CONTeúdOS PROIBIDOS
2 Arquivo 02 - Aishiteru Zutto
Notas iniciais

Arquivo 02
Uchihacest
Por Andréia Kennen
Aishiteru Zutto – Parte I
“Aishiteru zutto, Sasuke...”[1]
— A frustração maior da minha vida se tornou não conseguir retribuir essa mera declaração de amor. Eu não consegui nada do que sempre busquei no meu caminho de escuridão; nada. Nem provar que estava certo, nem destruir Konoha, nem governá-la. Simplesmente, nada. Apenas me resignei e aceitei o caminho e a verdade imposta por... aquela pessoa.
— Naruto-kun?
A sonoridade daquela palavra pesou o ar. “Naruto-kun” era nostálgico. De uma época distante, se não fosse exagero, diria “remota”. Agora, aquela pessoa, não era mais o simples Naruto, o moleque Naruto, o Naruto da Raposa-demônio, o Naruto arteiro, o enérgico Naruto, o Naruto-teme, o Naruto-kun ou seu simples “dobe”. A pessoa que Naruto havia se tornado fora exatamente a pessoa quem ele buscou ser. O reconhecia, o respeitava. Mas, a realidade, era que vivia no passado, buscando o passado. Assim, não podia negar que preferia, também, aquela pessoa do passado.
Porém, Naruto, mesmo não sendo mais a pessoa que o conquistou, estava vivo, e havia tempo e vida suficientes para que pudessem acertar aqueles ponteiros mais para frente. Sua prioridade, no entanto, era outra. Buscar sarar aquela ferida feita por alguém que já não estava mais entre os vivos. E sabia que o único ninja do mundo que poderia ajudá-lo com um ideal tão fora de proporções era aquele à sua frente.
O nukenin notou que o simples entoar do nome do homem mais poderoso do mundo ninja havia adicionado uma quantidade de peso extra à tristeza estampada na tez madura, todavia, ainda bela, do único remanescente do antigo clã Uchiha diante dos seus olhos. Tivera mais certeza que era àquilo mesmo que seu ex-aprendiz vinha procurando ao perceber aquele fato.
— Hm — Sasuke confirmou depois de um tempo, voltando ao foco do seu interesse. — Eu gostaria de me livrar de ao menos essa frustração — explicou. — A surpresa de tudo que Itachi escondeu somente para me proteger. Essa constatação tornou-se uma dor amarga, um peso que carrego comigo como se fosse uma tonelada de zinco. Nem mesmo quando tive a chance de passar um tempo com ele, quando reviveu no seu modo “edo-tensei”, mesmo depois que todas suas mentiras foram reveladas e assumidas por ele próprio, mesmo assim eu não pude fazer nada além de ser surpreendido, e ainda, ouvi-lo dizer claramente o quanto me amava.
“Aishiteru zutto, Sasuke”.
— Eu não me conformo em deixá-lo partir sem saber o reboliço que deixou dentro de mim. Então, eu estou disposto a qualquer coisa para remendar essa fenda.
— E você acha que o Itachi-kun não sabia dos seus sentimentos?
— Não tinha como ele saber. Eu sempre fui uma criança mimada e egoísta. Nem mesmo na infância, quando um irmão mais novo costuma admirar a genialidade do mais velho, a única coisa que fiz fora invejá-lo. Querer a atenção que nosso pai depositava nele. Depois que ele se tornou o monstro assassino que destruiu nosso clã, foi pior, eu nunca busquei compreendê-lo. Tudo que desejei e determinei foi matá-lo. E eu dediquei parte da minha vida a isso. Eu perdi uma transição importante odiando a pessoa que mais me amou nesse mundo e a qual eu mais deveria ter amado.
— O que você pretende é arriscado, Sasuke-kun...
— Quantas vezes preciso dizer que quero, e vou, correr o risco?
— Não é somente a quantidade de chakra que irá demandar, você pode perder a vida nesse processo. Agora você tem uma criança, é isso mesmo que pretende?
A menção a filha fez Sasuke ponderar sobre a situação. No entanto, fora um simples pesar, o qual não o faria mudar de ideia. Havia pensado em Sarada há muito tempo. Ela agora tinha a idade de quando Naruto, ele e a mãe se tornaram genins e saíram para sua primeira missão no país da névoa. Simplesmente achava que estava na hora da filha crescer.
Se Sarada quisesse despertar o sharingan e se tornar uma verdadeira Uchiha teria que passar por algum momento de dor. E não era tendo a vida confortável que tinha que ela iria conseguir.
— Ela já está grandinha — garantiu, sem remorsos. — Eu consegui viver perfeitamente sem a presença dos meus pais. Caso aconteça algo comigo, o que eu duvido, ela ficará bem. Ela está em uma Vila protegida. E ainda tem a mãe, que é uma mulher forte.
— Se está certo disso, então é hora de colocarmos o plano em prática.
— Quando podemos começar?
— Faltam mais alguns ajustes. Mas acho que pode vir no fim de semana. Assim terá tempo de se despedir da sua família.
— Só irei até lá pegar algumas coisas — justificou ao levantar-se de súbito e seguir para saída da caverna.
— Só mais uma coisa, Sasuke-kun. — O ninja de Konoha deteve-se, mas não se voltou para olhar o outro, que se escondia nas trevas da caverna. — Não esqueça a minha pequena recompensa. Não vai me trair como da última vez, não é?
Os sharingans de Sasuke se ativaram, giraram, adotaram várias sequências de pentagramas, até que voltou ao normal.
— Terá o que deseja — garantiu ele. — Orochimaru.
A risadinha abafada, característica daquela pessoa, continuou repercutindo pelo túnel enquanto se afastava.
...
Estava arrumando a mochila de viagem quando sentiu aquela pequena presença em suas costas.
— Já disse para não ficar me espionando como se eu fosse um ninja inimigo, Sarada. Se quer dizer alguma coisa, venha até aqui e diga.
A menina, que tinha apenas metade do rosto aparecendo na porta, surgiu por inteira e adentrou o quarto dos pais com passos incertos, parou com as mãos juntas na frente do corpo, observando as roupas que o pai colocava na mochila de viagem.
— Está partindo de novo, chichiue[2]?
— Estou.
— Ér...
— E como estão as missões com o seu time?
— Ah? — a pergunta a pegou de surpresa, mas ao compreendê-la, tentou responde-la à altura. — Como uma gênio Uchiha estaria indo?
Bastou um olhar de canto de Sasuke para a filha desfazer o sorriso, que já não estava muito seguro em seu rosto.
— Não muito bem — ela respondeu a própria pergunta. — O Sarutobi-sensei pega muito no nosso pé, fica nos cobrando empenho, sendo que todas as missões não passam de tarefas chatas.
— Toda missão tem sua relevância e todos genins começam dos níveis mais baixos para depois irem se elevando. E o Konohamaru só está sendo rigoroso como todo jounin, líder de time, tem que ser. Com certeza você e seus colegas não estão levando o treinamento a sério, ficam pensando em coisas fúteis ao invés de se concentrarem nas missões. Sua mãe também pensava muitas coisas desnecessárias nessa idade, mas pelo menos ela foi dedicada aos estudos. Era a mais inteligente do nosso time. Tanto que se tornou uma incrível médica ninja. Se continuar desta forma, seus Sharingans nunca irão despertar.
— Do que adiantou ser tão incrível se agora ela não passa de uma dona de casa... — resmungou mais para si própria do que para o pai.
— O que disse?
— De qualquer forma, chichiue, não estou mais preocupada se os meus Sharingans irão despertar ou não.
— Por que não?
— Estava lendo sobre o clã e descobri que poucas mulheres despertaram o Sharingan. Isso, porque, para despertá-lo, é necessária uma condição, uma descarga emocional muito grande. Como as mulheres têm um controle emocional maior que dos homens, dificilmente elas têm seus sharingans despertos. Além disso, eu não tenho o sangue puro Uchi-... Ai. — O peteleco que recebeu em sua testa a fez deter sua linha de raciocínio. — Que droga, papai. Odeio quando faz isso.
Sasuke sorriu, e voltou para mochila, terminando de fechá-la.
— Não fique pensando besteiras, Sarada. Nada é impossível para quem se esforça. Quer uma prova? Olhe para cima, para o monte hokage. O homem mais poderoso da Vila atualmente é a prova viva disso. Quando criança ele gostava de gritar para todos os lados, como se fosse um bobo da corte: “Eu serei o Hokage!”. E todos a sua volta riam. No fim, veja onde ele está.
A menina ficou com as bochechas levemente rosadas, e fez um bico com os lábios, demonstrando sua contrariedade, principalmente pelo pai ter citado como exemplo o nanadaime, o pai do seu tormento.
— Tá, eu vou me esforçar.
— Eu sei que vai. Você é uma gênio Uchiha no final das contas — ele deu um sorriso discreto para filha, colocou a mochila nas costas e ao passar por ela, afagou os cabelos sempre alinhados e bagunçou-os.
— Papai, não...
— Papai te ama. Continue se esforçando.
A menina se surpreendeu com aquela declaração repentina, ficou completamente vermelha, queria, mas não conseguiu responder.
Sasuke cruzou o corredor da casa, entrou na sala, e passou a vestir a capa de viagem. Sakura, que estava na cozinha, deixou o que fazia lá e entrou na sala secando as mãos no avental, então abordou o marido.
— Não vai esperar o jantar?
— Não.
— Mas, ficou tão pouco tempo...
— Eu tenho que ir.
— Naruto disse que queria falar com você.
— Eu não quero falar com ele.
— Ele é o hokage, Sasuke.
Sakura falou de novo, daquele jeito, como se ele não soubesse do fato. Algo que Sasuke odiava, não pela repreensão vinda dela em si, mas pela parte implícita de que ele era inferior e precisava se curvar perante o superior da Vila.
Ao perceber que havia feito aquilo de novo, Sakura tentou se retificar.
— Eu quero dizer, e se ele tiver algo impor-... — deteve-se ao sentir Sasuke aproximar-se perigosamente, o suficiente para segurá-la pela nuca e depositar um beijo no topo da sua testa, fazendo-a perder completamente o fio do raciocínio, enquanto o coração entrava em desespero. Não entendia como conseguia continuar tão adolescente em relação a Sasuke, mesmo com o passar de tantos anos.
— Cuide da nossa pequena, Sakura.
— Sasuke... — ela sentiu que havia algo de muito estranho naquele tom, mas não conseguiu perguntar, apenas deixou que Sasuke partisse como sempre fazia. — Vá com cuidado.
O marido assentiu e então saiu, fechando a porta.
...
Apesar de ter dito que não iria, Sasuke parou do lado de fora da janela da sala do hokage, deu algumas batidas no beiral de madeira e não demorou ser atendido; pulou para dentro assim que a janela se abriu.
O homem loiro que havia aberto a janela voltou para sua mesa sem sequer cumprimentá-lo. Aproximou-se e fez aquele gesto que sempre irritava o outro, abaixou-se diante dele, mantendo um joelho no chão. Um gesto que deveria denotar respeito para com o superior da Vila, se não fosse vindo da sua parte, certamente.
— Queria me ver, nanadaime-sama?
— Levante-se, Sasuke! — ordenou Naruto, batendo o punho enfaixado na mesa. — Pare de zombar de mim — pediu em seguida.
Naruto sabia que Sasuke estava zombando porque ele jamais se curvava diante de ninguém, ele só fazia aquilo para irritá-lo. Além disso, desde que o conhecera sabia que Uchiha Sasuke nunca usava formas de tratamento com ninguém, muito menos o “sama”. Eram sempre os primeiros nomes “Itachi”, “Naruto”, “Sakura”, “Kakashi”, “Godaime”, e assim por diante, não importava o nível da outra pessoa. Agora ele vinha com aqueles gestos de tratamento que nunca fora do feitio dele? Era óbvio que era uma afronta.
— Eu pedi que viesse me ver tem mais de semanas!
Sasuke se pôs de pé e encarou o homem diante dele com o cenho fechado.
— Eu estava fora.
— Fazendo?
Não era obrigado a responder, foi o que pensou. Apesar de que era, afinal, era um ninja da Vila a serviço da pessoa diante dele.
— Viu? Esse é o grande problema aqui. Você está agindo por conta. Não sei o que anda fazendo, Sasuke! Você é um ninja dessa vila, deve se reportar.
— Meu trabalho é investigar futuros problemas, organizações que podem estar se formando e que possam vir a se tornar um perigo futuro. Eu entrego regularmente meus relatórios para o setor de Inteligência. Você sabe bem disso, Naruto.
“Você”, “Naruto”. Agora era o Sasuke que conhecia.
— Eu o quero dentro da Vila.
Deu as costas.
— Vai continuar querendo. Adeus, hokage-sama.
Sasuke pulou a janela e a fechou, mas, antes que ele pulasse, Naruto usou seu Shunshin no Jutsu[3], apanhou-o pelo antebraço, usou novamente a habilidade de deslocamento rápido e o levou para o telhado da construção, empurrando-o contra a amurada.
O sol se punha em Konoha. Os tons laranja e azul transbordavam no céu. Havia apanhado o braço esquerdo de Sasuke, aquele que não tinha vida, da mesma forma que seu braço direito, a prova estranha que os ligava. Aproximou-se do rosto belo que ele ainda tinha e parou centímetros de distância.
— Eu sinto que está prestes a fazer uma besteira.
— Não é da sua conta.
— Nunca foi. E sempre será.
— Eu vou ficar bem.
— E se não ficar?
— Vou repetir até fazê-lo entender: não é da sua conta, nanadaime-sama.
— Você sabe que em termos de teimosia eu estou na sua frente anos luz, né, Sasuke?
Sasuke encarou os olhos claros diante dele, engoliu em seco e puxou o braço de volta, então empurrou Naruto para o lado. Detestava ficar tão próximo e sentir seu coração bater daquele jeito esquisito por causa dele.
— Eu vou voltar — garantiu, simplesmente, dando as costas para seu superior. — Não é algo que estou dizendo por mim. É uma promessa que você sempre me obrigou a cumprir. Não duvide do seu próprio poder.
— E se você não voltar?
— Você sabe o que tem que fazer.
Sasuke voltou-se para ele, sorriu de canto, enquanto os olhos eram ativados. Um vórtice se formou no ar a partir do olho direito dele, distorcendo sua própria forma e dando a ilusão de que seu corpo estava sendo sugado para dentro daquele rodamoinho.
— Eu não posso voltar a correr atrás de você, Sasuke! — gritou a justificativa, tentando fazê-lo ouvir antes que sumisse usando o Kamui[4]. — Agora sou o hokage! Tenho deveres para com Konoha e...
Sasuke desapareceu e o deixou falando sozinho. Naruto só conseguiu largar os ombros e bagunçar os cabelos da nuca.
— Merda! Sempre tão escorregadio — falou, meneando a cabeça negativamente e crispando os punhos, mas sorriu. — É bom que volte mesmo, Sasuke.
...
Tudo era escuridão, frio, angústia. Até mesmo seu paladar parecia afetado, sentia um amargor gélido em sua saliva; a boca parecia dormente. Quis abrir os olhos, mas mesmo abrindo-os percebeu-se envolto em uma intensa escuridão. Não se lembrava de quanto tempo estivera naquele estado, não se lembrava sequer de onde estava e como viera parar ali ou quem era. Sentia apenas sono, muito sono, voltou a dormir.
Algum tempo passou até que finalmente foi agraciado com uma sensação agradável. Sentiu como se estivesse confortado, protegido. Demorou, mas seus olhos se abriram, havia tanta luz que causou-lhe desconforto. Aquela vontade estranha abrasou seu peito e a única coisa que foi capaz de fazer fora descarregar em forma de um choro estridente.
— Yoshi, yoshi... — aquele som soou repentino, uma voz suave como uma canção, acompanhada de um embalo caloroso. Além dela, algo tamborilava em seus ouvidos, um som ritmado, gostoso de ouvir. Sentiu um calor bom. Sentiu-se aconchegado. Abriu os olhos novamente, devagar, acostumando-os a luz e contemplou aquela imagem gigante, a qual ainda não sabia distinguir, da pessoa que o amparava em seus braços e continuava confortando-o. — Isso. Não precisa chorar, Sasuke. O onii-san está aqui para protegê-lo.
Acalmou-se tanto, tanto, que aquele conforto causou-lhe sono novamente, sentiu seu respirar pesado, profundo, voltou a fechar os olhos e dormiu.
Mais um tempo se passou, agora já era capaz de distinguir todos os entes daquela casa pelo cheiro, pelas imagens, pelo calor corporal. Ainda dependia deles para tudo, se mover, se alimentar, mas começava a agir por si só, emitir sons, mover os membros pequenos, a cada evolução sua, ouvia risos e feições de surpresa. Mas aquele que mais gostava, ainda era aquele que mais transmitia-lhe confiança.
— Estou dizendo que consegue, Sasuke. Vamos, venha com o onii-san. Eu sei que consegue — falava ele, do outro lado da varanda, fazendo gestos com as mãos para que o alcançasse, após tê-lo deixado em pé, sustentando o próprio peso pelos pequenos pesinhos.
Estava incerto, era verdade. Mas sabia, que se aquela pessoa estava dizendo que era capaz, era porque era. Deu o primeiro passo e o corpo cambaleou. Era uma sensação estranha carregar todo aquele peso, ficou com medo, parou. A sensação que fazia seus olhos arderem adensou em seu peito, mas a voz firme que o motivava continuava acreditando nele.
Precisava continuar, e foi o que fez. Ergueu os olhos, esticou os braços na direção dele, desejando alcançá-lo, sorriu e impulsionou-se. Finalmente o corpo moveu em linha reta, rápido, a sensação era efusiva. Mas chegou a certo ponto e perdeu o equilíbrio, tropeçou assustou-se, seu coração disparou, estava indo de encontro ao chão. Fechou os olhos e chorou. Mas quando deu por si, estava amparado nos braços calorosos dele.
— Você foi muito bem para uma primeira tentativa. Parabéns, Sasuke — parabenizou Itachi, contente, esfregando a bochecha dele na sua.
— Itachi-kun, o que foi com o Sasuke-chan?
— Ele deu os primeiros passinhos, okaa-san.
— Mas ele caiu?
— Não, eu o segurei antes.
— Tenha cuidado.
— Estou tendo.
— E por que você não me chamou? Eu queria ter visto. Vem cá, Sasuke-chan, não chore — a mãe pediu, estendendo os braços na direção da criança.
Foi puxado por aquela mulher que tinha um sorriso doce, queria ter ficado um pouco mais nos braços daquela outra pessoa, mas a culpa fora sua, não conseguiu controlar seu susto. E aquele colo para qual estava ainda também era bem confortável, fechou os olhos mais uma vez e o sono veio.
O tempo passou.
— Taachii! Taachii! Taachii-nii! — continuava batendo com a mãozinha no rosto do irmão que dormia profundamente na varanda, queria brincar, mas ele não acordava nunca. Ainda não era forte suficiente, suas mãos eram frágeis e pequenas, não fazia muita diferença suas batidas. Pensou em algo. Levantou-se rápido, foi até a caixa de brinquedos, vasculhou tudo lá dentro e retirou o dinossauro verde de borracha, seu brinquedo favorito. — Rawn! — fez o som que o irmão fazia ao pegá-lo, então sorriu, arteiro, e voltou depressa até onde o mais velho estava. Então, bateu com o brinquedo na boca dele. — Dino-san rawn-rawn Taachii-nii!
Não satisfeito, ao ver que o irmão não acordava, inflou as bochechas, emburrado, largou o dinossauro de lado, e ele mesmo decidiu fazer aquilo.
— Sasu-Dino-san rawn-rawn Taachii-nii! — E mordeu o braço do irmão com seus dentinhos afiados.
Itachi abriu os olhos na mesma hora que sentiu aquele fisgar dolorido em seu braço direito, ergueu-se rápido e o primeiro impulso foi puxar o braço e trazê-lo para junto do corpo, o gesto antecipado fez o irmão pequeno encará-lo alarmado. Sua cara deveria ter ficado muito feia, pois notou os olhos de Sasuke marejarem, tratou de mudar a expressão e sorriu.
— Ei, sua ferinha, o que pensa que está fazendo? — pegou-o no colo, voltou a deitar no trabalhado e o ergueu.
— Sasu-Dino-san, Taachii! Sasu-Dino!
— Ah, agora você é um dinossauro é quer devorar seu irmão mais velho, é isso?
— Icho, icho, Taachii-nii! Rawn-rawn, Taachi-nii!
— Mas agora você não é mais um dinossauro, é um corvo! Voe, Sasuke! Voe!
Riu com vontade quando passou a ser movido no ar. Abriu os braços, como se realmente estivesse voando. Por isso gostava tanto daquela pessoa, era com que mais se divertia.
O tempo deu um novo salto.
Estava andando pela casa a procura do irmão mais velho e não o encontrava. A única pessoa em casa era o pai. Um homem de feição sempre rígida, mas como não encontrou alternativa, decidiu que iria verificar com ele onde estavam seu irmão e sua okaa-san. Colocou apenas metade do rosto na passagem da porta e o viu vestido com a Yukata, sentado no meio da sala, enquanto lia algo em um pergaminho.
— O que foi, Sasuke?
A pergunta do pai, que sequer direcionara um olhar para notar que estava ali, o fez sobressaltar.
— Não fique me espionando, entre e diga o que quer.
Recuou um passou para trás, não tendo certeza se queria se aproximar. Mas algo o movera, talvez fosse curiosidade sobre aquela pessoa tão imponente. Sabia que, assim como a mãe e o irmão, eram ligados pelo sangue, e, de alguma forma, sentia aquilo. Impulsionou-se para dentro correndo e só parou diante dele. Então o viu erguer os olhos, ficar ereto e, mesmo sentado, ficar bem mais alto que ele. Engoliu em seco, meio temeroso, enquanto os olhos dele se fixavam em si. O pai era a pessoa que tinha menos contato, ele estava sempre entrando e saindo, algumas vezes voltando ferido, era sempre procurado por outras pessoas. A mãe dizia que ele era assim por ser alguém importante e ter orgulho de carregar o emblema do clã em suas costas, de ser um Uchiha.
— Está procurando sua mãe?
Assentiu com um balançar de cabeça.
— Onde a okaa-san e o onii-san foram, otou-san?
— Sua mãe foi ao mercado. E o seu irmão está indo para a academia.
— Academia?
— Sim. Itachi se tornará um ninja excepcional. Ele é um Uchiha, afinal de contas. E, pelo pouco que pude perceber, um Uchiha extraordinário, um gênio. Nada menos que eu podia esperar de um filho meu.
Sasuke não entendia muito bem o que seu pai estava falando, mas percebeu que era algo muito bom, pois percebeu a feição dele suavizar ao falar aquelas coisas do irmão, ele parecia contente. Ficou feliz também e sorriu.
— Eu serei como meu irmão quando for para academia, otou-san?
Recebeu um afago do pai na cabeça e aquilo fez seu coraçãozinho de criança disparar.
— Hm — o mais velho assentiu firme, com um sorriso leve permeando seu rosto. — Você também seguirá os passos do seu irmão, e certamente se tornará tão excepcional quanto ele.
Era o que queria ouvir. Mas ao invés de sentir-se bem, sentiu algo palpitar forte dentro dele, um pulsar que fez sua cabeça doer. Segurou-a com ambas as mãos e seus olhos pequenos se arregalaram. Saiu correndo, sentindo o estômago embrulhar, segurou a vontade vomitar que viera com força tampando a boca com ambas as mãos.
Atravessou o quintal, saiu do terreno da casa, correu pelo distrito, sentia cheiro de sangue, muito sangue, via imagens de pessoas mortas caídas pelas ruas. O que eram aquelas imagens, afinal? Lembranças? De onde? Quando?!
Parou ao tropeçar, cair e bater a face no chão de terra. A dor na cabeça fora tanto que a única coisa que conseguiu fazer foi apoiar-se nas mãos e erguer-se o suficiente para deixar que o vômito viesse. Enquanto vomitava, as lembranças continuavam se reavivando em sua memória, havia vivido tudo aquilo. Estava revivendo, mas havia um motivo. Qual era mesmo o motivo?
— Sasuke? O que foi? O que está fazendo aqui?
Ergueu sua cabeça e viu o irmão diante dos seus olhos.
— Eu estava... te procurando, nii-san — respirou com dificuldade, tentando manter os olhos abertos, sentia-se fraco, não estava conseguindo. — Eu queria te dizer que... — a fala ficou mole, as palavras se perderam, ficou tudo escuro novamente.
O tempo havia saltado mais uma vez.
Acordou durante a madrugada, a tempestade que caía fazia a janela sacolejar. O quarto estava imerso em uma profunda escuridão, iluminando-se, vez ou outra, pelo brilho dos raios que caíam do lado de fora.
Levantou-se. Seu tempo estava passando. Precisava fazer algo. Jogou os pés para fora da cama, desceu e saiu do cômodo. Andou sorrateiro e descalço pelo corredor e abriu a porta de arrastar do quarto do irmão mais velho com cuidado. Voltou a fechá-la assim que entrou, enquanto os trovões e o barulho da chuva se tornavam mais intenso, fazendo seu coração acelerar com o susto dos estrondos. Respirou com dificuldade quando finalmente alcançou o futon e se embrenhou por debaixo do cobertor de Itachi. O irmão moveu-se ao sentir sua presença e antes que ele o repreendesse o agarrou com força.
— Sasuke? — Itachi sussurrou a pergunta, para evitar chamar atenção da mãe que dormia, e descobriu-os, aproveitando-se somente da claridade dos raios do lado de fora para visualizar o caçula. — O que foi? Está com medo da tempestade?
Balançou a cabeça em negação, resfolegando o rosto no pijama do mais velho, apesar de ser uma mentira. Mas o que ele queria mesmo era ficar daquele jeito com o mais velho, sentir-se de novo amparado pelos braços dele. Porém, era algo vergonhoso demais para admitir.
— Deixa eu dormir com você, nii-san?
— O nosso pai vai ficar bravo se o pegar aqui.
— O papai está em missão. Só hoje.
Itachi suspirou; incerto se deveria concordar, era difícil rejeitar quando se tratava de um pedido do seu caçula.
— Só hoje — concordou por fim, e voltou a cobri-los.
Sasuke agarrou-se mais ao corpo do mais velho. A chuva que caía se intensificava do lado de fora. Itachi correspondeu ao seu abraço, o que fez seu coração bater mais rápido. Era tão confortável que acabou sentindo sono novamente. Porém, antes que esquecesse, e antes que revivesse o inferno que estava por vir, decidiu que era aquele o momento, o mais apropriado, para resolver a pendência pela qual fizera àquela regressão.
— Nii-san?
Hm?
Respirou fundo ao sentir que seus batimentos cardíacos se desregulavam por completo. Suas mãos, ainda pequenas, fecharam-se na camisa que Itachi vestia. O rosto esquentara, tanto, que imaginou que estava ficando vermelho tanto quanto um tomate maduro. Mas havia decidido e, mesmo que aquele ataque de timidez quisesse vencê-lo, iria falar. O irmão estava esperando. Engoliu em seco e finalmente criou coragem
— Aishiteru zutto, nii-san!
Itachi parou um instante. Então a reação dele veio, um beijo doce, terno no topo da sua cabeça, sobre seus cabelos, enquanto os braços em volta do seu corpo ficavam mais firmes. Seu nervosismo se dissipou no mesmo instante, alívio por ter finalmente conseguido dizer. E aquela sensação foi tão reconfortante, que se sentiu sonolento e não conseguiu evitar o ressonar, mas ainda estava acordado quando ouviu o irmão lamentar.
— Dizendo essas coisas embaraçosas e dormindo sem dar oportunidade do seu onii-san responder. Você é tão egoísta, Sasuke — disse, encostando o queixo sobre a cabeça apoiada em seu peito. — Mas eu também te amo. Amo cada pequeno pedaço do que você é e significa para mim. Você nasceu para dar sentido para minha vida, para que eu compreendesse o porquê do tamanho poder que eu possuo: para proteger você e o mundo em que irá viver. Farei o uso devido desse poder e garantirei o seu futuro, Sasuke. Custe o que custar. E quando a hora certa chegar, mesmo que você não compreenda a forma estranha que eu escolhi para retribuir o amor incondicional que sinto por você desde o primeiro dia que veio ao mundo, eu serei tão claro e transparente como você foi agora, e direi que também te amo.
Sasuke sentiu seu queixo ser apanhado e o rosto elevado, sentiu um calor úmido sobre seus lábios. Havia um gosto salgado, lágrimas, talvez. Mas aquele gesto fora quente, macio, revigorante.
Fechou os olhos e os reabriu. O tempo havia saltado como um passe de mágica. Diante dos seus olhos novamente o irmão. O edo-tensei sendo desfeito enquanto sua memória reavivava todas aquelas lembranças.
“Aishiteru zutto, Sasuke” disse Itachi, ao encostar a testa dele na sua.
Novamente ouvia aquela declaração e, mesmo assim, não deixou de se impressionar.
Itachi se foi e não conseguiu evitar a vontade de chorar. Se pudesse, teria feito mais, reviveria quantas vezes fosse necessário para aplacar a falta que Itachi ainda fazia.
Fechou os olhos e quando os reabriu notou que não estava mais dentro de suas lembranças. Encontrava-se deitado em uma sala cavernosa, com pouca iluminação e centenas de aparelhos interligados por selos. Sentiu a cabeça pesada, o corpo dormente. A única coisa que conseguiu fazer foi virar a cabeça para o lado e visualizou a única pessoa naquele lugar. Achou estranho, o jeito que o cabelo estava preso, a silhueta, tudo, lembrava o irmão.
— Oi... — o chamou, o som da própria voz soando debilitado demais, mas o suficiente para chamar atenção daquela pessoa que parou o que estava fazendo, e virou o rosto minimamente, o suficiente para que percebesse que ele estava usando uma máscara igual aos antigos ANBUs de Konoha.
Sentiu algo em seu peito apertar e tentou se erguer, mas o resultado do seu gesto impensado serviu apenas para causar uma dor lacerante que começou na cabeça e se espalhou depressa por todo seu corpo. Apertou os olhos e tentou elevar as mãos à cabeça, mas os braços não se moveram e só então percebeu que também estava imobilizado na maca.
A visão estava turva, procurou a pessoa de antes, no entanto, a sala estava vazia. Não demorou e a porta do laboratório se abriu, e viu o velho sannin se aproximar, o corpo igual e a aparência igual de quando o conhecera. Por mais que os anos se passassem, Orochimaru conseguia manter seu aspecto rejuvenescido graças aos seus bizarros experimentos.
— Okaeri, Sasuke-kun.
— Quanto tempo se passou?
— Isso não vem ao caso no momento, precisamos primeiro cuidar da sua reabilita-...
— Eu quero saber! — Sasuke o cortou.
— Algum tempo.
— Você é um maldito. Sinto como se meu corpo estivesse tão desgastado.
— Eu disse que teria um preço, não é? Mas você é forte, vai ficar bem. Mas precisará ir devagar.
— Quem era aquela pessoa que estava na sala agora pouco?
— Não havia ninguém aqui.
— Não brinque comigo!
— Continua um ingrato como sempre, Sasuke-kun. Mesmo depois de tudo que fiz. Não sei o porquê faço tanto por você. Ou talvez, seja essa sua personalidade arrogante que me atraia. — O nukenin sorriu malicioso, passando a enorme língua sobre os lábios.
— Não diga coisas nojentas com essa cara de pervertido para mim, Orochimaru.
— Conseguiu o que queria? — o velho mudou de assunto bruscamente.
— Sinto como se não tivesse havido grandes mudanças. Algo mudou realmente?
O sannin fez um meneio positivo com a cabeça.
— Depois iremos avaliar essa questão com cuidado. Por agora, é preciso que descanse — disse, se afastando. — Irei preparar sua reabilitação.
— Orochimaru? — Sasuke o chamou, antes que desaparecesse por onde entrou.
— Sasuke-kun?
— Quem era aquela pessoa?
— Quando se torna obcecado por algo é complexo tirar da sua cabeça, não é?
— Responda.
— Uma ilusão? Um ajudante? Um experimento? Todas as alternativas anteriores? Escolha a que quiser.
— Não brinque comigo.
— Se você se comportar e me pagar direitinho tudo o que deve. Talvez, um dia, eu possa revelá-lo para você.
Sasuke sorriu; incrédulo. Uma ideia absurda passara por sua cabeça, mas que, se dependesse daquela pessoa, poderia ser possível.
Orochimaru se afastou dando sua habitual risadinha abafada.
Quem sabe, algo realmente tivesse mudado. Pelo menos em seu coração sentia uma leve mudança. A mudança de ter amado, odiado, e voltado a amar Itachi.
— Sim. Agora tenho mais certeza do que nunca. Eu sempre te amarei, Itachi.
Continua...
Vocabulário e expressões:
[1]Aishiteru Zutto: Eu sempre te amarei.
[2]chichi 父 Pai.| Ue (sufixo) — Forma respeitosa, e que atualmente é pouca utilizada. É usada para se referir aos membros mais velhos da família e que possui estas traduções: Alto, superior, senhor, senhoria, acima. Exemplo: Chichiue, tradução literal: senhor meu pai (Fonte: Nihongo Brasil).
[3]Shunshin no Jutsu: O Sunshin no Jutsu é uma técnica de movimento de alta velocidade, permitindo um ninja se mover de curta para longas distâncias a uma velocidade quase indetectável. Para um observador, parece que o usuário está se tele-transportando.
[4]Kamui é um poderoso dōjutsu que se origina a partir do Mangekyō Sharingan. Esta técnica é uma forma única e especializada do ninjutsu espaço-tempo que permite ao usuário realizar duas proezas muito distintas, mas intimamente associadas — teletransporte e "intangibilidade". Kakashi Hatake compara as características dessa técnica como semelhantes a Técnica do Deus Voador do Trovão de Minato Namikaze, mas observa que ela parece ser muito mais versátil, uma vez que não requer o uso de selos, nem um símbolo de convocação para ser realizada (fonte: Wikia Naruto).
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