Cada dia da minha vida
7 Capítulo 7 – Meu amor
Capítulo 7 – Meu amor
— Ela deve ser levada no meio do tumulto. Pra que ninguém perceba que sumiu nas primeiras horas ou dias. Sigam pelos caminhos mais vazios da floresta onde dificilmente alguém os verá. Não a atinjam em lugares perigosos, Virgílio precisa vê-la viva pra que acredite em mim. Uma leve pancada na cabeça será suficiente.
— E se ela tentar fugir da carruagem quando acordar, majestade? – Delano questionou.
— Amarre-a se preciso.
— E se o chefe da guarda cruzar nosso caminho?
Catarina ficou pensativa por alguns instantes.
— Quero Afonso vivo. Se isso acontecer, dê um jeito de despistá-lo. Sob hipótese alguma alguém deve perceber o que está acontecendo, principalmente ele. Apenas Virgílio que estará escondido observando saberá. Então é só levar os dois até Mazman, e quando chegarem lá... Você já sabe quais ordens devem dar a seus homens. Tão longe ninguém vai pensar em reclamar pelos dois.
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— Tem certeza disso, Afonso? – Martinho perguntou.
— Eu estava lá quando a princesa Catarina declarou guerra à Montemor.
— Eu também vi, meu pai – Tiago falou.
Tiago tinha ingressado na guarda do castelo após sua participação no torneio, e, pelas leis do reino, não poderia deixar de lutar na guerra.
— A princesa continua muito abalada com o atentado do rei Augusto – Afonso continuou – E a quebra de todos os acordos entre Artena e Montemor... Rodolfo não podia ter feito isso. Não quis ouvir nem a mim. Estejam preparados. A guerra pode começar qualquer dia, a qualquer instante. Não sabemos quando Montemor vai atacar, e eu não sei se terei tempo de avisá-los.
Todos na casa ficaram em silêncio sem saber como reagir. Amália deveria ser protegida a todo custo, e talvez precisassem fugir da cidade. E se Virgílio viesse atrás dela, seria ainda mais difícil. Era estranho que o comerciante não tivesse aparecido muito ultimamente, ia ver Amália apenas na feira, mesmo após ter algumas discussões com ela por causa de Afonso.
— Ninguém sabe como vão ser as coisas... – Constância falou – Se precisarmos fugir da cidade, como nos encontraremos depois?
— Montemor é o reino mais próximo. Eu e Tiago os encontraremos de alguma forma. Se eu ou Cássio ainda estivermos em combate, encontrarei um meio de ajudá-los daqui.
O casal mais velho, Diana, Tiago, Samara e Levi ficaram na cozinha falando sobre as probabilidades do que poderia acontecer. Afonso os deixou por um momento e seguiu Amália que tinha se retirado para outro cômodo, onde estavam armazenando comida e água.
— É verdade que pode começar a qualquer instante? Incluindo hoje? – Ela perguntou.
— Infelizmente sim – Afonso respondeu.
— Então quando sair por aquela porta pode ser que nunca mais você volte?
Ele ficou em silêncio, e Amália já sabia a resposta. Quando teve coragem para encará-la, o rosto da plebeia estava triste. Embora ela não o olhasse mais como se fosse um estranho, os olhos verdes diziam que ainda não se lembrava dele. As mãos dela acariciaram a barriga, sem perceber o que estava fazendo. Isso fez Afonso ir até ela, estendendo as mãos para esperar que ela segurasse por vontade própria. Amália hesitou por segundos angustiantes, mas aceitou unir as mãos as dele.
— Escute – o Monferrato começou para apenas os dois ouvirem – Eu sei o quanto você é forte e bondosa, e que se vir alguém em perigo vai querer ajudar. Eu sei que você é capaz de se proteger e sobreviver, mas não faça nenhuma loucura, Amália. Não é só sua vida que está em risco agora.
— Eu sei.
— E eu quero que você saiba que apesar de não se lembrar de mim, aconteça o que acontecer lá fora, eu vou amar você até o último instante da minha vida. Eu não vou desistir de você. E nem do nosso filho. Se essa for a última vez que nos vemos, eu quero que você diga a ele todos os dias o quanto o pai dele amou vocês dois.
— Você voltará.
— Não tem como saber, Amália. Diante de uma guerra é preciso mais que acreditar no coração. Mas vou usar suas palavras como uma prece, pra me lembrar que preciso voltar bem. E quando isso acabar, nós vamos cuidar de você. Tudo vai ficar bem em algum momento.
Ela assentiu, e os dois olhares ficaram presos. Afonso não estava brincando, ele podia realmente não voltar nunca mais depois de ir embora. Uma parte dele não conseguia aceitar que essa podia ser a última vez que via Amália, sem poder beijá-la e abraçá-la, sem que ela se lembrasse dele. A outra só a queria viva e segura, mesmo que nunca mais ele a visse. Algo no coração de Amália também apertou, um desespero profundo que lhe tomou o fôlego por um momento, e sua mente quase entrou em choque, porque simplesmente não sabia mais o que estava sentindo. A responsabilidade e o afeto por Virgílio vinham virando medo, o medo de Afonso estava se convertendo em respeito e algo mais que ela não sabia o que podia ser.
— Apesar de você ter esquecido... Eu nunca vou me arrepender por nossos caminhos terem se cruzado. A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi ter sido salvo por você naquele dia – ele sussurrou com os olhos cheios de lágrimas.
Os olhos dela marejaram e se fecharam. Amália não conseguiu impedir quando Afonso beijou seu rosto demoradamente e afagou sua mão repousada sobre o bebê. E pelo suspiro que ouviu dele e as lágrimas que molharam sua pele, Amália sabia que ele estava sofrendo muito. Suas mãos se soltaram e os passos dele desapareceram. Amália abriu os olhos, ouviu-o conversar rapidamente com os outros e ir embora da casa. Sem entender exatamente porque, ela chorou.
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“Você vai viver! Já chegamos. Depressa, Tiago!”
A lembrança tinha vindo de repente quando ela acordou no dia seguinte. Ela e Tiago tirando alguém desacordado da carroça em frente a sua casa, as roupas estavam manchadas de sangue. Devia ser homem, era grande e pesado. Mas Amália não conseguia lembrar de seu rosto ou qualquer detalhe importante. Precisava investigar o lugar aonde Tiago a levara para encontrar Afonso semanas atrás. Mas precisava ir sem ninguém para lhe dizer o que fazer ou o que pensar. Por isso deixou sua barraca sob o cuidado de outras feirantes e se ausentou com o pretexto de colher mais ervas para os caldos junto com Diana, não era estúpida o suficiente para se arriscar sozinha com seu bebê diante de uma guerra. Colheu algumas ervas de qualquer forma, e parou ao se aproximar de onde queria ir.
— Foi aqui... – ela disse, ajoelhando-se em frente à pedra de seus sonhos.
— Vocês disseram que foi no campo, mas eu não tinha ideia de que tinha sido exatamente aqui.
Amália focou a pedra no chão por bastante tempo e percebeu que conservava manchas antigas do que parecia ser sangue. Seus sonhos eram reais, alguém ferido tinha realmente caído nesse lugar.
— Tem sangue na pedra.
A ruiva forçou sua mente por vários minutos e de repente as memórias começaram a ficar mais nítidas. Agora percebeu que podia se lembrar perfeitamente das mãos dele, da cor das roupas.
— Vocês me disseram que encontrei Afonso ferido... Como ele se feriu?
— Eu não vi nada, mas vocês me disseram que foi uma flecha, atirada por algum ladrão enquanto ele estava na floresta. Bem aqui – Diana indicou o local.
Amália escutou atentamente enquanto as lembranças voltavam assustadoramente rápido a sua mente.
— Você me contou que ele parecia completamente desacordado quando o achou, mas segurou sua mão de repente e não quis soltar. Foi assim que você viu que estava vivo e decidiu levá-lo pra casa.
Amália assentiu com um aceno de cabeça sem encarar a amiga, e voltou a olhar para a pedra. Os cabelos... Eram escuros. Amália inspirou fundo para tentar processar as reviravoltas em sua mente. A... O nome dele começava com A. E ele era um príncipe.
Seu raciocínio foi interrompido quando ouviram gritos ao longe, homens gritando, pareciam estar... Declarando guerra! Amália se manteve abaixada no capim alto do campo e Diana se juntou a ela. Seguiram até o caminho que levaria de volta para a feira sem terem a menor ideia de que eram observadas.
— Esse reino também é muito interessante – Brice murmurou com um sorriso sarcástico – Como eu já disse, o tempo está acabando, Virgílio.
A bruxa sumiu entre as árvores no exato instante em que Diana e Amália olharam em sua direção.
— Amália... O que foi?
— Nada... Só tive a impressão de estarmos sendo seguidas. Mas não há ninguém. Vamos sair daqui.
Ouviram gritos novamente, dessa vez dos feirantes e civis na direção da feira, além de mais soldados, agora provavelmente do exército de Artena. Todos deviam estar loucos procurando por elas. Precisavam voltar o quanto antes.
Podiam ver o caos de pessoas correndo na feira, misturadas a soldados que davam instruções ao povo ou ordens a subordinados. Pararam para procurar uma rota menos tumultuada para a saída da feira onde poderiam ir para casa, mas não havia muita escolha e se arriscarem entre as pessoas foi a única opção. Em algum momento foram separadas pela multidão e Amália começou a se preocupar. Tentou proteger a barriga com as mãos, temendo por seu filho, mas algo atingiu sua cabeça, e os gritos de Diana procurando por ela foram a última coisa que ouviu.
*****
A plebeia despertou com dor de cabeça. Estava escuro e o chão parecia se mover, podia ouvir o som de rodas e cavalos. Abriu os olhos e o lugar estava quase um breu. Inspirou fundo e tentou entender o que tinha acontecido, logo lembrando de Diana gritando por ela na feira. Moveu um de seus pés, que caiu para o chão do interior da carruagem. Ficou assustada ao perceber onde estava e se sentou, notando que seu pulso direito estava amarrado em algum lugar e seu colar havia sumido. Ladrões... Ladrões se aproveitando da guerra. Mas qual a necessidade de levá-la?
Seu próximo pensamento foi o bebê. O bebê! O que teria acontecido enquanto ela dormia? Suas mãos deslizaram pela barriga, e tentou perceber algum outro dano em seu corpo além do ponto dolorido na cabeça. Não havia sangue em suas roupas, então o bebê devia estar bem. Ela esperava que estivesse! Sua calma começou a falhar. Onde ela estava e por que as janelas estavam cobertas? Por que estava presa? Estava sendo sequestrada? Mas por quem? E por quê?
Sem conseguir evitar as lágrimas, Amália vasculhou em sua memória quem poderia ter interesse em rapta-la no meio de uma guerra, mesmo que com o pretexto insano de salvá-la. Sabia que a princesa Catarina não gostava dela, e algumas pessoas de Montemor também não, mas por que qualquer uma delas se preocuparia com isso agora ao invés de sobreviver à guerra, ou declará-la no caso da princesa? Nesse exato momento Montemor também devia estar sendo invadida e destruída? Ou o exército inimigo tinha chegado apenas à Artena? De repente arregalou os olhos. Mais lágrimas rolaram por seu rosto enquanto suas memórias voltavam uma após a outra como se nunca tivessem sumido.
— Afonso... – sussurrou para si mesma na escuridão – Meu amor...
“Você não conhece o Afonso... Eu nunca disse que te amava! Como eu não enxerguei antes quem você realmente é?”
— Virgílio... Eu preciso sair daqui! Eu tenho que sair daqui!
Agora com todas as suas memórias, Amália duvidava que Virgílio fosse lutar na guerra, a menos que além de sequestrá-la, tivesse em mente fazer alguma coisa contra Afonso.

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