Cada dia da minha vida
10 Capítulo 10 - Floresta
Capítulo 10 — Floresta
— Eu preciso sair daqui, eu preciso sair...
Amália se perguntava se Virgílio tinha descoberto sua gravidez. Se ele sabia de tudo devia estar furioso, e agora queria mantê-la presa e longe de Afonso. Onde Afonso estaria agora? E Tiago? E Diana, Samara e Levi? E sua família? E a guerra? Quão distante ela estava de Artena? Diana podia também não ter voltado para casa, Virgílio também guardava ressentimentos e raiva dela, e se tivesse lhe feito algo? A pouca luz que tinha dentro da carruagem estava diminuindo, devia estar longe, lhe parecia que horas haviam se passado.
— O que eu faço?
Como se os céus ouvissem suas preces, a carruagem parou de repente e Amália congelou. Secou as lágrimas dos olhos tentando se acalmar. Ela tinha uma ideia do que fazer. Era loucura. Mas não desperdiçaria mais nenhum minuto presa.
— Tem certeza que devíamos parar agora? As ordens são ir o mais longe possível o mais rápido possível.
— A guerra pode ainda estar acontecendo, ninguém prestará atenção em nós agora. E não vamos chegar a Mazman essa mesma noite de qualquer forma.
Mazman? Ordens? Esse plano parecia muito maior do que qualquer coisa que Virgílio tramaria sozinho. Se bem o conhecia ele a sequestraria com as próprias mãos. Parecia uma ordem dada por alguém bem mais poderoso. Mas por quê? Catarina não gostava dela, mas chegaria a tanto? Afonso dissera que ela estava concentrada em vingar o pai durante a guerra. Rodolfo mal a conhecia, mas... Teria ordenado tal coisa para se vingar de Afonso? Os dois tinham brigado mais de uma vez antes da guerra. Mas a inteligência e senso vingativo de Rodolfo não pareciam chegar a tanto até onde Amália sabia, apesar do quão desnorteado ele era como rei. Quem teria feito isso? O que pretendiam fazer com ela em Mazman? Era o reino mais distante da Cália, por que tão longe assim?
— Logo vai anoitecer. Há lobos nessa região. Lembram-se das histórias de quando o príncipe herdeiro de Montemor se perdeu aqui quase morto por ladrões?
— Que história?
— Algumas pessoas dos dois reinos foram ao lugar buscar evidências pra descobrir o que tinha acontecido quando o príncipe sumiu. Acreditam que os ladrões e até alguns cavalos foram mortos por lobos.
— Lobos, lobos... – reclamou o homem que parecia liderar os demais – Animais não gostam de fogo, ainda mais os selvagens, acenderemos fogueiras em volta do acampamento. Viajar à noite durante a guerra pode atrair outras pessoas e até soldados de Montemor, nos protegeremos melhor estando parados e vigiando.
— E a mulher?
— Deixei-a onde está. A ordem é levá-la viva. Aí dentro nem vai fugir, nem ficar doente, nem se queimar nas fogueiras, nem ser morta na guerra.
Amália ouviu o grupo rir a esse ponto. Pareciam ser cinco ou seis homens.
— A fumaça não chamaria atenção demais?
— Pensarão que é algum incêndio provocado pelas flechas com fogo. Não darão atenção. As pessoas estão mais preocupadas em fugir do que se arriscarem a encontrar problemas no meio da fuga.
— É quase noite. Vamos ficar aqui? Ou adentrar um pouco mais a floresta?
— Vamos nos esconder um pouco mais, e fazer um desvio. Montemor fica do outro lado dessa floresta, temos que passar longe, embora ainda falte caminho até lá.
A carruagem voltou a andar e os sons ficaram um pouco abafados pelo galope dos cavalos e o barulho das rodas, mas o silêncio do fim do dia ainda permitia que Amália ouvisse um pouco do que diziam.
— Não temem as histórias vindas de Montemor sobre a floresta?
— Que histórias? Você vem com lobos, e agora são o que? Ursos gigantes?
— Bruxas. Dizem que o rei Rodolfo, quando ainda era príncipe, foi seduzido por uma bruxa. Quando finalmente conseguiram tirá-la do castelo, a largaram nessa floresta. Havia lobos uivando, mas quando ela olhou na direção dos uivos, todos se calaram. Ela entrou na floresta e não foi mais vista. Mas ninguém encontrou qualquer sinal de que tenha sido atacada ou morta depois.
— O rei já deixou evidente que não tem juízo pra governar, por que teria pra contar histórias? – O homem riu novamente, seguido pelos outros.
Amália ouviu tudo atentamente, tentando conseguir alguma pista de onde estavam. Sabia que estavam entre Artena e Montemor, em algum lugar na floresta, ainda longe de Montemor. Se desviassem na direção que ela estava pensando chegariam perto do mar, onde provavelmente seria o caminho mais curto até Mazman, mas havia uma boa quantidade de empecilhos no caminho, como Alfambres, o condado de Bravia, Vitenza, Brunis... Os outros reinos certamente sabiam que Montemor e Artena estavam em guerra, e não deixariam uma carruagem com soldados passar tranquilamente sem verificarem do que se tratava. Ela podia ser salva se isso acontecesse. Mas se era mesmo um plano tão bem feito eles poderiam desviar para a direção oposta e passar entre Montermor e a Lastrilha. Os arredores do rio Fordes eram praticamente desabitados, seria muito mais fácil passar sem impedimentos e encontrar um caminho mais vazio até Mazman, ainda que bem mais longo.
— Não faz sentido nenhum... – Amália murmurou para si mesma – Arrastar uma simples plebeia pra tão longe.
A carruagem sacudiu um pouco quando parou e Amália se segurou como pode para não se mover junto, isso não era bom para o bebê.
— Vamos ficar aqui. É uma clareira pequena, coberta pela copa das árvores, e o rio Mirdez está perto. Nas primeiras horas da manhã partiremos.
Por cerca de meia hora ela os ouviu se moverem pelo local, colocando algumas coisas no chão e removendo partes de suas armaduras. A carruagem se moveu de novo quando soltaram os cavalos, e um pouco de luz entrou quando acenderam as fogueiras. A ruiva respirou fundo, sentindo-se um pouco melhor por poder enxergar alguma coisa com mais nitidez, apesar dos tecidos escuros ainda cobrindo as janelas. Tinha tentado desamarrar seu pulso, mas não conseguiu. Tentou abrir a porta do lado oposto da carruagem com um dos pés e notou que estava presa com tecido. Teria que roubar uma faca. Sabia que os soldados guardavam adagas na cintura. Então esperou. Eles iriam verificá-la em algum momento. Não era possível que pensassem que ela dormiria para sempre.
— Tem certeza de que não a matou com aquela pancada na cabeça? Tantas horas depois ela devia ter dado algum sinal de vida, ter reclamado, ter batido nas paredes, tentado se soltar...
— Ela estava respirando quando a amarrei. Deve estar apavorada e confusa, por isso ficou quieta.
— Vá verificar.
O coração de Amália acelerou quando ouviu os passos se aproximando. Respirou fundo para manter o controle e apertou rapidamente os olhos quando a luz forte das fogueiras surgiu. Encostou a cabeça em seu braço amarrado e fechou os olhos, ouvindo o homem entrar cautelosamente e verificar se ela respirava. A porta da carruagem se fechou e ele se virou para verificar o quão bem seu pulso estava preso. Amália abriu os olhos e podia enxergá-lo bem devido às chamas das fogueiras. Estendeu a mão com todo o cuidado de que era capaz para o cabo da adaga presa na cintura do homem, quase recuando duas vezes que ele se mexeu. Por fim conseguiu remover o objeto e esconde-lo atrás dela no banco da carruagem sem que o soldado percebesse. Fechou novamente os olhos quando ele recuou e a encarou por um bom tempo, saindo em seguida.
— Por que demorou tanto?
— Tive a impressão de que ela se mexeu, embora continue dormindo. Decidi reforçar a corda do pulso.
— Vamos prender a outra porta também.
Amália os ouviu rasgar alguma coisa e mexerem na porta por onde o soldado tinha saído minutos atrás, reduzindo suas alternativas de fuga para apenas a porta oposta. Esperaria que dormissem. E rezava para que nenhum deles ficasse de guarda. Quanto menores as chances dela precisar lutar, melhor.
Horas correram até o acampamento se tornar um lugar silencioso e Amália cautelosamente tentar cortar a corda que a prendia. Por sorte o soldado havia apenas apertado os nós e não adicionado mais uma corda ou prendido seu outro pulso. Sentia sua pele arder pelo contato prolongado com a corda, mas se tudo desse certo logo estaria fora dali. Não sabia o que fazer depois, mas a prioridade era se distanciar o máximo possível e encontrar um refúgio seguro. Quando a corda partiu ficou bem mais fácil soltá-la de seu pulso, e a plebeia conteve um gemido de dor quando percebeu que estava ferido.
— A porta... Tenho que abrir a porta.
Se ajoelhou devagar em frente à porta do lado oposto ao acampamento. Ainda havia fogo, então podia enxergar alguma coisa. Cortou cada camada do tecido que prendia a porta e verificou se podia abri-la. Sorriu quando obteve sucesso e a abriu completamente, descendo o mais silenciosamente que podia. Um dos cavalos passou por ela e Amália teve medo do animal alertar os demais, mas a encarou simpaticamente e seguiu para o outro lado para comer a grama do chão. Fechou a porta ao sair e agradeceu mentalmente por não terem tirado sua capa, ainda estava escuro e frio. Parou para ouvir e nenhum dos homens parecia estar acordado. Deu alguns passos, desconfiada de sua sorte, de como tinha sido tão fácil, até esbarrar em algo ou alguém maior que ela.
— Não, não vai ser tão fácil! Dessa vez vou amarrar suas duas mãos – o mesmo homem que vira na noite passada segurou seu braço com força e a puxou na direção da carruagem.
Amália não hesitou em puxar a faca e acertá-lo de raspão na perna desprotegida, pois ainda estava sem armadura. Ela correu enquanto o homem gritava caído no chão, sem se importar que a sua frente pudesse haver lobos, o rio Mirdez ou o que quer que fosse. Ouviu o soldado xingá-la de longe, mas o ignorou e continuou correndo. Não ficaria com seu bebê na presença daqueles homens por mais um minuto.
O soldado finalmente conseguiu se levantar apoiando-se na carruagem, com a perna ainda sangrando e atestando que sua adaga havia sumido. Olhou com ódio na direção onde Amália tinha desaparecido e se arrastou para perto dos outros, não entendendo como continuavam dormindo com aquele barulho.
— Ei! Nós a subestimamos. Ainda dá tempo pegá-la!
Se aproximou dos outros cinco homens diante da absoluta falta de reação de todos eles, e o que viu com a luz das fogueiras o fez gelar por dentro. Suas peles estavam cinzentas e envelhecidas, como se tivessem mais de duzentos anos, não havia vida nos olhos que estavam abertos. Sua voz desapareceu e um nó se formou em sua garganta, seu coração disparou e não conseguiu evitar tremer diante daquilo.
— Eu achei que dormiriam melhor assim, sem se preocupar com os lobos, outros soldados, ou... Com bruxas.
O homem virou-se para a voz feminina que parecia debochar de seu pavor. Uma mulher linda, jovem e sorridente o encarava. Havia algo de sinistro e aterrorizante no olhar frio dela. Antes que pudesse dizer qualquer palavra, ela se aproximou. O beijo daquela linda mulher foi a última lembrança que o soldado levou dessa vida.
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A mandingueira caminhava nas primeiras horas da manhã quando avistou algo incomum entre as árvores. Não havia qualquer animal ali com aquela cor. Ela sabia que aquela guerra também lhe enviaria algo. Se aproximou até conseguir ver com clareza e se abaixou. Puxou a capa cor de rosa de cima da mulher adormecida. O cabelo ruivo trançado estava um pouco bagunçado, as marcas das lágrimas ainda estavam em seus olhos. A mandingueira pôs uma das mãos na testa de Amália e fechou os olhos, olhando para o céu e fazendo uma rápida prece.
— Querida, temos que tirar você e seu bebê daqui agora mesmo. Não é seguro – falou quando Amália abriu os olhos alguns minutos depois.
A plebeia nunca vira aquela mulher antes, mas por sua aparência pode deduzir de quem se tratava. Afonso já lhe falara dela, e disse que era uma boa pessoa. O que mais Amália poderia fazer agora?
— Vamos cuidar de você – a mais velha sorriu quando a ajudou a levantar – Seu filho está bem, mas os dois correm perigo. Vamos nos apressar – falou a puxando em outra direção.
— Como me encontrou?
— Nem tudo poder ser explicado, mas o que importa é que você está bem.

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