CRASH – UMA BATIDA A MAIS
1 Capítulo 1
CAPÍTULO 1
Nossos corpos foram jogados pra frente, em cima do painel. Salvos pelo cinto. O famoso cinto de segurança.
—Meu carro bateu! MEU-CAR-RO-BA-TEEEEEEU!!!-meu tio dizia com a cabeça encostada no volante.
CRAAAAAAAAAAAAAAASHHH- O vidro trincou, o carro que estava em nossa frente colidiu com o que estava a frente dele.
—Você se machucou, Dulce?-pelos barulhos ele entendeu que aquilo de fato tinha acontecido. E seu olhar encontrou o meu assustado.
—Tá tudo bem comigo, tio!-MENTIRA, meu coração estava subindo pela garganta. Eu acabara de escapar da morte. -E contigo?- o encarei.
—Meu carro bateeu!!!!-ele olhava inconsolável pra frente, tirando o cinto de segurança, tentando adquirir forças pra ver o tamanho do estrago.
—É, tio, bateu! -segui todos os seus movimentos atentamente com meu olhar.
Era inacreditável! Em segundos, tudo foi pelos ares.
Em uma atitude não pensada, desci do carro e fui à frente pra ver o que havia se passado.
—Caraca, já era!!!!- levei minhas mãos à boca, não acreditava no que via. O capo parecia uma lata de sardinha recém-aberta.
—Ai, meu Deus!!!!-meu tio passou as mãos por seus oxigenados fios rebeldes.
—Tio, por que você tava olhando pra baixo?-perguntei sem pensar.
—Eu não sei!!!
O motorista do carro da frente veio até nós.
—Estão todos bem?-disse apoiando suas mãos em nossos ombros. –Xii, a coisa foi feia mesmo! – No carro do cara, nada demais aconteceu.
—Sim!!!-eu confirmei com a cabeça. Não tinham palavras pra saírem da minha boca, expressar minha sensação de espanto. Só conseguia ouvir dentro de mim uma sequencia de “CRAAAASH-TURU TURU TURU TURU TURU TURU TU”! Sendo repetida, infinitas vezes, em minha cabeça. O motorista do último carro colidido se aproximou da confusão.
—Estão todos bem?-ele teve a mesma reação do motorista anterior ao ver o carro do meu tio.
—Acho que sim! Vou ligar pra a polícia!- Titio se afastou do acidente para ligar mas voltou até nós. -Poxa, tá sem sinal! –ele se aproximou de mim, ainda confuso. -Dulce, me empresta seu celular?-entreguei o telefone pra ele.
Meu tio andava de um lado para o outro naquela via. Era uma perimetral. Carros e mais carros não paravam de passar. Curiosos colocavam a cabeça pra fora do carro, tentando entender o que havia acontecido. O que nem nós mesmos sabíamos direito.
Era uma quarta-feira das minhas férias, quando eu e meu tio iríamos pra casa dele encontrar o resto da família. Ele sempre gentil havia se oferecido pra me levar e trazer de volta. Meu pai sempre confiou em Christian Chávez. Por mais que ele fosse o irmão caçula, com jeito meio louco e rebelde de ser, sempre fora responsável.
Na hora em que a batida ocorreu, ao certo, ele não entendeu o que se passou. Mas depois foi confirmado um probleminha na embreagem.
—Se não tivesse vindo me buscar, não estaria com problemas agora!
—Não se culpe, meu bem! O importante é que estamos salvos, inteirinhos e sem nenhum arranhão!-ele beijou minha testa.
—Aaaaaaiii!-me afastei dele.
—O que foi?-ele passou a mão pela minha franja e lá estava uma ferida parecendo um pequeno raio.
—Dulce Potter! hehe
—Ai, pára!!! Tá ardendo!!!!-ele soprou de leve.
—Você é bruxa agora!-riu de mim.
—Pode nos tirar daqui antes que eu tenha que pagar os prejuízos deles???-disse mostrando os outros motoristas que conversavam a frente. Eu soltei uma gargalhada ainda sufocada.
—Ai, tio! Só você mesmo pra me fazer rir numa hora dessas!!!!-o abracei com todas as minhas forças. Até cair nossas fichas, estávamos vivendo um draminha particular.
Todos os motoristas tinham em mãos seus celulares.
—Dulce, pegue um táxi e volte para casa! Assim que eu resolver tudo vou pra lá! Fique tranquila, meu amor!
Com dificuldade, conseguimos um táxi. Meu tio explicou ao taxista aonde ele teria que me levar. O cara era uma mistura de Agostinho da Grande Família com o cara que dirigia o taxi no clip By the way dos Red Hot Chilli Pepers. Ele corria feito um doido pelas ruas, o que me deixava apavorada e pensando que aquele era o dia de minha morte.
Em vinte minutos eu já estava em casa, no trajeto pensei na ironia que minha vida era.
No dia anterior tinha encerrado as aulas teóricas da Auto Escola e estava toda empolgada pra começar as práticas.
Sabia que indo para a casa do Chris teria oportunidade de sobra de dirigir um carro ou pelo menos saber como funciona. Mas agora eu estava a pé!
Quando mamãe me viu chegar em casa me abraçou apertado.
—Eu senti algo ruim quando você saiu daqui!
—O carro bateu, mamãe!
—Eu não disse, Pedro?
—Aonde está Christian?-papai perguntou.
—Resolvendo as coisas! Foi um clássico engavetamento!
—Ain, minha filha! Você deve estar apavorada!
—Não sei, mãe! Mas só sei que eu não terei medo de pegar no carro da Auto Escola!
Um mês depois, eu já havia passado na prova teórica da Auto Escola, ou seja, finalmente começaria a dirigir.
O instrutor Ucker se mostrou muito simpático desde o início!
Naquela noite chovia muito e ele me levou até uma pracinha, me fazendo sentar no banco do motorista. Ele, como carona, me explicou tudo o que deveria saber e lembrar pra sempre naquele lugar.
O primeiro dia havia sido realmente perfeito, afinal, eu não havia dirigido ainda.
No segundo dia de aula fomos até a uma rotatória e lá ele me ensinou as coisas básicas mas na hora de colocar em prática “foi um Deus me acuda”!
—Passe a 1ª… A 2ª … Acelera!-um aviso de “pare” atrapalhava o meu treino. -Dulce, você não freiou!
—Desculpe!-fiz minha cara de anjinha confusa mas ele estava chateado. Já era a quinta vez que ele repetia isso pra mim.
E assim seguiram dez aulas em que eu não passava daquele lugar e Ucker não me aturava mais. Como a auto escola era retardada também, adiou minhas aulas em não sei quantas semanas.
Chegando em casa, depois de mais uma dessas cansativas aulas, lá estava a melhor surpresa do meu dia.
—Tio Polliiiiiiiiiiiiiiiiiiiis, que saudade de você!!!!!!-corri pra ele e o abracei. -Como você está?
—Minha sobriiinha preferida!!!! Tá tudo bem e contigo?-ele me olhou bem. -O que te preocupa?
—Malz, eu não sei dirigir!-me joguei no sofá, olhando pro teto.
—Que isso, meu amor! Eu te ensinarei! Eu vim aqui saber se você quer passar o feriado na minha cidade?
—Eu queeeero!!!!
—Legal! Hoje vai ter uma festa bem bacana no Casarão!-ele se levantou do sofá dançando.
—kkkkk… Tô dentro, tio!!!!
—Ainda bem! Eu já comprei o seu ingresso, hahahah
—Só preciso falar com meus pais!
—Eles já sabem!!!!
Arrumei minha mala, rapidinho, e quinze minutos depois, eu já estava na rua.
—Que carro irado!!!!-foi o que eu disse ao ver uma verdadeira máquina parada em minha frente.
—Isso mesmo!-ele concordou achando a coisa mais normal do mundo dirigir um Ford Fusion de cor preta.
A máquina nos levou rapidinho até a cidade de titio. Mais algumas horas e estaríamos arrasando na balada.
Casarão é uma boate bem movimentada na cidade do meu tio. Aquela cidade que sempre foi pacata virava outra nos dias de festa.
—Tá lotado!-já dizia a Chris quando estávamos dentro da casa.
—Pois é! Eu vou dar uma volta, Dulce! Fica aí com seus primos, se divirtam!!!
—Pode deixar! -ele sumiu na pista.
Eu não perdi tempo e saí em direção ao bar.
—Boa noite!!!-o barman estava de costas com fones de ouvido do tamanho de duas cebolas.
—Você é barman ou Dj, criatura?-ele continuava dançando. -Tá me ouvindo? -puxei sem dó os fios que seguiam até a sua orelha!
—Tá louca ou o quê????-passou suas mãos nas orelhas com uma expressão de dor que me deu pena. Seus olhos encontraram os meus e um sorriso iluminou seu rosto.
—Desculpa!!! Mil perdões, no que posso servi-la?!-ele se inclinou até mim e eu me levantei.
Chocamos nossas cabeças e eu caí na gargalhada. Ele me olhou com um sorriso bobão, meio desnorteado.
—Qual é a sugestão da casa?-disse tentando ser simpática.
—Bom, pela sua carinha, eu sugiro uma batida de…-eu não o esperei terminar de falar. Queria aproveitar cada momento.
—Parece bom e é isso que eu vou tomar, kkkk…
—Vou fazer pra você!-fiquei rindo da situação.
Á noite toda fiquei ali conversando com o barboy. Ele tinha uma cara de criança.. Se o juizado de menores batesse por ali, o dono do antro ia ter sérios problemas.
A batida estava uma delícia, aproveitei pra experimentar outros sabores.
—Mais uma?-ele me olhou incrédulo. -Você vai bater na cama e dormir!-riu da minha cara.
—Isso não tem álcool, baby!-olhei pro palco que havia não tão distante dali. Com uns três ou quatro caras andando de um lado para o outro. -O que vai ter aí?
—Essa é a banda da casa. Parece que vai acabar e hoje é o último show deles.
—Aé?-ele concordou. -Qual o nome???
—The Heartbeats!
—Hm…
—Eles tocam uma mistura de Creed com The calling e umas músicas latinas também. Tipo de um tal de Reik! Os caras surtam ali em cima.-ele riu.
—Reik?-meus olhos se arregalaram de felicidade.- Amooo!!! Vou ao banheiro e já volto!
—Ok!
Fui até a área em que ficavam os banheiros. As portas eram cheias de escritos e os bonequinhos estavam rasgados. Eu não conseguia identificar a diferença entre bonequinho e bonequinha. Usei o bom e velho uni duni teê. Como foi a Britney Spears quem escolheu o da direita, entro no da esquerda. Britney é insana, certo?!
A luz estava apagada mas percebi que era enorme. Comecei a cantar “Light Up The World Tonight” até sentir alguém puxar o meu braço.
—Você é louca?-era um homem.
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