Caçadores do amanhã
2 Luz no corredor
Notas iniciais
Já era quase meia noite quando sentaram-se nas cadeiras do bar. As luzes amarelas eram fracas e o único ventilador soprava um ar quente, mesmo assim o local era aconchegante e as bebidas geladas amenizavam o calor. Doug fez o pedido e logo as cervejas chegaram, mas Melanie parecia mais entretida na madeira gasta da mesa do que no álcool.
— Qual é, pequena! Um pouco mais de ânimo!
— Doug, eu estive pensando — disse ela ignorando o pedido do velho — Você conheceu os meus pais né?
O velho fez uma pausa e tomou um gole da cerveja pensando no que poderia responder. Encarou a menina nos olhos enquanto esta passava as mãos nos cabelos escuros com a intenção de prendê-los em um rabo, e começou:
— Dezoito anos e nunca houve interesse da sua parte pelo assunto. Nem começou a beber e já está toda emocional, Mel? — disse lembrando de como a menina ficava chorosa quando bebia além da cota.
— Nunca perguntei porque nunca me importei — respondeu simplesmente e tomou um gole da cerveja.
— Então por que agora?
Melanie hesitou por um momento, mas continuou:
— Eu sei que parece idiota, mas eu tenho tido sonhos estranhos recentemente... São só imagens desconexas e gritos, mas tenho sensação de que pode ter alguma relação com o meu pai, ele era caçador também, certo?
— Mel, eu já te disse...
— Eu sei — a jovem interrompeu o velho — ele abandonou a minha mãe quando ela estava grávida...
— Na verdade, não posso dizer com certeza que ele sabia dessa gravidez e conheci muito pouco sobre ele para ao menos tentar descobrir o que realmente aconteceu... — disse dando algumas goladas da bebida e relembrando o dia em que praticamente adotou Melanie.
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Ouray, Colorado
23 de Janeiro de 2018
Era um dia frio de inverno e Doug tinha recebido uma ligação de um hospital em uma cidade vizinha e, como fora citado o nome Winchester, resolveu comparecer. John Winchester era um velho amigo de seu pai e, apesar de não ter conhecido muito bem seus filhos, não recusaria um pedido vindo do mais velho, afinal devia isso ao falecido colega caçador.
Ao chegar, foi direcionado pela balconista do hospital ao quarto de uma mulher. Ela tinha cabelos e olhos escuros, era bonita apesar da magreza e aparência cansada. Assim que entrou, Doug foi recebido com um sorriso, mas sua atenção foi rapidamente direcionada ao bebê que se encontrava enrolado em uma manta cor de rosa no colo da moça.
Ela esticou os braços pedindo para que ele segurasse a criança, pois estava cansada. Doug hesitou por um momento e limpou as mãos empoeiradas na calça. Nunca tinha segurado um bebê e se sentiu atrapalhado no começo, porém logo encontrou uma posição agradável para ele e para a pequena.
A mulher soltou um suspiro aliviado e começou a falar com certa dificuldade:
— Dean disse pra te chamar caso alguma coisa acontecesse...
— E onde ele está? — perguntou prestando mais atenção na pequena do que na pergunta
— Ele sumiu alguns meses antes de eu descobrir que estava grávida — ela falava devagar e respirava fundo constantemente.
— E... quem é você? — ele sabia que não deveria forçá-la a falar muito, mas obviamente não podia evitar as perguntas.
— Meu nome é Layla, estive com Dean desde o ano retrasado até que ele... — soltou um suspiro longo — Nós estávamos juntos — concluiu rapidamente.
Doug não sabia se deveria consolar a mulher, porém, mesmo se o decidisse fazer, não saberia por onde começar. Antes que ele pudesse pensar em algo para falar, a moça continuou:
— Você é a única pessoa a quem eu posso recorrer. Eu já estava doente e tive complicações no parto, mas felizmente ela está bem — disse referindo-se à filha — Já eu...
— Espera, eu não estou entendendo o que você quer que eu...
— Eu quero que cuide dela — interrompeu — você é o único em quem ele confia, então eu também.
O homem ficou em choque com o pedido.
— Dean não tinha um irmão? Com certeza ele seria mais confiável nessa situação
— Não conheci Sam, eles tinham brigado antes de eu conhecer o Dean, além disso, nem sei onde procuraria.
Doug estremeceu. Como poderia um homem rude e bruto como ele cuidar de um bebê recém-nascido?
— Por favor — implorou ela segurando a mão dele com os olhos marejados.
Doug podia ser um caçador velho e rude, mas não pôde recusar o pedido da enferma, que suspirou em grande alívio ao receber a resposta.
Layla faleceu alguns dias depois do encontro, Doug ia visitá-la frequentemente, mas evitava iniciar uma conversa muito longa para não a cansar. No fim, ele conhecera pouco a mulher, mas se apegou muito à menina... Melanie Winchester... Layla colocara o sobrenome do pai, então, com certeza, ainda acreditava nele.
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Doug bebeu apenas metade do copo de cerveja, pois ainda dirigiria à noite para voltar pra casa. Melanie revezaria com ele mais tarde e aproveitava esse momento para tirar um cochilo.
A jovem não conseguiu as respostas para suas perguntas, porém resolveu deixar isso de lado, não precisava de seu pai ou mãe, pois tinha Doug e ele era mais do que o suficiente. Foi ele que a ensinou a andar, caçar, dirigir, entre inúmeras outras coisas e por elas Mel era muito grata apesar de não demonstrar sempre; foram esses pensamentos que afastaram os sonhos ruins de seu descanso, dando espaço apenas para lembranças.
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Montrose, Colorado
Junho de 2022
— Muito bem, pequena, temos linhas de sal nas janelas e portas, esse símbolo de proteção cravada na madeira da cama, armadilha de demônios pintada no teto e arma carregada... Estamos esquecendo de algo?
A garota debaixo das cobertas não respondeu. Melanie, que era um bebê extremamente chorão, havia se tornado uma criança muito quieta e isso as vezes preocupava Doug, pois ele nunca conseguia saber o que passava pela cabeça dela. Será que estava criando-a corretamente? Ah que pergunta besta, é claro que não estava fazendo certo, que pessoa em santa consciência dá uma arma carregada para uma garotinha de 4 anos?!
— Ei, pequena, você sabe que eu não sairia desse jeito se não fosse um trabalho importante, certo? — ele suspirou com a ausência de resposta — Prometo que estarei de volta antes do amanhecer, você nem notará que eu saí. Ah, e o que você faz se alguma coisa estranha aparecer no seu quarto?
— Atirar primeiro, perguntar depois — respondeu baixinho.
Doug deu um sorriso tentando mostrar que estava tudo bem. Não era daquela forma que ele queria que sua pequena vivesse; queria poder dizer para ela não ter medo do escuro, mas como poderia fazer isso sabendo dos monstros que corriam soltos por aí?
Mel havia virado a vida do caçador de cabeça pra baixo, afinal é isso que filhos fazem. Doug passou por várias dificuldades no começo, pois não era fácil para alguém que nunca teve experiência com crianças, ainda mais uma menina. Entretanto, com o tempo, foi se apegando àquela vida e já não conseguia imaginar-se morando sozinho de novo. Às vezes ele sonhava com o pai verdadeiro da menina batendo na porta e levando ela embora, ou pior: Melanie decidindo partir e abandoná-lo.
— Vai ficar tudo bem — disse num sussurro, mais para si mesmo do que para a criança. Aqueles pensamentos somados ao fato de que teria que trabalhar naquela noite partiam o coração do homem.
Ele sabia que aquela vida não era certa para uma criança, mas não saberia como criá-la de outra maneira, afinal ele era um caçador.
Ajeitou o cobertor da menina e passou a mão no seu rosto sentindo os traços pequenos. Ela o observava com seus grandes olhos castanhos e, num pulo inesperado, agarrou o pescoço dele num abraço.
— Vai ficar tudo bem — repetiu a garotinha ainda o abraçando.
Doug retribuiu o abraço surpreso e emocionado. Ficaram daquele jeito por alguns segundos e, quando ela o soltou, ele a colocou de volta na cama.
— Eu te amo, pequena — disse baixinho depositando um beijo em sua testa.
Ele se levantou e saiu apagando a luz. Mel ficou encolhida na escuridão do quarto prestando atenção no barulho dos passos de Doug pela escada e depois na porta sendo trancada. Quando teve certeza de que ele havia saído, desceu da cama alta com certa dificuldade e andou nas pontas dos pezinhos descalços. Tomou cuidado ao atravessar a porta do quarto para não desmanchar a linha de sal no chão, apertou o interruptor para acender a luz do corredor e voltou correndo pra cama.
"Assim está melhor" pensou vendo a luz do corredor entrando pela porta. Aquilo dava a ela uma sensação de proteção, como se Doug ainda estivesse em casa e, desse modo, não se sentiria só.
Mel se encolheu novamente debaixo das cobertas e abraçou seu travesseiro para depois cair no sono.
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Já entardecia quando chegaram na casa velha que chamavam de lar. Ela tinha dois andares, as telhas eram vermelhas, as paredes antes amarelas estavam com uma cor marrom devido à sujeira e os parapeitos das janelas acizentadas pelo mesmo motivo. Esse casebre ficava longe do resto da cidade, no final de uma estrada de terra esquecida. Entretanto, mesmo com uma aparência externa não muito boa, foi o único lugar que Mel já chamou de casa.
O interior era mais agradável do que o exterior, era limpo apesar de desorganizado com pilhas de livros velhos e armas jogadas por todos os lados. O papel de parede descamava em algumas partes, mas os móveis de madeira estavam em perfeitas condições apesar das marcas feitas por copos. Era um local aconchegante, contudo.
Mel estacionou a caminhonete na frente da casa e deu um soco no ombro de Doug, que acordou assustado no banco do passageiro.
— Lar, doce lar.
Entraram na casa e a jovem subiu as escadas em direção ao banheiro para um merecido banho enquanto o velho ficou de arrumar algo para comerem, afinal já passavam das quatro da tarde e ainda não haviam almoçado.
Mel tomou uma ducha rápida e saiu do banheiro ainda com os cabelos molhados. Ia em direção ao seu quarto quando ouviu um barulho alto vindo do andar de baixo.
— Ei, velho! O que nós conversamos sobre você dar uma de Gordon Ramsey bêbado? — gritou do andar de cima para que ele pudesse ouvir — Nem quero lembrar da gororoba de abacate que você fez semana passada! Sem falar que você quase pôs fogo na cozi... — ela continuaria o deboche, mas foi interrompida por um outro estrondo seguido por um grito — Doug? DOUG?!
Mel berrou enquanto descia as escadas apressadamente deixando a toalha que usava para secar os cabelos cair no caminho.
Ao chegar na porta da cozinha ficou paralisada. Sangue, muito sangue. Haviam três pessoas, dois homens e uma mulher, em volta da vítima jogada no chão. Mel sentiu as pernas estremecerem e engoliu seco quando os desconhecidos olharam para ela revelando olhos completamente negros. "Merda!" Exclamou quando voltou a correr sem saber para onde.
Tropeçou em uma pilha de livros no caminho, o que fez com que ela caísse apoiando as mãos em um dos degraus da escada. Mel segurou as lágrimas e se virou para encarar os inimigos. Eles andavam lentamente e já comemoravam a vitória certa com sorrisos no rosto divertindo-se com a dor da menina. Esta levantou-se rapidamente e correu mais alguns degraus para alcançar uma arma jogada num canto da escada. Atirou no primeiro que a seguia na escadaria estreita acertando o peito do homem, porém este apenas recuou um degrau com o impacto e exibiu um sorriso maior que o anterior.
"Balas normais não funcionam com demônios, idiota!" praguejou em pensamento. Não deu tempo de pensar em uma escapatória e levou um soco certeiro na bochecha esquerda. Mel aproveitou a arma que estava em sua mão e bateu com o cano de metal no rosto do demônio seguido de um chute no estômago. A jovem estava com a visão turva depois do soco que levara, mas pôde ver e ouvir o riso de satisfação do monstro enquanto este cuspia sangue, como se estivesse gostando da dor.
De repente uma ideia surgiu e Mel tentou alcançar o topo da escada, sendo impedida pelo demônio, que agarrou seu tornozelo fazendo com que ela caísse de joelhos. O inimigo já se preparava para dar um soco na jovem caída quando esta agarrou a toalha que deixara cair mais cedo e jogou-a no rosto dele. Aproveitando-se do segundo de confusão deste, ela mirou um soco em sua cabeça e enfiou o pé em seu peito empurrando-o com toda a sua força escada abaixo.
Mel não olhou para trás enquanto corria pelo corredor, mas quando alcançou a porta de seu quarto virou e gritou o mais alto que seus pulmões ofegantes aguentavam:
— Venham me pegar, seus filhos da puta!!!
A resposta para a provocação veio mais rápido que o esperado e ela foi arremessada por forças sobrenaturais contra a parede. O impacto quebrou alguns dos poucos móveis do quarto e fez com que as costas de Mel ardessem com a colisão. Dessa vez a responsável pelo ataque foi a mulher, que a encarava seriamente.
— Chega de brincadeiras, vamos terminar logo o serviço — disse enquanto os outros dois entravam no quarto.
— Poxa, mas estava começando a ficar divertido!
— Cale a boca e mate ela logo! — disse o terceiro que até então tinha permanecido calado — O rei disse para terminar o serviço rápido e não subestimar a menina, ela é uma Winchester.
— Blá blá blá Winchester! — disse em tom de deboche — Seu papai ficaria desapontado se conhecesse a garotinha fracote e fracassada que você se tornou.
Melanie tentava inutilmente se soltar para quebrar o nariz daquele desgraçado que a ofendera e, ao mesmo tempo, balançava a cabeça sem entender do que eles estavam falando. Serviço? Rei? Papai? Nada daquilo parecia fazer sentido. Mel se contorcia, mas a força esmagava-a cada vez mais contra a parede. "Argh! Só mais um pouquinho!" implorou mentalmente.
— Chega de conversinha, vamos acabar logo com isso — disse a mulher dando um passo a frente.
No mesmo momento, Mel se soltou caindo de pé no chão e os demônios ficaram confusos.
— Bem vindos ao palácio de Melanie, vadias! — disse apontando para cima indicando a velha armadilha de demônios pintada no teto — Parece que a Winchester fracassada não é tão fracassada assim né?
Mel pegou um livro que tinha caído da prateleira quando ela foi jogada e abriu-o dando início ao exorcismo. Os monstros se contorciam tampando os ouvidos inutilmente, até que Mel se calou por um momento.
— O que vocês estão fazendo aqui? Que serviço é esse, matar todos da casa? O que vocês ganhariam dando um fim em dois insignificantes caçadores? — lançou as perguntas tentando entender o que estava acontecendo.
— Hahahahahaha — riu ironicamente um deles — Ela acha que o serviço era para os dois! Se liga, o velho foi só um aquecimento antes da verdadeira diversão!
Mel engoliu o choro, Doug estava naquela situação por causa dela?!
— E por que a minha morte interessa tanto a vocês? Eu não sou exatamente um Constantine, inclusive esse seria o meu primeiro exorcismo — e concluiu pensativa — Eu nunca fui uma ameaça pra vocês.
— Você está me zoando?! Isso é por tudo o que o seu pai fez com a gente! Você tem noção de quantos companheiros meus ele torturou e matou?!
— E vocês acham que me matando estarão afetando ele de alguma maneira só porque ele é meu pai? Eu não tenho nada a ver com esse cretino que abandonou minha mãe e ele não liga para mim! — gritou um pouco descontrolada.
Eram palavras que Mel sempre tomou como verdade e repetí-las mentalmente com certa frequência fez com que a dor que elas causavam se tornasse insignificante, porém, agora que as tinha dito em voz alta, uma desagradável sensação lhe atingia o peito.
— Ela realmente não faz ideia — constatou surpreso o demônio para os outros — Por que estamos perdendo tempo com ela, então?
— Cale a boca imbecil, ordens são ordens, além disso, não poderíamos arriscar ter uma Winchester a solta — respondeu a mulher.
— E daí ser uma Winchester? — questionou Mel — Por que tanta importância em um sobrenome idiota?
— Essa garotinha está de brincadeira! Certamente, tenho que concordar que é um sobrenome idiota, mas você não faz ideia da grandiosidade que ele precede — começou a elevar a voz enquanto encarava Melanie — E quando o rei encontrar o seu pai...!
Ele foi interrompido por um tapa na nuca vindo do outro mais calado.
— Seu besta, não vá entregando todo o plano!
— Plano? Rei? Meu pai? — Mel repetiu as palavras tentando entendê-las.
Os três ficaram em silêncio deixando claro que não falariam mais nada, apenas ficaram encarando-a e o mais bocudo tinha um sorriso de deboche no rosto que deixava a jovem ainda mais irritada. Após alguns minutos, Mel cansou-se daquilo e retomou o exorcismo dizendo cada palavra lentamente com o intuito de fazer o sofrimento deles o maior possível. Entre os gemidos um deles gritou:
— Você está nos mandando para o inferno, mas nós voltaremos!!!
E Mel assistiu fumaça negra se esvaindo por entre as frestas da madeira do chão deixando três corpos já mortos. Respirou fundo e contou até dez, mas não conseguiu acalmar as batidas de seu coração. Haviam muitas informações e sentimentos ao mesmo tempo turbilhonando sua mente, além das milhares de dúvidas sem resposta. Ela passava as costas da mão em sua testa repetidas vezes tentando secar o suor, escorregou os dedos pelo rosto até encontrar uma elevação em sua bochecha e constatou que o soco levado deixaria um roxo feio.
Mel fechou os olhos e engoliu a saliva que acumulara em sua boca, deixou o livro que estava em sua mão esquerda cair com descuido e com passos pesados saiu do quarto tentando esclarecer a mente. Andou cuidadosamente pelo corredor e desceu a escada com as pontas dos pés, um velho hábito que tinha. Prestava atenção em cada movimento e tentava esquecer tudo o que tinha acontecido, fingindo que aquilo era apenas um pesadelo como os muitos que tivera.
Chegou ao fim dos degraus, fechou os olhos e deixou-se guiar pelo tato nas paredes. Sentiu a entrada da cozinha, franziu o cenho segurando as lágrimas e mordeu o beiço. Ficou daquele jeito por alguns segundos repetindo em sua mente que tudo aquilo não passava de uma ilusão até que tomou coragem e abriu os olhos lentamente.
O que ela mais temia se concretizou: seus pesadelos não eram sonhos e sim realidade. Levou as mãos à boca abafando o choro que teimava em escapar e escorregou as costas na parede até sentar-se no chão em frente à enorme possa de sangue e ao corpo esfaqueado. Encolheu as pernas, abraçou os joelhos abaixando a cabeça em seus braços e permitiu que poucas gotas escorressem sobre seu rosto.
Após longos trinta minutos daquele jeito, Mel encheu o peito com ar e se levantou de uma vez. Parou em frente ao corpo, agachou-se para fechar seus olhos e passou a mão sobre o rosto gelado de Doug uma última vez. Agarrou o corpo pesado e o arrastou sem jeito até os fundos da casa, fez o mesmo com os outros três corpos que estavam no quarto. Arrumou tudo como Doug lhe ensinara e cremou-os.
Ficou ali de pé sem dizer absolutamente nada, mas permaneceu até que a última chama se apagasse e, quando isso aconteceu, abriu duas garrafas de cerveja e tomou uma delas quase que em um único gole, porém abandonou a outra lá.
Passou boa parte do resto da tarde limpando o sangue do chão da cozinha, o que lhe causava um embrulho no estômago; depois de um bom tempo esfregando, deixou do jeito que estava, com alguns resquícios vermelhos nas juntas dos azulejos. Olhou para si mesma e arrancou com ódio o moletom tomado por manchas de sangue ficando só de regata e o jogando o agasalho longe. Não havia comido nada o dia inteiro, mas não tinha fome e sua janta se resumiu à todas as variedades de bebidas alcoólicas armazenadas na despensa.
O cansaço logo bateu e ela subiu com o intuito de dormir em seu quarto, porém, ao chegar no corredor do andar superior, desviou o caminho e abriu de leve a primeira porta à esquerda fazendo barulho devido às juntas enferrujadas. Não hesitou e se jogou na cama de Doug deixando a porta aberta com a luz do corredor esquecida acesa.
Dane-se demônios, reis e sobrenomes, não queria pensar em nada daquilo! E o mais importante, dane-se Dean Winchester! O que importava era seu pai de verdade: Doug. Abraçou o travesseiro com força afagando o rosto e deixando as lágrimas saírem. Entre os soluços abafados ela repetia em voz baixa tremula "vai ficar tudo bem".
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