Caçador

57 Acho que arregalei tanto os olhos que eles caíram das órbitas...


Notas iniciais
Eu tava a tempo querendo fazer esse capítulo. O final foi fantástico. Espero que gostem das reviravoltas.

A primeira coisa que noto é meu braço esquerdo. Ou melhor, a dor em meu braço esquerdo. É como se alguém o estivesse marcando com um ferro em brasa.

Flexiono os dedos lentamente, verificando se ainda tenho movimentos, e se ainda tenho o braço. Afinal, o pessoal vive falando na dor do “membro fantasma” e coisa e tal...

Os dedos se movem normalmente. Bem lentamente, a dor vai diminuindo. Ou eu vou me acostumando. Não sei. Tanto faz. Abro os olhos.

Vejo um teto de madeira velha, empoeirado. Um ventilador de teto capenga está girando, ameaçando a cair a cada volta completada. Começo a erguer a cabeça para olhar em volta, mas sinto uma dor aguda nos ouvidos, e alguma coisa quente e molhada escorre por eles. Ergo a mão direita até o ouvido, e quando recuo-a vejo as pontas dos meus dedos sujas de sangue. Mas a dor logo diminui, e recupero a audição, conseguindo ouvir o ventilador ranger a uma respiração perto de mim. Não tinha notado como estava silencioso antes.

Um rosto ocupa minha visão. Megan.

Ela parece cansada. Fundas olheiras abaixo dos olhos brilhando de preocupação, e o cabelo preto em desalinho.

— Megan? O que... — Eu começo a falar, me levantando.

— Vá com calma. — Megan pede e começa a me segurar, mas eu já levantei. Me sento e olho em volta.

Estou em cima de uma mesa, que mal parece ser capaz de sustentar meu peso. Estou no andar de baixo do bar. Estranho. Achei que ela ia me tirar daqui depois que...

— O que aconteceu? O que você viu lá em cima? — Eu aponto para o teto. Megan parece nervosa, até um pouco assustada.

— Encontrei você desmaiado, exalando um cheiro de podridão. Por um minuto achei que tinha morrido. O chão em sua volta estava preto e se desfazendo, quase não consegui tirá-lo de lá. O soalho desabou no exato instante que te puxei. — Ela põe uma mecha de cabelo rebelde atrás da orelha. — O demônio... Bom, não sei o que fez com ele, mas quando entrei o corpo estava acinzentado, e se desfazendo em cinzas. Não estou brincando. Quando saí te rebocando, só sobrou um montinho de cinzas com uma ou duas brasas no meio. O que diabos aconteceu? Nunca ouvi nada gritar como ele gritou.

Desvio o olhar constrangido. Preferia evitar essa parte da conversa, mas acho que ela tem o direito de saber. Olho de relance para o meu braço esquerdo, a dor quase nula agora. A tatuagem está se sobressaindo na pele, muito mais aparente que antes. Megan nota meu olhar.

— A marca ficou se remexendo pra caramba. Mudava de posição e tamanho o tempo todo. Logo no começo, se expandiu pelo seu corpo. Metade do peito e uma parte do rosto, então começou a regredir, foi quando seu cheiro voltou ao normal e você deixou de ter a temperatura de um cadáver.

Eu concordo com a cabeça.

— Foi Sangue de Ceifeiro. — Falo para ela, sem dar atenção ao pulo de surpresa. — Eu tinha um frasco com uma pequena quantia... Mas não devia ter usado. É terminantemente proibido aos necromantes tomarem Sangue de Ceifeiro.

— Por quê? — Megan pergunta. — E por que tomou? Funciona que nem o sangue de demônio, como um tônico?

Eu discordo com a cabeça.

— Em um humano comum, pode ter dois efeitos. O normal, ou seja, 99,99999% dos casos, é o humano morrer na hora. Se não morrer, vai acabar virando um Ceifeiro. Para nós, necromantes... — Faço uma pausa. — É um tônico imensamente poderoso. Multiplica nossos poderes a um nível inimaginável. E se tomarmos com regularidade, ou se tivermos uma overdose... As chances de morrer são apenas de 47%. Ou seja, muito mais chances de virar Ceifeiro.

Megan fica pálida.

— Então você...

— Não. A marca me protege. — Eu respondo, entendendo o que ela quer dizer. — Me permite controlar os poderes, evitando que eu seja tomado por eles. — Olho para a porta do bar e mudo de assunto. — Como está Jene? Como ela, sabe, está lidando com isso?

Para minha surpresa, Megan bufa humoradamente. Ela me dá um meio sorriso.

— Digamos que ela está reagindo bem, e Joe está sendo muito bom em consolá-la.

Ergo uma sobrancelha.

— Eles já transaram?

Megan assente, tentando esconder o sorriso. Balanço a cabeça. Em outra ocasião, isso teria me chocado, ou divertido. Eu sabia que iam acabar juntos, só não achava que tão rápido. Bom, nada como a perda de um ente próximo para criar um casal.

Me levanto, um pouco desequilibrado. Megan paira ao meu redor, com as mãos estendidas, pronta para me aparar se eu cair. Vou meio mancando em direção à porta.

O sol está brilhando. Para sair um pouco do meu humor melancólico, eu não vou dizer que o dia devia estar escuro, e como a vida pode ser tão bonita depois de tudo que aconteceu e aquele blá blá blá de filme clichê. Tenho que superar a morte do velho, e logo.

Fecho os olhos e fico parado em um feixe de luz solar, aproveitando o calor. Não tinha notado antes, mas minha pele está mesmo fria. Estremeço uma vez. Mais sinto do que ouço Megan vir até o meu lado e se parar ali.

— Onde eles estão? — Eu pergunto sem abrir os olhos. Megan não precisa perguntar de quem estou falando.

— Ali. — Abro os olhos e vejo ela apontando para um prédio mais ou menos inteiro do outro lado da rua. — Foi o melhor que achamos.

Aceno com a cabeça concordando. Começo a atravessar a rua.

Jene está escorada na parede do outro lado da sala vazia com chão de madeira. Ela olha para mim, mas apenas aceno com a cabeça, indo em direção à escada. Joe não está a vista.

Subo até o terceiro e último andar. Megan me segue, sem falar nada. Olho em volta. Os três andares não passam de espaços amplos e vazios, com pilastras de madeira para ajudar a segurar o teto.Não consigo identificar o que era antes de ser abandonado. Me paro em frente a uma janela com alguns cacos de vidro quebrado ainda nos caixilhos. Fico observando a rua.

— Vamos ter que sair daqui em breve. — Megan comenta. Eu aceno com a cabeça, sem me virar.

— Quanto tempo eu fiquei desacordado?

— Dois dias. — Megan responde com a voz neutra. Praguejo em voz baixa. O Sangue de Ceifeiro deve ter me danificado mais do que esperava. — O que você fez com o demônio, afinal?

Eu fecho os olhos por um momento, então respondo pesaroso:

— Outra coisa proibida. Uma tortura... Torturante. — Megan ri. Eu a acompanho com uma risada fraca. — Sim, é irônico, mas é verdade. Muito pior que o Inferno. Ele sentiu a alma ser destruída. E o fato da alma de um demônio ser muito mais resistente, quase indestrutível, apenas aumentou o sofrimento.

Megan assente.

— Bom, águas passadas.

— É claro, mas mesmo assim... — Eu me interrompo, estreitando os olhos e fixando uma nuvem de poeira a alguns quilômetros da entrada da cidade. — O que é aquilo?

Megan corre para o meu lado, olhando também. Depois de alguns segundos, conseguimos distinguir. Um carro. Nos entreolhamos, num misto de confusão e preocupação.

Quando ele se aproxima o suficiente, solto um assovio de admiração. É um Impala. E não um Impala qualquer. É o Impala. Preto puro, a marca registrada dos Winchester. Só pode ser algum Caçador que é realmente fã da série. Todos nós gostamos de muscle cars, por serem fortes e rápidos. Mas poucos, muito poucos, têm um Impala. Noto que a placa é exatamente a do Impala dos Winchester. Hummm...

Seja quem for, estaciona ao lado do meu Dodge. Depois de alguns segundos, as portas se abrem e dois homens saem. Arregalo os olhos, e Megan ofega ao meu lado.

— Não pode ser... — Ela meio que sussurra, meio que suspira.

Descemos a escada correndo, quase rolando os dois lances de escada. Chegamos com estardalhaço, um quase derrubando o outro. Jene está olhando para a porta, os olhos arregalados. E não é para menos, pois nesse exato momento estão entrando Sam e Dean Winchester.

Notas finais
Os quatro melhores Caçadores dos Estados Unidos frente à frente. Isso. Vai. Ser. Bom. Me lembrou o filme "Mercenários 2". Tinha praticamente todo o elenco de filmes de ação de Hollywood. Chuck Norris, Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme, Arnold Schwarzenegger, Jet Li, etc. Aquele filme foi foda. Toda cena aparecia um ator novo. No fim, eu tava praticamente pulando no sofá.