Amelie McGee raramente se intrometia em assuntos que não lhe diziam respeito. Mas havia certas ocasiões em que seus instintos lhe apontavam exatamente o caminho para a confusão. Claro que corria o risco de ser demitida caso descobrissem que aquela ilustre professora andava bisbilhotando as fichas dos alunos da escola onde lecionava, mas... Instintos. Não se podia ignorá-los.

Felizmente a casa de Melanie não era tão longe. Se tivesse sorte, talvez toda a família estivesse em casa, de preferência, é claro, sem a garota. “Amelie, Amelie... Agora você definitivamente ficou louca. Será que isso é mesmo necessário? Talvez eu devesse voltar... Não! Continue andando”. Apesar do seu medo, Amelie seguiu caminho, tentando convencer a si mesma de que em todas as suas ações haviam boas intenções escondidas. É por ela. É por ela. “Olá, senhora Martinez, será que eu poderia saber de que modo você está criando sua filha aqui dentro? Por quê? Oh, não é nada. Eu só acho que ela tenha ficado atormentada vivendo neste lugar e queria confirmar”. Está vendo? Louca.

Caminhou até avistar a casa de número 222. A casa possuía dois grandes andares, o que a fez deduzir que fossem uma família de boa situação financeira. As janelas eram extensas e de vidro, porém as cortinas fechadas impediam a visão do interior. A casa em si não se diferenciava muito do que se era acostumado a ver em Baldwin, todas eram de cor escura e pouco chamativas. Bateu na porta, já sentindo o nervosismo vir à tona e o estômago doer.

A visão que recebera era exatamente o que já esperava, considerando as circunstâncias, mas ainda assim não pôde reprimir o espanto. A mulher vestia um robe de seda fino mal ajustado em seu corpo. Seu pescoço, suas orelhas e seus dedos carregavam acessórios incrustados de pérolas e diamantes. A maquiagem era tão carregada que a fazia parecer uma atriz de circo. Levava um cigarro pela metade em uma das mãos.

A mulher encarou Amelie esperando que dissesse algo, porém a professora não conseguia encontrar palavras suficientemente adequadas.

— Posso ajudar? — a mulher perguntou finalmente, sua voz carregava traços de ironia.

— Hã... Sim... Claro. Essa é a casa de Melanie Martinez?

— Ela não está — a mulher tentou fechar a porta, mas Amelie impediu que o ato se concretizasse.

— Não! Eu... Eu queria falar com a senhora. É a mãe dela, não é? — “Você ficou maluca de vez, Amelie”.

A suposta mãe de Melanie olhou-a de cima a baixo, desconfiada.

— O que quer?

— Será que eu poderia entrar por um minuto?

A mulher examinou Amelie mais um pouco, mas por fim acabou cedendo e abrindo passagem para a recém-chegada.

Os olhos de McGee percorreram todos os centímetros da casa. “É... bem, esta sim é uma casa que o meu salário de professora nunca poderia bancar”. Uma moradia da classe alta, a julgar pelos móveis e objetos de valor que decoravam as mesas e armários. Um forte cheiro de cigarro, que se misturava ao de outra substância, circulava no ambiente.

Amelie virou-se de volta para a mãe de Melanie, que, visivelmente impaciente, esperava que a mais nova começasse logo a falar.

— Bem, senhora Martinez, eu tive que vir aqui por uma boa razão. Estou preocupada com a situação na qual Melanie está passando.

Murcy arqueou as sobrancelhas.

— Está preocupada com a minha filha?

— Bem, é só que... Hoje eu a encontrei no centro da cidade. Ela estava andando pelas lojas, comprando roupas e perucas e... Ela me disse que fazia isso para fazer com quem alguém gostasse dela — Murcy não disse nada, Amelie então prosseguiu. — O que estou tentando dizer é que não é saudável que uma criança dessa idade esteja se produzindo daquela maneira na esperança de conseguir algo de outra pessoa, quero dizer... Ela nem mesmo está na fase de se preocupar com coisas assim. Eu imaginei que o apoio da família nesse momento seria essencial.

Murcy sentou-se no sofá da sala. Pôs uma das mãos nas têmporas como se a situação lhe desse dor de cabeça.

— Eu bem que senti falta de alguns dólares — disse baixo.

— Como é? — perguntou Amelie.

— Eu estava fora de casa, mas a vi sair daqui há pouco. Ela vestia um trapo sujo qualquer, me perguntei até onde chega a falta de vergonha dessa garota. Não precisa se preocupar, madame. Ela é assim mesmo, cheia de frescuras, mas volta para casa logo. Se lhe deixa mais tranquila, darei uma lição na garota — Murcy respondeu enquanto se levantava.

— Não, por favor, não há necessidade, eu só queria ajudá-la. Na escola ela é muito sozinha e não conversa com ninguém. Eu raramente a vejo sorrir, na verdade nem me lembro se alguma vez a vi sorrir. Eu só queria saber como é a vida familiar dela, pois geralmente é onde os problemas começam.

Murcy arqueou novamente a sobrancelha, visivelmente ofendida diante da fala de Amelie.

— O que está querendo dizer?

— Eu só... — “Cale a boca, cale a boca, cale a boca”. — Eu sinto que esse lugar não parece muito confortável para uma criança viver. Sem ofensas, senhora Martinez, mas a sua despreocupação quanto a isso não me convence de que a Melanie esteja sob boas condições de vida aqui dentro.

Murcy largou o resto do cigarro em um cinzeiro próximo. Cruzou os braços e parou frente à professora.

— Me desculpe, senhorita, mas não acho que o modo como crio meus filhos lhe diz respeito, ou a qualquer outra pessoa.

— Eu... Eu ouvi falar que seu marido foi encontrado morto... Junto de outra mulher. Eu posso perguntar onde ele estava quando o viu pela última vez?

Amelie ignorava aplicar qualquer discrição às suas falas, apesar da ansiedade tomar conta de seu corpo. No entanto, Murcy não lhe parecera muito ameaçadora desde que abrira a porta, muito menos com a maquiagem de palhaço, afinal, não é como se ela pudesse lhe agredir fisicamente, certo?

— O que está insinuando? — perguntou Murcy, alterando a voz.

— Eu não estou insinuando nada, senhora Martinez. Eu só quero conhecer melhor os eventos que estão afetando Melanie, eu quero ajudá-la. Eu sei que ela tem um irmão, ele está aqui? Eu posso falar com ele?

— Não! Não pode — gritou Murcy. — Vá embora da minha casa agora ou eu chamo a polícia.

— Bem... Nas atuais circunstâncias não creio que seria uma boa ideia — Amelie sentiu o coração acelerar ainda mais, repreendendo-se mentalmente pela sua incapacidade de parar de piorar a situação. — Correu um boato de que está sob suspeita de ter matado seu marido e a outra mulher.

Murcy deu um forte tapa no rosto de Amelie, que por pouco não foi ao chão. Naquele instante, uma voz surgiu no topo da escada que levava ao segundo andar.

— O que está acontecendo aqui? — Joseph arregalou os olhos diante do ato da mãe.

— Joseph, volte para o seu quarto — respondeu Murcy, autoritária.

— Mãe, quem é essa? — Joseph descia as escadas.

— Volte agora! — Murcy se aproximou do filho para empurrá-lo de volta para cima.

Diante da distração de Murcy, Amelie tentava se recompor. O coração a mil uniu-se a uma breve falta de ar. “Pare antes que você morra e saia daqui agora”. Amelie então se pôs a correr em direção à porta, já imaginando o que Murcy poderia fazer a ela quando saísse da cadeia caso a professora resolvesse denunciá-la às autoridades.

Murcy virou-se para ver o que se passava. Ao perceber as intenções de Amelie, correu desesperadamente até um armário próximo e abriu uma das gavetas, procurando algo.

— Mãe, o que você...

A fala de Joseph foi interrompida por um estrondoso som partindo de um objeto nas mãos de Murcy. Amelie, já com uma das mãos na maçaneta da porta, imediatamente foi ao chão, caindo estática e sem vida.

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O sol desaparecia atrás das silhuetas dos prédios altos no horizonte ao longe. Sob os tetos das casas e as torres e chaminés das fábricas era possível perceber os primeiros vestígios do escurecer. As luminárias das calçadas já estavam acesas e as ruas já começavam a ficar desertas. Sob a atmosfera cinzenta e morta de Baldwin, uma menina caminhava a passos largos pelas ruas, atraindo olhares curiosos quanto à sua aparência atual.

Promessas e boas intenções não valem de nada aqui. Achei que depois de tudo você já soubesse disso. Estava próxima de sua casa, porém não tinha a mínima ideia do que fazer quando chegasse. Provavelmente escutaria sua mãe lhe repreender sobre roubar o dinheiro e receberia alguns puxões de orelha. Teria de sentir o maldito cheiro insuportável ao passar pela porta do quarto do irmão. Teria que se trancar em seu cubículo fúnebre e então teria sonhos à noite, onde tudo era bonito e alegre, e de repente terminavam com a sua morte através de um buraco infinito aberto no chão, sendo arrastada por criaturas feias da vida real.

Sua mente está sujada por suas decepções. Até mesmo suas fantasias foram torturadas por toda essa imundície. Você sabe como é, não se pode confiar em ninguém. Todos são inimigos. E, no entanto, você ainda teme a perspectiva de uma vida sozinha. No entanto, não conseguia evitar que o ciclo se repetisse. Melanie sempre estaria correndo de volta para casa e se lamentando sobre o seu travesseiro e, no dia seguinte, sua doce ingenuidade e inocência infantil lhe nutriria novamente de falsas esperanças sobre as pessoas, sobre o mundo e sobre ela mesma. Gostaria de mudar. Gostaria de poder não ser mais tola a ponto de acreditar que ainda teria alguém disposto a consertar os estragos feitos em si mesma. Mudar para esquecer. Sem memórias. Sem expectativas. Sem decepções.

Você poderia ter sido curada, poderia ter esquecido. Mas há esse seu desejo incessante de ser um prego para todos. Deixe que eu faça o que há de ser feito, eu vou acabar com tudo isso. Beth Anne. Johnny. Alexandre. Francis. Lewis. Jose. Joseph. Murcy. Os nomes se repetiam aceleradamente em sua mente, imaginando um destino diferente para cada um. Um destino não tão piedoso. A sede de vingança resumia os sentimentos de Melanie. A ideia de vê-los todos ardendo no fogo do inferno satisfazia a garota, a deliciava. E, embora soubesse bem que haveria sérias consequências, no íntimo de Melanie, havia um desejo estranho, um desejo que até mesmo ela, em seus resquícios de lucidez, compreendia a gravidade. Tudo o que Melanie desejava naquele momento era matar. Literalmente. Não importava quem, não importava onde.

Sua casa. Um monte de tijolos erguidos sobre a desgraça e ruína implícita. Sentia que havia morrido no momento em que passara pela primeira vez pelas portas daquele maldito lugar, quando fora trazida de Rutledge. Aquele lugar miserável a havia adoecido, assim como a todos que passaram por ela. Desejava, um dia, poder assistir aquelas paredes queimando, indo abaixo. De preferência junto com todos os demônios que a assombravam.

Ao girar a maçaneta, foi brutamente recebida por sua mãe, desesperada e visivelmente trêmula. Melanie foi puxada para dentro e a porta foi trancada.

— Menina, perdeu o juízo?! — Murcy parecia estar à beira de um colapso. — Por que não voltou logo para casa? Tem alguém lá fora? Alguém da polícia? O delegado? Responda!

— Não tem ninguém, sua maluca — respondeu Melanie grosseiramente.

Tal audácia, que numa situação comum seria respondida com um puxão de orelha, foi ignorada por Murcy, que passou correndo por Melanie. A garota arrancou a peruca da cabeça e a jogou em um canto qualquer.

Andou em direção às escadas, pretendendo se trancar no quarto e, como sempre, fazer surgir as lágrimas de bebê chorão. Porém, ao passar pela sala, certa visão fez todo o ar escapar de seus pulmões. Esfregou os olhos, imaginando que seria uma peça pregada por sua mente, mas não.

Bem ali, no meio da sala de estar de sua casa, estava o corpo inerte de Amelie McGee jogado no carpete. A mesma Amelie que todos os dias lhe dava um bom dia acompanhando de um sorriso. A mesma Amelie que tentara impedi-la de fazer a maior burrice de sua vida. A mesma Amelie que jurara salvá-la. O corpo jazia ensanguentado e havia um buraco fundo em sua cabeça.

— O que você fez?! — gritou Melanie.

— Cale a boca, maldita! Quer que alguém ouça? É questão de tempo até aparecer uma multidão na porta! — respondeu Murcy.

— Você é maluca? Por que matou ela? — gritou novamente.

— Ela veio aqui me interrogar por sua culpa, miserável! Se não estivesse pelas ruas afora dando uma de prostituta isso não teria acontecido! Ela sabia demais, iria nos entregar!

Melanie não conseguiu encarar o corpo morto por muito tempo. Com a cabeça girando e sentindo-se enjoada, Melanie teve medo de desmaiar ali mesmo. Então, após tantas semanas se convencendo de que nada iria acontecer, finalmente o momento que mais temia chegara. O fim da linha.

De repente, as palavras de Alexandre ecoaram em sua cabeça. “Você não diz nada, ninguém se entrega e em cinco dias eu apareço na sua casa com meu pai e as autoridades. Direi a eles que Murcy matou Jane e Jose e que você ajudou a esconder os corpos, e eu te garanto que o lugar para onde vocês duas irão será muito pior do que qualquer prisão que já tenha visto.” Cinco dias. Se Alexandre cumprisse mesmo tal ameaça, pela manhã seguinte já seria possível ouvir as batidas na porta.

A mistura do cheiro de cigarro ao de morte fizeram Melanie correr para a cozinha e vomitar dentro da pia. Tudo é um prego, não é? Melanie foi ao chão, não tinha mais forças para manter-se em pé. Primeiro foi a sua jornada carregada de ingenuidade e tolice. Sua cabeça continuava girando, seu corpo doía ao mesmo tempo em que uma forte enxaqueca lhe atacava. Agora estamos todos loucos e é um bom motivo para acabarmos no inferno tomando chá com o diabo. Agarrou a própria cabeça, implorando mentalmente para que aquilo parasse. Por um momento, desejou estar no lugar de Amelie McGee. Mas não para esquecer o que você viu. O passado não está morto, nem será esquecido.

— Para! — gritou Melanie de repente, com as mãos cobrindo os ouvidos. — Já chega! Para! Para!

Melanie tombou deitada no chão. Com as mãos ainda coladas nas laterais da cabeça, começou a tremer excessivamente.

Joseph adentrou a cozinha. Ao ver o estado da irmã mais nova, correu até ela e tentou fazer com que ela lhe ouvisse.

— Melanie? Melanie! O que tem de errado com você? — tentava sem sucesso separar as mãos da irmã. — Melanie, responda! Sou eu, Joseph!

No momento em que Joseph pronunciou o próprio nome Melanie começou a gritar alto, como se aquele nome, dito em voz alta, a machucasse. Diante dos gritos incessantes de Melanie, Murcy correu para a cozinha e se agachou em frente à menina.

— O que há de errado com ela?! — perguntou Murcy.

— Ela só começou a tremer e gritar! — respondeu Joseph.

Murcy agarrou um pano próximo e tentou amordaçar a menina. O ato da mãe despertou a atenção de Melanie no mesmo instante, que, ao visualizar o pano próximo ao seu rosto, debateu-se e retirou-o da mão de Murcy.

— Não encosta! Não encosta em mim! — gritou Melanie.

Murcy deu um tapa no rosto da garota.

— Pare de gritar! Vão nos pegar!

Melanie, com dificuldade, levantou-se do chão da cozinha. Seu corpo se movia livremente, literalmente. Não sentia possuir qualquer controle sobre os seus movimentos, porém o ódio ainda se instalava dentro dela.

Seus olhos vasculharam o espaço ao redor até focalizarem em um objeto acima da bancada. Melanie agarrou a faca e no instante seguinte foi possível ouvir os gritos de terror de Joseph quando a garota saltara para cima da mãe e a esfaqueara no peito e na barriga. O sangue escorria para todos os lados, Murcy jazia estirada com os olhos abertos. As mãos e o vestido esfarrapado de Melanie estavam ensopados de sangue quente.

Melanie saiu de cima do corpo da mãe e caminhou em direção a Joseph, que mal teve tempo de dizer uma palavra. Seu corpo caiu inerte no chão, ao lado de Murcy. O corpo de Melanie era tomado por um estranho alívio instantâneo, como se tivesse enfim alcançado a libertação de sua alma. Não havia remorso ou culpa no reflexo de seus olhos, apenas satisfação. Sentia-se leve, como se pudesse sair voando naquele exato momento. A loucura toma várias formas, eu percebo. Mantenha os seus problemas e sofrimentos onde possam ser facilmente esquecidos. Recomece tudo amanhã, quando vierem te levar.

E de repente um choque de realidade se abateu sobre a garota. Fitou a própria mão, surpreendendo-se ao encontrar uma faca tingida de vermelho firmemente presa dentro dela. “O que aconteceu?”. Ao dar meia volta seus olhos encontraram os corpos de Murcy e Joseph. Mortos. Piscou diversas vezes até se convencer de que a cena era mesmo real. Arregalou os olhos e largou a faca. Então entrou em desespero.

Estavam todos mortos. Todos. E a culpada era ela. Melanie fitou novamente os corpos, tentando, sem sucesso, resgatar qualquer indício de afeto por aquelas pessoas para que se sentisse mal o suficiente com o que havia feito. No entanto, havia apenas uma preocupação que rodava em sua mente naquele instante. Alexandre.

Pela manhã, Alexandre bateria à porta. Junte dele, senhor Thompson. E junto aos dois, a polícia. Três corpos mortos e Melanie. Ninguém precisaria refletir muito. Em momento algum de sua vida se recordou de ter experimentado tamanho medo dominando seu corpo. Correu para o quarto, trancou a porta e arrastou seus móveis para a frente da porta, garantindo que ninguém conseguisse entrar.

Não havia escapatória. Não poderia fugir pela janela, considerando a distância até o chão. Seu corpo molhado de sangue iria imediatamente chamar a atenção de qualquer um. De qualquer forma, descobririam os corpos, e então iriam procurá-la. Seria levada presa, ou pior, a internariam. Melanie respirava pesadamente, encostou-se a parede, abraçando as pernas e fechando os olhos já cheios de lágrimas, rezando para que acordasse daquele pesadelo.

Você não vai acordar. Esta é a realidade. E a realidade é suja como deve ser. Melanie pressionou os ouvidos com as mãos. É a sua punição. Seus instintos se tornaram violentos e instáveis. Uma supervisão fará bem a você. Porém, de nada adiantava, a voz na sua cabeça não alterava sequer o seu tom.

— Ela tem razão, querida — de repente, Melanie escutou uma voz feminina falar ao seu lado direito. Não conseguia dizer se a voz era real ou não, mas estava lá, e ela a conhecia. Confusa, levantou os olhos.

Sentada bem ao seu lado, estava Amelie McGee. O buraco em sua cabeça e o sangue escorrendo pelo seu corpo a tornava amedrontadora.

— O quê? — seria possível que estava mesmo vendo sua professora morta sentada ao seu lado?

— Você é uma moça teimosa. É muito distante das pessoas. Nem todo mundo é seu inimigo. Eu tentei te salvar, mas você nunca permitiu. Não ganho nem ao menos uma recompensa, um agradecimento. Acabo no inferno, com um buraco na cabeça.

Por mais que as palavras de Amelie inferissem insatisfação, a sua voz não se levantara nem um pouco, era o seu costumeiro tom calmo.

— Eu... Eu não... — “O que está acontecendo?”.

— Sua mãe tentou me avisar, me disse para ir embora. Por que eu não lhe dei ouvidos? Está recheada de sentimentos de vingança e decepção, uma criança birrenta. E agora, estamos todos condenados.

Melanie voltou a tapar os ouvidos e fechar os olhos, desejando que Amelie sumisse, ou o seu espírito, ou seja lá quem fosse.

— Não! Você não é real! Não é! Não é!

— É uma pena. Eu estava contando com a possibilidade de vê-la de novo — outra voz, dessa vez masculina, disse à sua esquerda. — Quanto sangue derramado será necessário para que você finalmente venha brincar comigo? — Freddie segurava duas bonecas nas mãos. Uma delas era extremamente parecida com Melanie, com o vestido salpicado de líquido vermelho. A outra boneca trajava vestes semelhantes às de Freddie, mas estava sem a cabeça. — Amelie me avisou que nunca aceitasse comida de estranhos. Por que eu nunca aprendi a fazer biscoitos?

— Eu, no entanto, aprendi que não se pode baixar a guarda ao lado dos rejeitados — de repente, outra voz masculina surgiu. Dessa vez à sua direita. Onde Amelie estivera segundos atrás, estava Alexandre. Melanie gritou e recuou. — São os de pior intenção. Ouvi dizer que Rutledge tem um lugar especial para gente assim.

— Não! — gritava Melanie. — Para!

— Eu quis fazer algo — a voz de Beth Anne surgiu à esquerda. — É tão triste um passarinho solitário, eu queria ajudar. Mas as piores ameaças sempre se escondem atrás das coisas mais inofensivas. Johnny nunca reparou em mim, até agora. Neste mundo, temos que aniquilar o que ameaça nos destruir.

— Beth Anne estava certa — Falando no diabo. — Eu sempre tive medo de hospitais. Rutledge é rica e famosa, mas também um centro funesto de ópio, cólera e tuberculose. Dizem que lá os loucos vivem e morrem, e suas almas nunca saem daquelas paredes. Se o seu espírito não vivesse lá, eu bem que poderia ter andado de bicicleta com você de novo.

A voz seguinte foi a de Francis Walter.

— Somente os tolos acreditam que o sofrimento é um pagamento por serem diferentes. No momento certo, a vida sempre dá algum jeito de atrofiar essas mentes, é como uma limpeza para o mundo, e, com certeza, um alívio para mim.

Em seguida, uma voz feminina que Melanie não conhecia surgiu. À sua esquerda, uma mulher de cabelos ruivos e vestes de enfermeira fitava o nada com seus olhos vazios.

— Eu disse ao Cratchet que era um erro. Pressenti assim que a vi pela primeira vez, berrando nos meus braços. Ele poderia ter feito algo. Agora veja só como tudo acabou. Sua alma morrerá onde nasceu.

Melanie não conseguia de forma alguma compreender o que se passava. Nada ali possuía sentido algum. O que a sua mente pretendia com aquelas ilusões? Estavam destruindo-a. Adquirira uma forte dor de cabeça, e as suas mãos tremiam. Já havia pagado o suficiente, o que ainda estava por vir?

Sua pergunta foi respondida pela visão mais assustadora que poderia ter. Ao seu lado, estava ela. O mesmo rosto, o mesmo cabelo, o mesmo vestido esfarrapado encharcado de sangue, o mesmo rosto molhado e sujo.

— O que é diferente não é bom, nem ruim. Apenas não é o mesmo — a mesma voz. — Acha mesmo que foi condenada a sofrer por não ser igual aos outros? — Riu sarcasticamente. — Foi você mesma que causou tudo isso. Você mesma se destruiu. Toda história tem um final. Às vezes não gostamos dele, mas às vezes só não o entendemos. Somente lembre-se de que tudo acabou como acabou por sua culpa.

— Não! Não! Não! Chega! Eu já entendi! Para, por favor! — Melanie gritou.

— Sua fraqueza tornou a sua vida um seriado de auto decepções, se julgava digna a culpar os outros pelos seus próprios estragos. Emergia-se nesse seu mundinho egoísta, pensando estar vivendo a vida que merecia. Esta é a realidade, a realidade é onde está sua alma, a realidade é o mundo a qual foi destinada.

— Eu não quero ouvir! Para!

— As prisões e hospitais psiquiátricos têm muito em comum, são mais do que triste. Estou destinada a passar o resto da vida em um quarto nojento de um manicômio, tudo pelo sofrimento que você mesma se provocou.

— Você não é real! Sai daqui!

— Faça isso valer a pena, pois eu mesma já estou condenada.

Os momentos seguintes aconteceram tão rápido que Melanie demorou a compreender o que havia se passado. A garota ao seu lado a empurrou, e de repente, estava caindo. Voando. Voando em meio a vários relógios que reproduziam um som ensurdecedor. Um buraco infinito de paredes com prateleiras preenchidas com relógios de todos os tipos, tamanhos e cores.

Que familiar. Os ponteiros dos relógios tinham suas peculiaridades. Alguns giravam lentos, outros rápido. Alguns giravam para a direita, outros para a esquerda, e às vezes dois ponteiros de um mesmo relógio giravam em direções contrárias. A cada barulho proveniente daqueles relógios, Melanie sentia sua vida se desvanecendo cada vez mais, e mais, e mais...

O impacto não doera como Melanie esperava, a julgar pela quantidade de tempo que estivera caindo. Seu corpo encontrara a grama macia e verde de um lugar completamente desconhecido. Ao se levantar, pôde ver um tipo de aldeia repleta de pequenas construções. O que teria acontecido? Onde estava seu quarto? Sua cama? Os fantasmas? Não havia nada, somente aquele estranho lugar vazio.

Os pequenos chalés ao redor eram feitos de palha, madeira e, alguns poucos, de alvenaria. As cores que se alternavam entre elas constituíam-se de tons alegres e chamativos. As entradas eram decoradas com arbustos bem aparados e plantas coloridas. Havia árvores altas de galhos fortes fartos de frutos e flores fartas de vida. Aparentava ser um lugar agradável e tranquilo para se viver, isto é, se não parecesse tão suspeito.

O horizonte acabava em montanhas, fazendo parecer que a aldeiazinha era um local isolado do resto do mundo. O céu era azul e limpo e o sol tinha um brilho tão cegante que Melanie não ousou levantar o olhar para ele.

“Isso é... real?” Não. Não era real. Estava imaginando coisas. Estava em seu quarto há alguns minutos, e então surgira naquele lugar suspeito que não possuía uma alma viva sequer. Melanie esfregou os olhos com força, esperando que fosse somente algum delírio. Porém, ao abri-los novamente, teve uma surpresa nada agradável.

Pessoas. Paradas. Olhando. Para mim. Melanie, assustada, fitou atentamente cada rosto que havia ali. No entanto, havia algo ainda mais aterrorizante do que aquela aparição repentina. Pessoas. De plástico. Bonecos. Ainda temendo aquela visão, Melanie forçou-se a se aproximar, levando outro susto ao reconhecer aqueles rostos. Murcy? Joseph? E Jose. E Beth Anne. E Johnny. E Amelie. E Freddie. E Francis. E Lewis. E a enfermeira desconhecida. E pessoas. Bonecos.

Melanie chegou perto daquele que se parecia com Amelie. A cabeça de plástico exibindo um grande buraco fundo. Fitou seus olhos. Verdes como os de Amelie. Ternos como os de Amelie. Vivos como os de Amelie. Berrando a plenos pulmões, Melanie foi levantada no ar por dois braços. Os braços de Amelie. Então todos os braços vieram ajudar a carregá-la. “O que vão fazer comigo? Onde estão me levando?”

Melanie foi levada para dentro de um dos chalés da aldeia e amarrada a uma cadeira de madeira em um quarto pequeno e escuro. Todas aquelas pessoas se retiraram, e então Melanie se viu na mesma sala que pertencia ao médico cirurgião de Rutledge. Cada detalhe e posição dos objetos obedecendo fielmente à sala que visitara há poucas horas atrás.

A porta atrás de si foi aberta. O doutor surgiu no seu campo de visão e foi se sentar em sua cadeira. Doutor? Não. Coelho.

— Antes tarde do que nunca. Espero que não tenham te machucado muito, querida — a cabeça gigante de coelho riu. — Está tudo bem, eu só preciso da minha velha amiga.

O doutor abriu uma das gavetas de sua mesa, retirando apressadamente alguns objetos de dentro dela e jogando de lado tudo o que não lhe serviria naquele instante.

Um relógio de bolso. Eram 08:05. 10:54. Não. Eram 07:20. 03:14. Se ao menos os ponteiros girassem um pouco mais devagar. Tão alta era a velocidade do relógio que acabou por quebrar ali mesmo. Um bule de chá. Um único olho vermelho em sua lateral, olhando fixamente nos olhos de Melanie. Desespero. O bule emitiu um chiado baixo. Me mate. Uma lâmina ensanguentada. Líquido vermelho escorrendo pela mesa e pintando o chão branco. Um pequeno pedaço de bolo. Coma-me.

Por fim, o médico retirou da gaveta uma enorme seringa contendo um líquido rosa-claro. Melanie desesperou-se enquanto o coelho ria.

— Se acalme, querida. Se você colaborar, tenha certeza de que vai doer muito. E prometo que será bem lento.

O médico avançou em direção a Melanie. A garota se debatia, gritando por socorro. O doutor, num súbito movimento, agarrou a cabeça dela e injetou o líquido da seringa em seu pescoço. O corpo de Melanie queimava por inteiro, sua voz havia sumido, seus olhos se encheram de lágrimas e seu único desejo era morrer. O bule chiou novamente.

— Continuamos amanhã, querida.

O médico agarrou a própria cabeça, arrancando-a de seu corpo lentamente. Uma cachoeira de sangue descia pelo seu corpo. Em seguida, dirigiu-se a Melanie, encaixando a cabeça de coelho na da garota, como um capacete. Sua voz ainda não saía. Por dentro daquilo, ela perdia o ar. Segurou para não vomitar enquanto o cheiro de carne e sangue invadia queimando suas narinas. Algo derretia em sua cabeça. Algo semelhante a um pedaço de cérebro. “Alguém me tire daqui, pelo amor de Deus”.

Seu pedido foi atendido. Algo ou alguém lhe arrancou a cabeça de coelho enquanto seu corpo subitamente parava de doer. Respirou fundo de alívio. Não estava mais na sala do doutor coelho, nem em uma cadeira. Jazia deitada numa banheira. Uma banheira de caldo quente. Frango, batatas, cenoura, legumes e olhos?! flutuavam ao seu redor.

— Espero que eu possa morrer antes de ter que ver Cratchet e aquelas piranhas de Rutledge de novo — uma estrondosa voz feminina surgiu acima de sua cabeça.

Ao seu redor, três pessoas. Gigantes. Estavam sentadas à mesa de jantar, onde vários outros pratos e bebidas eram exibidos. Melanie olhou para cima, fitando o rosto da pessoa que falara. Murcy. E Joseph. E Jose. Vestiam roupas habituais de seu cotidiano. Poderia ser uma cena bastante comum se não fosse pelos seus olhos sem orbes. Mantinham sorrisos no rosto, sorrisos superficiais.

— Oh, querida, e eu espero que possamos logo ter essa pequena praga — Jose levou uma das mãos à barriga de Murcy, acariciando-a gentilmente. — Enquanto isso, irei atrás daquela mocinha que vi na padaria.

“O que está acontecendo?” Não havia como aquelas visões serem reais. Melanie estava delirando. Estava louca. Maluca. Meu Deus. Por que aquilo estava acontecendo? Por que não acabava? Seria um efeito colateral de quando se está próximo da morte?

— Já está tarde. Boa noite, mãe. Boa noite, pai — foi a vez de Joseph falar, ainda sorrindo. — Vou para o meu quarto, ignorem a fumaça.

Jose acenou e Murcy mandou-lhe um beijo. Seu irmão desapareceu escadas acima.

— Também vou me retirar — Murcy anunciou. — Boa noite, querido. Esteja de volta às quatro da manhã, no máximo.

— Não se preocupe, meu bem. Estarei. Ah, aliás, o rum está na cozinha.

Murcy voltou os olhos pretos para Melanie, que arfou, e esticou a mão em sua direção, retirando-a da banheira de caldo. Em seguida, a mãe levantou-se da cadeira e dirigiu-se ao seu quarto, levando Melanie numa das mãos. Trancou a porta, largando a garota sobre a penteadeira.

Murcy despiu-se da roupa engomada e trocou-a por um fino robe. Melanie então pôde ver mais claramente a sua barriga redonda. “Sou eu?!”. Em seguida, desfez o penteado, deixando seus cabelos louros e ondulados soltos. Então, sentou-se à penteadeira, abrindo uma de suas caixas de maquiagem e apanhando um lenço umedecido.

— Tome, se limpe, você está uma nojeira — Murcy esticou o lenço na direção de Melanie, que não moveu um músculo. — Anda logo, garota, não tenho a noite inteira.

Hesitantemente e sem entender coisa alguma, aceitou o imenso lenço umedecido. Melanie então começou a se limpar, temendo que aquela Murcy gigante pudesse ficar furiosa se a desobedecesse.

A mulher deixou escapar um riso.

— Eu poderia imaginar qualquer coisa, menos isso — Murcy apanhou outro lenço umedecido, levando-o ao rosto.

Melanie manteve-se em silêncio, ainda concentrada em se livrar da sujeira de seu corpo.

— O quê? Agora não fala mais?

Murcy limpava a maquiagem de seu rosto, livrando-se de todo aquele arco-íris horrendo que habitualmente enfeitava a sua face. Melanie estreitou os olhos. Não se lembrava de alguma vez ter visto sua mãe sem maquiagem. Então estranhou, aquela era mesmo Murcy? Parecia mais bonita sem toda a tinta no rosto, parecia mais jovem, mais humana.

— Espero que aquele idiota morra na volta para casa — resmungou.

Melanie fitou a porta fechada. Talvez estivesse se referindo a Jose. Voltou a olhar para Murcy.

— Se ao menos eu conseguisse me livrar de Joseph também. Poderia dar um jeito em você e simplesmente fugir de toda essa merda.

Melanie tomou coragem.

— Você é real?

Murcy desviou o olhar para a pequena Melanie, olhando-a torto. O único olhar que Murcy sabia exibir a qualquer pessoa.

— Do que você está falando? Sou eu, sua tonta. Por que tem sempre que ser tão irritante?

Murcy levantou-se da penteadeira e dirigiu-se até a mesa de cabeceira da cama, retirando de uma das gavetas uma garrafa de álcool.

— Se eu pudesse já tinha te arrancado de dentro de mim há muito tempo — abriu a garrafa, despejando metade de seu conteúdo goela abaixo.

— O que está acontecendo? — perguntou Melanie. Sua cabeça começava a girar diante de tanta informação e nenhuma explicação.

— Essa família sempre esteve condenada. No final, será o mesmo fim para todos nós — Murcy retirou um pequeno copo de vidro de dentro da mesinha e o encheu até a borda. Foi até Melanie e depositou o copo ao seu lado, que era exatamente do mesmo tamanho do da garota. Então, dirigiu-se até a janela de seu quarto, fitando a cidade feia e cinza.

— Baldwin — Murcy não tentou sequer reprimir o tom de desprezo ao pronunciar o nome da cidade. — Esse lugar cheira a merda. E claro, morte. Meu desejo era poder ver essa cidade arder em fogo antes de morrer. É uma pena que não foi possível.

Melanie não tinha certeza sobre o que fazer quanto ao copo ao seu lado. Aproximou-se e pôs-se na ponta dos pés, sugando o máximo de líquido que pôde pela borda. Seus olhos lacrimejaram enquanto sua garganta queimava.

— Ano após ano, após anos, após ano — Murcy bebeu novamente. — Sempre a mesma merda. Sempre. E sempre. E sempre. Às vezes, tenho inveja daqueles doentes de Rutledge. O que eu não daria por uma tuberculose...

Melanie virou levemente o copo a partir da borda, trazendo mais daquela bebida para si.

— No fim das contas, sempre tive uma pontada de pena de Joseph, embora nunca o tenha amado. Teve a pior mãe e o pior pai que alguém poderia ter. Se um médico clandestino não fosse tão difícil de conseguir eu poderia ter dado um jeito nele também. Eu gostaria de tê-lo poupado.

Apesar de que a sensação de ingerir o líquido fosse horrível, Melanie não conseguia parar, entornando tudo o que conseguisse garganta abaixo.

— E agora se tranca no quarto, fumando e cheirando sabe-se lá o quê. Sinto-me um pouco arrependida de ter dado aquilo a ele pela primeira vez, mas foi um ato de misericórdia. Aos oito anos ele já estava criando consciência do tipo de ambiente que ele vive, se ele tivesse uma válvula de escape, menos dor de cabeça para mim.

A cabeça de Melanie girou ainda mais. Sentia-se extremamente tonta. Cambaleando, teve de segurar o copo com força para que a bebida restante não a molhasse.

— E então você veio — Murcy virou o corpo para fitar a pequena garota cambaleante. — Nunca fui tão amaldiçoada pelo diabo. Por Deus. Por quê? Para quê?

Murcy voltou o olhar para a cidade.

— Nenhum de nós dois tínhamos ficado felizes quando soubemos da notícia. Com certeza fora uma maldição de minha mãe, aquela vaca sempre me odiou, sempre torceu para que o pior acontecesse comigo — Murcy teve de procurar outra garrafa na gaveta da mesa. Abriu-a rapidamente e a virou na boca. — Rezei para que ao menos fosse outro menino, ao menos isso.

Murcy riu ironicamente.

— Merda — a mulher sentou-se em sua cama, claramente já bêbada. — Nunca um som havia me irritado tanto quanto o seu berro no dia do seu nascimento. Nunca havia sentido tanto ódio por alguém.

Melanie largou o copo e sentou-se na penteadeira. Não tinha mais forças nos pés, assim como Murcy, estava bêbada, vendo tudo em dobro.

— Uma menina... Uma menina. Deus, por quê?

Murcy apoiou a cabeça numa das mãos, como se sentisse uma dor muito forte.

— Eu não queria ter que ver aquilo. Não queria colocar uma menina no mundo para passar o que eu passei. Ter de usar aquela maquiagem o tempo inteiro e... Ter de se comportar a mesa, e sorrir e suportar os amigos nojentos do meu pai sussurrando no meu ouvido e apertando minhas pernas. Merda!

Murcy atirou a garrafa na parede. O vidro estilhaçou-se pelo quarto enquanto o restante da bebida manchava a parede cor de creme.

— Ter uma mãe horrível e... Se tornar igual a ela...

Murcy respirou fundo. Era possível ver as gotículas de suor escorrendo pela sua testa.

— Deve ser por isso que nunca amei você — Murcy respirava ofegantemente enquanto se curvava para trás sobre a cama. — Mas no final das contas, você... Nunca foi igual a mim... Não é mesmo, Melanie?

Melanie apenas observava a cena sem qualquer intenção de se pronunciar, embora dado o seu estado, não achava que conseguiria emitir som algum.

— Você sempre... Foi... Forte ah, merda! — Murcy gritou. Encolhendo-se sobre a barriga e perdendo o ar, que voltou alguns segundos depois.

Um líquido transparente escorria pelas pernas de Murcy enquanto ela gritava ainda mais. A porta do quarto foi aberta e uma pessoa entrou, levando um bastão de madeira nas mãos. Melanie fitou o ser sem cabeça com roupas brancas tingidas de vermelho. Olá novamente, senhor Coelho.

O médico parou ao lado de Murcy, que ainda gritava. Levantou as mãos e atingiu fortemente com o bastão a barriga da mulher.

E então, nada.

Mãe?

“Acho que desmaiei”.

De repente, um berro estridente atingiu seus ouvidos. Um bebê.

“Mas onde...?”.

É uma menina.

“Já estou morta? Não consigo ver nada”.

Ai, meu Deus. É um bebê chorão. A frase ecoou em seus ouvidos sem parar.

Ai, meu Deus. É um bebê chorão. Melanie tapou os ouvidos.

“Isso dói, pare!”.

É um bebê chorão.

“Pare!”.

Bebê chorão.

“Chega! Está machucando!”.

Bebê chorão.

“Não!”.

Bebê chorão. Bebê chorão. Bebê chorão!

Uma mão encostou-se ao seu ombro. Melanie gritou e caiu deitada no chão.

“Não, não, não. Já chega, por favor. Acabe com isso, eu não quero, eu não aguento”.

Abra os olhos.

“Não!”.

Abra os malditos olhos.

Baldwin. Baldwin?

“Mas como...?”.

Onde antes havia uma fileira de casas escuras lado a lado, erguiam-se casebres coloridos rodeados de plantas verdes e flores. Nas varandas, mulheres sorridentes brincavam com suas crianças enquanto idosos balançavam tranquilamente em suas cadeiras, tricotando ou lendo o jornal. Das janelas, era possível avistar as criadas agitando lençóis empoeirados enquanto assobiavam canções.

Melanie olhou para o outro lado. As fábricas, que estavam sempre a fazer barulho, expelir fumaça e contaminar o céu, sumiram. Agora, havia torres e pequenos prédios de pedra e madeira, rodeados de hera florida, circundados por cercas finas que abrangiam uma boa quantidade de cães, ovelhas, porcos e patos. Melanie pôde notar um garoto saltando assustando quando um dos patos grasnira e tentara abocanhar-lhe a mão. O menino berrava enquanto uma mulher o pegava no colo e o aninhava, levando-o para longe.

“O que é este lugar?” Baldwin? Não, não podia ser. Baldwin não tinha cores como aquele lugar, não tinha alegria como aquele lugar e não tinha vida como aquele lugar. Os homens que antes andavam apressados e cabisbaixos agora se cumprimentavam entre si e reverenciavam as mulheres enquanto assobiavam alegres. Os cavalos puxando as carruagens eram majestosos e esbeltos, não mais os cadáveres que costumavam andar por aquelas ruas. Havia barulho. Havia energia. Havia felicidade. Uma fantasia perfeita.

Melanie fitou o próprio corpo. O vestido esfarrapado sumira para sempre. Estava limpa dos pés à cabeça e seu cabelo cheirava a lavanda. Usava agora um bonito vestido de cor amarela, que parecia não se sujar, apesar de estar em contato com o chão. Teve uma sensação de paz, como se pudesse ficar deitada ali pelo tempo que precisasse, como se nada nunca mais fosse perturbá-la. Sendo ilusão ou não, permitiu-se rir de alívio.

— Melanie?

O coração da garota disparou ao ouvir alguém chamar seu nome. Virou-se rapidamente, assustada.

— Calma, garota, não precisa se assustar — a cabeça canina riu.

Era um homem alto e magro, trajava camisa azul simples e uma calça vermelha como suspensórios amarelos. Andava descalço. Melanie notou que a camisa estava inteiramente manchada, algo semelhante a sorvete. Uma cabeça de cachorro substituía a cabeça humana.

— O que está fazendo aí deitada? Te procurei por todo lugar! Vamos, vamos, vamos. Não podemos mais esperar.

O desconhecido pegou Melanie pela mão e a puxou. Porém, não hesitou em deixar ser levada por aquele ser. Seu espírito estava em enorme calmaria, pretendia continuar com ela o máximo de tempo possível.

— Onde estamos indo? — perguntou a garota.

— Ora essa, garota — o cachorro tornou a rir. — É claro que estamos indo brincar. Mas é claro, não podemos brincar antes de comer, pois mamãe diz que temos que ter energia para isso. Você por acaso sabe fazer biscoitos?

Melanie pôs-se a rir junto ao seu novo amigo. Permitiu-se aproveitar um pouco mais de tempo aquele lugar estranho e maravilhoso. Continuaria andando, e não ousaria olhar para trás. Seus pés caminhavam sem medo, não temia qualquer buraco que pudesse se abrir repentinamente. Pelo contrário, caminhava tão levemente que poderia sair voando.

Algumas crianças acenavam e gritavam seu nome. Melanie acenava de volta, sorridente, enquanto andava. Qualquer pesadelo ou medo havia se esvaído por completo de sua mente, que lhe fizera o enorme favor de não lhe deixar mais dores ou lembranças ruins. Obrigada. Esquecer seria conveniente, lembrar seria angustiante.

Estava segura. Por ora.

♦ ♦ ♦

A porta do cubículo escuro emitia rangidos ao ser aberta. Um som que irritava profundamente os ouvidos de Arlo Cratchet. Uma pena que não tivesse sabido aproveitar aqueles doces dias em que lhe restavam alguns indícios de dignidade. Reunia todas as suas esperanças e fé num único desejo, o qual era o tema principal de suas preces noturnas. Que eu nunca mais acorde. Mas sempre acordava.

Em seus olhos, as olheiras profundas ficavam cada vez mais visíveis, seu corpo se tornara curvo, dando-o a aparência de um morto. De qualquer forma, não havia nada mais que lhe trouxesse novamente a vida que costumava colorir seu rosto quando mais jovem. O sol o irritava. As pessoas o aborreciam. Odiava a vida. Detestava seu trabalho. Rutledge é o inferno.

Hospital Rutledge: Atendimento Médico, Centro de Operações e Clínica Privada. Paredes o qual ansiava ver caídas abaixo. Quando pensava naquele lugar, só desejava viver a tempo de poder mijar em seus destroços.

— Me desculpe, Cratchet. São tempos difíceis, não há dinheiro para manter todos por aqui. Mas você é um dos melhores, sei que não é exatamente o que você queria, mas vai se sair bem, acredite — Maldito Yern. Ah, como eu gostaria de poder quebrar aquela cara gorda.

Trabalhar com loucos e retardados não fazia parte de suas metas quando decidira cursar medicina na faculdade. Com certeza, senhor Yern. Não gostaria de me amarrar numa dessas salas e me foder também? Aquele departamento nojento sequer era acessível ao público. Os investimentos couberam somente ao lado de fora do hospital, Cratchet, então, era condenado a passar os dias naquele setor esquecido e imundo nos fundos daquele lugar desprezível. Melhor hospital da região? A região pode ir chupar o meu...

— Pensei que ainda estivesse em seu turno.

A irritante voz de Freda Wilson invadiu seus ouvidos. A freira rechonchuda levava um cigarro pela metade na mão. Sua roupa permitia-lhe exibir somente o rosto acabado e exausto, tão morto quanto o de Cratchet. Sua aparência havia tomado uma expressão natural de indiferença. As olheiras profundas em seus olhos eram tão marcantes que poderiam ser vistas até de muito longe. A pele e os lábios estavam completamente ressecados.

Wilson fechou a porta, que rangeu novamente. Tentando equilibrar-se sobre o corpo gordo, sentou-se numa velha cadeira recostada à parede mofada. A cadeira fez um barulho indicando que a qualquer momento poderia quebrar e levar a freira ao chão. Cratchet suspirou.

Há alguns anos, a igreja católica havia decidido comprar a instituição. O resultado era um bando de freiras circulando pelos corredores prestando “cuidados” aos pacientes e pregando a todo momento. Sim, irmã, prometo que irei confessar em breve. O quê? Ah, sim, juro por Deus. Amém. E para sua grande felicidade, isso trouxera Freda Wilson à sua vida. Uma mulher que parecia viver exclusivamente para tirar-lhe cada vez mais a vontade de viver.

— Estou esperando que o cheiro desse lugar me mate — Cratchet respondeu grosseiramente.

— Que eu saiba você ainda tem trabalho a fazer — a freira levou o cigarro à boca.

— E que eu saiba seu trabalho não é ficar passeando pelos corredores afora, irmã. Onde conseguiu a chave do meu escritório?

— Aquele esquisito da recepção não é difícil de enrolar. E me dê um descanso, Cratchet, estou doente. Aqueles dois enfermeiros idiotas estão me matando. Estou ficando sem forças e posso ter um derrame e cair dessa cadeira a qualquer momento.

Por favor, Deus, faça isso acontecer.

— E você ainda vem me encher com essas reclamações estúpidas. Acha que eu tenho saco para isso? Mais uma palavra sua e eu tenho um derrame — Cratchet bufou. Pôs-se a avaliar algumas fichas médicas sobre a mesa.

— Pelo menos você não tem que lidar com aquela menina dia após dia. Por Deus, eu juro que estou a ponto de enlouquecer junto com esses doentes. O amaldiçoo eternamente por ter trazido aquela praga ao mundo, Cratchet.

O caso havia percorrido os ouvidos não só daqueles que trabalhavam naquele setor, mas também de todo o hospital, embora pudessem ter ficado mais surpresos ao saber da existência daquele submundo do que a fofoca em si. Dentre aqueles corredores, era conhecida por “o demônio de Rutledge”.

A menina havia chegado há cinco anos, trazida pela polícia. Segundo sua ficha médica, sofria de demência evidente e esquizofrenia. E, de acordo com as autoridades, somado a alguns bons boatos, a menina fora responsável por um grande massacre em sua própria casa, tirando a vida de toda a sua família e de uma professora. Além disso, dizia-se que havia matado seu próprio pai semanas antes, junto com a esposa de um dos riquinhos da cidade. Já outras pessoas diziam que tudo era parte de uma seita satânica, no qual a garota era o próprio anticristo liderando uma rebelião. Cratchet? Bem, não dava ouvidos aos boatos. Cria somente na teoria mais simples, havia enlouquecido vivendo naquela cidade. Não é a primeira, nem será a última.

Acharam-na em seu quarto, contorcendo-se no chão, coberta de sangue e gritando palavras incompreensíveis. Se fizesse um esforço, Cratchet ainda conseguiria sentir o corpo pequeno da menina em suas mãos no dia em que realizara seu parto, há dezesseis anos. Lembrava-se brevemente daquele momento.

A mãe parecia odiar estar ali, parecia odiar ter uma filha nascendo e parecia odiar viver. O irmão mais novo permanecia imóvel numa poltrona ao lado da mãe, fitando as paredes como se fossem a coisa mais interessante do mundo e ignorando o que se passava ao seu lado. O tique-taque do relógio parecia ficar mais alto à medida que puxava a garota para fora, quase como se algo estivesse prestes a acontecer quando finalmente ouvisse o doce som da inocência de uma criança nascendo. Algo ruim. Quando finalmente nasceu, o relógio pareceu voltar ao normal, porém havia algo diferente. Algo estranho. O ar pareceu pesar. Seu próprio corpo parecia pesar. E, com certeza, seu coração também.

Durante o tempo em que estivera em Rutledge, a garota não respondia a nenhum dos tratamentos medicinais que lhe foram designados. Privação sensorial, terapia de eletrochoque... A menina dia após dia sofria convulsões violentas e crises onde gritava repentinamente enquanto tentava agarrar um dos enfermeiros. Sempre que Cratchet a via, estava presa por camisolas de força e amarrada com cintas a cama.

No dia de seu nascimento, lembrava-se da enfermeira Callum relutando em entregar a menina para a mãe. Aquela enfermeira sempre foi louca. Agora que pensara bem, nem tão louca assim. Parecia pressentir o que estava por vir. Cratchet imaginou o que teria acontecido se todos tivessem ouvido aquela mulher.

— Como ela está? — perguntou, tentando ao máximo transparecer indiferença na voz. Cratchet odiava toda e qualquer alma que habitasse aquele hospital, porém, permitia-se ter algum tipo de sentimento afetuoso pela menina que trouxera ao mundo, mas só um pouco.

— Ah, ainda é o mesmo. Aquela menina tem o diabo no corpo. Ainda me recordo do dia que chegou aqui, debatia-se como se um espírito se apossasse dela. Levaram-na presa a um daqueles quartos nojentos cheios de merda. Pela porta dos fundos, é claro, não suportariam entrar com aquilo pela frente para que todos pudessem ver — Wilson se remexeu na cadeira, que fez outro barulho. — Arrancaram-lhe as roupas e lançaram alguns bons jatos de água gelada enquanto a doida gritava coisas sem sentido. Então me fizeram o enorme favor de designá-la a mim, como se eu um dia tivesse cagado na cabeça de Cristo para merecer isso. Não pode imaginar a dificuldade que é colocá-la naquelas camisas de força, pior ainda, raspar-lhe a cabeça. Sabia que ela quase me furou com a tesoura?

— É, teria sido uma pena — disse Cratchet, não deixando o tom irônico se sobressair totalmente.

— O estado daquela demônia é deplorável. E agora estou pagando por isso, e ainda tem aqueles gêmeos incompetentes. Aqueles enfermeiros conseguem ser mais burros do que uma porta. Como tiveram coragem de entregarem a eles um caso extremo desses?! Enfim, deixei-os brincando com a menina, disse que não parariam de me perturbar até que eu os deixasse medicá-la com sanguessugas, mas sabe-se lá o que estão fazendo de verdade com ela. É bom que a perda de sangue faça-a me dar menos enxaqueca — Freda Wilson jogou o resto do cigarro no chão, apagando-o com o sapato. — Eu avisei que seria mais conveniente algumas sessões de exorcismo, mas ninguém me ouve. Que Deus me tenha, pois eu não suporto mais — a freira beijou a cruz que levava pendurada ao pescoço.

— Que Deus tenha a mim, eu não suporto mais a sua voz, irmã. Deixe-me em paz antes que eu mesmo resolva tomar o lugar da menina, as sanguessugas me parecem mais convidativas do que a sua presença.

Wilson levantou da cadeira, andando desajeitadamente sobre os pés gordos. O irritante rangido da porta fez o doutor bufar. Organizou suas fichas médicas e as lançou numa das gavetas de sua mesa. Recostando-se na cadeira, tomou novamente as reflexões sobre a sua triste e condenável existência.