Notas iniciais
Olá, gente! Uma história curtinha, de capítulo único — simples e fofinha 💕

O reflexo no espelho devolvia a imagem de um certo russo emburrado. Os ombros estavam rígidos, a testa levemente franzida e um biquinho insistente repousava nos lábios. Hyoga não estava realmente irritado; estava apenas fingindo. Tudo porque Shun insistia em transformá-lo numa espécie de Barbie humana, penteando seus cabelos com uma dedicação quase ofensiva.

A escova macia deslizava pelos fios loiros, domando-os com cuidado. Cada passada fazia o cabelo cair em curvas suaves, quase obedientes, e os fios brilhavam sob a luz do teto como se fossem feitos de ouro líquido. Hyoga, um cavaleiro de bronze que já havia enfrentado guerras, frio extremo e batalhas impossíveis… agora estava ali: sentado, imóvel, sendo transformado em um completo fantoche pelas mãos de Shun.

Andrômeda, por sua vez, parecia absurdamente satisfeito. O sorriso ia de orelha a orelha, leve e travesso. Entre os lábios, segurava uma presilha colorida, pronta para ser usada sempre que os fios teimosos insistiam em cair sobre a testa do russo. Com cuidado, ele prendia uma mecha aqui, outra ali, tratando o penteado como se fosse algo precioso.

— Pronto… assim você fica ainda mais bonito — Shun disse ao se afastar, rindo.

Hyoga suspirou pelo nariz, sem conseguir esconder o sorriso que ameaçava escapar, apesar do biquinho mantido com esforço.

— Eu já sou bonito… — murmurou, finalmente quebrando o silêncio. — Se eu ficar mais lindo que isso, o mundo entra em colapso.

O sotaque russo soou grave e arrastado pelo quarto, após longos minutos em que ele apenas observava o próprio reflexo — e, principalmente, o quanto Shun estava perto de si. A barriga de Shun quase roçava no braço de Hyoga. Seus cabelos verdes tocavam de leve as pernas do cavaleiro toda vez que ele se inclinava entre o espelho e o amigo para analisar o "trabalho".

Hyoga permanecia totalmente ereto, mãos apoiadas sobre as coxas, tentando ignorar o calor que vinha daquela proximidade. Shun o avaliava com atenção exagerada, virando a cabeça para um lado e para o outro. Em certo momento, levou a escova até o próprio queixo e encarou Hyoga como se estivesse diante de um dinossauro raro… ou um animal exótico de uma era medieval esquecida.

Ele sorriu. Hyoga engoliu em seco.

Quando Shun sorria daquele jeito, era porque estava aprontando alguma coisa. E isso, invariavelmente, significava que Hyoga ficaria desconcertado. Não que ele odiasse aquilo; pelo contrário. Gostava do calor de Shun, do jeito como ele o puxava pelo braço, arrastando-o para fora do ar-condicionado — ficar trancado no quarto com o frio artificial fazia Hyoga se sentir de volta à Sibéria, o que, após as lutas, sempre o tranquilizava.

Mas Shun nunca o deixava se fechar.

Ele empurrava a porta e invadia o quarto como uma manada de bois; pulava na cama e afundava o colchão ao lado de Hyoga, quase colando os corpos. E ali ficavam, olhando o teto branco e pálido, enquanto o barulho constante do ar-condicionado quebrava o silêncio.

Hyoga permanecia de braços cruzados, a cabeça apoiada sobre eles. Shun estava com o rosto que perto. Ele sempre se surpreendia com o controle de Hyoga; não sabia — e talvez nunca soubesse — o esforço absurdo que o russo fazia para esconder o quanto o coração disparava. Batia rápido, mais rápido que as asas de um beija-flor.

Depois de alguns minutos, Shun dobrou as pernas e sentou-se na cama, observando Hyoga com atenção renovada. Os olhos brilhavam.

— Hyoga… — começou, empolgado. — Posso cortar seu cabelo?

O russo, que estava deitado de papo para cima, quase se engasgou com a própria saliva. Tossiu e sentou-se rápido demais na beira da cama, enquanto Shun batia em suas costas. Foi um erro: as mãos quentes e macias de Shun o deixaram ainda mais nervoso.

— C-cortar?! — exclamou, virando-se de supetão. — Nem pense nisso! No meu cabelo ninguém toca!

Shun arqueou a sobrancelha, fingindo-se ofendido.

— Ninguém? — repetiu, cruzando os braços. — Hyoga, você está parecendo um poodle de exposição.

— Isso se chama estilo — respondeu Hyoga, na defensiva. — E tradição. E sobrevivência. Meu cabelo já passou por mais coisas do que você imagina.

— Ah, por favor — Shun revirou os olhos. — Você fala como se ele fosse uma relíquia histórica.

— É praticamente isso.

Shun se aproximou mais um pouco, analisando os fios loiros com um olhar crítico.

— Engraçado… — disse, pensativo. — Porque quando você quase perdeu um olho na luta contra o Isaac, não fez metade desse drama todo.

Hyoga arregalou os olhos, indignado.

— Isso é completamente diferente!

— Diferente como? — Shun inclinou a cabeça, provocador. — Aquilo foi um golpe mortal. Isso aqui é só cabelo. E cabelo cresce.

— Meu cabelo cresce, sim — Hyoga rebateu, sério demais para a situação. — Mas minha dignidade, não.

Shun riu e, sem aviso, começou a puxar Hyoga para fora da cama. O russo resistiu; plantou os pés no chão como se tivessem sido cimentados ali, o corpo inclinado para trás, exageradamente resistente.

— Hyoga… — Shun puxou mais uma vez. — Não me faça usar as Correntes de Andrômeda em você.

— Você não ousaria — Hyoga bufou, estreitando os olhos.

— Ousaria, sim — Shun respondeu, com um sorriso perigoso. — E ainda te arrastaria até a penteadeira igual a um bezerro teimoso que fugiu do pasto.

Hyoga soltou um som indignado, meio riso, meio resmungo.

— Eu não sou um bezerro.

Shun largou o braço dele de repente e cruzou os próprios braços, batendo o pé no chão com força. Uma, duas, três vezes.

— Vem aqui, agora!

A cena era tão inesperada que Hyoga piscou, confuso. Aquilo não tinha nada de ameaçador. Na verdade, parecia mais…

— Você parece um esquilo bravo — ele comentou, rindo. — Batendo o pé desse jeito.

Shun apertou os lábios, tentando manter a pose autoritária.

— Não muda de assunto. — e agarrou seu braço.

Hyoga riu de verdade dessa vez. Um riso aberto, rendido. Suspirou, derrotado, e finalmente se levantou.

E então, ele se levantou.

Quando ficou de pé, o peito contra peito. A diferença de altura fez o andromediano dar alguns passinhos para trás, tentando recuperar o equilíbrio. Por pouco, muito pouco, não foi ao chão.

Hyoga segurou o riso ao ver a cena.

— Calma — murmurou. — Não foi de propósito.

— Você quase me derrubou! — Shun reclamou, ainda tentando se estabilizar.

— Culpa da gravidade — Hyoga respondeu, divertido. — E dos meus quase um metro e oitenta.

Shun revirou os olhos, mas não soltou o braço dele. Pelo contrário. Apertou a mão em torno do pulso de Hyoga e começou a puxá-lo de novo.

— Anda logo.

— Pra onde? — Hyoga perguntou, deixando-se levar dessa vez.

— Pro meu quarto.

Hyoga arqueou a sobrancelha, desconfiado.

Ainda assim, ele foi arrastado pelo cavaleiro de Andromeda, sem resistir mais. Talvez porque gostasse demais daquela mão quente segurando a sua. Talvez porque, no fundo, nunca quisesse mesmo escapar.

O quarto de Shun tinha um cheiro doce — e, de um jeito curioso, cheirava também a paz. As paredes em tom de verde-água suavizavam o espaço, como se ali tudo fosse convidado a falar baixo. A cama estava impecavelmente arrumada, o cobertor dobrado com cuidado, os travesseiros alinhados com atenção. Não por rigidez. Por carinho.

Hyoga logo percebeu de onde vinha o perfume adocicado. Flores.

Várias delas, dispostas em vasos sobre o batente da janela. Shun cuidava das flores como se fossem pessoas. Media a água com atenção, nem demais, nem de menos.

— Elas sentem — ele costumava dizer.

Os livros ocupavam um lugar especial, organizados com um cuidado quase afetivo. Shun os tratava como velhos amigos, abraçando-os contra o peito antes de escolher um ao acaso. Hyoga se lembrava das vezes em que ele puxava um livro da estante e o arrastava até o terraço, pronto para ler em voz alta.

Hyoga nunca se importava muito com a história em si — nem mesmo com aquele livro sobre o cachorrinho que fugia, se perdia e não conseguia voltar para casa.

O que o prendia era Shun.

O jeito como ele lia. Como se estivesse dentro da história. Como se fosse, ao mesmo tempo, leitor e testemunha.

Shun se emocionava a cada palavra. E Hyoga acabava escorando o queixo no cotovelo, observando em silêncio, apenas apreciando. Quando a narrativa ficava triste — quando o cachorrinho começava a passar fome, perdido e miserável pelas ruas — Shun chorava sem vergonha alguma.

E Hyoga, sem pensar, o puxava para perto.

Permitindo que Shun apoiasse a cabeça em seu ombro. Os dedos deslizavam pelos cabelos verdes num gesto lento, quase automático. Um conforto silencioso, oferecido sem explicação.

As cortinas do quarto eram finas e se moviam com o vento, porque as janelas estavam sempre abertas. O ar entrava livre, levando e trazendo sons, luz, vida.

Era… completamente diferente do quarto de Hyoga.

O quarto de Hyoga não parecia exatamente um quarto.

Parecia um lugar de passagem, ou um cativeiro autoimposto.

As paredes eram neutras demais, quase sem cor, como se ele tivesse escolhido não escolher nada. Não havia objetos pessoais à vista, nem fotos, nem lembranças expostas. Tudo o que pudesse denunciar apego ficava guardado — ou simplesmente nunca entrava ali.

A cama era simples, quase dura. Hyoga não buscava conforto, apenas descanso físico. Entrava, ligava o ar-condicionado no máximo e se jogava sobre o colchão como quem desligava o próprio corpo. Não havia ritual, nem cuidado. Só exaustão.

As janelas permaneciam sempre fechadas.

Hyoga não queria vento, nem luz, nem interferências. O frio artificial preenchia o espaço, substituindo qualquer sensação que pudesse escapar ao controle.

Era o único lugar onde Hyoga acreditava poder existir sem precisar reagir a nada.

Agora, parado no quarto de Shun, com o cheiro de flores no ar e a janela aberta deixando o vento tocar sua pele, Hyoga sentiu algo estranho.

Uma leve vontade de ficar. Não no quarto. Mas ali. Perto de Shun.

Shun continuou puxando Hyoga até a penteadeira, posicionada perto da janela, onde a luz natural sempre chegava primeiro. O sol entrava suave, espalhando reflexos dourados pelo quarto.

Shun o empurrou para se sentar na cadeira, as mãos espalmadas contra o peito largo de Hyoga, pressionando até que ele cedesse. A madeira rangeu quando o peso dele afundou no assento.

Hyoga se sentiu um gigante acomodado numa cadeira infantil. Teve que curvar as pernas, encolhendo-as um pouco para caber ali. Ridículo. Vulnerável. Estranhamente confortável.

Shun se afastou por um instante, indo procurar a tesoura.

Foi então que Hyoga passou a reparar nas coisas sobre a penteadeira.

Um pente de madeira. Uma escova de cerdas macias — tão suave que ele a pegou apenas para sentir o toque entre os dedos, deslizando o polegar pelas cerdas.

Alguns elásticos de cabelo, e presilhas.

E um frasco pequeno de perfume.

Hyoga o pegou.

Era discreto, simples. O cheiro, quando ele aproximou do nariz, era leve, floral, nada invasivo. Fechou os olhos sem perceber.

Era o mesmo aroma que ficava nos travesseiros de Shun. O mesmo que se misturava aos lençóis. O mesmo que parecia acompanhar o cavaleiro de Andromeda por onde passava.

— Achei!

Hyoga abriu os olhos a tempo de ver Shun voltando, animado, girando a tesoura entre os dedos.

— Prontinho.

Hyoga devolveu o frasco exatamente ao lugar de origem, fingindo que nunca o havia tocado.

Shun se posicionou à sua frente. Com um movimento firme, afastou as pernas de Hyoga com o próprio corpo, se infiltrando no espaço entre elas.

A proximidade fez Hyoga estremecer, os músculos tensionando por reflexo. Shun parecia não notar — ou fingia não notar.

O pente estava preso entre os lábios. A tesoura, firme na mão. De vez em quando, ele retirava o pente da boca, levantava os fios loiros, avaliava, puxava levemente… e cortava apenas as pontas desiguais, igualando o cumprimento.

Hyoga o observava.

O jeito como Shun franzia a testa quando se concentrava. Como se afastava alguns passos para analisar o corte, inclinando a cabeça. E depois se aproximava de novo — perigosamente perto.

Quase colando o peito no dele. Quase enfiando o cabo do pente nos olhos azuis de Hyoga.

— Shun… — Hyoga reclamou.

— Quietinho — Shun respondeu, sem levantar os olhos. — Se mexer, eu corto errado.

Hyoga ficou imóvel. Não por medo da tesoura.

Mas porque, naquele espaço mínimo entre eles, fez o Russo sentir calor. E ele não sentiu vontade de fugir, ele queria era que Andromeda chegasse ainda mais perto.

Shun levantou mais uma mecha, os dedos passando rápido demais perto do rosto de Hyoga. Ao se inclinar para cortar, perdeu um pouco a noção da distância.

O dorso da mão dele roçou de leve a bochecha de Hyoga. Foi rápido, mas o suficiente para fazer Hyoga prender a respiração.

Shun congelou no mesmo instante.

— Desculpa… — murmurou, sem olhar para ele.

Hyoga não respondeu. Apenas engoliu em seco, o olhar fixo no reflexo deles no espelho. O toque tinha sido mínimo, mas a pele ainda parecia quente no lugar onde Shun o havia encostado.

Shun retomou o corte, agora com mais cuidado. Um pouco mais rígido. Um pouco mais consciente da própria proximidade.

Hyoga, por sua vez, não conseguiu relaxar de novo.

Não porque estivesse desconfortável.

Mas porque queria que tivesse durado mais um segundo.

Quando Shun finalmente abaixou a tesoura, deu dois passos para trás e ficou apenas observando.

Antes, o cabelo de Hyoga caía longo demais, pesado. Os fios loiros desciam em ondas largas e indomáveis, formando cachos quase excessivos, cheios de volume. Bonitos, sem dúvida — mas selvagens. O tipo de cabelo que chamava atenção antes mesmo do dono entrar num lugar. Brilhava demais, se espalhava demais. Um luxo exagerado, como se tivesse sido feito para exposição.

Agora, era diferente.

O corte tinha dado leveza. As mechas estavam mais curtas, alinhadas com cuidado, ainda onduladas, mas domadas. O volume permanecia, só que elegante, moldando o rosto de Hyoga em vez de engoli-lo. As pontas desenhavam curvas suaves na altura dos ombros, enquadrando os olhos azuis com mais clareza. Continuava dourado, luminoso — só que agora parecia feito sob medida para ele.

Shun levou a mão ao queixo, o olhar crítico, orgulhoso. Observava como se estivesse diante de uma obra de arte recém-finalizada.

Impossível para Hyoga não rir.

— O quê? — ele perguntou, divertido.

Shun saiu da frente, abrindo espaço.

— Olha.

Hyoga ergueu o olhar para o espelho. E piscou.

— Hm… — Shun comentou, cruzando os braços. — Acho que você deixou oficialmente de ser um poodle de exposição.

Hyoga arqueou a sobrancelha.

— Isso é um elogio?

— Totalmente. — Shun riu. — Agora você tá mais pra um cachorrinho de madame. Bem cuidado. Caro. Mimado.

Hyoga soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

Shun se aproximou por trás e pousou as mãos nos ombros dele, apertando de leve.

— E então? — perguntou.— Gostou?

Hyoga inclinou um pouco a cabeça.

— Tem que ser sincero?

— Absoluta sinceridade

Hyoga sorriu, olhando de novo para o reflexo.

— Gostei. — E completou, com simplicidade: — Tudo que você faz é bem feito.

Shun sentiu o rosto esquentar na hora. Desviou o olhar, constrangido, mas sorrindo.

Hyoga se levantou em seguida, fazendo os fios cortados caírem entre as pernas, sobre os ombros e o tronco. Virou-se para Shun, teatral, abrindo um pouco os braços.

— Então… qual é o valor do corte, senhor Fígaro?

Shun riu.

— Só a presença do Cisne. — Fez uma pausa curta. — E um abraço apertado já paga o custo.

Hyoga riu também. Aproximou-se sem pressa e o envolveu num abraço firme, pagando a dívida ali mesmo.

Antes de se afastar, porém, não perdeu a oportunidade de inclinar o rosto e esconder o nariz na dobra do pescoço de Shun, respirando fundo só para guardar aquele cheiro.

— Ei… — Shun reclamou, rindo. — Cachinhos dourados.

Hyoga respondeu com outra risada, já se afastando em direção à porta, satisfeito, leve.

Agora parecendo exatamente o que Shun tinha dito:um cachorro de madame muito bem tosado.

Fim


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