Caçador
59 Um raio de sol e de otimismo para animar as coisas
Notas iniciais
Observo-os, para ter certeza. A jaqueta de couro velha é inconfundível, e o cabelinho do Dean (e o do Sam) também. Devo estar maluco, mas são eles.
— Hey, eu sou Robert — Dean se apresenta, então faz um gesto para Sam. — Esse é meu irmão, Jimmy. Somos do jornal local, estávamos fazendo uma reportagem... não sabíamos que a cidade estava ocupada. — Dean ignora o olhar discreto e assassino de Sam.
Eles nos olham curiosos. Megan e eu nos entreolhamos. Sei, Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, e Jimmy Page é o guitarrista. Decido jogar verde, e dane-se.
— Sei... Chamem o John e começamos a tocar Stairway to Heaven. — Eu falo ácido. — Desistam, vocês dois, também somos Caçadores.
Eles se entreolham. Então Sam dá os ombros.
— Vocês falam seus nomes, e nós os nossos. Feito? — Sam porpõe.
— Lian Black. — Eu respondo na hora. — Essa é Megan Hunter, e Jene Walker. — Aceno para elas, sem tirar os olhos deles. Ergo uma sobrancelha.
— Dean Winchester. — Dean fala, dando um olhar lascivo para Megan. Pego a mão dela displicentemente. Dean ergue uma sobrancelha. Essa já tem dono cara, é bom ficar na sua. — Esse é meu irmão Sammy.
— Não me chame de Sammy. — Sam reclama num murmúrio. Dean finge que não ouviu.
— Os famosos Sam e Dean. — Eu comento, sem me abalar. — Acho que já ouvi falar de vocês.
— Série ou livro? — Ele pergunta.
— Os dois. — Respondo. — E nem precisa começar. Eu sou um Caçador mesmo. Nada daqueles adolescentes idiotas que saem por aí procurando encrenca sem nem saber onde é o gatilho de uma arma.
Dean ri, Sam apenas sorri de leve. Os dois parecem cansados, como se não dormissem há dias. Bom, pensando por um lado, eu devo aparentar a mesma coisa. Se bem que fiquei dois dias desacordado, meu corpo ainda não voltou ao normal.
Dean olha em volta, relaxado, com um meio sorriso no rosto.
— Lugar legal. Tem estilo, com certeza.
Eu bufo diante do seu tom sarcástico.
— Afinal, o que vieram fazer aqui? — Eu pergunto, tendo um bom palpite.
— Detectamos ação de demônios. — Sam responde calmamente, me observando cuidadosamente. Ele franze ligeiramente os olhos. Estranho. — Viemos investigar.
Eu ergo uma sobrancelha.
— Se quiser, pode jogar água benta em mim. Estou limpo.
Sam sorri se desculpando, ainda me observando.
— Não é isso. Eu sei que não está possuído. É só que — ele faz uma pausa. — Eu tenho quase certeza que conheço você.
Dou os ombros.
— Duvido muito. Nunca vi vocês, bom, na vida real, para falar a verdade.
Dean ri. Sam apenas balança a cabeça.
— Não foi o que quis dizer. Não pessoalmente, mas acho que já ouvi falar de você, ou coisa parecida.
Eu congelo, mas tento ficar calmo e não aparentar nada. Estou fazendo tempestade em copo d’água. Eu realmente sou mais ou menos famoso nessa profissão. Sabe, sou conhecido como o maior especialista em caçar e matar demônios. Então ele já deve ter ouvido falar de mim.
Somos distraídos pela entrada de Joe. Ele entra, falando alguma coisa, então pestaneja na porta, olhando de Sam para Dean. Fica assim por alguns segundos, então seus olhos se arregalam.
— Eles... Eles são... Tipo... Os... — Joe gagueja, sem acreditar. Eu bufo e reviro os olhos. Então um sorriso se espalha pelo rosto de Joe. — Caras, eu sou muito fã de vocês!
Sam ergue uma sobrancelha surpreso, e Dean sorri sarcástico. Megan e eu nos entreolhamos, e quase caímos na gargalhada. Faço um sinal para ela, e saímos dali discretamente.
Sabe, pular janelas sempre foi uma habilidade especial minha.
Não resisto. Não é de propósito. Sou praticamente arrastado na direção do Impala. Exatamente o que devia ser. Solto um gemido baixo ao observar o carro. Megan senta no capô do Dodge e me observa com um sorriso descrente.
Estou morrendo de vontade de ir até o porta-malas e checar o arsenal deles. Mas sei que é perigoso. Mexer nas coisas de outro Caçador... Mexer no Imapala do Dean... Posso contrair um sério caso de chumbo nas tripas. Incurável. Bom, a não ser que você tenho algum demônio lhe devendo um favor, ou...
— Isso realmente muda as coisas. — Megan comenta, olhando de relance para o prédio. — Então os Winchester existem. De verdade.
— Parece que sim. — Respondo.
— Os caras são um mito no mundo dos Caçadores. Metade não acredita que existam, e a outra metade — Megan sorri. Sei exatamente o que ela quer dizer. Me sento ao seu lado.
— Estou preocupado. — Admito.
Megan me olha com os olhos arregalados, numa falsa expressão de pânico. Sou obrigado a sorrir, contra vontade.
— Isso é o bastante para me preocupar. O que foi agora?
Gesticulo com as mãos, sem ter certeza do que responder, de como explicar.
— Aquele demônio... Se considerarmos que as histórias por trás dos Winchester são verdadeiras, só devia existir um olhos-amarelos. E Azazel está morto. Além disso, tenho o pressentimento de que aquilo não é o fim. De que haverá mais.
— Ok, agora você está me assustando. — Megan afirma séria. — Mais o que?
— Um novo tipo de Apocalipse. — Respondo, olhando para o horizonte. Montanhas, é o que vejo. Muito, muito longe. Me pergunto novamente onde estamos. No meio do nada, é claro. Sam e Dean devem saber. — Deixando de fora o péssimo marketing que as religiões fazem, o Apocalipse não é exatamente a aniquilação total. É o fim do mundo que conhecemos. Uma mudança. O nosso mundo morre, para algo nascer das cinzas.
— Que tipo de mudanças? — Megan pergunta, acertando em cheio no ponto.
— Do tipo ruim. — Afirmo, como se não fosse óbvio. — Algo que o demônio falou, e que venho notando... Acho que vai ser uma revolução em massa. Que as criaturas das sombras vão sair das sombras. Sair do anonimato e trabalhar abertamente na terra. — Olho para Megan. — Um cenário de guerra em que a humanidade vai ter que lutar para sobreviver, e que os Caçadores não vão mais ser necessários. Servimos para protegê-los do que eles não conhecem, para manter suas vidas na inocência. Sem o segredo... Não seremos diferentes de policiais comuns. Alguns caras bêbados e drogados, com armas e um conhecimento extra sobre o inimigo.
Megan me observa por um momento, impassível. Não consigo distinguir sua expressão.
— E com esse otimista e animador comentário, finalizamos a exibição diária de Noticias Já!, o jornal que tenta acabar com sua sanidade. — Megan imita a voz irritante e apática de um âncora de telejornal. Soltou ma gargalhada. Ela se levanta e estende a mão para mim. — Vamos, o mundo não vai acabar hoje. Ainda temos tempo. Vamos ver o que aqueles idiotas estão fazendo lá dentro.
Sem hesitar, estico a mão e a seguro a de Megan. Ela me puxa, e a sigo na direção do prédio.
Ela está certa. Não importa o que vai acontecer. Ainda não aconteceu. Não há motivos para depressão. Além disso, vou impedir tudo isso. Não quero saber o que planejam. Esse mundo é meu, meu e de todas as outras pessoas que vivem neles. Não vou deixar que alguns idiotas com problemas de auto-estima estraguem tudo.
Ou não me chamo Lian Black.
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