Caça e Caçador

2 Ficando ainda pior.


Notas iniciais
Agradeço muito aos dois leitores que me deixaram comentário. Dedico esse capítulo a ambos e espero que continuem acompanhando.

Boa leitura o/

Os minutos anteriores que passou tentando tranquilizar-se, não adiantou em nada. Assim que começou a subir os degraus de madeira, seu coração voltou a martelar dentro do peito, até pior do que antes. Era o Adeus a sua liberdade. Sakura poderia acabar com toda aquela angustia, ela tinha conhecimento do que habitava em seu ser, no entanto, prometeu a sua família jamais machucar um ser humano.

Chegando acima, parou encarando o chão, ele lhe parecia bem mais interessante que uma multidão de homens possuídos pela luxuria, mas foi obrigada a olha-los quando, de forma inesperada seu corpo é empurrado para frente, e trôpega adianta-se ficando a ponta do palanque sob a mira de todos.

A jovem flor não se deu conta do momento em que o barulho ensurdecedor de vozes ao redor houvera diminuído, de tão distante estava quase inaudível, e somente por ter se deparado com um par de olhos ambares. Estranhamente sentiu-se acolhida por eles, em seu intimo brotou uma certeza de confiança. Certeza essa que infelizmente durou um curto período de tempo até o erguer da mão no ar.

“Temos mais um ofertante ali senhores. Alguém dá mais?”. – O leiloeiro instiga, excitante pela quantidade já ofertada.

Ele não passa de mais um. Sua mente balbuciou.

–... Vendida para o jovem senhor. – As palavras finais são ditas. Sakura aperta os olhos contendo as lágrimas. Como foi chegar aquele ponto.

Touya, seu irmão mais velho reage, e mesmo com as mãos amarradas consegue derrubar alguns dos homens que faziam a segurança. Contudo, reforços chegam e ele é contido.

– Fuja Sakura!! – Consegue gritar.

A menina recua passos assustada com o tumulto. Quando finalmente atende ao pedido do irmão, se voltando na direção das escadarias, um homem duas vezes seu tamanho impede sua passagem. Pensando rápido, joga-se do palanque, pousando belamente como um felino no chão arenoso.

Vê-se na vantagem pela estatura baixa em meio aos homens altos e esguios. Sem perca de tempo corre abrindo caminho. As travessuras que fazia com seu irmão e as fugas logo depois que ele descobria lhe serviram para alguma coisa no final das contas.

Ainda havia esperança para ela, os deuses ou qualquer outra divindade que as pessoas acreditavam tiveram compaixão de sua vida. Vislumbre de um sorriso se forma nos lábios à medida que foca a rua principal e logo mais adiante um beco no qual poderia atravessar para sair da vista dos seguranças.

Usou de toda a força natural que tinha para percorrer aquela distancia, mas foi levada ao chão dolorosamente quando se esbarrou em algo duro semelhante à rocha. Balançou a cabeça atordoada e assim que a ergueu, seu estomago comprimiu. Mirou primeiro o distintivo do governo japonês, depois a farda azul marinho e por fim a carranca do homem que a usava. Era o fim.


(...)


– Ai! – Reclama sentindo o metal gélido apertando o pulso direito. Aquele atrevido ouvirá algumas verdades. Murmurou com o rosto queimando em fúria.

Endireitou a pulseira novamente para diminuir a compressão, encarando uma numeração que apareceu com o movimento.

– Número 59? – Sakura assustou-se com a voz ditando o número impresso que acabara de ver. – Ali esta ela. – O homem desconhecido, como tantos outros naquele lugar, conduz com o estender do braço duas mulheres de idades diferentes na direção de Sakura. Enquanto uma não passava dos vinte a outra aparentava três vezes mais.

Encolhe-se diante do olhar analista da senhora mais velha.

Seu semblante muda ao notar o desconforto da pobre menina. – Vamos querida, a carruagem nos aguarda. – Sua voz suave afastou qualquer sinal de severidade que o rosto enrugado poderia ter.

– Quem é a senhora e para onde vão me levar? – Questiona sem mover-se.

– Explicarei tudo no caminho, agora se apresse ou nos atrasaremos. Precisamos está no casarão dos Li até o jantar. – Batendo palmas, a garota morena de cabelos revoltos com roupas menos formais e mais simples se coloca atrás de Sakura e a empurra cuidadosamente na direção da saída.

Franziu o cenho junto a uma careta com a completa obscuridade nos cavalos, no traje do cocheiro e até na cor da carruagem. Não fosse pelo brasão dourado entre alguns pequenos detalhes, seria tudo envolvido pelo preto. O que tinha essa família? Sussurrou.

– Alguém faleceu? – Indagou na inocência, tomando de certa forma para si aquelas palavras. Ela havia morrido desde o momento em que fora pega.

O rosto da elegante senhora se fecha, ao contrário da outra que se segura para não rir do comentário. – Aconselho escolher bem as palavras quando estiver na presença do jovem mestre, ou terá problemas.

– Jovem mestre?

– Sim! A pessoa que lhe comprou.

Sakura trava, engolindo em seco a resposta. A simples menção nele já a deixava nervosa, para variar da raiva que voltava a mudar a cor de seu rosto.

– E onde ele está? – Se atreveu a perguntar tentando demonstrar o menor interesse possível.

– Tratando questões da família Li. – Era evidente o orgulho que aquela mulher tinha daquele pervertido. – A proposito me chamo Jun, sou a governanta e essa é Shino minha ajudante e uma das criadas.

– Assim como eu?

Ambas se encararam simultaneamente e pareciam conversar através dos olhares.

As mãos da jovem flor são envoltas pelas da governanta. – Como se chama querida?

– S-Sakura. – Hesitou falar.

– Que belo nome. – A mulher lhe sorri, um sorriso amável. – Sakura alguém deve ter lhe contado a respeito desses leilões e a principal intenção dos compradores. – Os olhos esverdeados, agora maiores que o normal, brilham. – Infelizmente essa será sua função.

Sakura balança a cabeça, embora já imaginasse.

– Nós lamentamos muito. – Por fim fala a criada, uma voz rouca e calma como sua aparência.

– O casarão dos Li é para onde estamos indo? – Sakura muda de assunto, olhando pela janela, porém seus olhos mal visualizam a cidade e seus habitantes, estão vagos e perdidos.

– Não! – Essa resposta ela não esperava. – Faremos uma visita ao médico. A senhorita precisa de uma avaliação antes de partimos para seu novo lar. – Pisca ainda processando.


(...)


A lua crescente brinca escondendo-se entre as nuvens passageiras. Sakura permaneceu observando aquela brincadeira solitária por cerca de minutos desde que fora levada para seu novo quarto. Não se incomodou em ligar as luzes, o brilho do astro adentrando pelas janelas o deixou claro suficiente para não esbarrar em nada.

Sua barriga roncou, estava faminta, a ultima refeição que teve foi de manhã antes do leilão. A ultima com sua família. Seus olhos lacrimejam ao pensar nos pais e no irmão mais velho. Desculpe-me Touya. Soluçou limpando os olhos com a barra do vestido.

– Shino disse que me avisaria quando o jantar estivesse pronto, só que está demorando e minha barriga não consegue aguentar mais. – Alisou a região do estomago.

Cogitou em descer para procurar a criada e tendo sorte acha-la na cozinha. Mataria dois coelhos com uma cajadada só. Se divertiu caminhando até a porta. Sua mão não chega a tocar na maçaneta, pois um barulho vindo do corredor rompe o silêncio e a faz voltar às pressas para perto da janela. Vozes alteradas em discordância, disputam qual seria a mais alta, sendo a feminina mais frequente. Passos firmes acompanhados da voz masculina se aproximam até adentrarem o cômodo onde Sakura se encontrava. Ele acende as luzes e bate a porta resmungando palavras incompreensíveis para a menina.

Que língua é essa?

É notória sua surpresa quando percebe a presença de Sakura no quarto. Puxando o grosso tecido das cortinas que caiam pesadas de cada lado da janela, a menina cobria o corpo. Sabia que era intencional aquela roupa que deram para usar, um vestido de alça branco pouco acima dos joelhos.

– Não me toque. – Consegue dizer. As palavras preparadas para quando o visse se esvaindo de sua cabeça.

O belo rapaz bufa afrouxando o colarinho – Não tenho a menor intenção de fazê-lo. – Responde de imediato focando outra parte qualquer do ambiente.

Não querendo, de forma alguma, demostrar, mas ficou chocada com o que acabou de ouvir. – Como disse? – Perguntou soando como uma reclamação. Ele se sentia bom o bastante para ela... Afastou esses pensamentos com o balançar nada discreto de cabeça. Por que a sensação de rejeição?

– Foi exatamente o que ouviu. Não tocarei na senhorita, e será como as demais criadas. – Leva a mão ao cabelo bagunçando-o ainda mais. Parecia desconcertado com a situação. – Me antecipei em avisar para a governanta. Contudo, não fugirá de sua função. A senhorita ficará encarregada dos serviços que se referem a mim como roupas, comidas... E somente isso. – Evidencia o “e” olhando de soslaio.

É claro que será somente isso. Lança para o lado as cortinas. E que tom é esse com o qual se refere a mim, por acaso aparento querer mais? Seus olhos descem sobre o jovem a frente sondando-o; Provavelmente da sua idade, não passando de dois anos mais velho, estatura mediana, um bom porte físico que sobressaia até sob as roupas sociais. Cabelos bagunçados e olhos perigosos. Nada mal! Relevou. Notou igual observação da parte dele e sem jeito tropeça nos próprios pés, caindo de bunda no chão.

– Ai! – Resmunga massageando a parte afetada pela queda. Logo fechando as pernas encabulada.

– Tudo bem.

– Não se aproxime! – Avisa, recompondo-se. – Mas que cheiro é esse. – Fala incomodada com o aroma que a cada minuto toma conta do cômodo.

Não era um odor, muito pelo contrário, o cheiro estava delicioso e não se parecia com as comidas comuns a que estava acostumada. De onde vinha... De maneira instintiva fecha os olhos inspirando.

O comentário deixou o jovem intrigado, cheirando o próprio corpo. – Do que esta falando? ­– Indaga erguendo a sobrancelha pouco envergonhado.

É ele, sem dúvida. Chega à conclusão. Mas por que? Sua mente vaga a procura de respostas coerentes. Sua boca começa a salivar e uma remota lembrança lhe torna a cabeça. Tracker! Seus orbes arregalam.

Cambaleante, precisou se apoiar no parapeito da janela. Como não percebeu, seu corpo reagiu exatamente assim quando encontrou com um da primeira vez, ainda criança. Algo dentro de si pulsou em compasso com as batidas do coração. Levou a mão ao peito sentindo quente a região por sob a roupa. Recordou da marca em formato de asa que carregava consigo naquele lugar de seu corpo. Um selo que sua mãe colocou no intuito de conter metade dos seus poderes e lacrar aquele suposto ser descontrolado que matou o infeliz tracker que cruzou seu caminho antes.

Desde o início sentiu uma singularidade nesse rapaz se comparado a tantos outros no leilão. Sua atração não foi mero acaso, uma atração física (apesar de sua aparência), estava relacionado à energia dele.

Droga! Morde os lábios impaciente. Se me descobrir nessas condições não poderei me defender. Ele vai me matar!

Notas finais
O que fará Sakura para sair dessa situação? E Shaoran, por se considerar um dos melhores caçadores de bruxas, perceberá quem é realmente a jovem que comprou?
Contarei tudinho, eu prometo, no próximo capítulo :)