Caçador
52 Sabe o lado ruim de namorar em cima de um túmulo? Se você fica com cheiro de cadáver, não pode reclamar.
Notas iniciais
Já estou pegando a mania de filme de faroeste “atirar primeiro, perguntar depois”.
Mas sério. Isso começa a encher o saco. E eu já estou tão de saco cheio com um inimigo atrás do outro, que já levantei o meu Colt .45 e mirei na testa do filhote de cruz credo quando ele ergue os dois braços em rendição e grita:
— Ei, não atire Lian! Vire a porcaria da arma para outro lado garoto!
Só tem uma pessoa que me chama de garoto, e que seria maluco o bastante para falar assim comigo quando estou com uma arma apontada para sua testa. E a voz meio rouca é inconfundível.
— John? — Eu pergunto, abaixando a arma um pouco.
— Não, o Papai Noel. Claro que sou eu! — Ele sai da frente da porta, se aproximando e resmungando. Sem a luz embaçando seu contorno, consigo reconhecê-lo facilmente, com a mesma jaqueta de couro surrada que usava quando caçava.
— Pai? — Jene pergunta incrédula, fitando-o como se não acreditasse. John olha para ela com ceticismo.
— O coelhinho da Páscoa é que eu não sou Jene. Você está passando muito tempo com o Lian. — John olha para o cadáver do Wendigo. — Meti um desses mais cedo, e tive que arrancar a cabeça de um vampiro. As coisas estão movimentadas.
— Arrã. — Eu falo. Pego um dos frascos de água benta e atiro um pouco na cara dele. John cospe fora o excesso. Mas nada de fumacinha, então não é um demônio. — Vai me dizer que também está nessa encrenca?
— Pode-se dizer que sim. — John me responde, sentando na bancada mais da frente com um gemido. — Não que fosse inteiramente ideia minha. Quando você resolveu sair para Caçar com Jene, eu achei por bem voltar um pouco à ativa. Andei vasculhando, e descobri umas movimentações de demônios. Ia me intrometer, mas ele me pegou antes. — John solta um suspiro pesado. — Não fui de muita ajuda, pelo visto.
Solto uma risada rouca e me sento no chão na sua frente.
— É, pode-se dizer que não foi.
Passamos o resto do dia assim, sem sair dali. Mas pelo menos não tivemos problemas. Só saí para dar uma passada no cemitério, mas depois de cavar a primeira cova desisti. O corpo estava carbonizado e com um quilo de sal por cima. Nem vou me dar ao trabalho de verificar os outros. Esse demônio fez um trabalho completo. Volto para a igreja bufando e praguejando.
Dormimos um pouco, nos revezando em turnos, durante a tarde. Ao por do sol eu subo na torre da igreja, me empoleirando em cima do sino e olho para a cidade. Não vai me ajudar muito, pois não reconheço nada. Pelo menos sei mais ou menos a geografia da cidade. Amanhã vou ter que sair para explorar. Nada de mais.
A noite é inquieta. Eu durmo pouco, por causa dos cochilos da tarde. Acabo finalmente me levantando e indo para o cemitério novamente. Mesmo não tendo nada útil lá, é uma mania minha. Não sei se é por ser necromante ou se é maluquice minha mesmo, mas me sinto mais confortável em cemitérios. Bom, acho que é a segunda opção.
Me sento em cima de um túmulo, escorado na lápide. Ela está gasta demais para eu conseguir ler o nome, mas duvido que quem quer que seja vá reclamar. E se o fantasma vier me encher o saco, bom, eu até acharia interessante.
Fico observando as estrelas e a lua, pensativo. Acabo relaxando e deixando a brisa fria da noite passar por mim. Gosto do verão, mas não me importo com o frio. E a sensação é boa.
Tento não pensar na nossa situação. Não vale a pena. Eu igual vou ir meio na improvisação, como sempre. Mas as poucos, mesmo sem querer, o esboço de um plano vai se formando.
Depois de umas duas horas sentado ali, ouço passos se aproximando. No começo fico tenso, mas depois reconheço o cheiro. Que foi? A brisa leva os cheiros longe, o sangue de demônio “tonifica” meus sentidos, e estou tão acostumado com o cheiro de Megan que não duvido que possa senti-lo a vários metros de distancia.
Então não me surpreendo nenhum um pouco quando ela se abaixa e se senta ao meu lado, se escorando na lápide também.
— Bela paisagem, não? Incrivelmente alegre. — Megan brinca, acenando para os túmulos cobertos de mato ao nosso redor.
Eu rio.
— Sim. Extremamente romântico.
Ela ri de leve. O cabelo dela me faz cócegas com o contato no meu ombro e braço. Reprimo um arrepio e pego a mão dela na minha, fazendo pequenos círculos nas costas da mão com o meu polegar.
— Já disse que te amo? — Pergunto em tom de conversa.
— Hoje ainda não. — Megan responde no mesmo tom leve.
— Eu te amo.
— Eu sei. — Ela responde, e nós dois rimos. Então o silencio se prolonga. Não um silêncio tenso, um silencio normal e agradável. O simples silencio de quem não tem o que falar, e sabe que não precisa dizer nada.
— Sabe de uma coisa — Megan fala depois de um tempo —, você vai ter que me emprestar o repelente que usa. Lá dentro está um verdadeiro ninho de mosquitos, mas desde que estou aqui sequer ouvi algum voando.
Solto uma risada.
— Não é repelente. É o sangue de demônio. Eles não gostam. Também são repelidos pelo meu cheiro natural. Um cheiro de morte, por assim se dizer. Mas concordo. Conde Drácula uma ova, esses são os verdadeiros vampiros.
Megan ri e se aproxima, me dando um beijo. No começo parece que vai ser um beijo comum, mas então eu me entrego de vez, e ela também, se tornando um beijo mais longo.
Sabe, eu já começo a me preocupar quando nos beijamos mesmo. Sempre aparece alguém para atrapalhar. Se não é Jene ou Joe, é a criatura que estamos Caçando. Parece macumba. E se fosse macumba, eu poderia quebrá-la facilmente. Se bem que os brasileiros estão entre os melhores bruxos que existem... A macumba deles é realmente muito forte.
Mas isso não vem ao caso. No momento estou prestando atenção no beijo, e nas correntes elétricas que ele manda pelo meu corpo. Então, bom, converso com vocês depois. Estou meio ocupado no momento.
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