Caçada
24 Conhecendo meu “avô”
- É um prazer imenso finalmente conhecer a garota que está virando o mundo de cabeça para baixo. – disse Poseidon, sorrindo.
- Obrigada, acho. – respondi.
Incrível como há algumas semanas, eu não tinha família, ninguém gostava de mim, eu era obrigada a ter que limpar os livros e meus únicos amigos era meus personagens favoritos das historias. Ai agora, até meu “Avô” queria tanto me conhecer. Família Divina difícil essa, hein?
- Vamos semideuses, quero dar uma palavrinha antes que voltem para sua querida missão. – Poseidon era todos sorrisos, o porquê, nem eu faço ideia, mas quem sou eu pra tentar entender o que se passa na cabeça de um deus dos mares, cabeça de algas e com mais de milhões de anos?
Todos me olharam com expectativa, mas eu apenas assenti uma vez com a cabeça e segui Poseidon, com Jessica à frente, já conhecendo tudo o que estava ali.
Como posso descrever? Era realmente estranho e incrível poder respirar debaixo da água. Meus cabelos flutuavam por conta própria e pareciam ainda mais brancos naquela imensidão azul. Minha pele aqui continha uma cor um pouco mais perolada e brilhante. Os peixes ainda ficavam longe de mim, mas um golfinho chegou perto e até mesmo fez graça para mim, de modo que comecei a rir e todos que estavam no palácio – que, devo dizer, tinha um rabo de peixe e tronco humano, então presumi serem sereias – me olharam com certo desprezo.
Poseidon nos guiou até uma sala ampla, mas muito, muito obscura. As paredes tinham formas grotescas de imagens assustadoras que eu não conseguia decifrar o que eram.
- Pai... Onde está Anfitrite? – perguntou Jessica ao pai, assim que ele se sentou em uma cadeira.
- Ah, assim que descobriu que eu a estava trazendo até aqui, deu um faniquito e foi para a torre sul. – resmungou ele, revirando os olhos logo em seguida.
Mordisquei os lábios. No fundo, eu tinha ciúmes deles. Tinha ciúmes por Poseidon falar normalmente com a filha, sem dizer que iria mata-la se ela não seguisse o caminho que ele queria que ela seguisse. Tinha inveja por Jessica abraçar o pai e sentir o mesmo abraço caloroso vindo do velho pescador. Enquanto eu e minha criadora...
- Bem caçadoras e semideus, gostariam de ir ver os pátios do palácio enquanto converso com Penélope? – perguntou Poseidon, exibindo um sorriso que fez pés de galinha em seus olhos. Jessica foi saltitando, o que era estranho já que eu não sabia que podíamos saltitar pela água, com os outros em seus calcanhares seguindo-a e ela falando sobre como foi passar as férias de inverno no mar que, embora estivesse bastante gélido, era mais incrível que agora, ainda mais com os tubarões.
Dei um suspiro longo ao ver que estava sozinha com Poseidon na sala. Estava irritada demais com meus queridos familiares quererem saber de mim agora, que eu já era moça e a possível causadora do fim da humanidade. Quando digo que tem mais gente interesseira nesse mundo do que não sei o que, eu sou a ruim.
- O que tanto o Senhor quer falar comigo? – perguntei, sem conseguir olhar nos olhos do pai de minha criadora.
- Eu queria te aconselhar e lhe dar um presente. –respondeu ele.
- Quer me aconselhar sobre...?
- Sobre as escolhas que você vai fazer depois de ter conversado com Zoe pelos espelhos.
Fiquei calada por um longo momento, observando as bolhas que saiam de minha boca enquanto eu respirava fundo. Por fim me virei para olhar nos olhos do pescador.
- E o que tem a ver as escolhas que irei fazer? – perguntei, irritada.
- Você está se precipitando muito, Penélope. Não entende que...
- Entendo perfeitamente que, mesmo que os Olimpianos ganhem a batalha com os Primordiais e os Titãs, ainda sim, a humanidade caíra em desespero. – interrompi-o, sem me importar com o fato dele ser bem mais velho e, sem que eu quisesse, meu avô.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Quem lhe contou uma barbaridade dessas? – perguntou ele.
- Não me contaram, só é a verdade. É o que eu vejo. E é o que Rachel poderia confirmar, se a deixassem ver o futuro sem precisar de uma droga de missão. – respondi ainda furiosa com todos.
- Ainda há outra opção.
- Não, não há. Se houvesse, vocês não estariam nessa palhaçada toda. Não estariam querendo conversar comigo e, muito menos, travando uma batalha tão idiota e sem nexo como essa.
- Você realmente gosta de falar o que pensa, não?
- Sim. Sou filha de Despina, se esqueceu? E sua neta. Ou seja, adoro falar o que penso sem medir as consequências.
Eu estava em um lugar perigoso demais até para meu sarcasmo e minha estupidez. Senti quando a bolha que me cercava começou a tremeluzir e a pressão da água tentar entrar em meus pulmões.
- Cuidado, Caçadora. – advertiu ele.
- Estou tendo cuidado, my lord. Só estou tentando achar uma saída. – respondi.
- Não está.
- Que seja, diga qual é a outra opção, então?
Ele respirou fundo, ainda meio irritado demais comigo. Depois que se acalmou a bolha a minha volta voltou a ficar forte e a pressão da água era fraca demais e eu poderia muito bem ignora-la.
- Sim, tem outra opção. – começou – Mas nós, deuses, não podemos ver, o que é realmente frustrante. Só a “escolhida”, a “cria” de Despina pode ver.
Fiquei confusa demais.
- Como assim? – perguntei.
- Despina sabia disso desde o inicio. Por isso ela a criou para que você fosse A escolhida dela. Por isso escolheu o espirito de Zoe para reencarnar em uma estatua de gelo.
- Como?
- Você é forte demais, Penny. Você é a única pessoa que pode ajudar ambos os deuses e titãs, pode continuar com o mundo da maneira que quiser.
- Poseidon... Não há como salvar a humanidade. Ela mesma já está se matando.
- Mas você pode achar uma chance, Doce-Amarga.
Senti uma pressão forte em meus ombros, mas não era a pressão da água. Era a pressão de uma grande escolha que foi jogada em minhas costas. Conseguia ser pior do que meu pai – ou pai da Zoe? -, que tinha que carregar o céu nas costas.
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