Cada dia da minha vida

6 Capítulo 6 – Você faz suas escolhas


Capítulo 6 – Você faz suas escolhas

— Você desmaiou de novo? – Diana perguntou preocupada enquanto as duas observavam a paisagem da ponte.

— Eu acordei logo, foi só uma tontura forte.

— Você se machucou?

— Eu perdi a consciência antes de cair. Mas nada de mau aconteceu.

— Mas sua mãe estava por perto?

— Estava na cozinha, mas não perto o suficiente. Afonso é que estava lá. Quando acordei eu já estava na cama com ele sentado do meu lado bem preocupado.

— Ele foi falar com você de novo? Pelo que você me contou aquela conversa não foi muito esclarecedora.

— Não foi mesmo. Mas ele disse que foi me ver porque teve um mau pressentimento quando acordou.

— As ameaças de guerra têm deixado todos apreensivos. É normal que ele se preocupe com você estando longe dele.

— Claro, estou carregando o filho dele.

— Amália... Isso é verdade, mas você ainda não acredita no quanto ele ama você? Depois de tudo que dissemos e que já aconteceu?

A ruiva ficou em silêncio olhando ao longe.

— Esse seu silêncio me diz que você concorda comigo.

— Nós conversamos um pouco. Teve um momento que... Os olhos deles se encheram de lágrimas. Ele disse que se lembrou de algo que eu falei pra ele uma vez. Quando estava se sentindo culpado por Virgílio tentar nos tomar a casa, embora eu não me lembre de nada.

— E o que foi?

— Ele não me disse. Fomos interrompidos com Virgílio batendo na porta. Minha mãe o mandou embora dizendo que eu estava dormindo e ele disse que voltaria depois. Por sorte fechamos as portas e janelas, ou poderia ter descoberto Afonso. Sei como Virgílio é ciumento.

— Você já decidiu o que vai fazer? Completa três meses em poucos dias. Já é perceptível.

— Não. Ele me ofereceu ajuda em Montemor. Apesar de todos os desentendimentos de Rodolfo com Artena, ele disse que Cássio poderia ajudar e Virgílio não me encontraria. Se eu decidisse por aceitar acho que deveria terminar com ele antes. Não acho que vai aceitar bem o bebê, ainda mais sabendo que menti. Mas isso é tão repentino, mexeria com toda a minha vida. Tudo sempre foi tão estável, e agora nada está no lugar. Nem o que eu sinto.

— E o que você sente?

— Eu não sei mais, Diana. Eu adiei o casamento por causa do torneio, mas por alguma razão eu me sinto... Livre por algum tempo tendo feito isso. E o olhar de Afonso ontem quando foi embora. Ele não se importa só com o bebê, se importa comigo, e não é pouco. Mas ainda não tenho qualquer lembrança dele.

— Virgílio voltou atrás de você?

— Ele foi me ver essa manhã. Por sorte acreditou que eu estava realmente doente.

— Você não tem tido sonhos estranhos?

— Sim. E partes de memórias inexplicáveis que vem de repente.

— Então tudo logo vai se esclarecer. Sua memória está voltando – Diana sorriu.

— Mas mesmo que volte... Acha que ainda vou amar Afonso como vocês dizem que eu amei?

O sorriso da amiga desapareceu. Diana não tinha essa resposta.

******

Três meses. Afonso tinha vindo vê-la de novo. Os dois tinham conversado sobre o bebê. Falaram sobre nomes, embora ainda fosse tão cedo. Apesar de tudo, ele tinha direito a decidir junto com ela. Mas no fim das contas não tinham escolhido nenhum ainda. Agora que todos dormiam e Afonso tinha ido embora há horas, Amália sentou-se sozinha em sua cama, aproveitando o silêncio tranquilizador da noite e o tom alaranjado confortável da luz das velas nas paredes. Deixou suas mãos passearem pela barriga de três meses e sorriu.

— Espero não estar te perturbando com tudo que tenho sentido ao mesmo tempo – sussurrou – Será que você é menino, ou menina? Será que vai ser ruivo e ter sardas?

A plebeia riu baixinho. A criança poderia nascer com cabelos e olhos escuros, e ser um menino igualzinho a Afonso. Já era estranho o suficiente estar grávida de alguém de quem não se lembrava. Como seria olhar todos os dias para um bebê que é a cópia dessa pessoa? Amália o amaria de qualquer jeito, já o amava muito.

— Não devia crescer sem seu pai. Mas tudo isso não é culpa minha, e eu não sei por que aconteceu.

Ela deitou-se e puxou o lençol por cima do ombro, sentindo-se desesperadamente sozinha e desprotegida. Era estranho não ter ninguém para abraçá-la, apesar de que a última lembrança que tinha de algo assim era quando ainda criança dormia com seus pais.

******

— Chegou tarde ao castelo hoje... – a princesa de Artena falou do trono em que estava sentada, ao lado do de Augusto, Lucíola estava de pé do outro lado.

— Após terminar minha orientação com as tropas tomei a liberdade de visitar algumas pessoas.

— Foi ver Amália?

— Apesar de tudo que aconteceu, aquela família me acolheu e salvou minha vida. Eu serei sempre grato a todos eles e me sinto no dever de saber se estão bem.

— Eu não esperaria nada menos de um homem justo como você. Como ela está?

— Ainda sem memória, mas bem de saúde.

— Que bom – Catarina falou com um sorriso falso.

— Como está o rei Augusto?

— Está bem, mas o médico recomendou que ele não deixasse o repouso ainda. Deve estar dormindo agora. Por que não se junta a mim para o jantar?

— Eu agradeço o convite. Mas preciso de descanso. O dia foi longo e exaustivo.

Afonso fez uma leve reverência e se retirou. Catarina o observou sumir, deduzindo que devia ter jantado com a família de Amália, e o que mais poderia haver por trás dessa visita e de outras que ele certamente devia fazer de vez em quando. Ele não desistiria facilmente da plebeia, mas logo a ruiva não seria mais um obstáculo, e nem Virgílio. Ainda demoraria para Afonso subir ao trono de Montemor, mas iria acontecer. Um rei desmiolado como Rodolfo não conseguiria se sustentar por tanto tempo após o povo notar a competência da princesa de Artena. E assim Afonso não teria escolha. Ela o ensinaria a amá-la. Amália não podia ter tantos encantos assim que fizessem Afonso jamais ceder a outra mulher.

— Acha mesmo que tudo isso vai dar certo? – Lucíola questionou.

— E quando foi que você viu algum dos meus planos não dar, Lucíola?

Pensando que teria algum tempo livre antes do jantar, a princesa se dirigiu a seu quarto junto com a dama de companhia para esperar a chegada de Delano. Havia assuntos a serem resolvidos. Não demorou a reconhecer os passos dele no corredor.

— Alteza – Delano entrou sorrateiramente.

— Diga-me. O mensageiro aceitou levar a mensagem até tão longe?

— Sim, apenas cobrou um pouco mais. Tão logo a mensagem chegue, os soldados de Mazman estarão informados de que devem matar uma plebeia ruiva e um comerciante acusados de traição a Artena, caso nossos homens não deem conta do recado no caminho. Só desejo saber quando devemos emboscá-la e levá-la. A mensagem levará semanas pra ser recebida, e mais semanas pra ser respondida.

— Tão logo a declaração de guerra se torne oficial e os conflitos comecem. Ninguém vai desconfiar. E se ela não sumir na floresta, sumirá quando chegar a Mazman mesmo que minha mensagem só seja recebida depois disso.

— Acho que não seria estranho ela ser encontrada morta aqui mesmo – Lucíola falou.

— Precisei envolver Virgílio na história pra me livrar dele também, estará vigiando Amália dia e noite quando a guerra for declarada. Se ele descobrir a verdade pode impedir ou atrapalhar nossos guardas. E se sair vivo tudo terá sido em vão.

— Não acho que um único homem possa contra vários dos nossos – a loura tornou a falar.

— Do que conheço de Virgílio ele se torna violento quando está irritado, é melhor não arriscar. Não sei quão bem ele luta ou quais armas possui.

— Entendido, majestade.

— Preciso que ele veja a plebeia viva. Levem sem machucá-la se possível – Catarina disse a Delano – E se precisarem usar a força, não batam em lugares sensíveis que coloquem a vida dela em risco. Preciso que Virgílio veja exatamente o que lhe prometi pra que siga o combinado e vá direto pra minha armadilha. E se encontrarem lobos na floresta, podem lhes atirar os dois. Assim será ainda mais difícil que alguém desconfie de como morreram. E nesse caso, Virgílio primeiro.

— Como saberá que os dois estão lá ao mesmo tempo?

— Ele seguirá a carruagem de longe, Lucíola. Ficaremos de olho pra segui-lo sem que perceba. E tudo tem que sair perfeito. Quanto menos obstáculos, melhor.

******

— Tem certeza disso? – Petrônio questionou.

— Absoluta – Rodolfo respondeu sem olhar para ele.

— O povo não vai ficar contente com isso – Orlando falou.

— Eles não têm que ficar contentes! Têm que ficar agradecidos porque lutaremos pelas vidas deles enquanto correm e se escondem!

— Majestade... Eles têm razão, não é um bom momento pra uma guerra. Se investigarmos mais um pouco podemos descobrir o que aconteceu sem colocar milhares de vidas em risco...

— Ousa contestar o conhecimento e a experiência de seu rei, Cássio?

— Não, majestade. Estou aqui cumprindo minha função de conselheiro.

— Pois continue. Você dá os conselhos, eu os aceito se eu quiser.

Os outros três ficaram em silêncio enquanto aguardavam mais alguma palavra de Rodolfo.

— Declararei guerra à Artena. E mesmo se eles fizerem isso antes, eu não vou hesitar em enviar todos os homens que tivermos pra esmagar aquele reino. Eu não vou tolerar ser visto como um assassino e ainda ser chamado de mentiroso pela princesa.

A voz séria e a maneira sombria como o rei proferiu aquelas palavras os assustou.

Notas finais
Minhas fics Afonsália: 1 - A princesa para meu reino 2 - Watch it all fade 3 - Your heart over mine 4 - One heart 5 - The true love of mine 6 - Uma história que ninguém nunca ouviu 7 - Cada dia da minha vida 8 - Always come back for me 9 - Laços