CRY BABY - The Storyfic
4 Carousel
No momento em que despertara, a luz que vinha da grande janela do seu quarto a cegou, o que a fez esconder-se debaixo de seu cobertor. Sua cabeça doía. Tentou recordar os acontecimentos da noite passada. Lembrava-se de ter levantado da cama no meio da noite, e lá embaixo havia sua mãe, seu pai, havia Jane Thomson, e então havia gritos, ela desceu e... E havia os corpos, estavam debaixo do lençol. Os corpos tinham o lençol, o lençol tinha sangue e Melanie tinha medo. E sua mãe aparecera e a fizera beber uma coisa esquisita, não lembrava exatamente o gosto que possuía, estava aterrorizada demais para pensar nisso. E então desmaiara e acordara em sua cama.
Mas e agora? Temia o que aconteceria em diante. É claro que em algum momento Richard Thomson iria sentir falta da própria esposa, ele iria procurá-la. Além disso, Jose era seu empregado, procuraria por ele também, e viria à sua casa, e chamaria as autoridades, e levariam ela e seu irmão para fora dali para sempre! Não, não, não, não, não. Tudo iria terminar bem. Ninguém iria saber, ninguém. Murcy com certeza inventaria alguma coisa, diria que não fazia ideia de onde o marido poderia estar, choraria um pouco e assim não suspeitariam.
Levantou da cama e, receosa, saiu do quarto. Ao passar pelo quarto do irmão, notou que a porta estava aberta, o que significava que já havia acordado. Melanie, lentamente, desceu a escadaria.
Na cozinha, Murcy e Joseph tomavam tranquilamente o café da manhã. Sentou-se à mesa e, como de costume, ninguém lhe deu bom dia. Fitou discretamente a mãe. Murcy vestia um robe azul, os cabelos louros estavam presos a um lenço e, como sempre, o rosto repleto de maquiagem forte. Chamou-lhe a atenção o fato de estar lendo jornal, costume diário do pai. Mel não se lembrava de uma única vez ter visto Murcy ler alguma coisa na vida. O que ela poderia estar fazendo? Verificando se os desaparecimentos já foram noticiados? Improvável. Murcy esboçava um meio sorriso, quase imperceptível, enquanto agitava tranquilamente a xícara de café na mão. Joseph correu os olhos ao redor do ambiente, como se, de repente, tivesse dado falta de algo.
— Ei, onde está o meu pai? — perguntou.
Melanie abaixou a cabeça, esperando que sua mãe já tivesse alguma resposta na ponta da língua. Tentou manter a calma e lançou um olhar curioso para a mulher, como se também quisesse saber a mesma coisa.
— Ah... Ele... Eu não sei, não voltou para casa ontem — Murcy bebericou da xícara.
— Mas ele sempre está aqui de manhã, o que aconteceu? Onde ele foi? — insistia o irmão, aborrecendo Murcy.
— Eu já disse que não sei — Murcy respondeu grosseiramente.
— Como não sabe onde ele está? Você não é a mulher dele? E se algo tiver acontecido?
Melanie queria voar por cima da mesa e calar a boca do irmão. Pelo ponto de vista dele, a situação era mesmo muito estranha, mas quanto mais Murcy fosse questionada, mais fácil a verdade viria à tona. Melanie temia que Murcy pudesse fazer com Joseph o mesmo que fizera a seu pai e Jane Thomson caso ele continuasse.
— Joseph... Cale essa boca — retrucou a mãe, em baixo tom de voz.
— Ele estava te traindo de novo?
A ira nos olhos de Murcy era totalmente visível, e a tensão pairando no silêncio ensurdecedor que se seguiu à fala de Joseph era quase palpável. Murcy nada disse, e diante do olhar da mãe, Joseph também não. Percebendo o que havia feito, Joseph não ousou fazer mais perguntas, apenas bufara, revirara os olhos e cruzara os braços, esticando-se na cadeira. Melanie continuara em silêncio.
Murcy baixou os olhos cheios de fúria para a sua própria xícara, agitando-a novamente, fitando o líquido escuro dançando para lá e para cá.
— Termine seu café e vá logo para aquela porcaria de festival — o seu tom baixo de voz era quase arrepiante, como se ela pudesse fazer algo imprevisível a qualquer momento. — Quanto menos eu tiver que ver a sua cara, melhor.
Festival! A palavra agiu como se despertasse a garota de repente. Com tudo o que acontecera, Melanie havia se esquecido completamente do tal festival. E se Joseph iria, Murcy não teria nenhuma boa razão para impedi-la de ir. Sem contar que nada faria mais feliz à mãe do que se livrar das suas pestes de sua vida, por pelo menos um dia.
— Eu posso ir também? — perguntou Melanie, falando pela primeira vez naquela manhã.
Murcy olhou para ela surpresa, como se o evento da garota querer sair de casa para outro lugar que não fosse a escola fosse incrível.
— Ora, vá. Como se eu fosse negar um dia inteiro relaxando em casa — Murcy certamente parecia mais feliz depois daquilo.
Melanie subiu para o seu quarto. Colocou um vestidinho azul simples e sapatilhas pretas. Sua mente sonhadora e (ah, Deus!) apaixonada apenas questionava o universo se ela encontraria Alexandre, e queria encontrar, mas claro que ela nunca mencionaria esse detalhe à mãe ou a qualquer um. Murcy, com certeza, não ficaria feliz em ver que depois do ocorrido, Melanie estava saindo com o filho da amante morta de seu marido morto.
Joseph saiu de casa e foi andando apressadamente à frente, indo até os arredores da escola de Melanie, onde aconteceria o festival, sem mesmo esperar a irmã mais nova. Mel estava tão animada, tão ansiosa, nunca havia frequentado nada parecido. Não fazia ideia de como seria, mas esperava que fosse perfeito, um dia do qual ela nunca se esqueceria.
Como se por uma vez na vida o universo tivesse escutado seu pedido e estivesse a seu favor, um pouco antes de onde acontecia o festival, Melanie avistou ao longe um menino de cabelos louros que acenava para ela. Melanie sentiu-se ainda mais feliz, tendo certeza de que tudo seria mesmo perfeito, nada poderia estragar aquele momento de felicidade na escuridão eterna na vida da bebê chorão. Alexandre correu até ela com um grande sorriso no rosto.
— Melanie! Não acredito que está aqui, não sabe como estou feliz agora — Alex puxou a mão da menina e depositou um beijo nela.
— Está? — perguntou Melanie, tentando não demonstrar o surto de felicidade que invadia seu corpo naquele exato momento.
— Mas é claro. Eu queria ter te chamado para vir comigo antes, mas... As coisas lá em casa não estão muito bem.
— Ah... É? Por quê? — Melanie sabia muito bem o porquê, mas tentava disfarçar ao máximo o nervosismo diante da fala dele.
— Bem, todos estamos preocupados, não vimos minha mãe noite passada, e ela não apareceu hoje de manhã. Katherine não para de berrar e chorar pelos cantos da casa, e meu pai está surtando, disse que iria à polícia logo hoje cedo e vai providenciar grupos de investigação imediatamente. Não se surpreenda caso a primeira página dos jornais só noticiem isso daqui em diante, não duvido que ele também pense nisso.
Não, não, não, tudo estava perfeito demais para ser verdade. Se o senhor Thomson descobrisse que o "desaparecimento" de Jane se dera na mesma noite que Jose Martinez, ele teria o dobro de perguntas a fazer a Murcy.
Melanie engoliu em seco, temendo começar a suar ou tremer.
— O que foi, Melanie? Você está pálida... Está tudo bem? Precisa de alguma coisa? — perguntou Alex.
Melanie teria achado fofinha toda aquela preocupação dele se não estivesse naquela situação. Não, não podia deixar que o menino visse que estava nervosa, isso a tornaria suspeita.
— Eu estou bem — Melanie deu um sorriso fraco. — E como você está lidando com tudo isso?
— Ah... — Alexandre fitou os próprios pés. — Eu não sei. Sim, eu estou preocupado, mas... Eu não quero parecer insensível, mas eu não sinto como se fosse verdade. Sinto que ela vai voltar a qualquer momento e que não há razão para se desesperar — Alexandre voltou a olhar em seu rosto. — É como se ela só tivesse saído para comprar sapatos, entende?
Talvez. Talvez ela entendesse. Era como se fosse algo surreal para ele. Algo difícil demais para assimilar. Era semelhante ao sentimento de Melanie ao estar naquele festival, com ele, ela não podia acreditar, bom demais para ser verdade. Sua única intenção ali era se divertir, não pensar em pais traidores, em amantes mortas ou mães assassinas. Por uma vez na vida, Melanie só queria se sentir como uma garota normal, indo a um festival com o garoto que gosta. Ao mesmo tempo, era uma situação para lá de estranha. Melanie era qualquer coisa, menos uma garota normal, e certamente não sabia como agir como uma garota normal.
— Sim, sim, eu entendo. Eu sinto muito pela sua mãe, mas hoje eu só quero passar um tempo divertido com você...
— Claro, eu também quero isso — Alex ofereceu o braço à Melanie, que aceitou de bom grado. — Vamos entrar.
A entrada do festival se dava em um grande arco de cor rosa pastel decorado com bonitas flores e fitas coloridas. Acima do arco, uma grande faixa, presa a duas compridas hastes de ferro de cores vermelha e branca em espiral, dizia "Bem-vindos" em uma caprichada letra cursiva preta.
Para Melanie, estar naquele lugar era como entrar em outro mundo. Tudo era repleto de cores, vida e era bastante movimentado, agitado e barulhento. Por todos os lados seus olhos viam mais brinquedos do que se era possível contar. Adultos andavam para lá e para cá, rindo e conversando, e as crianças corriam alegres carregando algodão doce em suas mãos.
Perto dali, havia um brinquedo semelhante a um circo, mas muito menor, era inflável e nas laterais podia se enxergar o que acontecia lá dentro: várias crianças pequenas pulando e pulando sem parar. Havia também um circo de verdade, com uma grande tenda de cor igual às hastes da entrada e uma grande piscina de encher cheia de bolinhas coloridas que não se aquietavam devido aos pulos e agito das crianças que nelas brincavam.
Melanie localizou outro brinquedo, que o achou magnífico pela sua peculiaridade. Xícaras gigantes de cores pastéis, que possuíam guarda-sóis acima delas, dentro delas pessoas de todas as idades giravam sem parar. Ao longe, avistou o maior brinquedo do parque, uma roda gigante, nunca havia ido a uma e ansiava por aquilo. Além dos brinquedos, havia várias barraquinhas, algumas eram jogos onde se podiam ganhar prêmios e outras eram de comidas, bebidas e doces. Melanie estranhara a sensação, mas sentira que aquele lugar se assemelhava ao país das maravilhas dos seus sonhos.
— Com licença — uma voz estranha manifestou-se ao lado direito de Melanie. —, quantos ingressos?
O homem se escondia dentro de uma grande cabine de bilheteria. Era alto, magro e trajava uma roupa vermelha com detalhes em dourado bordados por toda a roupa, além de ombreiras. Usava uma grande cartola preta e um bigode comprido que levava abaixo um fino sorriso que não transmitia muita confiança. O rosto era inteiramente pintado de maquiagem branca e seus olhos eram envoltos por um uma forte tinta preta. Nos cantos de sua boca, traços puxados para cima por tinta da mesma cor tornavam seu sorriso ainda mais arrepiante. Ele lembrava um fantasma à Melanie, como se não fosse real, apenas uma atração feita para assustar as pessoas.
Alexandre entregou dinheiro ao homem e lhe pediu dois ingressos sob a insistência de Melanie, que lhe implorava que não fizesse aquilo por ela, a qual o garoto não deu atenção. O homem soltou um "aproveite bem" em tom baixo quando passaram pelo arco, o que fez Melanie não o querer ver tão cedo novamente.
Andaram pelo festival observando tudo ao redor, tentando decidir em qual brinquedo iriam primeiro. O coração de Melanie acelerou quando, no meio do caminho, Alex segurou em sua mão, o que a fez ter que virar o rosto para que ele não notasse o seu sorriso e seu provável rubor nas bochechas.
Os dois pararam em frente a uma máquina de algodão doce.
— Você quer um? — perguntou Alex. Melanie assentiu e, novamente, ele pagou, deixando Melanie a pensar se ela valia mesmo todo aquele dinheiro sendo gasto.
Assim que Melanie recebeu o algodão doce nas mãos, a visão do homem da bilheteria atrás da máquina a fez se assustar. Fitou Alex, mas ao contrário da garota, ele nem parecia ter percebido que era a mesma pessoa. Voltou a fitar o homem, que exibia um sorriso sinistro. Melanie sentiu um calafrio ao imaginar se aquele homem os estaria perseguindo.
Alexandre puxou Melanie para longe e os pensamentos sobre o homem fantasma foram varridos de sua mente em um segundo. E, então, finalmente notou que segurava um algodão doce nas mãos, puxou um pedaço e o colocou na boca. Não se lembrava de alguma vez na vida ter comido aquilo, certamente era um novo gosto para ela, era doce, e derretia na boca, os grãos de açúcar eram perceptíveis à medida que ia derretendo. Encheu a mão com um punhado do doce e o enfiou na boca, sentindo mais daquele sabor. Alexandre olhou-a com estranheza, possivelmente por aparentar estar comendo como se não visse comida há dias.
— Não precisa disso tudo, o algodão doce não vai fugir.
Melanie imediatamente sentiu seu rosto esquentar, se dando conta de como parecia ridícula. Desculpou-se a Alexandre, mas o mesmo sorriu e a puxou para as xícaras gigantes. Melanie jogou o resto de algodão doce numa lixeira e subiu para o brinquedo, sentando-se ao lado de Alex.
Quando as xícaras começaram a rodopiar, Melanie levou os braços ao alto e gritou alegremente, o brinquedo lhe deixava tonta, mas era divertido. Ao contrário dela, Alex estava quieto ao seu lado, segurando-se para não escorregar do banco da xícara gigante. Mel notou que ele abaixava a cabeça, talvez estivesse com medo. A menina saíra saltitante do brinquedo, não se divertia dessa maneira desde... Bem, sempre. Alexandre vinha logo atrás dela.
— Isso foi incrível! — gritou Melanie.
Alex se aproximou e sussurrou em seu ouvido:
— Pode, por favor, se controlar? — Melanie não entendeu o que ele estava dizendo, estava apenas se divertindo, que mal ele via nisso?
— Como assim?
— Não há necessidade de escândalos, é somente um brinquedo, parece uma criancinha indo pela primeira vez — Melanie estava indo pela primeira vez, mas não disse isso a ele.
Estranhou o comportamento repentino do garoto. Não encarava aquilo como escândalos, só estava alegre, todos no parque estavam alegres. Por que ele estava tão sério em um lugar como aquele?
— Tá bem, me desculpe, não faço de novo — respondeu Melanie, contra a sua vontade, tentando descobrir o que o deixara tão chato daquela maneira.
— Sim, seria bom — e a puxou novamente.
Melanie perdera a conta de quantas vezes aquela mesma situação se repetira ao longo do dia. Brinquedo. Diversão. Repreensão. O garoto parecia querer estar em qualquer lugar, menos ali. Por alguma razão, que certamente era incompreensível para Melanie, Alex se incomodava com o fato da garota estar se divertindo. Não entendia o que se passava com o menino, mas sabia que naquele momento a sua única vontade era de lhe socar o rosto.
Fizeram uma pausa para comer. Alex saiu para comprar pipoca e cachorro quente, deixando a menina sozinha em frente ao circo de tenda branca e vermelha. Ao início do dia, Melanie não cogitara a possibilidade de ter esse pensamento, mas seu desejo era de sair daquele lugar o mais rápido possível. Quando chegou ali, imaginou que tudo seria mágico e perfeito, como um espetáculo do circo que se encontrava atrás dela, mas, agora, tudo parecia mais como um circo de horrores.
Melanie havia se enganado sobre Alex gostar dela, afinal, passara todo o dia lhe dando broncas e sermões por não agir conforme ele queria. Ele lhe fizera perder o encanto pelo garoto de cabelo louro que sonhava em explorar o mundo. Melanie apenas queria de volta o Alexandre que conhecera em seu quarto. O quarto era seu país das maravilhas. O mundo real, seu abismo fim. Então, repentinamente, tudo pareceu fazer sentido.
Dentro do quarto, conhecera um Alexandre completamente diferente. O mundo real havia feito o que fazia de melhor, revelar o pior lado de tudo e todas as coisas. O mundo real havia retirado a sua máscara e revelado a verdadeira pessoa que era Alexandre. E, então, Melanie sentiu medo de que esse mundo também a corrompesse, sentindo um súbito desejo de correr para casa naquele exato instante.
— Está perdida, senhorita? — uma voz atrás de si perguntou.
Ao se virar, Melanie novamente sentiu-se aterrorizada, a voz pertencia à mesma pessoa. Agora, não havia dúvidas, aquele homem era um maníaco perseguidor. Melanie afastou-se, temendo o que ele pudesse fazer.
— N-Não, estou esperando alguém — correu os olhos pelo festival, rezando para que Alexandre não estivesse muito longe.
— Talvez não devesse esperar — e dando seu maléfico sorriso fino, ergueu o pano da entrada do circo, dando passagem para que a menina entrasse.
Tremendo, Melanie virou-se, preparando para correr o mais rápido possível para longe do estranho, mas chocou-se fortemente com outra pessoa, ambos caindo no chão. Era um menino um pouco mais alto que ela, de cabelos castanhos, grandes olhos azuis e bochechas naturalmente coradas, que se levantou rapidamente e estendeu a mão para ajudar Melanie a se levantar. Aceitou a mão do garoto e depois bateu em seu vestido, retirando a sujeira.
— Me desculpe, eu não te vi, está tudo bem? — o garoto deveria ter no máximo treze anos.
— Sim — Melanie olhou para trás, o homem não estava mais lá, havia sumido. Em seu lugar, havia duas garotas altas, certamente mais velhas, a observando com desprezo.
— Me perdoe, sou um pouco distraído. Muito prazer, sou Johnny — o menino estendeu a mão novamente, dessa vez com intenção de cumprimentá-la.
Mel aceitou o cumprimento, mas sem dizer seu nome, para que pudesse sair logo dali. O homem fantasma estava lhe causando mais arrepios a cada minuto e não queria, de forma alguma, encontrá-lo novamente. Johnny abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por Alexandre, que se infiltrara no meio dos dois. Ignorando Johnny, Alex se dirigiu a Melanie:
— Posso falar com você?
Alexandre se afastou e Melanie o seguiu, ele não levava comida alguma nas mãos, o que fez a menina questionar o que estivera fazendo todo aquele tempo. Alexandre não parecia nada feliz.
— Posso saber o que estava fazendo com aquele menino?
— Hã... Nada, eu nem o conheço.
— Vocês nem se conhecem e estão trocando toques?
Melanie arqueou uma das sobrancelhas, não podia acreditar que no que ouvia. Alex demonstrava ciúmes de um aperto de mãos, e ainda conceituara como "troca de toques". Há alguns dias atrás, teria achado a situação fofa, mas agora, ele parecia somente ridículo.
— Nós apertamos as mãos — disse o óbvio para o garoto.
— Que eu saiba, ele não é nada seu para que tenha contato dessa forma. Você pensa que poderá sair por aí apertando mãos de rapazes quando formos casados?
— O quê?
— O que as pessoas vão dizer se virem minha esposa se entregando a outros homens como uma prostituta? — uma súbita raiva dominou Melanie por inteiro. Queria bater em Alex mais do qualquer coisa, mas apenas manteve o controle e cerrou os punhos.
Alexandre, basicamente, a estava proibindo de chegar perto de outros garotos, lhe chamara de prostituta e ainda conseguia se referir à Melanie como sua "esposa". Melanie sentiu-se uma tola por não perceber antes o que acontecia: O fato de Alexandre ser apenas mais uma encarnação da maldade presente naquele mundo, e o fato de a sua família e a família dele não possuírem absolutamente nenhuma diferença.
Quando a família Thomson chegou à sua casa, Melanie pensou que fossem os seres mais perfeitos do mundo, mas agora via que, em todo esse tempo, apenas também fingiam um para o outro. Jane Thomson traía o marido. O garoto era só uma alma horrível dentro de uma falsa máscara. E sabe-se lá o que a irmã aprontava, escondendo-se atrás daquele rostinho rosado e inocente. Tudo se resumia aos enganadores sendo enganados. No entanto, Melanie sentiu-se aliviada por descobrir a verdade antes de fazer a maior besteira de sua vida. A última coisa que queria era acabar como a mãe e dar sequência à longa linhagem da família da casa de bonecas.
— Eu nunca serei tão burra a ponto de querer me casar com você, Alexandre. Você é um monstro, e eu quase não percebi a tempo.
— Você não pode fazer nada, nossas famílias já planejaram tudo. E se eu tiver que me casar com você, eu quero que você aja decentemente. Pode agir como quiser dentro de casa, mas quando estiver comigo em público de comportará devidamente e não me fará passar vergonha.
Involuntariamente, a mão de Melanie se ergueu e desferiu um soco bem forte no rosto do garoto, que caiu de costas no chão. O menino choramingava com a mão no nariz.
— Se algum dia eu me casar com você, diga para me internarem — a voz de Melanie saíra mais alta do que pretendia. Algumas pessoas pararam para olhar. — Nenhuma pessoa vai querer se casar com alguém como você.
Melanie ouviu uma voz feminina muito aguda chamar o nome de Alexandre e procurou de onde vinha. Ainda na frente do circo, estavam as duas meninas bobocas acenando para o garoto e dando risinhos. Aparentemente, a traição predomina na genética daquelas famílias. Alexandre se levantou com raiva, o nariz sangrava, mas não parecia ter quebrado.
— Escute aqui, sua louca, nunca mais faça isso ou você vai ver o que é bom para a tosse. Pare já de agir como uma criança e aceite, nós vamos passar o restante do dia juntos e você vai se casar comigo. Vamos.
Alexandre puxou a mão de Melanie, pisando forte enquanto andava. A menina tentou se soltar, mas ele a segurava fortemente. Melanie gritava para que lhe deixasse ir embora, e algumas pessoas olhavam desconfiadas para a cena, que aparentava um sequestro.
Os olhares direcionados a Alexandre não parecia incomodá-lo, pois seguia seu caminho sem nem abaixar a cabeça. Melanie notou que estava sendo levada até um brinquedo em que até aquele momento nem notara que estava no festival. Era um carrossel. Enorme, colorido e muito iluminado, como se uma parte a mais da luz do sol fosse propositalmente destinada a estar acima do brinquedo. O carrossel era isolado, e aquilo preocupou Melanie em dobro.
Não havia uma única criança nos cavalos de plástico. Melanie não entendeu, visto que o festival estava lotado. Mas o que fez Mel paralisar no lugar em que estava foi a visão do homem fantasma controlando a entrada do carrossel, o mesmo sorriso fino estampado em seu rosto, nada convidativo e extremamente aterrorizante. Parecia que o homem estava ali justamente esperando por ela, como se soubesse que seria levada até lá.
— Pare de complicar as coisas — disse Alexandre. — Eu já disse, nós vamos ser um casal, vamos agir como um — e a puxou novamente.
— Eu não vou entrar aí! — gritou Melanie. Tentou fugir, mas Alex a agarrou com ainda mais força.
— Pare de resistir! — o garoto gritou de volta.
— Não!
— Você não entende? Esse é seu destino! Seu destino é ficar aqui, para sempre! — disse Alexandre, gritando e puxando-a ainda mais forte.
— Não! Não! — sua força, mesclada ao seu medo, finalmente a libertou. Assim que sentiu que Alex não a prendia mais, correu. Correu sem parar até a saída do festival, correu como se o chão estivesse se abrindo atrás dela.
Quando chegou ao grande arco enfeitado, tomou coragem para parar por um segundo e olhar o carrossel, muito ao longe. Alexandre estava em pé, imóvel, de cabeça baixa. O homem fantasma se encontrava atrás dele, com uma das mãos em seu ombro, como se o estivesse consolando, e olhando fixamente para Melanie, acenando para ela.
Melanie correu para casa, sabendo que não sairia de lá tão cedo.
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