Caçadores do amanhã
5 Woman in white
Notas iniciais
Jericho, Califórnia
Estrada Breckenridge
9:00 PM
Eles seguiam viagem em completo silêncio, até que Tom resolveu quebrá-lo:
— Por que você perguntou se eu já fui infiel?
— Você quer realmente saber? — questionou sem tirar os olhos da estrada. Dava para sentir pelo tom de voz usado que Mel ainda estava aborrecida com ele.
— Na verdade não, mas esse silêncio está me matando!
Mel esboçou um leve sorriso com o comentário e Tom a olhou vitorioso por tê-lo causado.
— Bom, eu estava folheando o caderno que você me deu e tive uma ideia do que poderia estar causando os desaparecimentos: a mulher de branco.
Tom ficou em silêncio esperando uma explicação.
— Existem relatos sobre a mulher de branco em vários lugares do mundo e a lenda muda um pouco de lugar para lugar, mas todas elas surgem de uma história em comum: uma mulher é traída pelo marido e comete suicídio, a partir daí torna-se um espírito dedicado à matar homens infiéis.
— ...Isso explicaria supostamente o sumiço de Grant Ward, o cara era um canalha. Mas e o Eobard? Ele não parece ser do tipo que trairia a namorada — ele queria dar continuidade à conversa mesmo que não acreditasse na tal história.
— Ele estava voltando para casa sozinho naquela noite, então é bem provável que a namorada não estava na mesma festa que ele... Muitas coisas podem ter acontecido na ausência dela, ainda mais em uma festa.
— Hum... Espera, eu não menti quando disse que nunca traí, mas e você? Juro que eu nunca vi uma garota pegar tantos caras no mesmo dia! — disse lembrando de ter visto ela no colégio várias vezes com rapazes diferentes.
— Ei, eu sou fiel à todos os meus homens ok? — falou brincando — A lenda diz que ela só persegue homens infiéis e, da última vez que chequei, eu continuava sendo mulher.
— ... Então estamos imunes ao fantasma, certo? — Mel só sorriu de canto com a pergunta.
Já fazia alguns minutos que estavam dirigindo pela estrada mal iluminada quando uma mulher apareceu subitamente no meio do caminho. Mel pisou no freio com o susto e conseguiu parar bruscamente antes de atropelá-la, isso é, se atropelaria, pois a mulher tinha desaparecido.
— O que foi aquilo?! — Tom gritou.
Entretanto, não houve tempo para resposta, a mulher apareceu de novo, mas dessa vez dentro do carro. Ela usava um vestido branco sujo e rasgado, suas olheiras contrastavam com a extrema palidez de sua pele e ela tinha uma aparência decrépita, como se fosse um cadáver que começava a se decompor. Ela apoiou uma das mãos pálidas no banco do passageiro, bem perto do pescoço de Tom e foi se inclinando aos poucos na direção do rapaz.
— Você me traiu? — ela falou devagar com sua voz aguda e trêmula.
Tom ficou paralisado sem saber o que fazer, havia um fantasma ali na sua frente! Seu coração começou a bater rápido e ele forçava as costas no encosto do banco numa tentativa falha em se afastar da monstruosidade. A mulher o encarou por segundos que pareceram horas de terror para ele, até que se ouviu um barulho alto. Mel tinha sacado a arma escondida na parte de trás do shorts e o tiro de sal fez com que o fantasma desaparecesse no ar.
Entretanto, o alívio durou pouco, pois subitamente ela reapareceu, porém desta vez estava na frente de Mel!
— Você me traiu? — a voz horrenda soou novamente.
Melanie tentou atirar mais uma vez, mas o espírito vingativo foi mais rápido e prendeu seu braço no banco do motorista com forças sobrenaturais, impedindo que ela pudesse mirar no alvo. A figura macabra olhava fixamente para o rosto de Mel, esta sentia como se seus segredos mais íntimos estivessem completamente expostos àquele olhar e provavelmente estavam.
— VOCÊ TRAIU!!!— gritou a mulher de branco num berro ensurdecedor e jogou as duas mãos no pescoço de Mel apertando-o com os polegares.
A mulher aterrorizante tinha lágrimas de ódio em seus olhos sem vida e gritava desesperadamente como se fosse ela quem estava sendo atacada. Melanie tentava se livrar desesperadamente do sufoco com uma das mãos já que a outra ainda estava presa ao banco, mas foi inútil. Quando estava quase perdendo o fôlego, a janela ao seu lado explodiu em vários pedaços e, logo em seguida, o espírito desapareceu como na primeira vez. Tom havia conseguido tirar a arma da mão de Mel e deu dois tiros, acertando o primeiro no vidro da janela.
Melanie não teve tempo de fazer nada além de posicionar as duas mãos fortemente no volante e pisar com tudo no acelerador antes da mulher reaparecer na mesma posição de antes, porém desta vez parecia muito mais zangada. Ela gritava e se jogava violentamente em cima da jovem. Mel tentava resistir ao ataque sem parar de acelerar apesar de não conseguir ver para onde estava indo, e o máximo que Tom conseguiu fazer foi se segurar da melhor maneira que podia e soltar uma exclamação sem resposta.
— Melanie! — tentou dizer mais alguma coisa que não conseguiu pronunciar.
Lágrimas formavam-se em seus olhos e o suor escorria por sua têmpora quando Mel avistou uma placa logo à frente se aproximando rapidamente. A placa indicava o fim da Estrada Breckenridge e, assim que passaram, o fantasma desapareceu no ar. Mel tossiu com dificuldade em retomar o fôlego, porém ela já estava em seu limite, a visão começou a ficar turva e ela desmaiou. Tom tentou chamá-la, mas foi em vão e a caminhonete bateu em uma árvore.
—--x---x---
Thomas abriu os olhos com cautela tentando entender o que tinha acontecido. Haviam batido de frente com uma árvore na beira da estrada alguns metros à frente da placa. Tom viu Mel apagada ao seu lado e tentou acordá-la.
— Melanie! Mel! — chamou a chacoalhando de leve pelos ombros e a garota começou a despertar.
Quando seus olhos abriram, sua expressão de interrogação logo se tornou de dor. Tom descobriu facilmente o motivo: havia um enorme pedaço de vidro encravado na coxa esquerda dela, resultado do tiro que acertou a janela. O ferimento fazia com que sangue escorresse pelo banco e com certeza a profundidade do corte requereria uma costura.
— Precisamos de um hospital — declarou.
— Não — disse Mel com dificuldade — Tenho que dar um jeito nessa assombração de corna antes que ela machuque mais alguém.
— Melanie, você não vai conseguir fazer nada com essa perna! No máximo vai acabar sangrando até a morte! — Thomas estava bravo com a imprudência da garota, era a primeira vez que Mel o via descontrolado daquele jeito.
Ela soltou um suspiro derrotada, ele estava certo, precisava dar um jeito no ferimento antes de tudo.
— Ok... Mas não quero ir ao hospital — disse meio acanhada e recebeu um olhar de reprovação do garoto — Por favor.
Tom pensou por um tempo e acabou aceitando mesmo que contrariado.
— Não estamos muito longe da minha casa, é pra lá que vamos. Eu dirijo — disse mesmo sendo óbvio que Mel não estava em condições de dirigir.
Ele a ajudou a passar para o assento do passageiro e deu a volta tomando o lugar do motorista. Virou a chave rezando para que a caminhonete ainda funcionasse após a batida. Suas preces foram atendidas e eles voltaram à estrada. A garota usou a jaqueta para diminuir o sangramento da coxa pressionando-a em volta do vidro e fechou os olhos tentando controlar a dor respirando fundo.
Minutos depois, eles chegaram à casa de Tom e estacionaram na garagem. Mel pediu que ele pegasse sua mochila que estava na caçamba, ele obedeceu colocando a mala nas costas e ainda pegou a garota no colo contra a vontade dela. Entraram na casa e ele a colocou sentada em uma das cadeiras da sala.
Mel começou a vasculhar a mochila e encontrou o que procurava: uma agulha envergada, semelhante à um anzol.
— Ok, agora eu preciso de linha e álcool. Ah isso serve! — disse abrindo uma garrafa de whisky que estava na mesa e tomando um gole.
Tom ignorou o ato e foi buscar o que fora pedido. Voltou para a sala com um kit de primeiros-socorros, um frasco com álcool (isso se ela ainda fosse usar) e um caixa de fio dental. Mel o encarou incrédula.
— É o que tem — respondeu simplesmente.
Mel usou a manga da jaqueta para segurar o caco e começou a puxá-lo contraindo o rosto com a dor. Assim que tirou-o de sua perna, jogou álcool por cima e a ardência foi pior ainda. Ia começar a costurar, mas o olhar de Tom começou a incomodá-la, ele estava com os olhos arregalados e parecia que ia vomitar a qualquer momento, então ela o mandou pesquisar as mortes da Estrada Breckenridge a fim de descobrir quem era o fantasma.
Terminada a costura, Mel enrolou a coxa com gaze do kit de primeiros-socorros para proteger o ferimento e tomou mais um gole da garrafa de whisky. Tomou a liberdade de pegar um copo e serviu um pouco. Levantou-se com um pouco de dificuldade e andou mancando até Tom, que estava sentado do outro lado da mesa com um laptop.
— Eu sei que você está precisando — falou colocando o copo na frente do primo — Olha aqui — levantou o rosto dele com a mão e começou a passar uma pomada que encontrou no kit de primeiros-socorros em seu olho roxo, assim como ele tinha feito com ela mais cedo.
Tom ficou um pouco surpreso, mas aceitou a ação de bom grado.
— ... Desculpa pelo olho — falou ao terminar de passar a pomada — Bom, pelo menos estamos combinando — disse risonha referindo-se ao roxo da sua bochecha.
Thomas se perguntou como ela conseguia sorrir daquele jeito. Tinha acabado de dar de cara com um fantasma de verdade, quase morrer, sofrer um acidente de carro e costurar um corte de dez centímetros na perna sem nenhum tipo de anestesia! Olhou o copo a sua frente e tomou todo o conteúdo em um só gole. Mel soltou um riso e encheu-o novamente.
— Como vai o corte? — ele perguntou.
— Com um leve frescor de menta — riu.
Melanie puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Tom e este não pode evitar empurrar o cabelo dela para trás do ombro olhando as marcas em seu pescoço.
— Ei, eu tô legal. Já estou acostumada com esse tipo de coisa — tentou acalmá-lo — E você? Eu nem imagino como deve ser descobrir que monstros existem de verdade, apesar de que você reagiu bem ao atirar no espírito.
— E vesgo do jeito que sou, acertei a janela, graças a isso você ficou assim — Mel balançou a cabeça indicando que a culpa não era dele, provavelmente nunca tinha segurado uma arma antes, pelo menos acertou o segundo tiro — Então essa é a sua vida? Salvar pessoas e caçar... essas coisas?
— Basicamente — respondeu e tomou mais um gole da bebida — E era essa a vida dos nossos pais.
— Me pergunto se eu também seria um caçador se o meu pai não tivesse morrido quando eu tinha dois anos...
— Não foi Dean que me criou também — Tom a olhou esperando por uma explicação — Ele abandonou a minha mãe quando ela estava grávida e, antes de morrer, ela me deixou com um amigo caçador, Doug — aquiesceu com a memória — E a sua mãe?
— Ela vinha lutando contra o câncer já tinha algum tempo, mas acabou perdendo a batalha três anos atrás — disse e tomou o whisky do copo.
Os dois ficaram quietos por algum tempo criando um clima meio tenso. Mel resolveu deixar que Tom terminasse a pesquisa e deu uma voltinha pela casa. Era um local simples de apenas um andar e dois quartos. Tinha cheiro de Thomas em todo o lugar e, ao entrar sem permissão em um dos quartos, encontrou uma cama de casal abandonada ao lado de uma estante cheia de porta-retratos, provavelmente o cômodo pertencia à falecida mãe dele.
Melanie pegou uma das fotos que tinha uma mulher e um homem, um casal muito bonito, notando que Tom era a perfeita mistura dos dois.
— Então você é o Sammy... Será que Dean se parece com você? — perguntou baixinho conversando consigo mesma. Não sabia como era a aparência de seu pai biológico, Doug sempre dizia que ela era igualzinha à sua mãe, mas não tinha ideia de como era seu pai, nunca o tinha visto nem em fotografia.
Sentou-se na cama olhando a foto e imaginando como Sam poderia ter morrido. Provavelmente foi o trabalho, concluiu lembrando que ser caçador diminuía consideravelmente a expectativa de vida. Certamente era por isso que Tom não sabia da verdade, Sam deve ter pedido antes de morrer para que a mulher não contasse sobre sua vida de caçador, pelo menos era o que Mel faria se tivesse um filho, manteria-o mais longe possível dessa verdade, para que não crescesse como ela cresceu, criado como um soldado. Riu consigo mesma sem emoção, pois lá estava Tom pesquisando sobre mortos para caçar um espírito vingativo graças à ela. Melanie sentiu uma pontada de culpa por estar trazendo Tom para esse mundo que Sam faria questão de deixá-lo longe.
— Ei, eu acho que encontrei! — chamou da sala despertando a jovem de seu transe de pensamentos.
Mel colocou o porta-retrato de volta no lugar e foi ao encontro de Tom.
— Veja, já houveram várias mortes na Estrada Breckenridge, a maioria acidentes de carro, mas apenas dois suicídios — explicou — a mais recente foi de uma tal de Mary Margaret.
— Foi ela que atacou a gente — constatou Mel ao ver a foto da mulher — Só não entendi por que ela me atacou. Assim, sou a favor da igualdade de sexo e tal, mas eu achava que mulheres de branco só matavam homens e, até onde eu sei, eu não sou homem.
— Aparentemente ela foi casada com um cara que a traiu, resultando em uma separação difícil, mas ela seguiu em frente e encontrou uma mulher por quem se apaixonou. Elas estavam prestes a se casar quando a namorada fugiu com outra por... questões monetárias, pelo jeito a ladra de noivas era herdeira de uma pequena fortuna. A tal Mary entrou em depressão profunda e se suicidou jogando-se da velha ponte da estrada.
— Ok, faz sentido, ela vai atrás de pessoas infiéis independente do sexo, porque foi corna nos dois lados da moeda.
— E agora, o que fazemos para pará-la?
— Onde ela foi enterrada?
— Hum... No cemitério da cidade. Por que?
— É preciso desenterrá-la, salgar o corpo e cremar.
— Maravilha! — disse irônico — Vamos agora?
— Não vamos a lugar nenhum, eu vou.
— O que?
— Eu vou terminar com isso sozinha, porque eu sou a caçadora e esse é o meu caso.
— Que narcisismo todo é esse de repente? Fala sério, Mel, eu já estou muito envolvido nessa história! Como você pode pedir que eu fique fora disso? — disse já se levantando e indo em direção à garagem.
Mel ficou um pouco relutante, mas de certa forma ele estava certo, não podia simplesmente pedir que ele esquecesse tudo o que aconteceu.
— Okay, mas essa vai ser a primeira e última vez que você caça qualquer coisa, viu.
Tom deu de ombros e ela o seguiu para a garagem sentindo que sua ameaça foi ignorada. Ao chegar lá encontraram a caminhonete destruída. Mel ainda não tinha visto o estrago de perto, o pára-brisa estava trincado, a janela do motorista totalmente destruída, um dos faróis quebrado e a frente completamente amassada.
— Merda — foi só o que conseguiu dizer.
— Vamos com o meu carro — falou Tom já retirando a lona de cima do carro ao lado revelando um belo automóvel.
— Ah. Meu. Deus! — Mel ficou embasbacada — É lindo!
— É só uma velharia, mas dá pro gasto.
— Velharia? Essa Chevy Impala 67 não é velha! É um clássico! — disse passando a mão pela lataria — Onde você conseguiu essa beleza?
— No meio das coisas do meu pai, eu encontrei o endereço de um velho depósito e resolvi ir dar uma olhada. O carro estava no nome Winchester e eu consegui pegá-lo para mim depois de muita burocracia... O cara até me contou que o apelido do carro é Baby, não que eu ligue muito para nomes de carro, mas achei engraçado — contou enquanto observava Mel entrando no carro.
— Ela toca cassetes? Ela toca cassetes! Eu estou gostando cada vez mais desse carro! — falou colocando uma fita que achou no porta-luvas e começou a tocar "More than a feeling" — Espera, se esse carro era do seu pai e ele era caçador isso significa que... — ela desceu do carro animada e foi até o porta-malas — Esconderijo de armas — falou procurando o fundo falso e abrindo-o quando encontrou — I love you, Baby! — cantarolou ao encontrar uma porção de armas e facas.
Tom só conseguia pensar nas milhares de vezes que já poderia ter sido preso se alguém tivesse encontrado aquilo ali.
—--x---x---
Jericho Cemetery
11:40 PM
Ficaram um bom tempo escavando até chegarem na tampa do caixão e, ao encontrá-la, Tom bateu com força usando a pá, quebrando a madeira já apodrecida e liberando um odor pútrido que o fez cobrir o rosto com a manga da blusa. Mel o ajudou a sair do buraco e eles salgaram e cremaram o corpo de Mary Margaret.
Ao voltarem para o carro, Tom guardou as pás no porta-malas e Mel foi ao banco de trás pegar duas cervejas em uma caixa de isopor que antes estava em sua caminhonete. Jogou a latinha para o primo e tomaram encostados no Impala.
— Isso me lembra da primeira vez que fui caçar de verdade — disse olhando o céu — Depois de cremar o corpo, Doug me deixou tomar cerveja pela primeira vez, eu devia ter uns doze anos na época... E ficamos assim, olhando as estrelas.
— Então essa sempre foi a sua vida? Desenterrar e cremar corpos de desconhecidos... É, eu acho que posso me acostumar com isso...
Mel o encarou com uma expressão de dúvida.
— Você não está pensando que vai vir comigo né?
—... Por que não? — perguntou olhando para ela, de certa forma já sabia qual resposta que receberia.
— Porque eu estou dizendo que não! É muito perigoso!
— Você lida com isso todos os dias, eu também posso. Além disso, olha só o que a gente acabou de fazer!
— Esse espírito vingativo? Isso é nível 1 comparado à todas as outras coisas que existem por aí!
Mel bufou e começou a andar de um lado ao outro passando a mão nos cabelos nervosa. Tom agarrou seu braço a obrigando a parar e ouvi-lo.
— Então você pode... ficar aqui, viver uma vida normal e ir para escola, como estava fazendo — ela o encarou confusa com a repentina proposta — Mas se você decidir partir de Jericho, saiba que eu vou junto. Eu finalmente descobri que ainda tenho uma família, não pense que vou desistir de você assim tão fácil!
Mel encarou a seriedade de Tom e percebeu que ele realmente não desistiria daquela ideia facilmente. Ela ficou sem saber o que dizer, Tom era a única família dela também, mas isso não mudava o fato de que ela não poderia deixar que ele a seguisse e muito menos que ficassem perto por muito tempo, afinal os demônios ainda poderiam estar atrás dela.
— Eu não posso...
— Então, eu vou ser caçador com você.
— Você não pode ser caçador! — a situação estava piorando a cada segundo, a culpa começava a cutucá-la por dentro e tudo o que passava pela cabeça dela era como ela queria nunca ter trazido Tom para seu mundo.
— Como não? Foi por isso que você me levou para Estrada Breckenridge, não foi? Agora eu sei que tudo naquele caderno é real e nós podemos...
— Te levar lá foi um erro! Foi um grande erro! — ela o interrompeu perdendo o controle da voz — Eu nunca deveria ter desafiado a sorte, se aquele espírito não tivesse aparecido você ainda não acreditaria nessas coisas e seguiria a sua vida — mordeu o beiço tentando parar de falar, mas não conseguiu — Olha pra você, Tommy, tem um carro bacana, uma casa decente, um trabalho que te paga, uma vida de verdade! E um dia você vai encontrar uma garota legal, se casar, ter filhos, envelhecer e morrer em uma cama quentinha... Eu nunca terei a mesma chance, nenhum caçador tem!
Tom apenas a encarava ouvindo a confissão sem saber o que fazer enquanto Mel continuava a desabafar:
— Doug, o meu pai de criação, ele nunca teve ninguém além de mim eu eu só tinha a ele. Sabe o que aconteceu? Ele morreu esfaqueado há pouco mais de uma semana! — engoliu seco ao dizer aquilo — Não é fácil ser caçador. Poucas pessoas entendem isso, e aqueles que entendem não vivem muito pra contar história... então, não me siga, porque não vale a pena. Não desista do seu futuro por causa de uma garota que você nem conhece!
Ela deu as costas e entrou no carro tentando esconder as lágrimas. Não queria se separar de Tom, odiava ficar sozinha, ainda mais depois da morte de Doug, mas era o certo a ser feito. Era o que Sam iria querer para ele, tinha certeza disso.
Thomas não conseguiu falar nada diante da confissão. Ele queria muito ir com ela, descobrir mais sobre a vida secreta de seu pai e, acima de tudo, ter alguém. A verdade era que ele se sentia tão só quanto Mel.
Eles voltaram para a casa de Tom e o silêncio pesado pairou o ar durante todo o caminho. Quando estacionaram na garagem, Thomas saiu do carro e andou para dentro de casa sem falar uma palavra, não estava zangado por causa da discussão, apenas frustrado com a situação. Provavelmente teria que deixar sua única família simplesmente ir embora e bolava em seu cérebro como poderia impedir isso, mas nada veio à mente. Mel também desceu do carro em silêncio soltando um longo suspiro.
Ela franziu o cenho ao sentir um cheiro estranho e começou a olhar em volta procurando a origem do odor. Passou o dedo pela lataria da caminhonete deixada ali mais cedo e seu indicador ficou coberto por um pó amarelo.
— ... Enxofre — pensou consigo mesma e se alarmou — Essa não, Tommy!
Chamou correndo atrás do rapaz e entrou na casa encontrando Tom encarando confuso dois homens desconhecidos. Os dois viraram o rosto para Mel quando ela entrou na sala e revelaram seus olhos negros.
— Demônios... — ela exclamou e um deles abriu um enorme sorriso ao vê-la — Fudeu!
Fale com o autor