Cada dia da minha vida
14 Capítulo 14 - Luz
Capítulo 14 — Luz

— Querida...
— O que há, minha mãe? Algo grave me aconteceu durante o acidente? – Amália temeu o olhar apreensivo e o nervosismo da mãe.
Todos na casa estavam nervosos simplesmente porque ela acordara e não tinha a menor ideia de quem era o homem sentado ao seu lado. Constância tinha voltado sozinha ao quarto após uma conversa confusa e apressada com os demais na cozinha.
— Não. Graças a Deus, não, minha filha. Diana conseguiu evitar que sua queda fosse pior. Ela se machucou um pouco, mas está bem, foram só alguns arranhões.
— Então por que estão todos tão nervosos?
A mulher gesticulou em silêncio algumas vezes, sem conseguir encontrar as palavras.
— Como você já sabe, embora não se lembre, você e Afonso se casaram pouco tempo atrás. Há menos de dois meses. E você está... Você está grávida, minha filha. Por muita sorte o bebê sobreviveu ao acidente. O médico disse que você precisa repousar e ter muito cuidado nesses primeiros meses, mas está tudo bem.
Amália só ouviu palavras distantes e difusas de sua mãe. Sua cabeça travou na palavra “grávida”. Olhou assustada para o anel dourado em seu dedo. Então era verdade. Ela estava mesmo casada, e ainda grávida de um homem que sequer se lembrava de conhecer. Ela seria mãe em alguns meses e de repente parecia que estava vivendo a vida de outra pessoa.
— Não... Não. Não pode ser possível.
— Amália...
— Não... Como?
— Vocês conceberam na lua de mel.
A respiração de Amália se tornou irregular, preocupando Constância, que sentou-se mais perto da filha para encará-la e afagar seu cabelo.
— Querida, se acalme... Não é bom pra vocês dois. Vai ficar tudo bem. Logo você vai lembrar de tudo quando se recuperar do que houve. Antes de entrar em pânico, você precisa de tempo – falou enquanto abraçava a filha.
— Um bebê... – Amália murmurou, sua voz indicava choro.
— Sim, seu filho. Seu bebê. Você está confusa agora, mas ele também é seu, lembre-se disso.
A ruiva se permitiu chorar no abraço da mãe, se perguntando se tudo não passava de um pesadelo e logo acordaria em sua vida normal. Um bebê não seria um pesadelo para ela, nunca. Mas sua vida nunca caminhara para tamanha confusão.
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Amália acariciou a barriga enquanto as lembranças passavam por sua cabeça e os barulhos da noite cruzavam a floresta do lado de fora da casa, completamente fechada agora que a mandingueira já dormia e ela também faria isso em breve.
Tinha ficado aterrorizada naquele dia, mas ficou feliz e protetora quando se acostumou à ideia, embora nada satisfeita com toda a situação de não se lembrar do pai do bebê. Seu coração se agitava com a impaciência de continuar esperando. A mandingueira dizia que alguém viria em breve, mas quem? E quando? E porque não era seguro para ela sair? Virgílio estava procurando por ela, mas seu sequestro não parecia ter sido armado por ele. Se alguém com mais poder era o responsável ou simplesmente guardas desertores se aproveitando de uma mulher capturada aleatoriamente no tumulto da guerra ela não sabia. Mas queria estar em casa quando essa criança nascesse. Se perguntava se a guerra havia mesmo acabado, como estariam as coisas para o povo dos dois reinos, onde estaria sua família.
******
— Até onde você o viu seguir?
— Em um local aleatório da floresta. Não o vi chegar a lugar algum e nem dar sinais claros do que estava fazendo.
— Havia alguém com ele?
— Não.
— Teria sido o momento perfeito para eliminá-lo. Por que não fez isso, Delano?
— Ouvi um cavalo ao longe. Não consegui vê-lo e nem se alguém estava montando, mas achei que seria arriscado. O comerciante voltou na direção da cidade pouco depois e decidi apenas continuar o seguindo.
— Ele Virgílio acha mesmo que Amália pode estar viva – Catarina falou pensativa – Nada foi descoberto nos outros reinos?
— Não – Lucíola respondeu – O informante disse que ninguém teve notícias de uma mulher com a descrição de Amália perdida em qualquer lugar.
— Ninguém some desse jeito, majestade – Delano falou – Acho que levar um ataque de lobos em conta pode ser mais real do que pensamos. Não seria a primeira vez que acontece.
— De fato se a plebeia estivesse viva e por perto já teria aparecido, ou sido morta mesmo fugindo dos guardas. Tem certeza que não encontrou mais nada quando limpou o local? – Perguntou a Delano.
— Sim. Apenas sinais de fuga, mas nenhuma outra pista. Ela deve ter fugido quando os guardas já estavam mortos. Pelo que encontrei ela deve ter ferido um deles, que foi o último a morrer. Ou talvez tenha sido ferido pelo assassino que desconhecemos.
— Essa mesma pessoa pode ter matado a plebeia, mas porque não encontramos o corpo?
— Há muitos tipos de criminosos à solta. Pode ter matado os guardas e raptado a mulher. Se ela estiver presa em algum lugar, dificilmente vamos achar. Mas acho essa hipótese improvável.
— E por que?
— Nos locais onde não havia grama no chão não havia pegadas de nenhum estranho. Para matar os guardas no lugar em que estavam, o assassino teria que pisar perto deles. Devo concluir a ordem?
— Não. Vamos adiar isso por enquanto. Virgílio é obcecado por Amália, ele tem mais chances de encontrá-la do que Afonso caso ela esteja viva. Você pode ir, Delano.
O soldado fez uma leve reverência e se retirou no exato momento em que Rodolfo apareceu no jardim.
— Bom dia, meu amor. Agora que você está finalmente livre poderia me acompanhar a alguns lugares da cidade que ainda não conhece. Ainda é importante reconquistar a simpatia do povo. Faz pouco tempo que a guerra acabou.
— Será um prazer, meu amor – ela sorriu, apesar de seu estômago revirar de irritação com a companhia irritantemente insistente de Rodolfo.
******
Afonso acordou outra vez assustado naquela manhã. Tinha sonhado com o dia em que encontrara a mandingueira na floresta e ela lhe dissera uma profecia. Mas o que o acordou na verdade foi o vento forte que fez a janela se abrir. O anel de casamento de Amália estava em cima de um dos móveis, e voou para o chão. Afonso despertou a tempo de ouvir o metal colidindo com a parede ao lado da cama.
Sentou-se e pegou a aliança. Aquelas coisas não podiam estar acontecendo por nada. Ele, Tiago, e Cássio e Selena, quando conseguiam fugir do castelo, tinham procurado em vários setores da floresta sem sequer um rasto. Cássio nada encontrara em outros reinos, e até havia voltado às ruínas de Artena uma vez. Afonso não tinha ideia de onde exatamente ficava a casa da mandingueira, mas é para lá que ele iria ao sair da ferraria no fim do dia. Sabia que Virgílio estava louco e procurando sozinho por Amália, não arriscaria que ele o seguisse.
— Tiago – Falou baixo quando o mais jovem entrou no quarto – Não me esperem essa noite. E cuidem de Levi.
— Mas aonde você vai?
— À floresta.
— Eu vou com você.
— Não há necessidade de preocupar Martinho e Constância em dobro.
— Você tem alguma pista? Encontrou minha irmã?!
— Não sei. Tenho tido sonhos... Uma coisa estranha aconteceu quando acordei.
— Essa é a aliança dela – Tiago olhou o anel dourado na mão de Afonso.
— Sim. A janela abriu sozinha e o vento a soprou para o chão.
— São sonhos. Você, como todos nós, ainda está mal com tudo isso. Como isso pode ser uma pista?
— Eu não sei. Procuramos em vários lugares da floresta, e até em outros reinos e nas ruínas de Artena Cássio foi. Eu tenho tido sonhos com Amália perdida na floresta e com a profecia que recebi da mandingueira. Eu não sei o que isso significa, mas nenhum de nós tentou encontrar a casa dela.
— Você já esteve lá?
— Não. Há apenas suposições de onde ela vive. Só alguns dos moradores mais antigos de Montemor já estiveram em sua casa. Mas é até lá que eu irei assim que eu pedir uma dispensa daqui a pouco.
— Tem certeza que vai ficar bem sozinho?
— Virgílio também está procurando por ela. Não quero que ele me siga. Se ele decidir caminhar pela cidade e der por falta de nós dois, pode suspeitar e tentar nos encontrar e nos seguir. Você continua trabalhando no comércio enquanto não recebe uma resposta da academia militar, mas nem sempre é possível ver se estou ou não na ferraria olhando de fora. Eu pedirei a Emanuel que não revele que me dispensou hoje caso ele permita.
Os dois ouviram barulho na cozinha. Martinho e Levi ainda não estavam à vista. Constância arrumava algumas roupas como fazia de vez em quando. Ela tinha lágrimas nos olhos e os dois se aproximaram.
— Tudo bem, minha mãe?
— Sim... Eu só...
Os dois olharam para as peças de roupa que ela organizava em cima da mesa. Um dos coletes de Amália estava ali, o colete bordô que ela usava quando Afonso a conheceu. Seu coração também se apertou ao ver a peça. Tiago abraçou a mãe que começou a chorar.
— Não sai da minha cabeça sua irmã vagando sozinha e grávida em qualquer lugar. Ou pior, muito pior.
Afonso repousou a mão no ombro da sogra em consolo.
— Eu tenho novas pistas. Eu vou procurar Amália outra vez. Ainda hoje.
Constância o olhou, ainda chorando, mas um raio de esperança brilhou em seus olhos quando Afonso beijou sua testa e Tiago a abraçou mais forte. Levi e Martinho apareceram na cozinha nesse momento.
— Aconteceu alguma coisa? – o mais velho perguntou.
— Ela está preocupada com Amália, meu pai.
— Todos nós estamos – Levi falou – Mas...
— Eu vou sair daqui a pouco, vou pedir dispensa na ferraria. Vou procurá-la em outro lugar.
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