Caídos
2 "As noites foram feitas para dizer coisas que não se podem dizer no dia seguinte."
Notas iniciais
Cheguei em casa com uma forte dor de cabeça, e muitas lições, depois do meu maravilhoso primeiro dia de aula, que de maravilhoso não teve nada. A imagem do garoto moreno, que aparentemente se chamava Daniel, ainda estava na minha cabeça e a verdade é que ele era um pouco intimidador e nem um pouco agradável. Para começar, quem era ele para me chamar de ‘loirinha’? E se o maldito professor não tivesse me chamado a atenção ele teria ouvido algumas coisinhas da loirinha aqui.
Joguei a bolsa no pé da escada e subi lentamente degrau por degrau pensando no quão cansada eu estava e o quanto eu queria um banho quentinho. O quarto estava do mesmo jeito que deixei antes de sair: uma cama com cobertas brancas e travesseiros totalmente revirados e com um pijama de bolinhas roxas em cima, algumas caixas da mudança abertas no chão e livros e mais livros da escola estavam jogados na mais nova mesinha branca. Passei direto por tudo e fui para o banheiro.
Liguei a banheira e fiquei esperando que enchesse cada vez mais impaciente. Logo tirei a roupa espalhando-as pelo chão e entrei na banheira de mármore. Nada como um bom banho quente relaxante. Encostei a cabeça na beirada e fechei os olhos.
Até que não foi um desperdício total o dia. Nos meus 40 minutos de tempo livre, eu me sentei no gramado e observei as pessoas ao meu redor. Ás vezes eu recebia um olhar ou outro, porque claro eu era a nova garota em um lugar que parecia que todos já se conheciam e eram amigos.
Acabei descobrindo que a arrogância em pessoa, e com isso quero dizer Daniel, também tinha outra aula comigo, mas a diferença é que ele sentava beeem longe de mim e eu não sabia se isso era bom ou ruim. Só conseguia olhar apenas seu cabelo e suas costas, e quando finalmente eu achei que eu poderia prestar atenção em alguma aula, Anna se sentou ao meu lado e não parou de tagarelar por um minuto se quer.
Ela era muito legal e fofa, apesar de falar demais, e acabei virando amiga dela e daquele grupinho que encontrei mais cedo. Trocamos telefones e tal, porque é isso que garotas fazem, e como sempre tinha aquela garota que eu não ia com a cara: Clara, a ruiva que diz ter achado meu cabelo bonito. Ela não era tão falante quanto Anna e nem tão simpática, ficou só me observando e as vezes dava alguns sorrisinhos secos.
Prendi a respiração e afundei na água, abrindo os olhos para ver o teto de lajotas azul ficar turvo. Levantei da banheira com a dor de cabeça um pouco melhor e fui molhando o chão inteiro até o quarto onde peguei uma toalha e me enxuguei. Coloquei as roupas mais confortáveis possíveis, dei uma secada no cabelo e me joguei na cama.
Abri os olhos quando escutei a televisão da sala sendo ligada e desci a escada.
– Pai? – Chamei encostando o ombro na porta da sala – Chegou agora?
– Ah, oi Ems – Disse ele se virando para dar um sorriso e logo depois voltando sua atenção ao programa que passava na tv – Cheguei faz um tempinho já. Como foi o primeiro dia na nova escola?
Acho que deve ser uma frase bem comum porque todos os pais falam isso, eles devem ter um dicionário com frases para se falar aos filhos. Me joguei no sofá ao lado dele e encostei minha cabeça em seu ombro, sua expressão era cansada. Respondi olhando para a televisão que agora passava agora algum filme qualquer com o Brad Pitt.
– Como sempre são os primeiros dias. E o seu trabalho?
– A mesma correria de sempre. O caso do senhor Hans esta dando um pouco de trabalho.
– Interessante – Murmurei meio baixo. John era um grande advogado e geralmente não parava muito em casa, ele andava pegando vários casos de uma vez só e vivia cansado e resmungando coisas sobre direito pela casa.
Esse era aquele momento constrangedor entre pai e filha em que nenhum dos dois tinha alguma coisa para falar. Eu odiava isso.
– Onde a Estella tá?
Ele demorou um pouco para responder, provavelmente tentando se lembrar da programação que ela insistia em falar todos os dias de manha no carro.
– Spa? – Soou mais como uma pergunta e ele pensou um pouco mais – Acho que na casa da Meredith.
– Aquela que fez uma plástica na boca pra ficar igual à Angelina Jolie?
– E que não deu certo e ela ficou com uma boca de palhaço.
Nós trocamos um olhar como se isso fosse completamente normal e depois começamos a rir, aquela risada que não era escandalosa, mas prazerosa de se ouvir.
A porta da sala se abriu com um estrondo e a voz irritante de Estella preencheu a casa. Revirei os olhos e apontei para cima, indicando para meu pai que eu iria subir. Eu realmente não estava com paciência para ouvir sobre como fulana de tal falou da outra fulana que a roupa dela estava com um brilho a menos.
O celular brilhava perto do abajur quando eu entrei no quarto. Sentei na beirada da cama e olhei minha nova mensagem, e com certeza essa foi a melhor coisa que foi dita para mim o dia inteiro.
“Festa exclusiva da escola, tá afim?”
Ai Anna, você realmente é uma ótima amiga de se ter. Nada como uma boa festa para causar ótimas impressões.
Olhei para o relógio que marcava exatamente 21h, então me apressei para poder colocar uma roupa mais ‘apresentável’.
Não sei quanto tempo demorei arrumando meu cabelo, ou para decidir o que fazer com ele. Escovei-o e o deixei solto fazendo com que as pontas que batiam quase abaixo do meu peito formassem lindos cachos.
Voltei para o quarto e parei em frente ao guarda-roupa pensando no que eu poderia vestir. Revirei um pouco mais e não achei nada, procurei dentro de algumas das caixas e finalmente achei um vestido azul-marinho que batia nas minhas coxas. Esse definitivamente era o meu vestido.
Olhei para a garota refletida no espelho e sorri ao ver o reflexo de uma Emma bonita e sexy, e é claro, sem maquiagem porque eu se tinha uma coisa que eu odiava era ficar pintando a cara inteira para depois chegar em casa e tirar tudo.
Peguei uma pequena bolsa preta e guardei o celular e alguns documentos dentro dela. Calcei os sapatos enquanto descia a escada e quando eu ia fechar a porta de casa John apareceu.
– Emma? – Ele estava na cozinha me encarando enquanto segurava um copo de agua na mão esquerda – Vai sair?
– É, acho que sim. – Senti o celular vibrar insistentemente em minha bolsa. Anna devia estar me esperando, tinha pedido que me buscasse afinal eu não conhecia quase nada por aqui e ainda não tinha nenhuma noção da cidade.
– Que horas você vai voltar?
Parei por um instante e dei um sorriso irônico para ele.
– Meu deus, desde quando você se importa?
E adeus momento pai e filha.
Não fiquei para ouvir a resposta e sai pisando na grama verde, que pelo cheirinho devia ter sido aparada á pouco tempo, Anna já estava me esperando em frente ao jardim com um Jaguar F-Type vermelho. Confesso que fiquei com um pouquinho de inveja daquele lindo carro, e com a capota baixa ficava simplesmente perfeito. Entrei no carro e coloquei o cinto.
– Onde é a festa?
– Relaxa Emma – Ela disse balançando o cabelo perfeito – Não é muito longe daqui!
E não era mesmo, era perto da escola para ser mais exata. Um clube que foi alugado pelos alunos calouros. Estava meio lotado, mas o espaço era bom o suficiente.
Quando Anna finalmente achou um lugar para estacionar e saiu do carro pude notar o quanto estava bonita. Usava um vestido curto preto de camadas e um decote comportado, apesar de não se poder falar o mesmo do tamanho do vestido...
Ela passou o braço pelo meu, me guiando até a entrada do clube enquanto tagarelava quem estava presente na festa. Uma coisa que eu já sabia da Anna é que ela nunca, nunca parava de falar.
Lá dentro estava quente e muitas pessoas já estavam bêbadas, outras apenas dançavam ou conversavam. Avistei algumas pessoas que tinha conhecido nessa manhã através da baixinha ao meu lado.
Me peguei encarando por um tempo Jasper, o garoto que tinha feito a piada sem graça com meu nome, ele era extremamente bonito. Tinha olhos claros da cor do céu, e seu cabelo meio acobreado estava um pouco grande, o que dava um charme juntamente com o seu corpo magnifico. Dei uma risada para mim mesma ao perceber que ele fazia o mesmo, me encarando de longe. Anna me levou para mais perto do grupo e me soltou indo abraçar a chata barra estranha Clara. Ela estava usando uma saia de babados rosa e uma blusa curta e justa branca, o que me surpreendeu porque até que ela estava bonitinha.
– Hey gata! – Jasper veio em minha direção e me deu um abraço – Você esta muito, muito bonita!
Soltei uma risada meio tímida.
– Você também não esta nada mal Jasper.
E não estava mesmo. Ele usava uma camisa verde com um corte em v combinando perfeitamente com os tênis escuros. Sua calça jeans branca estava meio larga, o que deixava um pedacinho da sua cueca preta a mostra.
– Você que dançar?
– Acho que não... Eu sou uma negação para dança. – Na verdade, eu não estava sendo completamente sincera. Eu já havia praticado todas as danças que se pode imaginar, mas eu nunca dançaria na frente de tanta gente assim – Que tal eu pegar alguma coisa para a gente?
– Claro! – Ele sorriu de lado e me virou colocando as mãos no meu ombro – A mesa de bebidas fica do lado esquerdo, está vendo?
Assenti com um sorriso e fui buscar algo para tomar na grande mesa cheia de bebidas e petiscos. Assim que me virei já segurando dois copos de sabe-se-lá-o-que, eu o vi.
Estava todo de preto, com uma jaqueta de couro por sobre os ombros, os cabelos mais escuros do que nunca. Segurava um capacete em uma das mãos e com a outra um copo que ainda parecia estar cheio.
Ótimo, o senhor otimismo em pessoa. Eu preciso urgentemente parar de dar apelidos para ele.
Daniel não estava sorrindo, estava encostado em uma pilastra concentrado demais na sua bebida para notar o que acontecia ao seu redor. Observei com atenção Clara chegar perto dele e falar alguma coisa em seu ouvido.
Contornei um grupo de garotas que dançavam animadamente e cheguei um pouco mais perto para escutar o que eles falavam.
–... eu sei que ela é diferente, só de estar por perto eu posso sentir.
– E você esta me pedindo o que exatamente? – Ele disse em um tom meio irônico.
– Que você descubra alguma coisa, eu não sei direito.
Ele olhou para os próprios pés como se tivesse que pensar com muita calma.
– Tá. Eu cuido disso, não se preocupe.
Com isso ele tomou todo o conteúdo do copo em um gole e o jogou em um lixo, saiu andando até o outro lado e desapareceu no meio dos corpos que se amontoavam uns nos outros. De quem será que eles falavam?
Caminhei até o outro lado onde Jasper, Anna e os outros estavam. Entreguei os copos ao Jasper e puxei Anna um pouco longe deles.
– Anna eu estou indo embora, só te chamei para avisar.
– Mas já Ems?! – Ela disse com uma cara meio triste – A festa nem começou!
– É, mas sabe, amanha tem aula e eu não quero ter que levar sermão outra vez.
– Tá... Mas antes você tem que provar isso! Foi o Jas quem trouxe.
Ela me entregou uma garrafinha transparente em que se podia ver um liquido azul já na metade.
– O que é isso?
– Vai, toma logo! – Ela disse empurrando minha mão que segurava a garrafa até a minha boca – Você vai gostar, tenho certeza.
Fiz uma careta e levei a garrafa até a boca. O liquido azul tinha um gosto bom no começo, mas depois começou a queimar minha garganta como fogo e por pouco eu não vomitei ali mesmo nos pés dela.
– Eca Anna! Isso é horrível!
A garota fez uma cara de brava e tomou a garrafa da minha mão.
– Eca, digo eu Emma! Isso é delicioso!
Ela tomou um gole da garrafa e com isso foi andando novamente até os outros, enquanto eu ia caminhando em direção á saída. Eu iria caminhando mesmo, minha casa não era tão longe e, além disso, eu não estava bêbada.
Quando eu já estava saindo do estacionamento e indo para a rua eu vi uma pena preta. Ela era bem grande e parecia ser macia, tinha um brilho próprio. Tão linda.
Porque eu achei uma pena linda?
Eu queria tanto toca-la, era como se ela me chamasse me dizendo para segura-la.
Quando me abaixei para pega-la já era tarde. Meus olhos começaram a se fechar e meu corpo começou a cair lentamente no chão. Minha cabeça doeu por um tempo, ou foi por uns segundos? Eu não me lembro bem, mas o céu estava tão lindo e as estrelas brilhavam tanto que meus olhos queimavam. E então eu finalmente cedi a tentação de dormir.
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