O sol já se punha no horizonte, ouvia-se o som de pássaros, e todos os atletas já estavam partindo. Sadaharu corria na direção de Miyuki, carregando um saco plástico com supostas roupas novas.

- Srta. Nishimura, pegue. – Esticou o saco plástico para a jovem. – Bem vinda a equipe.

Miyuki, exibindo um semblante de dúvida, estica os braços e agarra a sacola, tirando um uniforme branco e azul do mesmo. A expressão confusa da jovem se transforma. Os olhos ternos e doces, de um dourado quente e acolhedor se demoram em um ponto fixo na camiseta do uniforme, em seguida, eles se fecham enquanto a garota abraça o mesmo com carinho, como uma mãe abraçando o filho recém-nascido pela primeira vez. “Bem vinda”, a frase se repetia na mente de Miyuki, finalmente, ela começava a sentir que pertencia àquele lugar. Tomada pela felicidade, jogou as peças de roupa para cima e correu de braços abertos na direção de Sadaharu:

- Obrigada! – Disse a jovem, abraçando fortemente o colega.

O rapaz se envergonhou, não correspondeu ao abraço e tentou escapar, mas a garota não o soltava. Olhava freneticamente para todos os lados, rezando para que ninguém os visse. Foi um choque de cultura que Miyuki esqueceu que existia, para um brasileiro, isso seria normal, já para um japonês, é um escândalo. Por sorte, Sadaharu sabia dessa diferença e não entendeu o ato de outro modo além de amigável.

- Esse lugar não é o mais apropriado. – Falou uma voz grave e preponderante.

O rapaz de óculos, muito bonito por sinal, de cabelos castanhos e alto de postura masculina, marcante e de liderança, advertiu os jovens que acreditou ser um casal. Fuji, acompanhado de Oishi e Eiji vinham logo atrás.

- Sadaharu não perde tempo! – Eiji brincou enquanto dava tapinhas no ombro de Sadaharu.

- Vocês entenderam tudo errado... – Sadaharu suspirava na sua lamentação.

Miyuki, que antes não estava entendendo as brincadeiras dos amigos, percebeu o que havia feito e também lembrou que aquele lugar não era como o país que morou por anos. Começou a curvar o tronco sem parar, a pedido de perdão.

- Inui, desculpa, desculpa, desculpa! Foi força do costume, o Brasil era assim, lá seria normal! Não era minha intenção deixá-lo sem graça, você sabe que foi amigável! Desculpe-me! – A jovem cuspia todas as palavras que conseguia encontrar para se explicar. – Olha, eu realmente tinha esquecido! E também (...)

- Não se preocupe Srta. Nishimura, nós todos a entendemos. – Fuji a interrompeu, ainda com educação e grande doçura que fez Miyuki corar as bochechas.

Oishi recolheu o uniforme espalhado pelo chão, dobrou-o e entregou nas mãos de Miyuki:

- Pegue. Cuide bem disso, você provavelmente vai usá-lo bastante. – Disse com sinceridade e admiração. A moça sorriu e seus olhos brilharam com o elogio implícito na frase do rapaz. – Precisamos ir para nossas casas Srta. Miyuki, você deveria ir também, já está escurecendo. – Disse o amável moço, olhando para o céu com preocupação.

- Escurecen(...) – A jovem interrompeu-se, e ficou a olhar para o céu por alguns longos segundos, quando saiu do transe, levou ambas as mãos a boca e falou num tom alto o bastante para assustar a todos. – Está escurecendo! O que farei?Minha mãe irá me matar! O que farei? E se eu for seqüestrada no caminho?! – E ficou a correr em círculos, gritando perguntas para si mesma. Logo parou e olhou para os amigos, com o rosto iluminado e cheio de esperança, perguntou. – Ei? Para qual lado vocês vão?

- Para o leste. – Todos falaram em coro.

A moça suspirou e resmungou para os céus. Ryoma, que passava por todos sem nem ao menos falar uma palavra, caminhou normalmente até Miyuki perceber que ele iria para o lado oeste.

- Ryoma! Espere por mim! – Saiu correndo atrás do garoto que havia estremecido e olhado para trás com desprezo. – Você sabe que ainda recusando, eu vou te acompanhar não é? – Miyuki advertiu após ver o olhar de Ryoma para ela.

- Eu não me importo. – Resmungou, arrogante, apesar de, como sempre, não haver sinais de intenção de ser mal-educado.

A garota já estava correndo na direção do colega. Quando ouviu seu sobrenome pronunciado pelas vozes de Eiji, Oishi, Fuji e Sadaharu. Continuou a correr, mas agora, olhando para trás ao encontro dos amigos.

- Bem vinda à equipe! – Gritaram todos em coro, exceto Tezuka, que se mantinha quieto, sóbrio, e sério.

Miyuki não disse nada, apenas abriu um grande sorriso como resposta, e virou-se para frente para correr mais rápido, pois Ryoma já estava a metros de distância. As coisas pareciam se consertar, a vida voltava a ter cor, e já podia se sentir mais em casa, e não era preciso fingir alegria, aos poucos, poderia se soltar e ser mais como era antes, quando tudo era tão certo e perfeito. Chegou em casa segura, e não havia parado de sorrir até dormir.

-

O dia estava diferente, pelo menos para Miyuki. Parecia estar mais... Alegre. Já se sentia um pouco mais confortável, apesar de ainda não ser tão próxima dos membros da equipe da qual já fazia parte, oficialmente. As longas madeixas negras, onduladas nas pontas e, como sempre, presas num rabo de cavalo deixando solta apenas a franja irregular e jogada para o lado, dançavam com o movimento do andar elegante de Miyuki, que caminhava até as quadras carregando uma mochila grande, que devia ter os materiais para o treino. Os olhos quentes se levantaram em direção ao céu, azul e livre de nuvens, foi preciso bloquear os raios solares com a mão para poder ver melhor, tal distração fez com que a garota esbarrasse em Sadaharu, que acabou derrubando algumas gotas de um líquido azul florescente que havia dentro da jarra de suco que segurava.

- Ah, perdão. – Disse a garota num reflexo, sem saber em quem havia trombado e o que havia feito.

A jovem logo levou o olhar para o som que ouviu perto de seus pés, o som de algo borbulhando. O líquido azul florescente que, ao entrar em contato com o chão, havia mudado a cor para um amarelo fosco e pastel.

A moça sentiu o corpo todo estremecer, da cabeça aos pés, quando Sadaharu se aproximou pelas suas costas e esta ouviu uma respiração em seu ouvido. Viu-se um fundo escuro e cheio de pequenos rabiscos, substituindo o cenário que antes era tão tranqüilo.

- Está atrasada, Nishimura. – Proferiu o rapaz enquanto arrumava os óculos com uma mão, e com a outra, segurava a jarra com o mesmo líquido nojento que havia mudado de cor no chão.

- Estou? Mas meu relógio está(...) – A jovem interrompeu a fala quando se virou para trás e viu o rapaz com um sorriso assustador, aproximando a jarra que continha a substância misteriosa e além de tudo, fedida. Tampou o nariz e cambaleou na direção da amiga que a agarrou para que não caísse.

A ruiva de mechas curtas precisou deitar a amiga no chão e chacoalhá-la, para que esta voltasse ao estado normal. Miyuki enxergava uma imagem embaçada, um borrão vermelho que foi ficando cada vez mais nítido, percebeu que eram grandes olhos castanhos fitando-a, observou o formato oval do rosto magro e a boca pequena de lábios finos, mas só reconheceu a amiga quando esta lamentou, com sua voz aguda e delicada:

- Sinto muito que seu primeiro treino como titular tenha que ser assim.

Ajudou Miyuki a se levantar, esta não estava entendendo nada, não entendeu a frase da amiga, não entendeu sua tontura, e muito menos aquele líquido bizarro. Olhou de soslaio para o líquido das profundezas da escuridão, logo seu rosto, de tom corado mudou para azul, seus olhos vivos e expressivos se tornaram olhos de ressaca cheios de olheiras e acabou deixando escapar um gemido que demonstrava enjôo.

- Srta. Nishimura, mas que cara é essa? – Fuji aproximou-se, preocupado com a situação da nova atleta. – Acredite, esse suco é uma delícia. – Disse o doce rapaz com tamanha sinceridade que fez Tiemi corar, cheia de admiração.

Miyuki, no entanto, piorou sua situação para algo próximo a uma virose ou até um estado vegetativo. Com a mão trêmula, quase incapaz de manter o dedo indicador esticado que apontava para o suco, e com a expressão pior que a de antes, perguntou, perplexa:

- A-aquilo é um s-suco que vamos BEBER?! – A altura de sua voz aumentou gradativamente na pergunta desesperada. – É mentira não é?! Um suco não é azul, nem amarelo pálido, e também não muda de cor do azul para o amarelo e nem fica borbulhando! Eu não vou beber aquilo de jeito nenhum! Esse é um clube normal por acaso?! Talvez eles sejam loucos? É! ISSO É UM SONHO! Eu vou acordar daqui a pouco não? Porque isso não é real... Certo? – As perguntas ela fazia para si mesma, enquanto andava de um lado para outro tentando achar alguma solução, ou algum modo de escapar.

Pobre moça... Todos já sabiam que não havia como escapar, afinal, todos sempre acabam bebendo aquilo que ainda apresenta dúvidas quando chamado de “suco”. Os titulares, veteranos, novatos, pássaros, insetos e outros seres vivos no local, assistiam a rapariga de uma distância longa, pois quem parecia mais louco naquele momento, era Miyuki,

- Ainda tem muito que aprender. – Ryoma suspirou, entediado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.