CULPADO COM PROVAS

2 UM NOVO PROBLEMA



Três dias após o fatídico “acidente com o latte”, Savannah ainda revirava os olhos sempre que o sorriso insolente de Jae-min Han invadia sua mente de forma totalmenteindesejada. Ela descobriu o básico sobre ele: nome, idade, nacionalidade e o curso de Fisioterapia, informação que, para ela, justificava perfeitamente o ego inflado que parecia ocupar mais espaço que o próprio campus.

Que cara mais irritante!

— Fisioterapeuta — resmungou, sentada na escadaria principal da universidade. — Mas é claro que é! O tipo que acredita entender do corpo humano e, por consequência, acha que entende todo o resto.

Miranda Brooks (que preferia ser chamada de Mia), sua prima e cúmplice de todas as horas, estava largada ao seu lado nos degraus, mascando um chiclete com a expressão de quem tentava parecer empática, mas sem muito sucesso.

— Você precisava ver o tamanho da audácia daquele ser humano — continuou Savannah, gesticulando. — Ele me chamou de docinho, Mia. Docinho!

Mia mordeu a tampa da caneta para não rir.

— E o que você fez?

Savannah olhou pra ela como se a resposta fosse óbvia.

— Mandei ele falar com a minha mão, claro.

Mia explodiu numa gargalhada, dando tapinhas no braço da prima.

— Ai, Sav, você tem o que, oito anos?

— Ele que começou! — ela protestou, indignada. — Com aquele sorrisinho pretensioso de quem sabe que é bonito e abusa disso.

— Hm. Bonito, então? — Mia arqueou uma sobrancelha, divertida.

Savannah apertou os lábios, irritada com o próprio vacilo.

— Eu disse pretensioso, não bonito.

— Aham. Claro. — Mia balançou a cabeça, sarcástica. — Isso está com cara de inimizade que vai virar atração fatal. Aposto vinte dólares.

Savannah girou o corpo para encará-la.

— Você anda assistindo muita série ruim, só pode.

Antes que Mia respondesse, o alto-falante da praça principal do campus chiou, interrompendo o burburinho dos alunos.

— Atenção, alunos da Universidade Hartbridge! — a voz da diretora de eventos anunciou empolgada. — Amanhã, para abrir o início de um novo semestre, teremos nossa tradicional Feira de Integração de Cursos! Participação obrigatória para todos! Tenham um ótimo dia!

Elas se entreolharam. Savannah gemeu, a cabeça caindo para trás.

— Integração. Significa gente nova, que significa multidão, que significa barulho, calouros perdidos e… trabalho.

Mia mordeu o lábio, sorrindo sapeca.

— Ou, quem sabe, o reencontro com algum “docinho”?

Savannah empurrou a prima com o ombro, fazendo as duas rirem.


⚖️


No dia seguinte, o ginásio esportivo da universidade estava uma verdadeira bagunça organizada, cada área tinha montado estandes representando seus cursos. Os de Direito usavam togas e reproduziam julgamentos cênicos. Os de Saúde aplicavam massagens e simulavam procedimentos de APH avançados. Os de Engenharia tentavam explodir coisas "com segurança". Os de Letras recitavam poemas, apenas.

Savannah, vestindo uma camiseta preta com o brasão de Direito, caminhava distraída com uma prancheta na mão, checando os materiais do estande, repassando mentalmente o que precisava ser incluído na lista, até esbarrar em alguém.

De novo.

— Você tem um problema sério de direção, sabia? — A voz veio divertida, e ela reconheceu na hora.

Ela olhou para cima e deu de cara com Jae-min Han, sorrindo como se tivesse ganhado na loteria. Usava jeans escuro e camiseta azul-marinho larga com o brasão de Fisioterapia. Thor estava sentado pacientemente ao lado dele, fofíssimo com uma bandana da universidade no pescoço.

Savannah tentou ignorá-lo, focando na prancheta.

— Se você estiver me seguindo, eu juro que te processo — respondeu friamente.

Jae-min arqueou uma sobrancelha.

— Ameaças legais logo cedo? Uh, já estou ficando emocionado.

Ela estreitou os olhos.

— Você acha que é engraçado, né?

— Eu sei que sou. — Ele sorriu. — Mas você é uma boa rival, docinho.

Savannah sentiu o canto superior do lábio tremer, e antes que ela pudesse respondê-lo — ou socá-lo — um dos organizadores se aproximou, suando em bicas e ofegante.

— Ótimo! Vocês dois! Vocês estão aqui! Precisamos de voluntários para a missão principal da feira: apresentar o Tour da Hartbridge para os calouros.

Savannah arregalou os olhos.

— Nós dois?

— Isso! Direito e Fisioterapia juntos é perfeito. Mistura de cursos, integração, blá blá blá. Toma — explicou, empurrando um maço de mapas nas mãos deles sem muita paciência. — Primeiro grupo já está esperando por vocês na entrada. Andem logo!

E o homem desapareceu antes que ela protestasse.

Ela virou-se para Jae-min, indignada.

— Isso é uma piada.

Ele abriu um sorriso largo e travesso.

— Eu tô achando tudo ótimo.

Ela girou nos calcanhares, resmungando:

— Maldito karma.

Savannah marchou a passos duros; ao encontrarem com o primeiro grupo de calouros, se identificaram e Jae-min distribuiu entre eles os mapas que continham todas as informações necessárias sobre a universidade. As garotas sorriam para ele, elogiavam Thor e faziam carinho nele mesmo sem permissão.

Enquanto guiavam o grupo animado pelo campus, a tensão entre os dois era palpável. Ao passo que Jae-min esbanjava cordialidade excessiva para irritá-la, ela o encarava como um espírito obsessor raivoso.

— À esquerda, temos o prédio de Direito — Savannah apresentou, apontando a prancheta com uma falsa simpatia. — Onde aprendemos a ter ética, a lutar contra a injustiça, e contra… pessoas folgadas. — Sorriu venenosa para Jae-min.

Ele tossiu para esconder o riso e apontou para outro prédio.

— E à direita, o Centro de Reabilitação Física. Onde salvamos pessoas e as ajudamos a se reerguerem. Inclusive as que têm mania de esbarrar nos outros e tropeçar em cachorros inocentes.

Os calouros riram, encantados com a química involuntária dos dois. Savannah estreitou os olhos para ele, que apenas piscou de volta, desavergonhado.

No intervalo entre o terceiro grupo, os dois sentaram-se em um banco da praça principal sob uma árvore para uma pausa forçada. Thor deitou aos pés deles, satisfeito.

— Você não consegue levar nada a sério? — perguntou Savannah, já cansada da atitude relaxada dele.

Jae-min tirou a tampa da garrafinha de água, olhando para ela por cima da borda.

— Se eu levasse, já teria explodido faz tempo — ele respondeu num tom que, pela primeira vez, soou mais sério.

Ela se surpreendeu, pois houve uma carga momentânea na voz dele que a pegou desprevenida, algo que não combinava com o sorriso debochado. Curiosa, mas desconfiada, ela cutucou:

— Ah, é? E qual é a sua história, Mestre Zen?

Jae-min deu de ombros.

— Nada muito interessante. Família bagunçada, lutas de fim de semana, cachorro de terapia... vida comum.

Savannah o observou sem prestar muita atenção no que foi dito, mas surpresa pelo momento de verdade vindo daquele que ela considerava o babaca da semana. Um lampejo passou por sua mente e ela soltou um riso descrente.

— Você é muito estranho.

— Obrigado. É meu objetivo na vida. — Respondeu ele com uma reverência exagerada.

Apesar de tudo, Savannah sentiu a tensão dentro dela ceder. Talvez, aquele idiota fosse menos insuportável do que ela pensava. Ou não.

Ela abaixou o olhar e viu Thor com o focinho apoiado no seu joelho. O cachorro olhava pra cima, com aquele ar de quem conseguia tudo o que queria, quebrando um pouco de sua resistência. Ela cruzou os braços e fingiu indignação:

— Se seu cachorro me amar mais do que a você, é culpa sua.

— Ele tem bom gosto — Jae-min sorriu genuinamente.

Ela riu de verdade dessa vez, e por um instante, o barulho da feira desapareceu. Ficaram só os dois e o cachorro. E Jae-min sentiu, sem saber explicar, que queria ouvir aquele som de novo. Mesmo que tivesse que irritá-la até o fim do mundo pra isso.