Caçadores do amanhã
13 Raised by wolves
Notas iniciais
[Thomas' POV]
Já fazia uns bons 20 minutos que eu e Garth estávamos escondidos debaixo de uns bancos da igreja esperando a briga se acalmar.
Bom, a missa tinha começado tranquilamente na igrejinha perto da casa e só parentes estavam presentes. Garth começou falando sobre a importância da união familiar, mas logo foi interrompido por um tal de tio Garibaldi que questionou a minha presença lá. Já não era muito agradável para eles terem caçadores dormindo sob o mesmo teto, ainda mais quando estes começavam a fazer perguntas sobre um assassinato. Claro que eles não são bobos nem nada e já descobriram que eu e Mel desconfiamos que o culpado é um membro da família.
Aí começaram as acusações: tio Garibaldi acha que foi o primo Astolfo; primo Astolfo acha que foi a tia Anastásia; tia Anastásia culpou o tio Ernesto. Mas o verdadeiro caos veio à Terra quando a tia Gertrudes jogou um sapato na cara da prima Tânia.
Foi aí que a discussão ficou mais séria, com pessoas berrando e a tia Gertrudes jogando objetos em quem aparecesse na sua frente. Chegou num ápice em que até a Bess estava no meio da briga!
É claro que Garth tentou resolver a situação gritando "Cadê a porra da união familiar?!", mas desistiu de tentar acalmá-los quando recebeu um "Vai tomar no c*" da tia Gertrudes. Depois disso, apenas nos escondemos e esperamos que a briga acabasse.
De repente a porta se abriu e Mel entrou desviando de um candelabro que foi jogado em sua direção. Melanie nos avistou escondidos e passou correndo pelo campo de guerra.
— Se eu soubesse que igrejas eram tão animadas, viria mais vezes! — riu se sentando ao meu lado — O que está acontecendo?
— Parece que nós não somos a única família com problemas de comunicação — expliquei.
— Ele não deveria fazer alguma coisa pra acalmar essa gente? — Mel perguntou olhando para o Garth.
— Sim, mas sem o sr. Fizzles eu não sei o que fazer! — Garth choramingou.
Melanie se levantou erguendo uma arma e atirando pra cima, o que chamou a atenção de todos.
— Olha aqui, velha, se você jogar esse vaso, eu juro que atiro — Mel disse apontando a arma pra tia Gertrudes, que estava prestes a jogar o objeto no primo Astolfo.
— Melanie! — a repreendi, mesmo achando que a velha atrevida merecia.
— Escuta aqui, cambada! Eu descobri quem é o culpado! — Mel anunciou — E ele não faz parte dessa família, ok?
— Então quem foi? — é claro que a tia Gertrudes tinha que indagar.
— O professor da Daisy — what? — Ele é lobisomem também.
— Licantropo! — alguém corrigiu, preciso dizer quem foi?
— Mel, você tem certeza? — perguntei.
— É a única explicação que faz sentido pra mim — ela respondeu — Ele queria colocar nós, caçadores, contra vocês, lobisomens, e vocês contra vocês mesmos para que ninguém prestasse atenção nele. E pelo jeito ele conseguiu — disse ao público que ouvia — Tentou incriminar Daisy mandando ela ir procurar o menino que ele matou, só não contava com o fato de que a mais nova da família fosse humana — explicou com um ar de Sherlock Holmes.
— Então, somos todos inocentes aqui e não há motivos para brigas — Garth concluiu e todos concordaram.
— Espera, onde está a Daisy? — Mel perguntou notando a ausência da menina.
— Acho que ela não estava na vibe de vir pra igreja — disse o óbvio
— Não, ela disse que viria. Era a primeira oportunidade de criar um vínculo com Garth, ela não queria desperdiçar. A não ser que... Merda!
— O que foi? Por que merda?
— As galinhas!
— Galinhas?
— As galinhas eram só uma distração! — não entendi — Daisy pode estar em perigo.
Saímos todos correndo à procura de Daisy.
—--x---x---
[Narrador's POV]
A maioria das pessoas foram procurar Daisy na casa, mas Melanie puxou Thomas para o lado do celeiro, onde a viu por último.
— Melanie, será que você poderia explicar o que está acontecendo?! — perguntou enquanto corria.
— Um policial me ligou, encontraram galinhas mortas por um lobisomem aqui perto. Na hora eu não entendi porque raios o guloso deixou galinhas mortas espalhadas por aí, mas foi quando eu encontrei o Radcliffe. Ele está aqui perto e deve estar puto com o plano infalível que falhou.
— Daisy não ser lobisomem estragou os planos dele!
— As galinhas eram uma distração para os caçadores enquanto os lobisomens rosnavam uns contra os outros na igreja.
— Ele quer vingança da Daisy?
— Espero estar errada, mas é basicamente isso.
Infelizmente Melanie estava certa, ao chegarem no celeiro, deram a volta e encontraram o sr. Radcliffe com Daisy imobilizada em seus braços. Seus olhos amarelos destacavam as pupilas dilatadas e podia-se ouvir, mesmo de longe, a respiração passando pelas presas.
Imediatamente Mel e Tom sacaram as armas munidas de prata e apontaram na direção do assassino. Num reflexo, o monstro exibiu as garras e apontou para o pescoço da menina, que soluçava de pavor.
— Solte-a. Acabou, você não tem como fugir — Melanie ordenou e ele riu.
— Pelo menos terei minha vingança!
— Olha aqui, sr. Radcliffe, Daniel, Harry Potter, sei lá. Daisy não é culpada de nada!
— Obviamente que é. Se não fosse por essa humaninha, meus planos teriam dado certo! Quantas famílias cafonas de lobisomens você acha que existem para eu tomar proveito? Era uma oportunidade única e agora minhas futuras refeições foram por água abaixo! Quem diria que haveria uma humana sendo criada por lobos?!
Eles se calaram por um momento naquela situação tensa. Armas erguidas e respirações pesadas. Apenas um farfalhar das árvores em volta preenchiam o silêncio.
— Criada por lobos... — Mel repetiu — Não tem uma música com esse nome?
— O que? — o lobisomem indagou confuso.
— Raised by wolves— ela começou a cantarolar — stronger than fear. If I open my ear, you desappear...
— If I open my eyes— Thomas corrigiu a prima.
— Tem certeza? "Ear" rima com "desappear".
— Abrir a orelha? — Thomas falou com uma careta — E isso é possível?
— Sei lá, são lobos.
— Calem a boca! — o sr. Radcliffe gritou impaciente com a discussão sem sentido — Ou vocês realmente não ligam pra vida dessa garotinha?
— Ah não, nós ligamos sim. Só estávamos te distraindo enquanto ele subia na árvore — Melanie respondeu olhando para Garth em cima de uma árvore que estava atrás do inimigo.
Garth saltou de um galho alto pra cima do Radcliffe, que levantou os braços numa falha tentativa de se proteger. Isso deu a chance de Daisy se soltar e correr para perto dos caçadores sã e salva.
Os dois lobisomens rolaram no chão numa briga de dentes e garras. Como dois cães ferozes, eles rosnavam e trocavam mordidas, mas estavam em pé de igualdade no quesito força. Os primos apontavam suas armas, mas não tinham como atirar sem ferir o amigo.
— O que a gente faz?! — Thomas perguntou.
— Droga! — Mel xingou e guardou a arma — Por favor, não atire em mim.
— O quê...?!
Melanie não lhe deu a chance de raciocinar, entrou no meio da briga sem pensar duas vezes jogando-se em cima de Garth e fazendo com que os dois caíssem no chão. Isso abriu uma breve oportunidade para Thomas atirar no inimigo, uma chance que ele não desperdiçou.
Daisy correu para os braços seguros de Garth e os Winchester suspiraram aliviados ao ver que mais uma vez conseguiram salvar o dia por um triz.
—--x---x---
O gelo no rosto amenizava a dor que Garth sentia após a luta. Estava sozinho na sala pensando o quanto estava velho para aquilo, havia se aposentado da profissão de caçador há tantos anos e acabou nem notando que o mundo já estava nas mãos de uma nova geração.
'Está em boas mãos' pensou satisfeito.
Sentiu uma ardência no supercílio ao mover o saco de gelo, uma dor que valia a pena sentir sabendo que sua família estava mais uma vez unida e a salvo. Ao todo estava feliz, claro que ainda haviam coisas a serem resolvidas, tetos de igreja com tiros para serem consertados e sem dúvida sentiria falta dos Winchester, mas estava feliz.
— Quando um homem sorri sozinho bobo desse jeito só pode significar que ele está pensando em algo pornográfico!— disse uma meia com olhos de botão e uma voz esganiçada que saiu detrás do sofá.
— Sr. Fizzles! Por onde você andou, seu safadinho?
— Depois que aquela menina atrevida me jogou pela janela, eu vivi momentos horríveis enfrentando a fúria de minhocas selvagens do jardim!
— A menina é realmente uma atrevida, mas tenho certeza que ela não fez por mal.
— Não a defenda, Garth! Essa tal de Melanie é uma cabeça-oca de pavio curto, cheia de problemas de confiança, uma cretina... e totalmente arrependida.
— Bom, se ela estivesse aqui, eu diria que a culpa não é dela e que eu a perdoo. Ela salvou a minha família, é uma heroína.
Melanie se levantou de onde estava escondida atrás do sofá e tirou a meia da mão devolvendo-a ao Garth.
— Ela não é heroína nenhuma. Só uma caçadora fazendo seu trabalho.
— Você é ótima, Mel. Assim como seu pai.
— Então você me perdoa mesmo? Estamos de boa? — Garth balançou a cabeça com um sorriso no rosto — Abraço? — perguntou estendendo os braços meio constrangida.
— Sério?
— Só se for rápido, antes que eu mude de ideia.
Garth aceitou de bom grado o gesto que lhe trouxe diversas memórias... e alguns espirros de Mel.
— Ah, vocês Winchester nunca resistem ao abraço do Garth por muito tempo — riu.
— Estou interrompendo algo? — perguntou Thomas ao entrar na sala e se deparar com a inusitada cena — Você não deveria estar me ajudando? — olhou para Mel, que observou as malas que Tom carregava levando-as ao Impala.
— Nah, gosto de te escravizar — Melanie respondeu.
— Já estão de partida? — Garth entrou na conversa — Poxa, vou sentir saudades. Fazia tempo que algo animado não acontecia por esses lados... Por mais que perigoso, eu sinto falta das caçadas.
— Você tem algo melhor, acredite. Por mais que eu odeie admitir, Dean estava certo, você tem uma família e precisa protegê-la, porque não é algo que todos podem ter — Garth sorriu ao ouvir aquilo.
— Bom, de qualquer forma, eu estou velho para esse tipo de coisa — disse se espreguiçando — Mas foi uma aventura incrível, não? Renderá várias histórias. Ah, seria ótimo poder lê-las algum dia em algum tipo de sequência de Supernatural, mas podiam mudar o título para algo mais pomposo, não sei... "Caçadores do amanhã" — disse fazendo gestos espalhafatosos com as mãos e os primos se entreolharam.
— Ok, primeiro, eu duvido que alguém gostaria de ler sobre as nossas vidas horríveis, ainda mais com um título precário desse — Mel falou — Segundo, o que é "Supernatural"?
— Vocês não sabem?! — os dois balançaram a cabeça. Garth pediu que o seguisse e caminharam até o porão da casa enquanto ele explicava animado — De 2005 a 2010, mais ou menos, foi lançada uma série de livros intitulada "Supernatural". É o seguinte, Sam e Dean estavam muito atrelados ao apocalipse...
— Espera, você disse apocalipse? Tipo, O apocalipse? — Tom indagou.
— Sim, os Winchester sempre estiveram envolvidos em certos... problemas, que normalmente envolviam o fim do mundo ou da humanidade. Enfim, como desempenhavam um papel de destaque nesse teatro, um profeta do Senhor sonhava com os irmãos e escrevia suas aventuras. O nome dele era Chuck Shurley.
— Profeta?
— Sim, um escolhido de Deus e protegido por um arcanjo.
— Ow wow wow — Melanie interrompeu-o — Deus? Arcanjos? Isso não existe.
— Sério, eu também não acreditava em muita coisa até ler esses livros — Garth disse pegando uma caixa empoeirada e abrindo — Aqui está, a coleção completa. Posso emprestar para vocês, se quiserem.
Melanie tirou um dos volumes empoeirados e leu o título. Não sabia se acreditava ou não que aquilo era real, mas concluiu que só havia um modo de descobrir.
— Vamos levar pra viagem — disse pegando a caixa e carregando-a para fora de casa.
Com a Impala pronta pra pôr as rodas na estrada, Mel e Tom foram se despedir de Bess e Daisy.
— Ei, pequena, já estamos de partida — Mel disse afagando a cabeça de Daisy — Você vai ficar bem?
A menininha olhou para Bess com um sorriso e respondeu um 'sim!' caloroso.
— Isso é prata? Onde você arrumou esse colar estiloso?
— Ela pediu para Garth fazer uma corrente pra bala que a Melanie lhe deu quando foi testar se ela era lobisomem — Bess respondeu enquanto Daisy passava a mão no colar.
— Acho que o Garth me falou sobre isso — Thomas disse — Todos da família usam um colar desse, é um lembrete de que não são perfeitos nem imbatíveis. Mas você não é lobisomem como eles.
— Não, mas eles são a minha família. A fraqueza deles é a minha fraqueza também, mesmo assim somos mais fortes unidos — Daisy disse com a voz baixa.
— ...Isso foi bem poético — Melanie pensou consigo mesma — Vou sentir saudades de comer salgadinhos de queijo com você.
— Eu também! — Daisy jogou os braços no pescoço de Mel num grande abraço.
Terminadas as despedidas, os Winchesters estavam prontos para entrar na Impala e voltar à vigem sem destino certo.
— Eu esqueci uma coisa! — Daisy exclamou, soltou a mão de Bess e correu até Mel antes que ela entrasse no carro — Ei, Mel!
— O que foi, pequena?
— Sabe aquela conversa que tivemos? Então, eu decidi dar uma chance ao Garth, como você me disse.
— Isso é ótimo, Daisy.
— Então, quando você encontrar o... Dean — se lembrou do nome — Quando você encontrá-lo, vai dar uma chance para ele também, né?
— ...Se encontrarmos ele — ela respondeu meio incerta — Eu vou.
Daisy sorriu e acenou assistindo ao carro sair da propriedade e sumir no horizonte.
—--x---x---
— Você vai dar uma chance ao Dean? — Thomas perguntou no banco passageiro.
— Não sei... Vamos focar em encontrá-lo primeiro.
— Você acha que é verdade? — mudou de assunto pegando um dos livros da caixa que Garth os deu — Será que eles realmente impediram o apocalipse?
— Não sei. Nessa vida que levamos, acabamos acreditando em coisas extraordinárias, mas vou decidir se acredito só depois de ler a coleção inteira.
Ficaram um tempo quietos com os olhos focados na longa estrada que ainda tinham pela frente. Não sabiam ao certo para onde iam, mas sentiam que ia demorar para chegar lá.
— Então, quando vamos falar sobre... — Melanie soltou um suspiro já notando onde Thomas queria chegar com essa conversa — Sabe, quando estávamos na igreja, toda aquela discussão de família me deixou pensando que eu não quero ficar brigado com você.
— Apesar de que seria bem engraçado se eu começasse a jogar objetos em você — lembrou da tia Gertrudes — Qual era o problema daquela velha? — ambos riram.
— A questão é que você estava certa. Eu não posso esperar que me conte o que está acontecendo com você se eu não conto sobre mim.
— Então vamos dar mais uma chance àquele troço de diálogo familiar?
— Se você concordar...
Melanie pensou um pouco com os olhos fixos na estrada e mãos firmes no volante. Realmente estava perdida, não só sobre qual caminho seguir, mas também aonde iriam chegar com aquilo. Matutou um pouco e resolveu balançar a cabeça em positivo.
— Então, sobre eu não dormir — Thomas começou a falar meio receoso — Você está certa, eu não consigo pregar o olho. Parece idiota, mas eu tenho esses... pesadelos. Mas não são normais, os sons são ensurdecedores...
— Sons de correntes e gritos? — Tom balançou a cabeça — Ok, isso é estranho, porque eu também tenho esses sonhos, às vezes.
— Bom, os meus são todos os dias. Aqueles gritos me chamando, chamando a minha mãe e Dean... E então eu vejo o meu pai, ferido e acorrentado. Uma mulher entra na cela em que está preso e eles começam a discutir algo, mas nessa hora o sonho acaba.
Melanie o encarou enquanto contava. Nunca em seus sonhos tinha conseguido entender uma única palavra, muito menos formar alguma imagem.
— Quem é a mulher?
— Não sei — ele suspirou — Mas o sonho se repete todas as noites idêntico.
Mel ficou um tempo digerindo a informação com o cenho franzido. Agora estava explicado como Tom tinha tanta certeza que o pai precisava de ajuda. Aqueles pesadelos não eram normais e ela bem sabia disso.
— Sua vez — Thomas quebrou sua linha de raciocínio.
— Sobre o meu... instinto suicida — Melanie começou — Eu não sei, acho que não tinha notado até você falar.
— Você tá de brincadeira! Melanie, você se jogou no meio de uma briga de lobisomens sem pensar duas vezes!
— Acho que, como caçadora, eu já estava acostumada a correr perigos do gênero, mas parece isso se intensificou depois que eu perdi Doug — confessou — Eu não sei como explicar, é o meu trabalho! E se eu puder salvar pessoas, mesmo que isso signifique a minha morte, vai valer a pena. Ninguém vai sentir a minha falta mesmo — soltou a frase e deu de ombros.
— ... Eu vou.
— Vai aonde?
— Vou sentir a sua falta, se você morrer.
Não houve resposta. Ela não saberia o que responder.
Fale com o autor