Notas iniciais
Desafio Songfic de Verão
Data de Publicação: 05/01/2024
Música Inspiração: Tu Locura - Gustavo Cerati

Exausta, Marina suspirou aliviada ao sair do elevador e quando ia pegar a chave de seu apartamento, reparou que a porta estava entreaberta.

Será que fui assaltada? Indagou em pensamento e dessarte procurou por algo em sua bolsa que pudesse usar como arma, mas ela tinha apenas um sanduíche de presunto pela metade, sua carteira que continha seus documentos e cartões de créditos negativados, um molho de chaves e seu telefone celular. Cogitou a ideia de ligar para a polícia, mas desistiu porque começou a pensar que poderia ter sido ela a deixar a porta daquele jeito.

Desde o término de seu longo relacionamento com Paulo, ela não estava bem psicologicamente, era difícil aceitar o fim daquela relação em que vivenciou tantas emoções, jurava para si que envelheceria ao lado daquele homem, porém não era isso que a vida lhe queria, mas Marina ainda se revoltava, ela não sabia como viver sem ter Paulo ao seu lado, passou tanto tempo com ele sendo dependente em diversas situações que agora que o homem não estava mais em sua vida ela estava desesperada e todas as noites antes de adormecer chorava escandalosamente se perguntando: O que eu vou fazer agora?

Guardando o celular de volta em sua bolsa de veludo marrom, respirou fundo e decidiu adentrar em seu apartamento, ela estava tão desgostosa da vida que deixou de se importar se havia algum ladrão ali e se tivesse não estava muito disposta a lutar por sua vida e ela desejou mais ainda que houvesse um bandido lhe saqueando quando entrou e avistou as caixas de papelão pelo tapete da sala conjugada com a cozinha, os caixotes tinham escrito o nome Paulo em cada uma delas. Era o ex-namorado que havia ido recolher suas coisas.

— Perdão. – disse ele ao surgir na sala – Eu precisava buscar as minhas coisas, eu achei um apartamento novo.

Era preciso esticar o pescoço para olhar Paulo nos olhos, pois o homem era alto além de forte, Marina mordiscou os lábios ao ter pensamentos maliciosos ao reparar que a camisa branca que ele fazia uso demarcava seu peitoral, logo recordou dos momentos tórridos que tivera com ele no sofá azul celeste daquela sala em que ambos estavam presentes.

— Poderia ter me avisado, né? – ela encosta a porta.

— Eu sei, perdão. Mas eu tô recolhendo tudo então hoje te devolvo a chave.

— Devolver a chave? – Marina não conseguia demonstrar indiferença, ao ouvir que Paulo lhe devolveria suas cópias das chaves sentiu o coração acelerar e o choro ficou entalado na garganta.

— Veja, terminei de embalar a última caixa.

— Eu não vi o seu carro lá fora.

— Eu vim de aplicativo e agora na volta uma carreta irá me buscar. Um amigo meu tá me ajudando.

— Ele tá lá embaixo já?

— Vai avisar quando chegar.

— Quer um café?

— E por que não, né? – com o celular na mão, Paulo se acomodou em um dos bancos de frente ao balcão de mármore.

Largando a sua bolsa pelo sofá, Marina foi ao armário e pegou tudo o que precisava para preparar e servir um café. Quando a bebida ficou pronta, Paulo sentiu o celular vibrar era a notificação do amigo que chegara com sua carreta.

— Vou pedir que aguarde uns minutos. – falou ele gentilmente ao ir digitando a mensagem para o amigo.

Marina serviu o café e ficou de pé ao lado contrário do balcão para assim ficar de frente a Paulo.

— Muito trabalho hoje?

— O de sempre. – respondeu ela de ombros.

— Você está bem?

— Sério que tá perguntando isso? Não, eu não estou bem!

— Marina eu sinto muito e...

— Não venha com sinto muito... Você que terminou então deve não sentir nada.

— Sim, eu sinto muito sim, eu não queria que isso acontecesse.

— E por que tá acontecendo, hein? Você que causou isso tudo, foi você que terminou. – o choro que estava preso a garganta ganhou sua liberdade.

— Você sabe o porquê.

— Não, eu não sei...

— Você não é mais a mesma! – toda aquela calmaria de Paulo se dissipou.

— Como assim? – apoiando as mãos sobre o balcão, Marina arqueou a sobrancelha.

— Você mudou... A Marina ao qual era apaixonado não existe mais.

— E que Marina era essa, hein?

— A Marina ao qual me apaixonei era alegre, amante da vida... – Paulo se levanta – Eu amava tua loucura!

— Eu continuo assim!

— Não continua não! Você abandonou família, amigos... Deixou de ser aquela pessoa cheia de vida, desistiu de sonhos e projetos... Deixou de ser independente!

— Eu não abandonei nada e nem ninguém, apenas mudei minhas prioridades!

— E quais eram essas prioridades?

— Você seu idiota! – Marina debateu as mãos sobre o balcão que derrubou as xícaras que ainda tinham café pela metade.

— Meu Deus Marina, você não percebe? – Paulo leva suas mãos à cabeça.

— Eu não percebo o que?

— O quanto você se distanciou da vida? Você deixou de respirar seu ar para aspirar o meu!

— Eu só quero viver nosso amor, qual o problema?

— O problema é que você se sufoca e me asfixia junto, não percebe? Você deixou tanta coisa e se tornou tão dependente dessa relação... Quando me dei conta eu já estava fazendo coisas só por sua causa... E eu não quero mais viver isso. Eu amo você Marina, mas aquela do passado essa que você se transformou eu não amo.

— A culpa é sua! Fiz tudo isso por tua causa!

— Não coloque a culpa em mim... Eu nunca te privei de nada, sempre apoiei seus sonhos, eu adorava você por isso, era apaixonado por sua personalidade... Você era forte, alegre... Maluca! Você era maluca, queria explorar o mundo... E agora? O que faz da vida?

Dessa vez o silêncio pairou, pois Marina não soube o que contestar e o celular de Paulo a vibrar fez com que ele desse fim aquela discussão.

— Meu amigo pode subir para ajudar a levar as caixas?

— Fiquem à vontade. – olhando para o chão, Marina percebeu que as xícaras haviam se espatifado e se abaixou para recolher os cacos. Aquele choro que havia sido liberto de sua garganta passou a ser mais intenso e escandaloso; entre as lamentações, ela comparou seu coração com o estado daquelas xícaras vermelhas, seu coração naquele momento estava em pedaços, porém o destino daqueles estilhaços de porcelana era a lata de lixo e o seu coração? Como ficaria?

O amigo de Paulo chegou ao apartamento para ajudar a carregar as caixas até o carreto, enquanto isso Marina foi ao banheiro lavar o rosto e também para evitar que o desconhecido a visse naquele estado. Passou um bom tempo lá dentro, sentada sobre a privada fechada e quando cogitava a ideia de tomar um banho ouviu Paulo a chamar.

— O que foi? – indagou ela ao retornar à sala.

— Já levei todas as caixas.

— E...

— Aqui estão as chaves. – Paulo desprendeu o molho de seu chaveiro e o colocou sobre a mesa redonda de vidro.

A garganta de Marina latejava de dor por tanto choro, entretanto toda aquela angústia dentro de si precisava ser colocada para fora e dessa forma ela não segurou as lágrimas. Com cautela, Paulo se aproximou e apoiando a cabeça dela ao seu peitoral a abraçou e também se entregou ao pranto, pois também para ele o término daquele relacionamento que durou anos estava sendo doloroso.

Colocou a mão sobre o queixo dela a fazendo levantar a cabeça para olhá-lo:

— Volte a viver e jamais esqueça: eu sempre amei tua loucura. – ele a beija na testa e assim se despede.

Ele sai e encosta a porta atrás de si e Marina se dá conta que de fato aquela relação acabou de vez e a partir dali ela precisou criar forças para seguir em frente. No começo foi difícil, ela lamentou muito a ausência de Paulo, entretanto com o tempo ela foi percebendo o quanto é frágil e perigoso uma pessoa se tornar dependente de outra, precisou enfrentar um mar de dúvidas em questões que interferiam em seu modo de viver e descobriu que somente ela mesma poderia fazer algo por si, Marina era a sua própria ajuda.

Após dois anos do término, Marina viajou para Argentina, essa viagem era uma das coisas que ela planejou muito em seu passado. Uma manhã passeando por uma das praças da cidade de Buenos Aires se deparou com um rapaz sentado em um banco, ele tocava violão enquanto entoava canções de um artista muito famoso do país. Um dos trechos de uma das canções ensoada pelo rapaz fez que uma lágrima escorresse do olho de Marina, mas não por tristeza e sim emoção. Óbvio que o rapaz cantava em seu idioma, mas Marina compreendeu e tirando uma selfie próximo a um monumento da praça, a publicou nas redes sociais com o trecho traduzido da música:

Já não há o que fazer

Você é sua própria ajuda.

Agora anda e vai viver.

Eu sempre amei tua loucura.

Enquanto isso, Paulo estava em um bar da capital paulista no Brasil e acessando suas redes sociais se deparou com a publicação da ex-namorada. Ele sorri ao perceber que Marina havia voltado a ser ela mesma e ele sempre iria amar aquela loucura.



Notas finais
Tu Locura de Gustavo Cerati é a música que ocupa o 1º lugar do meu repeat do Spotify e ela é sempre a do topo da lista desde 2021 na retrospectiva anual da plataforma, é uma canção que eu ouço todos os dias ou noites da minha vida e ela tem um significado muito importante para mim, porém ao saber que artista a compos para uma programa de TV argentino intitulado "Locas de Amor" me fez criar essa história na cabeça, rascunhei muito até chegar nesse conto e eu espero que tenham gostado.