Caídos
3 "Meu corpo pede álcool, meu coração pede você."
A única coisa em que eu conseguia me concentrar era o porquê de estar tão claro e também o porquê de eu estar totalmente dolorida. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, e em minha cabeça ainda era de noite, e eu tinha acabado de sair daquela festa estranha e totalmente lotada de corpos suados de tanto dançarem.
Tentei abrir os olhos, mas não consegui. A luz era tão forte que fez minha cabeça girar e doer, mas a questão não era essa. Será que eu dormi no sofá ou na poltrona? Eu não estava exatamente deitada, e isso eliminou todas as suspeitas de eu nem ter chego ao meu quarto.
Passei a mão no rosto e aos poucos consegui abrir os olhos, trazendo junto uma dor de cabeça horrível e porque diabos essa claridade me incomodava tanto? Quando finalmente consegui enxergar com clareza percebi que não estava na minha casa.
Acordar em um lugar estranho na primeira semana na cidade nova, algo que só poderia acontecer comigo mesmo. Eu deveria fazer uma lista de coisas estranhas e idiotas que poderiam acontecer na minha primeira semana na cidade.
Olhei ao redor observando cada detalhe para ter alguma pista de onde eu passei a noite, ou até mesmo para poder ter alguma lembrança.
Descobri o porquê do meu desconforto e minha dor no corpo: eu estava deitada em uma poltrona preta que estava regulada para ficar em uma posição meio deitada, meio sentada. Ela parecia ser a única coisa que dava contraste nas paredes claras do que parecia ser uma sala.
Passei a mão pelo cabelo, o prendendo atrás e tentei me levantar, mas antes que eu pudesse sequer levantar minhas costas uma mão me impediu, fazendo-me deitar novamente.
– Eu acho que é melhor você não fazer isso.
Olhei para o rosto da pessoa que se dirigia a mim e foi questões de segundos para eu poder me lembrar do que houve na noite passada.
– Você me sequestrou?!
Acho que a minha capacidade de imaginação tinha chegado ao limite. Daniel me encarava com aqueles olhos cinza penetrantes, um meio sorriso ameaçava sair de seus lábios e aquilo, não sei por que, me fez ter vontade de gritar de raiva.
– Eu acho que você ainda esta bêbada – Daniel disse me entregando um copo de agua – É melhor tomar um pouco, vai te fazer bem.
– Você não respondeu minha pergunta – Falei segurando o copo com as mãos um pouco tremulas – Você me trouxe aqui para me matar?
O meio sorriso por pouco não se transformou em uma gargalhada e ele mordeu o lábio inferior em um meio de tentar controlar o riso. Eu apenas o olhava com uma cara de desentendida porque na verdade eu sabia que ele não ia me matar, pelo menos uma parte de mim sabia disso.
– Com certeza, e pretendo cortar esses lindos cachos loiros e fazer algumas experiências com seu cérebro.
– Rá! Engraçado. Onde eu to?
– Foi você quem começou, e caramba loirinha, quantas perguntas! Um obrigada já estaria de bom tamanho! – Ele deu uma risada e uma pequena chama de raiva começou a crescer dentro de mim – Está é a minha casa, ou pelo menos vai ser por um tempo.
– Eu tenho nome!
– Eu sei.
– Você sabe? – Perguntei me repreendendo mentalmente por ter feito outra pergunta.
– Claro que sei.
– Então você tem me chamar pelo nome, não de loirinha.
– Loirinha é bem mais divertido que Emma.
Minha expressão de fúria passou para uma de emburrada, como uma garota mimada que não tinha conseguido o que queria, e era esse o caso porque apelidos eram desnecessários em minha vida.
– Acho que você deve estar com fome... Gosta de ovos mexidos? – Ele perguntou enquanto estendia a mão para me ajudar a levantar – É a única coisa que eu sei fazer.
Dispensei a mão dele e me levantei sozinha. Péssima ideia.
Daniel segurou meus ombros me empurrando gentilmente de volta para a poltrona e olhou em meus olhos procurando por algum sinal de se eu estava melhor. Quando levantei o rosto meu cabelo caia por sobre meu rosto, e eu senti a mão de Daniel se afastar um pouco do meu ombro como se estivesse pronta pra mexer em meu cabelo. O momento passou e ele me ajudou a levantar.
– Obrigada, por ter me ajudado ontem. – Eu disse meio sem jeito enquanto ele me guiava até uma cozinha igualmente clara como a sala, e quando ele não respondeu retirei seu braço que me guiava das minhas costas – Ovos mexidos então.
Sentei-me em uma cadeira perto da mesa e o olhei. Daniel estava terminando de fazer os ovos mexidos que eu nem gostava tanto assim, mas a vida não estava totalmente sorrindo para mim e era isso o que o cardápio oferecia. Estava muito agradecida por ele ter me trazido para a casa dele e não poderia me dar ao luxo de falar que preferia comer alguma coisa doce e calórica no café da manhã para poder ficar acordada durante o dia.
Porque nessas horas nenhum assunto útil vem na cabeça?
– Então... Você é alguma coisa da Clara?
A pergunta simplesmente saiu. Como se fosse a pergunta mais simples de todas.
– Clara? – Ele colocou os ovos mexidos no prato e o trouxe para mim – Ela é amiga da família.
– Ahh...
Peguei um talher que ele tinha colocado na mesa junto com os ovos e comecei a comer, meio envergonhada para poder falar alguma coisa.
Assim que terminei de comer, me levantei e levei meu prato até a pia já pronta para lava-lo.
– Pode deixar ai – Daniel disse da porta da cozinha – É melhor eu leva-la para casa.
– Sim, claro.
Fale com o autor