Cada Música, Uma História
2 Numb
Notas iniciais
Filas, empurrões, gritaria, choro, risos. Tudo isso diante de pedaços de papel cujas informações poderiam mudar muitas vidas. Os resultados do vestibular de Gastronomia. Sim, eu havia prestado vestibular e agora procurava meu nome entre os classificados. Para a maioria das pessoas na minha situação esse seria um momento de tensão e expectativa, mas para mim não, tinha me saído bem na prova, disso eu tinha certeza. Apenas uma coisa me preocupava, se havia me saído tão bem quanto meu irmão. Rapidamente encontrei meu nome na lista, Mike, Mike Oliver. Como esperado o resultado foi bom. Mas não bom o bastante. Nunca era.
Meu irmão gêmeo, Michael, sempre foi melhor do que eu, principalmente na escola, minhas notas sempre foram boas, mas as dele são melhores. Por mais que eu me esforce, por mais que eu me dedique e estude, ele sempre me supera, muitas vezes com apenas metade do meu esforço.
O único lugar em que sou melhor do que meu irmão é na cozinha, modestamente, sou um bom cozinheiro. Nossos pais se divorciaram há alguns anos, ficamos com papai. Em casa sou responsável pela comida e meu irmão pela limpeza, papai trabalha o dia inteiro, mas nos ajuda nos fins de semana. Afinal, aprendi a gostar de cozinhar, tanto que quero me especializar no assunto, fazendo uma faculdade. A princípio papai não gostou muito, mas um tempo depois ele parou de reclamar, já que, segundo ele, eu só teria vocação pra isso mesmo.
Mas recentemente uma coisa vinha me incomodando, o número de coisas em que Michael se mostrava melhor do que eu vinha aumentando, o que era ressaltado diariamente por papai. Então, inconscientemente, acabei criando uma competição entre nós, ser melhor do que meu irmão se tornou questão de honra pra mim. Mas, infelizmente, Michael é do tipo superdotado, inteligente por natureza, são poucos os que conseguem superá-lo e, por acaso, não sou um deles.
Quando finalmente cheguei em casa fui direto para meu quarto, deitei em minha cama e fiquei encarando o teto, gostaria de adiar o máximo possível o momento em que falaria com papai e ouviria seu costumeiro discurso. Alguns minutos após a minha chegada ouvi passos distantes, imaginava de quem eram e aonde levariam. E estava certo. Era Michael.
- E aí como foi? — perguntou Michael entrando em meu quarto.
-Até que eu fui bem, mas não tanto quanto você gêniozinho — disse sem encará-lo.
- Qual colocação? — Michael fingia não ter ouvido minhas últimas palavras.
- Fiquei em 15º — respondi sem muita emoção.
- Que bom!
- Michael você ficou em 2º lugar no vestibular de Medicina!
- E daí!? O que importa é que você passou! — Michael observava a paisagem através da janela.
- Pode não fazer diferença pra você, mas pra mim faz. E você sabe o que papai vai dizer...
- E desde quando você liga pro que papai diz? — meu irmão agora brincava com uma joaninha que encontrara na janela.
- Desde quando você se tornou o favorito dele — disse enquanto deixava minha confortável posição para sentar-me na cama.
- Lá vamos nós de novo. Deixa de ser infantil Mike! — Michael largou a joaninha e se virou para me ver melhor.
- Não estou sendo infantil Michael, só estou dizendo a verdade!
- E quem disse que é verdade que eu sou o favorito dele?
- Você é o favorito de quase todo mundo que te conhece, e eu só desaponto todo mundo por não ser como você.
- Eu não estou te entendendo.
- Então deixa eu te explicar – fiquei em pé e encarei Michael — Você nunca reparou no jeito como o papai, ou melhor, como todo mundo, vive me comparando a você? É sempre o mesmo, Michael o certinho, Michael o mais inteligente, o mais popular, “Mike por que você não tenta ser como o Michael?”, sabe Michael, eu não quero ser como você, eu quero ser eu mesmo, quero ser o que eu quero ser, não o que querem que eu seja.
- Mike, você acha que eu não me sinto mal quando eu ouço essas coisas?
- Ah, se sente é? E por que você nunca faz nada? — dei alguns passos em direção a Michael.
- E o que você queria que eu fizesse? — Michael permanecia imóvel.
- Sei lá, pense em alguma coisa, pequeno gênio — tentei não gritar, não queria atrair a atenção da vizinhança.
- Mike pare de me chamar assim, você está começando a me irritar.
- Oh, me desculpe — disse em tom de zombaria — Mas você sabe o quanto é frustrante ser sempre o segundo em tudo? Por acaso você sabe como é ruim ter que ficar ouvindo as pessoas dizerem que tudo o que eu faço está errado? Todos ficam me dizendo o quanto meu querido irmão é melhor do que eu, eu já sei disso não preciso que fiquem me lembrando a todo instante. Nós temos a mesma idade, mas sempre me tratam diferente, me prendem e me protegem como se eu fosse uma criança, como se fossem perder o controle sobre mim. Isso me irrita!
Fiquei parado por um tempo, estava ofegante, extremamente exaltado, como sempre ficava quando tocava no assunto, já Michael trazia no rosto uma expressão vazia, indiferente a minha situação, esperou que me acalmasse um pouco então finalmente disse:
- Você não mudou nada. Ainda é o mesmo pirralho com complexo de inferioridade de sempre.
- O quê!? — perguntei incrédulo.
Inesperadamente Michael se aproximou de mim, colocou uma mão em meu ombro, a outra em meu pescoço e me puxou para perto de si, aproximando nossos rostos fazendo com que fosse inevitável olhá-lo nos olhos; nossos lábios estavam perigosamente próximos e diante de tal atitude não me contive em dizer:
- Michael,se você está afim de uma relação incestuosa saiba que eu não...
- Mas eu ainda nem fiz nada — me interrompeu com um sorriso malicioso estampado nos lábios. E esse é o único jeito de fazer você se acalmar e olhar pra mim.
- Ótimo, não está funcionando, porque eu não estou calmo, estou assustado. Aliás, eu não conhecia esse seu lado “carinhoso”.
- Parece que você realmente me conhece pouco.
Tentei me controlar para não socá-lo, pois da última vez que brigamos fomos parar no hospital, mas conforme seus lábios se aproximavam dos meus, reagir foi inevitável:
- Me larga! — gritei empurrando Michael e fazendo-o se desequilibrar, o que resultou em sua queda.
- Filho da... — Michael tentava se levantar, visivelmente atordoado com a queda.
- Foi mal, não queria te derrubar — estendi a mão para ajudá-lo a se levantar e torci para que ele não tivesse se machucado — A propósito, o que exatamente foi aquilo?
- Apenas uma demonstração de amor fraternal, maninho.
- Sei... Se tentar me beijar de novo vai ganhar mais do que um empurrão — apesar da ameaça eu exibia um discreto sorriso.
- OK, não te ajudo mais, seu ingrato — a expressão de Michael me fez ter certeza de que ele tentaria outra vez.
Não me contive e ri, Michael riu também. Rimos durante vários minutos, como há tempos não fazíamos. Apenas mais um daqueles momentos idiotas, porém únicos e por que não, importantes, que só acontecem entre irmãos.
Falei com papai. A reação dele foi exatamente como previ, me parabenizou, elogiou e depois começou o discurso: “... mas poderia ter sido melhor, né? Seu irmão...”, depois disso não ouvi muita coisa, apenas algumas palavras soltas, pois comecei a pensar em meu futuro. Dentro de algumas semanas sairia de casa, iria para outra cidade, teria uma vida nova, longe do meu pai, longe do meu irmão, longe das comparações e das decepções. Enfim poderei fazer o meu caminho, sei que não vai ser fácil, mas vamos ver no que vai dar!
Fale com o autor