Um tempinho se passou e mais um feriado chegou. Ou seja, fui para a cidade das recordações. Belas e estúpidas recordações.

Fui até a casa de vovó mas todos estavam fora. Como tio Chris já havia deixado uma cópia da chave comigo, não perdi viagem. Em seguida, fui na casa de Zô mas ela havia viajado. A única coisa que me restava a fazer era sentar na praça e apreciar um belo sorvete.

Sentei-me em um dos banquinhos estrategicamente na frente do sol. Ele ia derreter mais rápido o meu sorvete, deixando-o morno e não dando choquinhos nos meus dentes, já que estes são sensíveis.

—Ai, esqueci de marcar a dentista de novo! Droga!-continuei tomando o sorvete de olhos fechados, curtindo a brisinha que passava.

—Dulce?-aquela voz fez o meu corpo gelar. A reação foi bem pior do que sorvete nos meus dentes. “CRAAAASH-TURU TURU TURU TURU TURU TURU TU”

—Alfonso!-abri os olhos devagar. “Como é que você consegue estar mais lindo?”-me levantei.

Sem eu perceber, ele me puxou pra um abraço. Não resisti pois entendi que aquilo me fazia falta.

—Tudo bem contigo?-disse assim que nos sentamos no banquinho. “Droga, que cheiro bom!”-me sentei.

—Acho que sim… E com você?-olhei pro meu sorvete e falei baixinho.

—Bem.-um silêncio sufocante se estabeleceu entre nós por alguns instantes.

—E as aulas de direção?

—Ah, eu consegui passar na prova! -respondi toda feliz.-Só falta pegar a carteira, ;D!

—Que show! Daqui a pouco você vai poder praticar rally comigo! “Com você eu praticaria… Hm. Dul, se controla!”

—kkkk…-o silêncio não tirava folga. “É hoje!”

—Dulce, eu.. É, eu…-senti que ele iria tocar no assunto que me machucava mas desviei.

—Como está o Felipe?-ele sorriu.

—Está meio chateado por causa do que aconteceu com o avô.-disse me parecendo desnorteado.

—Ele é criança não entende nada ainda.-eu disse.

—Mas tem sentimentos!-disse como se me cobrasse alguma coisa.

—E você, Poncho?-estourei com o baterista. -Tem sentimentos? Por que não me dá uma oportunidade?-me levantei, ficando de frente pra ele. -A gente pode ser feliz juntos, eu..

—Dulce, quando eu te disse que a gente…-não quis ouvir nada.

—Tenho que ir embora!-soltei um suspiro.

—Já?! Mas você a gente nem ficou direito, digo, se falou!-ele se levantou, estava todo confuso.

—Fiquei e falei! Estive aqui, trabalhei, aprendi o que devia e não devia…-ri de forma irônica.

—Você não é pra mim, pequena! Eu não te mereço.-ele dizia, alisando o meu rosto.

—Pára com essa história! Que complexo mais besta que você tem… Quer saber? Você venceu! Adeus, Poncho!-saí dali correndo, como sempre.

—Dulce…

Passei na casa de vovó e vi a chave do carro de tio Chris em cima da mesa. Sem que ele notasse, peguei-a e fui para o estacionamento.

Chegando lá avistei o carro e senti um enorme sufoco na garganta.

Sentei no banco do motorista e comecei a chorar. Eu não queria, lutei contra aquela vontade mas não consegui. Minhas lágrimas eram mais fortes.

Eu não queria ser a heroína do Poncho, a mulher maravilha ou anjo. Apenas a mulher que ele amava. Era esse o meu sentimento por ele. Eu não tinha que provar pra sociedade que ele não era traficante, eu não tinha que provar que o meu amor por ele não era de interesse, por mais que ele fosse rico e dez anos mais velho que eu.

Nossos pais abençoariam nossa relação. O céu, a lua, as estrelas e tudo a minha volta já testemunhavam o meu amor. Porque ele não assumia? O que custava?

Bati minhas mãos no volante de desespero. Sempre que meu coração se agoniava uma agressividade me subia. Eu achava que nada poderia arrancar aquelas dores do meu peito até ouvir aquelas batidas.

Mais uma vez as batidas singelas resolveram me fazer companhia, combinando com as batidas dentro de mim. Dessa vez eu não iria deixar o meu anjo protetor ir embora. Eu não tinha muito tempo. Em menos de 3 minutos ele iria parar de tocar. Tocar o meu coração.

Saí do carro com apenas uma intenção: encontrá-lo aonde quer que fosse. Por onde começar a procurar eu já sabia. Aquelas casas ao lado do estacionamento, só tinham acesso por um lugar. A ruela, sem-saída, de trás.

Fui até lá e me deparei com um churrasco no meio da rua, um som ligado no último volume. Tudo pra me deixar mais confusa mas eu só deveria seguir as batidas, que estavam saindo de um grande prédio branco com um portão de madeira, que pra minha sorte estava meio aberto.

Fui subindo as escadas, ouvindo atentamente cada som diferente. Eram dois apartamentos por andar mas isso não me fazia desistir. Eu só queria ser feliz, havia algo de errado na minha decisão?

O tempo estava passando e eu só havia subido quatro lances, pelos meus cálculos ainda faltavam mais dez. Uma angústia começou a invadir o meu peito, o desespero dava o ar da graça de novo.

Aquela escada parecia nunca acabar… E a música começou a se enfraquecer, como o meu coração… Eu só precisava de uma batida, de uma batida a mais pra mudar a minha vida. Foi quando eu ouvi um “CRASH” bem perto do meu ouvido. Eu sabia o que significava aquilo. A música havia acabado.

Ao olhar atrás de mim, vi uma porta com o símbolo de um tambor pendurado, segurando o número que correspondia ao apartamento.

Sem pensar, toquei a campainha e apertei minhas mãos de tanto nervosismo. O que eu falaria pra pessoa que estava atrás daquela porta? O que eu faria quando a visse? Eu estava louca, eu estava desesperada… Eu só queria liberar o amor que estava dentro de mim, só queria fazer essa pessoa feliz como ela me fez sem saber da minha existência. Por que tanta demora pra abrir uma porta? Você está aí, estava tocando meu coração! Quando eu resolvi bater na porta, ouvi o destrancar dela.

Em uma atitude reflexiva, dei um passo pra trás… Eu só vi um sorriso e par de olhos iluminando tudo o que estava a nossa volta, inclusive a mim. Iluminando o meu rosto, me fazendo sorrir de novo. O dono dessa luz se aproximou de mim dando um dos beijos mais doces que já ganhei, fazendo meu coração disparar, bater compulsivamente, desejando que aquele momento fosse eterno.

—Enfim me escutou te chamar, pequena!-ele dizia acariciando meu rosto. -Eu te amo, Dulce!

—Só segui as batidas, Herrera… -sentia nossos corações agitados naquele abraço que tanto me completava.

—As batidas do meu coração!-dissemos juntos.

FIM

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