Quando a chama do Dragão se ascendeu sobre o universo, ela gerou tanto o bem quanto o mal e se dividiu em duas partes. Essas partes eram guiadas pela luz e pelas trevas, para manter a energia do fogo do Dragão em equilíbrio. Daquela força mitológica nasceu o mundo mágico, povoado por criaturas míticas como fadas, sereias, magos, bruxas e até mesmo feiticeiros.

Cada criatura criou seu próprio refúgio: para as fadas, era Magix; para as bruxas, Salém; para os magos, a Terra; e para as sereias, Atlantis. Os feiticeiros foram os únicos que não criaram mundos próprios ou raízes, vivendo como andarilhos até quase serem extintos por não levarem adiante a ideia de preservar a linhagem pura.

Ao se dividir, o grande Dragão não só gerou novos seres, mas também criou seus próprios protetores, encarregados de proteger tanto o bem quanto o mal. Apenas um desses protetores tinha o poder de destruir o outro e assumir, assim, o verdadeiro fardo de manter o universo em equilíbrio.

Geração após geração, o fogo do Dragão repousou sob as veias da pequena princesa Bloom, que foi ameaçada desde o início. Quando as Bruxas Ancestrais tentaram de todas as formas usurpar seus poderes, o que conseguiram foi a própria destruição, pois o fogo do Dragão não podia ser tocado ou apropriado por elas.

— Está bem, mas o que isso tem a ver conosco e com nossos novos poderes? — perguntou Stella, com a mão esticada e o cenho franzido em confusão.

— Já vou chegar lá, Stella — disse Amália, sorrindo e descendo da mesa.

As aulas já haviam começado, mas as escolhidas precisavam conversar com as Winx sobre seus novos dons para finalmente entender o que era aquilo exatamente.

— Se lembram que eu disse que os feiticeiros quase foram extintos? — perguntou Amália, olhando de uma para a outra, que apenas assentiram. — Bom, o que acontece é que...

Com a existência de tantos seres, os feiticeiros proliferaram de forma irresponsável, misturando linhagens que nunca poderiam ser perpetuadas como feiticeiros. No entanto, ainda existia em seu códex genético algo chamado POF, que, na tradução, significava "Poderes Ocultos de Feiticeiros". Com o tempo, chamamos simplesmente de dons. As únicas criaturas que haviam desenvolvido esses dons eram as sereias, e com isso, formamos os Caçadores de Orion.

A lenda contava que os Caçadores de Orion foram abençoados pelo próprio Orion, protegidos para cuidar do novo mundo e destinados a manter a paz do universo.

— Se o fogo do Dragão dividiu seu poder entre o bem e o mal, por que vocês decidiram manter esse equilíbrio? — Musa pareceu confusa.

Amália olhou para uma de suas companheiras, que parecia inclinada a discordar de revelar aquilo. Ela era responsável por guardar alguns segredos do mundo, detalhados no Legendarium.

— O fogo do Dragão criou seus protetores; isso não significava que o mal deveria ser perpetuado, e muitos confundiram isso — disse Kimmie, parecendo chateada com o assunto. — Algumas linhagens nascidas de feiticeiros acabaram optando pelo mal, porque destruir ou dominar o nosso mundo parecia mais importante.

Toda a explicação já estava dada e, se elas juntassem mais um pouco das informações que tinham, descobririam que algo estava errado na visão de Lilith. Mas estavam distraídas demais com o fato de terem novos poderes para lidar e com a presença vivida de seus amados em Alfea.

— Quer dizer então que somos metades feiticeiros? — questionou Aisha, parecendo incrédula com a mistura em sua linhagem. — Mas por que só recebemos isso agora?

— Sim, e vocês precisam aprender a controlar seus novos poderes. Nós ensinaremos vocês ao longo do ano — disse Alice, sorrindo e disfarçando o momento em que Kimmie tinha os olhos vermelhos brilhantes, usando seus poderes ao seu favor. Não queriam que fizessem muitas perguntas, afinal, ainda não estavam prontas para o que viria.

— Me sinto ofendido por não termos sido convocados para a reunião do Clube das Fadinhas — disse o homem, parando na porta, enquanto outros quatro estavam atrás dele, sorrindo e em poses galanteadoras.

Amália foi a primeira a revirar os olhos. Não precisava ler a mente de nenhum deles para saber que estavam ali. E isso a preocupava. Bloom era a guardiã da chama do Dragão, o maior poder do universo, e com seus poderes instáveis, juntamente com um dom desconhecido, ela poderia ser destrutiva. Eles já haviam sido traídos demais ao longo dos milênios para saber que não deviam confiar demais.

— Cachorros não são bem-vindos — retrucou Amália.

— Nossa, essa ofendeu — Adhan colocou a mão no peito, fingindo estar muito ofendido, o que de fato não estava. Ele adorava latir e bancar o cachorro, e não estava falando da sua transformação.

— Dramático — resmungou Alice, cruzando os braços e os encarando. — O que querem aqui?

— Precisamos falar com elas, saber quais são seus novos dons — disse Lewis, passando por Jared e adentrando a sala de aula. — Olá, meninas, eu sou Lewis, serei professor de vocês, como já sabem, mas podem me chamar de Lee.

— É um prazer, professor — disse Tecna, animada. — Eu sou Tecna, e essas são minhas amigas. Estamos animadas para ter aula com vocês.

Amália riu em deboche, sabendo que, na verdade, elas não estavam animadas e duvidava que pudessem ficar. Afinal, tanto as sereias quanto as fadas tendiam a não confiar nas forças das trevas, o que incluía seres que haviam causado tanto mal aos seus antecessores.

Por exemplo, Jared era filho de Mandrágora, uma bruxa que guardava o Círculo de Obsidian, uma dimensão alternada que outrora abrigava seres das trevas. Claro que essa dimensão foi fechada e Mandrágora foi destruída após tentar atacar a princesa Bloom quando ela tinha dez anos, a mando do espírito das Bruxas Ancestrais. Mas Jared era o novo guardião de Obsidian e ainda carregava o sangue de sua mãe.

Outro que não estava em condições de opinar era Adhan, filho de Chimera. Ela foi uma fada que se converteu ao mal quando Lord Darkar ainda estava no poder. Chimera tinha imensos problemas com a família real de Solaria, sempre tentando destruí-la, junto à sua mãe, a Condessa Cassandra, uma mulher idosa e rabugenta.

Philipe, como já sabemos, era filho da ex-diretora Griffin, e tudo que as bruxas de Torre Nebulosa fizeram sob suas ordens já dizia tudo. Claro que Griffin teve seu tempo de glória quando lutou ao lado das fadas contra as Bruxas Ancestrais, mas sempre foi ambígua em suas ações. Por isso, não se podia confiar muito nela; o que se esperar de sua prole?

E o que mais causava repulsa em todas as quatro era o queridinho chamado Dean, filho de ninguém menos que Ogron, um dos Bruxos do Círculo Negro, aquele que tinha um passado íntimo com os Caçadores de Orion, afinal, ele fora um deles.

— Tudo bem se eu ler a energia de vocês? — perguntou Lewis, olhando de uma para a outra. Ninguém sabia exatamente de onde ele havia vindo ou quem era seu pai, mas, de qualquer forma, ele parecia ser o mais confiável ali.

— Se importa se eu ler sua mente? Não confio em vocês ainda — disse Amália, e Lewis apenas assentiu. Para ele, não era um problema construir confiança; sabia que o mundo funcionava assim e ele precisava se mostrar digno para merecer algo.

— Vamos começar, então. Quem de vocês será a primeira? — perguntou Lewis, e Flora levantou a mão animada. — Muito bem, querida, sente-se aqui, é mais confortável.

E de repente, uma poltrona surgiu na sala. Lewis era um mago, assim como Nabu, e Aisha sabia bem do que eles eram capazes. Flora se acomodou confortavelmente, e Lewis se posicionou atrás da cadeira, colocando as mãos nas laterais da cabeça dela e fechando os olhos. O processo seria igual para todas, por isso ele se concentrou por alguns instantes e abriu os olhos. Aquilo não era difícil para ele.

— Flora, você tem o dom da hipnose — disse Lewis, sorrindo. A fada da natureza arregalou os olhos, achando aquele dom interessante. — Próxima?

Stella se adiantou e se sentou. Sasha olhou desconfiada para Amália, mas a mulher apenas assentiu. Lewis havia feito a leitura correta e revelado o dom certo. E ele jamais conseguiria mentir, ninguém mentia para uma telepata.

— Stella, invisibilidade — revelou Lewis, e ela saiu animada, olhando para as mãos e semicerrando os olhos, esperando se tornar invisível. Aquilo causou risos; a loira era uma figura. — É um ótimo dom para uma fada do sol.

— Sol reluzente, eu brilho mais do que qualquer um — Stella jogou o cabelo para o lado e voltou a se sentar, fazendo o mago negar bem-humorado.

Em seguida foi a vez de Musa. A fada da música já tinha noção do seu dom, afinal, empatas conseguiam sentir todo e qualquer sentimento apenas ao olhar. Tecna teve revelado o dom da rajada psiônica, um dom que combinaria perfeitamente com seus poderes, provenientes da sua essência como fada da tecnologia.

— Aisha, fada da metamorfose — disse Lewis, sorrindo. — Não me admira, já que você controla substâncias manipuláveis.

— Como assim? Eu sou a fada das ondas — disse Aisha, confusa. Lewis negou.

— Há morfix em suas veias. Seu poder de fada é maior do que você imagina. Me admira que não saiba disso ainda, namorando um mago.

— Nós não... — Aisha pareceu constrangida em dizer aquilo. Parecia antiquado, mas ela e Nabu ainda não haviam se beijado e quase não se encostavam. Como ele poderia analisá-la?

— Não quis insinuar nada, me desculpe, me excedi — disse Lewis, sorrindo e tranquilizando-a. Ela apenas saiu com as bochechas vermelhas. — Bloom?

A fada olhou para ele e suspirou, caminhando até lá. A leitura foi mais difícil do que Lewis esperava; era como se seus poderes não pudessem penetrar a mente dela. Quando finalmente conseguiu, Sasha gritou e caiu no chão, sendo acolhida por Philipe, que estava mais próximo dela.

A mulher gritava como se algo a torturasse. Todos estavam assustados. Foi quando o tremor começou a se manifestar sob seus pés que entenderam, algo estava acontecendo no mundo das fadas, e aquilo estava relacionado a Sasha.

— A dimensão ômega — disse Amália rapidamente, trocando um olhar rápido com Alice, antes de se voltarem para Sasha no chão.

— Vão, eu fico com ela — gritou Kimmie, e as duas apenas assentiram.

— Vamos com vocês — disse Jared, com Dean e Adhan atrás dele.

Não houve discussão; eles correram, mas antes disso, Amália olhou de Bloom para Lewis. A fada estava distraída, olhando para Sasha, enquanto Lewis a encarava, trocando um olhar significativo demais.

Conte a ela — foi o pensamento que foi introduzido na mente de Lewis, antes de Amália desaparecer pela porta.

Não era uma ordem, era um pedido, e Bloom tinha o direito de saber qual era o seu dom.

— Bloom — chamou Lewis, e ela se virou para ele, parecendo confusa. — Seu dom...

— É o da manipulação do campo de força, eu sei — Bloom sorriu triste, fazendo o mago franzir o cenho. — Percebi isso quando passei pela proteção de Alfea e ela desestruturou.

O homem apenas assentiu com um aceno de cabeça. Era um peso, mas ela teria que lidar com isso. Manipular campos de força não se limitava apenas a escudos de uma escola; envolvia mundos, cada ser daquele universo. Bloom poderia reduzi-los a cinzas se quisesse. No momento, ela não estava pronta, mas teria que estar em breve, pois aquele tremor significava apenas uma coisa... o caos estava vindo.