Cada dia da minha vida
11 Capítulo 11 – Choque
Capítulo 11 – Choque
Amália se apoiou numa árvore quando parou de correr, mal conseguindo respirar, seu peito doía enquanto tentava recobrar o ar. Seu corpo todo estava dolorido, não tinha ideia de por quanto tempo tinha corrido ou em que direção estava indo, mas agradecia por não ter se deparado com o rio ou com lobos. Também não sabia porque nenhum de seus raptores chegara até ela ainda, nem passos e nem vozes eram ouvidos, somente o silêncio e os barulhos amedrontadores da noite.
Olhando em volta ela não conseguia distinguir nada, não havia nenhuma casa, pessoa ou caminho para qualquer lugar. Não sabia se conseguia voltar a Artena ou chegar a Montemor dali. Suas pernas doíam e estava exausta, apesar de ter passado horas desmaiada. Havia uma boa quantidade de árvores onde estava, suficientes para que ela conseguisse se esconder enquanto descansava um pouco. Se deixou cair no chão e apoiou-se em uma delas, puxando a capa em volta do corpo para se proteger do frio. Como queria ter Afonso com ela nesse momento!
Uivos distantes cortaram a noite e Amália estremeceu. Sua mão acariciou a barriga, ela não seria a única vítima se esses lobos a encontrassem e decidissem que ela era uma presa. Ela devia estar bem agora, segura com sua família, apesar da guerra. Afonso já saberia que suas memórias estavam de volta se ele e Tiago estivessem em casa, e os dois poderiam ter alguns momentos de paz. Como ela havia parado nisso? E os motivos de seu sequestro não deixavam sua cabeça. Por mais valente que fosse, a plebeia não tinha vergonha de admitir para si mesma que estava com medo. Ela não queria morrer, e essa possibilidade era bem real. Nunca estivera completamente sozinha em tal situação, ainda mais com um filho para proteger.
— Afonso... – ela murmurou entre as lágrimas enquanto se acomodava no chão, adormecendo de exaustão minutos depois.
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Amália olhou pela janela enquanto se encolhia na cama, envolta por um cobertor, não conseguindo esquecer do quão aterrorizada tinha se sentido na escuridão da floresta na última noite, no quanto desejara ter os braços de Afonso em volta dela naquele momento, no medo enorme que sentira por seu filho quando ouviu lobos uivando de madrugada, no quanto tinha chorado até adormecer sozinha embaixo de uma árvore.
— Isso vai passar, como os momentos bons infelizmente também passam – ouviu a voz da Mandingueira atrás dela – Eu lamento não tê-la encontrado antes. Não costumo ir longe à noite.
Encarou a mulher mais velha. Ela a tinha acolhido, alimentado, aquecido e garantido que o bebê estava bem. Amália sorriu.
— A senhora salvou minha vida. Eu não sei o que poderia acontecer se eu continuasse lá fora. Obrigada.
A mandingueira sorriu de volta.
— Há homens atrás de mim... – lembrou-se de repente – A senhora corre perigo me escondendo.
— Eles não virão aqui. Nem virão mais atrás de você. Eu posso garantir.
Amália sabia que ela era capaz de descobrir algumas coisas sobre o futuro ou sobre coisas que estavam acontecendo, e sempre acertava, embora ela não tivesse respostas sobre tudo. Não sabia porque, mas confiava nela. De fato se aqueles seis homens continuassem a procurá-la, a teriam encontrado há muito tempo. Podiam simplesmente ter desistido.
— Eu não sei porque vim parar aqui. Minha família, meu marido, meus amigos, tudo que eu tinha ficou na guerra em Artena. Não sei se estão vivos ou mortos, nem se a guerra acabou, ou porque me raptaram.
— Você faz uma diferença muito maior neste mundo do que imagina.
— O que isso quer dizer?
— As respostas virão com o tempo. Tudo que você precisa fazer agora é se recuperar das últimas horas e de tudo que você tem passado. Não é seguro buscar qualquer conhecimento lá fora agora, especialmente para você.
— Ninguém sabe que recuperei a memória, nem onde estou. Devem pensar que estou morta, ou podem estar me procurando por todo lugar. Se estiverem vivos...
— Aqueles com quem você se preocupa estão bem. Os reencontros virão, junto com novas responsabilidades. As coisas não serão mais as mesmas.
— O que isso quer dizer?
— Isso é tudo que me foi revelado até então.
— Então... Estão vivos – Amália sorriu quando finalmente absorveu a ideia.
A mandingueira assentiu, e seu sorriso aumentou.
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Diana repousou a mão no ombro de Afonso. O chefe da guarda estava sentado na cama de Amália. Ambos choravam. Martinho, Constância e Tiago estavam tão inconsoláveis quantos os dois, podiam ouvi-los conversando baixinho na cozinha, Constância também era incapaz de conter o choro. Afonso sairia em breve para procurar Amália de novo, não havia qualquer notícia até o momento. Entre os sobreviventes do reino, muitas pessoas estavam sendo dadas como mortas, inclusive ela.
— Ela sumiu sem sequer ter recuperado a memória – Afonso falou.
— Dias já se passaram. Todos estão deixando o reino pra irem viver em Montemor ou outros reinos. E se Amália estiver lá? Se estivesse por perto já teria voltado.
— Não sei, Diana... De fato todos estão indo embora, mesmo os feridos que estávamos cuidando. Todos se foram assim que se conseguiram se levantar.
— Como ela pode ter ido tão longe? Ela sumiu do nada na feira como se virasse fumaça – Levi questionou.
— Muita coisa acontece durante uma guerra – Afonso encarou o filho – Do mesmo jeito que há pessoas que ajudam as outras, há pessoas que tentam se aproveitar das outras ou fazer o que não devem. Amália pode ter sido levada pra longe daqui. Não sei mais onde procurar em Artena.
— O Virgílio... Deve ter ido pra Montemor também – Diana sugeriu – Ele não conseguiria se estabilizar facilmente em qualquer outro reino agora mesmo se estivesse sozinho, ainda mais se ele levou Amália. Devíamos procura-lo.
— Ele estava ferido. Pode ter morrido no meio do caminho, seja lá pra onde tenha ido. Mas acho que devemos ter certeza disso. Não podemos continuar em Artena por muito mais tempo. E não os deixarei sozinhos...
— E se a Amália voltar pra cá? – Levi lhe perguntou.
— Amália é muito esperta, se ela não nos encontrar aqui ela sabe que pode procurar Cássio em Montemor e ter a ajuda dele, seguirá nosso rastro de todo jeito. Continuar aqui pode ser pior. Precisamos de informações e todas as pessoas foram embora pra Montemor – Afonso lhe disse – Eu vou procurá-la mais uma vez, mas realmente precisaremos partir em algum momento.
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— Ela está brincando comigo... – Virgílio falou com raiva enquanto observava os seis homens mortos.
Como haviam ficado naquele estado não tinha a menor ideia, parecia magia negra, e tinha certeza que Brice tinha algo a ver com isso. Mas como explicar a falta de Amália? A carruagem estava com as portas presas e havia uma corda cortada no interior. Alguém tinha estado preso ali e fora tirado às pressas.
— Que espécie de brincadeira é essa?
Tinha seguido a carruagem por horas depois de avistá-la, deixou os guardas se adiantarem por algum tempo a fim de não chamar atenção, e decidiu parar durante a noite. O grito de um dos homens o despertou e chegou até o acampamento improvisado quando o dia começava a clarear. O comerciante sentiu ainda mais raiva ao ouvir Brice rir.
— O que você tem com essa história?!
— Nada além do que pude aproveitar dela. O restante você deve perguntar à pessoa com quem armou tudo isso. Quando cheguei aqui encontrei exatamente a mesma coisa que você, só que ainda estavam vivos.
— Onde estão os cavalos?
— Eu os libertei. Devem estar caminhando para algum lugar. Não precisavam mais seguir as ordens de ninguém.
— Eles podiam tê-la em segurança agora.
— Será? Eu disse que sua história com a Amália ainda não acabou. Se ela ainda estivesse aqui poderia não ser assim. Você ainda tem muito a aprender sobre as pessoas, Virgílio.
Ele se virou na direção de Brice para gritar com ela, mas como sempre a mulher sumiu sem deixar rastros ou qualquer sinal de como havia saído.
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Montado em seu cavalo, em cima do abismo, Afonso olho o mar revolto diante de seus olhos, e o colar quebrado em sua mão. Ele o consertaria no que tinha restado da ferraria antes de partirem para Montemor. Amália não podia estar morta. Não queria acreditar nisso. Seu filho, o bebê que eles quiseram tanto, que ela tanto amou, mesmo com a perda de memória, não podia estar morto junto com ela.
— Esse é o preço...? Eu escolhi seguir meu próprio caminho ao invés de governar Montemor, e o preço é a vida dela, e de nosso filho...?
Amália não estava em Artena, não havia mais onde procurar. E nunca terminariam de vasculhar a floresta inteira. Mas não desistiria nunca. Era insano permanecer em Artena agora, mas ele continuaria a procurá-la. Encontraria Virgílio se estivesse vivo, e o forçaria a falar.
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— Já disse que não sei nada sobre o sumiço de Amália! Ninguém ficou pior com isso do que eu!
Virgílio tinha aberto uma nova loja de tecidos em Montemor. Como, ninguém tinha ideia, e Afonso e Tiago achavam melhor nem saber.
— Quando cheguei ferido naquela casa eu não queria só ajuda, queria ter certeza que ela estava em segurança, mas parece que nem isso você foi capaz de dar a ela.
Os olhos de Afonso já brilhavam de dor e raiva e Tiago precisou segurar seu braço com força para lembrá-lo de que entrar em conflito agora traria mais problemas que respostas. Virgílio não falaria mais nada se o agredissem.
— Ela deve ter sido vítima de ladrões – o comerciante falou olhando para o colar preso no pescoço de Afonso – Amália deve ter lutado e os feito perder o colar que tinham acabado de roubar...
Virgílio não terminou a frase, também estava visivelmente abalado com a perda de Amália, seus olhos também estavam vermelhos tentando conter as lágrimas. Por pior pessoa que fosse, isso indicava que ele podia estar falando a verdade.
— Havia sangue na corrente. Percebi quando o consertei – Afonso falou deixando lágrimas silenciosas correrem por seu rosto.
Virgílio nada disse, só olhou para baixo, apoiando-se na mesa e chorando silenciosamente. Amália estava viva em algum lugar, Brice havia deixado isso claro, mesmo sem lhe dizer onde. Não tinha como arrancar a verdade de uma bruxa, mas ele não pararia de procurar.
Os três não perceberam a passagem, surpreendentemente discreta, de Rodolfo do outro lado da rua.
— Parece uma briga, majestade. Devo intervir? – Um dos soldados perguntou.
— Não... – foi tudo que conseguiu dizer.
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Catarina estava ficando impaciente desde que Rodolfo entrara no quarto e ficara em silêncio, parecendo chocado com algo. Ela temeu que ele pudesse estar tomando consciência das proporções da guerra.
— Você parece preocupado.
— Boatos estão correndo entre aqueles vindos de Artena. Minha relação com meu irmão ficará ainda pior de agora em diante.
— Mas o que houve?
— Muitos civis de Artena morreram. Alguns desapareceram e estão sendo considerados mortos, incluindo a mulher de meu irmão.
— Mas... Eu sinto muito – Catarina falou com falso pesar, sorrindo ao dar as costas para Rodolfo.
Agora só precisava descobrir onde estava Virgílio e se tudo corria como tinha planejado.
— Como você descobriu isso? – Catarina encarou Rodolfo de novo.
— Eu estava andando pela cidade com os soldados, então vimos o que parecia ser uma briga dentro de uma loja. Afonso e o irmão de Amália estavam discutindo com um comerciante, por alguma razão achavam que ele podia saber o que aconteceu com ela. Parece que o colar dela foi encontrado quebrado por Afonso. Ela pode ter sido vítima de ladrões.
Catarina se sentiu gelar por dentro. O colar quebrado e jogado em algum lugar onde Afonso certamente procuraria estava no plano. Mas Virgílio em Montemor não.
— E por que esse homem saberia de algo?
— Não sei. Parece que se conheciam há muito tempo. Mesmo ele estava muito abalado. Os três choraram quando Afonso falou que havia sangue no colar.
— De que era essa loja? Por acaso é nova?
— Sim, de um comerciante vindo de Artena. É uma loja de tecidos.
Catariana sentiu seus joelhos cederem e um buraco se abrir em seu peito, e se deixou cair na cadeira mais próxima.
— Você está bem?
— Eu só... Estou chocada. Apesar de nossos planos, eu não pretendia causar qualquer mal a seu irmão. Eu sinto muito.
Precisava eliminar Virgílio, ou convencê-lo de que o desaparecimento de Amália não era nada além do acaso.

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