Cacos

1 Naquele momento, ainda era ela ou o que restava


Notas iniciais
Leiam ouvindo "My Eyes Adored You", do Frankie Valli e Four Seasons para maior carga de feelings

"Está escuro", foi a única coisa que, quando Percy entrou no apartamento, passou por sua cabeça.

Uma infinidade de folhas, tintas, telas, pincéis e tudo o mais que pudesse ser usado em arte estava espalhado pelo chão. Quadros completos, horrendos, apoiados do jeito que se havia espaço, nas paredes, nos móveis.

Ele gritou, sem resposta. Vasculhou o lugar. Nada. Até entrar numa porta maltratada — mas não tão maltratada como o resto do apartamento. E, finalmente, algo.

Tinha uma luz amarela, uma única lâmpada. E mais desenhos, potes de tinta e quadros.

E tinha Rachel, no meio de toda aquela bagunça, com os cabelos desgrenhados e sujos, as mãos pretas de tanto carvão, os olhos opacos de tanta loucura. Ela tinha só vinte e sete anos. Era mais do que uma adolescente, menos que uma adulta. E estava ali, passando carvão e dedos numa tela, em desenhos que só ela compreenderia; quase tão sinistro como a capa de almas que Hades envergava.

Ele deveria ajudá-la. Fazê-la parar de repetir tanto sobre profecias horrendas, jogá-la debaixo do chuveiro. Mas sabia, no fundo sabia, que ele não podia fazer nada, pois não havia mais o que ser feito. O Espírito de Delfos havia drenado a sanidade da ruiva, deixando algo menos que uma carcaça vazia.

Tudo o que Jackson pôde fazer foi se sentar ao seu lado. A garota que ele amava não estava mais ali. Ela virou a cabeça, e a falta de vida nos olhos verdes só quebrou algo mais em Percy, algo que nunca voltaria ao lugar.

Outra profecia, e ela caiu no chão. Nem força para aguentar mais existia ali.

Ele a pegou nos braços, sentindo os ossos dela, a magreza doente. Colocou-a na cama e se afastou. Rachel gritou durante o sono, encolhendo-se, chorando.

E, por mais doentio que fosse, ele não a acordaria. Não quando sabia que, apenas naquele momento, aquela era Rachel Elizabeth Dare, a boa, sensível e amável Rachel Elizabeth Dare.

A mesma Rachel E. Dare que Perseu Jackson se apaixonou.

A mesma Rachel por quem ele continua apaixonado.

A única mulher que ele vai amar.

[...]

Na manhã seguinte, Rachel não acordou. E Percy amaldiçoou o dia em que sugerira aquela estupidez à amiga.

Notas finais
Tô numa vibe deprê, vocês percebem. Não ando conseguindo produzir 'happy endings'. Mas esse headcannon dói tanto que não pude guardá-lo. Imagino sempre que, um dia, vai ser demais para Rachel. Ah, sim, comentem, pls.
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