Caçada

10 Cama de neve.


Sebastian me fitou com um olhar tenso, como se agora tivesse medo de me tocar, como se eu fosse uma aberração. Ah, mas é claro que ele estava certo. Eu era uma aberração.

- Filha de Despina? – perguntou, levando a mão no cabelo e assanhando-os.

Nevasca rosnou para ele enquanto eu dava um longo suspiro, já com medo de que todos do Acampamento me tratassem com aquele medo que as garotas do orfanato me tratavam antes.

- Sim. Filha de Despina. Ou da Neve, ou o que você achar melhor. – falei com amargura, me virando e indo direto para o chalé 8, onde eu não deveria ter saído em hipótese alguma. Mas sabia que logo minhas companheiras iriam me olhar da mesma maneira que aquele garoto havia me olhado quando descobriu a verdade. Com medo e meio repulsa.

- Espere. – o ouvi ao mesmo tempo em que senti dedos em meu cotovelo. Aquilo me pegou de surpresa. Meu cotovelo começou a formigar tal como meus dedos e senti quando a mão do garoto começou a congelar onde me tocava.

- Ei! – disse, soltando meu braço e balançando os dedos. A neve derreteu rapidamente.

- Eu só queria dizer que, por incrível que pareça, não estou nem um pouco me importando com o que sua mãe faz. – falou, ficando de frente para mim.

Meus olhos brilharam ao ver que ele estava aceitando quem eu era, sem nem ao menos me conhecer. De novo, meu estomago afundou um bocado.

- É a primeira pessoa que diz isso pra mim. – falei baixinho, esperando que ele não ouvisse. Mas com toda certeza ele ouviu.

Um largo sorriso de tirar o folego formou-se em seus lábios e eu tive medo. Medo de desistir. Medo de que ele quisesse que eu saísse da Caçada.

Mordi meu lábio e toda a repulsa por homens veio em mim, jogando água quente em meus ossos e me encharcando por dentro.

- É melhor eu ir. Pelo que vejo, existem muitas garotas que ficaram tristes por você vir falar com uma caçadora. – falei, dando uma ênfase em caçadora para ele tentar entender que não havia como nos tornar amigos. Claro que não. Eu era uma Caçadora, uma odiadora de homens, ainda mais aqueles bonitos como Apolo e seus filhos.

Sebastian compreendeu o que eu quis dizer que se virou, olhando para as várias garotas que os fitavam. Algumas soltaram gritinhos e risinhos quando viram que ele estava olhando-as. Umas poucas sorriram charmosas enquanto outras arrumavam o decote para ver se ele iria ir até lá, conversar com elas. Ou melhor, com os seios delas.

Ele deu um longo suspiro, como que se lembrasse de que eu era, como poderia dizer? Ah sim, o fruto proibido.

- Elas são atiradas demais. – resmungou, dando meia volta.

Fiquei observando ele por cinco segundos e também dei as costas, com Nevasca me seguindo de perto, com ciúmes daquele garoto estranho que parecia querer com que eu desistisse dela.

- Tudo bem, Nevasca. Sou só sua. – murmurei, passando os dedos nos pelos brancos da loba.

Novamente, Sebastian me surpreendeu, pegando novamente em meu cotovelo.

- O que queres? – perguntei, irritada enquanto ele lançava o mais belo dos sorrisos.

- Só queria perguntar a você, se amanhã podemos, sabe... Treinar arco-flecha juntos. – disse.

Eu o fitei, horrorizada com o fato de ele estar sorrindo, me convidando para treinar junto com ele. Com o fato de eu querer ir, mas sentir minha tiara ficando mais gelada, tal como meu pingente e meus dedos. Que droga.

- Não. – respondi, fechando a cara para ele e soltando meu cotovelo de suas mãos.

Seu sorriso se desfez e algum tipo de dor se formou em seus olhos. Uma dor que doeu também em mim. Uma dor que eu queria afugentar dali com um sorriso e um beijo leve em seus lábios, prometendo que desistiria de tudo por ele. Mas no fundo, eu senti que não desistiria, mesmo por ele.

- Certo. – disse meio amargo e novamente uma dor me atingiu. Agora em meu peito e em todo o meu corpo. Minhas pernas tremeram e eu quase caí, implorando perdão. Mas o orgulho falou mais alto do que eu e simplesmente virei as costas para ele, saindo em disparada para onde minhas companheiras estavam.

Todas me olharam de uma maneira estranha.

- Homens. – resmunguei com repulsa, dando um rosnado logo após de dizer.

Elas riram de mim.

- Homens. – concordaram todas.

Revirei os olhos e fui para junto de Bruna, que alisava uma cama das vários beliches existentes ali.

Como explicar? Era tudo investido em prata. O teto era feito de vidro, ou sei lá o que. Dava para ver e sentir o sol tocar nossa pele. As paredes eram feitas de algum material resistentes que era frio e quente ao mesmo tempo, caso você tocasse. Era tudo maravilhoso, ainda mais os beliches. Eram como se estivessem escolhendo as tenentes, as tiaras.

De Katie, vinhas se enroscavam na cabeceira e pequenos tigres do tamanho de minha mão caminhavam pelo dossel da cama. Na de Jessica – que era a debaixo da de Katherine -, cavalos marinhos em miniatura pareciam correr e muitas e muitas algas de várias cores enchiam o restante da cama. Lucy tinha várias nuvens das quais, se você chegasse perto, poderia perceber que continham sonhos. De Helena, muitas flores e trigo enroscavam-se juntos pela cama toda. A debaixo de Helena, que pertencia a Mandelaine, letras musicais e pequenas miniaturas do Sol rodopiavam por tudo. A de Bruna, um negro misturado com prata enchia a cama e várias estrelas piscavam, amigas, como se estivesse chamando por você. Embaixo dela, a cama de Emma era revestida de esquemas, corujas e livros que, caso você tentasse pegar, viravam uma replica perfeita ou copia dos livros favoritos seus.

Eu dividiria a beliche com Thalia, já que era sua subtenente. A parte de Thalia, chiados e mais chiados se prolongavam junto com os raios. Em momentos, dava para ouvir o trovão ao longe, meio fraco. Olhos de Águias estavam observando onde quer que olhasse, como se estivesse te seguindo. Como com a Tiara, assim que toquei o cobertor, começou a cair neve, a tudo ficar de um branco puro em intervalos com a prata. Era gelado ao toque. E parecia mesmo ser feita de vidro.

Thalia me fitou por um instante mais e depois suspirou.

- Caçadoras, terminem de arrumar suas coisas. Vamos ao refeitório, jantar com os heróis daqui duas horas. – gritou ela.

Deitei-me em minha cama, sentindo como se ela fosse mesmo feita para mim. Nevasca pulou e deitou-se aos meus pés, enquanto eu observava os flocos de neve caírem em meus cabelos e por todo o meu corpo.