e consegui golpeá-lo e correr. Eu o ouvi gritando enquanto corria, mas não sei porque os outros não reagiram.

— Você reconheceu algum deles?

— Não. Não tive tempo pra isso... Estavam me levando pro reino de Mazman.

— Mazman?! É o reino mais distante da Cália.

Amália assentiu em concordância.

— Foi quando comecei a descartar a ideia de Virgílio. Conhecendo-o como conheço acho que ele me levaria à força com suas próprias mãos. Ir pra Mazman... É algo muito grande, parecia ter vindo de alguém com muito poder.

— Por que alguém assim teria interesse em você no meio de uma guerra?

— Eu não sei, Afonso. Pensei em Catarina novamente e...

Afonso esperou que ela continuasse, mas as palavras não vieram.

— Ei... Você pode me dizer qualquer coisa. Se suspeita de alguém, eu quero saber.

Amália hesitou por mais um instante.

— Eu pensei... Se Rodolfo não teria ordenado tudo isso pra atingir você.

Afonso ficou em silêncio um momento, enquanto refletia.

— Amália, eu não sei... Rodolfo ultimamente tem perdido o juízo de uma maneira impressionante. Não seria impossível.

— Eu não quero colocar você contra seu irmão ainda mais, isso foi só... Uma hipótese.

Afonso a abraçou mais apertado e beijou sua têmpora.

— Eu sei... – ele sussurrou contra sua pele – Mas parece um plano muito grande. Mazman é muito longe. Não sei se Rodolfo chegaria a tanto, apesar de quão grande anda seu senso vingativo.

— Eu pensei isso também. Não tenho a menor ideia do que aconteceu e porquê. Acho que eram cinco ou seis homens, soldados provavelmente, eles usavam armaduras. Disseram que a ordem era me levar viva.

Afonso sentiu seu sangue gelar quando ela disse isso. Levá-la viva... E depois?

— Amália... – ele murmurou em lamento – O que mais você ouviu?

— Estavam com medo dos lobos. Disseram que acenderiam fogueiras pra espantá-los com o fogo, que se alguém visse acharia que foram incêndios provocados pelas flechas no combate. E de uma bruxa que supostamente também vive na floresta, disseram que as histórias vieram de Montemor.

— De fato Rodolfo falou algo sobre isso numa vez que nos encontramos. Achei que fosse apenas sua imaginação exageradamente fértil, ou um delírio de algum momento que ele tivesse bebido demais.

— Eles disseram quase a mesma coisa que você disse agora... E eu me encontrei com os lobos.

Afonso respirou fundo ao sentir uma pancada de medo no coração, e Amália já esperava o olhar aterrorizado que ele lhe lançou.

— Como...?

— Foi essa manhã antes de você chegar. Eu e a mandingueira tínhamos saído pra colher ervas. Nos afastamos um pouco, e de repente um filhote apareceu. Não era um cachorro, tinha olhos diferentes. Ele queria brincar, nisso não são tão diferentes de filhotes comuns.

Amália lhe relatou todo o ocorrido, enquanto Afonso ouvia boquiaberto.

— Você... Fez amizade com lobos!

Amália riu.

— Não sei... Foram só alguns minutos. E ela também tinha um filhote, talvez por isso tenha me protegido, mesmo que por instinto. E eu concordo com a mandingueira.

— Confesso que já pensei assim também, mas... Nunca tive a chance e nem quis tentar comprovar por mim mesmo.

Amália riu novamente.

— É bom ter uma boa história no meio de tudo isso. Tirando a pessoa que a loba espantou.

— Você não conseguiu mesmo ver nada?

— Não. Nem ouvi os passos, não vi... Só espero que não tenha sido Virgílio. Ou bandidos.

— Cássio me deu cobertura quando saí da cidade, ele teria visto Virgílio me seguir e vindo em avisar. Mas não vamos descartar nada. Se a mandingueira e até os lobos acham que não era uma pessoa boa, pode ser ele.

Os dois conversaram por mais alguns instantes, compartilhando todas as informações que tinham, e ainda assim não chegando a uma conclusão.

— Podemos pensar melhor em tudo isso mais tarde, ou depois, ou amanhã. Eu finalmente encontrei você. E nosso filho.

Os dois sorriram um para o outro antes de trocarem mais um beijo e Amália acariciar os cabelos escuros do ferreiro enquanto Afonso acariciava sua barriga. Por fim, os dois tiraram suas botas e sentaram-se contra a cabeceira da cama, abraçados enquanto sentiam juntos o bebê se mexer. Afonso riu em alegria.

— Há quanto tempo ele tem se movido?

— Uma semana.

Os dois entraram em mais um instante de silêncio agradável e cheio de paz enquanto continuavam sentindo o bebê.

— O que vamos fazer agora? Ninguém além de nossa família sabe.

— Vamos viver. Seria impossível esconder agora, mesmo se quiséssemos.

— E Virgílio?

— Terá que aceitar que a história dele com você acabou. Ele não vai encostar um dedo em você, Amália. Nem ele e nem ninguém.

Ela assentiu, se acomodando melhor em seu peito e fechando os olhos.

— Tente dormir um pouco.

— Minha cabeça não consegue. Não quero tirar os olhos de você outra vez – a plebeia respondeu após alguns minutos tentando acalmar seus pensamentos, mas sem sucesso.

Afonso sorriu e a beijou, em seguida levantando-se com ela no colo. Amália riu.

— O que vai fazer?

— Cuidar de vocês.

— Estou mais pesada.

Ele riu.

— Não é você, é nosso filho. E posso muito bem segurar os dois.

Amália sorriu e se acomodou melhor a ele enquanto Afonso a balançava suavemente enquanto se movia pelo quarto. Seus olhos se fecharam novamente e minutos depois finalmente ela se deixou vencer pelo sono, que descobrira ser maior e mais frequente durante a gravidez. Sentiu o amado beijar sua testa e pouco a pouco seus pensamentos desapareceram quando ela mergulhou num sono mais profundo.

Afonso ainda a segurou assim por alguns minutos, não conseguindo tirar o sorriso do rosto e nem perder a visão do rosto dela. Quando finalmente a repousou na cama com cuidado, beijou sua barriga e novamente sua testa, acomodando-se ao lado dela e a abraçando enquanto pensava sobre tudo que Amália havia lhe relatado.