CONTeúdOS PROIBIDOS

1 Arquivo 01 - A Chama do Amor é Azul


Notas iniciais
Feliz Aniversário, Bruninha! Mamys te ama, viu!! ♥


Arquivo I

Okumuracest

Por Andréia Kennen

A Chama Do Amor É Azul

Kuro acompanhava os movimentos elétricos do seu dono na cozinha. Rin media quantidades, picava, amassava, lavava e colocava os ingredientes para cozer; cada passo meticulosamente calculado.

Ver Rin cozinhando era sinônimo de remédio antidepressivo. O exorcista trabalhava cantarolando e balançando a longa cauda no ar enquanto se movia pela cozinha. Resultado de tanto amor e dedicação podia ser facilmente degustado pelo paladar dos que podiam saborear seus pratos.

Na maioria das vezes, o aroma das refeições ultrapassava as paredes da cozinha, da casa onde morava com o irmão e Kuro, vagava pela vizinhança, e trazia convidados inesperados.

Rin adorava receber os amigos para comer tanto quanto amava cozinhar, pois, seu segundo prazer na vida, depois da culinária, era assistir as expressões de felicidade e satisfação de quem saboreava o que preparava.

Além disso, se existia algo no mundo que não agradava o exorcista, era estar à mesa sozinho. No tempo em que morou no orfanato, a hora da refeição, sempre fora uma hora sagrada. À mesa era onde todos os membros da sua antiga família se reuniam: os padres, seu irmão caçula e seu querido e, infelizmente, falecido pai. Era o momento mais descontraído do dia, onde riam, contavam histórias, enquanto se fartavam de boa comida.

Por isso que, para Rin, comida também era sinônimo de momentos felizes.

Retirou o assado do forno e Rin viu os olhos de Kuro dobrarem de tamanho assim que repousou o refratário sobre a mesa. Abriu seu melhor sorriso ao notar a saliva se acumulando no canto da boca no amiguinho.

“Parece delicioso, Rin”, ouviu a voz do felino-demônio repercutir direto em sua mente.

— Sei que está com fome, Kuro. Mas hoje vamos esperar o Yukio — explicou, com o sorriso aberto, o qual expunha as presas pontudas.

Mas o amigo, que antes balançava a cauda de duas pontas agitadamente, ficou murcho com a notícia, as orelhas penderam e a clara decepção dele fora registrada por Rin, que retirou a luva térmica, e fez um afago na cabeça do animal; tentando reanimá-lo.

— Não precisa ficar tão desanimado assim! — bronqueou. — O Yukio não deve demorar.

“Hoje é um desses dias especiais, Rin?”, o pequenino quis saber, fechando os olhos ao sentir o carinho agradável em sua cabeça. Kuro não entendia muito bem como funcionava, mas os humanos tinham a estranha mania de comemorar dias que consideravam importantes.

— Não — respondeu rapidamente. — Hoje é só mais um dia comum. Mas não precisamos de um dia especial para fazermos um jantar especial, nah? — Abriu o sorriso novamente e o pequeno felino-demônio foi desarmado. — Hoje vamos apenas comemorar o fato de estarmos morando juntos e sermos uma família feliz. Yukio, você e eu! — finalizou, erguendo as mãos para cima.

Seu entusiasmo acabou contagiando Kuro, que também sorriu e comemorou.

“Ok, Rin!!”

— Vem, vamos arrumar a mesa.

“Certo!”.

…

Do outro lado da cidade, Yukio entregou o relatório de trabalho do dia e curvou-se perante seu superior, pedindo licença ao se retirar. O homem só assentiu com um aceno de cabeça.

Do lado de fora, o exorcista analisou a escala de plantão fixada na parede e arregalou os olhos ao observar que teria um final de semana inteiro de folga. Achou aquilo deveras estranho e voltou para sala do seu superior.

— Chefe?

— Esqueceu de acrescentar algo no seu relatório? — perguntou o homem sem se dar ao trabalho de erguer os olhos daquilo que visualizava na tela do computador.

— Não é isso, senhor. Mas... percebi que não estou de plantão esse fim de semana.

— Ah? — finalmente o superior teve sua atenção chamada e direcionou-a para o rapaz, de pose imponentemente, parado diante da sua mesa. — Você deveria estar comemorando então, não acha? Por que ainda estou sentindo um leve tom de decepção na sua voz? Faz quantos finais de semana que você não descansa? Aproveite e leve sua esposa para passear em algum lugar bonito, Okumura-sensei. De vez em quando é preciso fazer um agrado para patroa. — O homem piscou um dos olhos, cúmplice. Não deixando de se divertir ao notar o constrangimento pigmentando a face com belas pintas do seu subordinado mais popular.

— E- esposa? — Yukio repetiu a observação em forma de pergunta, ajeitando os óculos no rosto ao empurrá-lo com o dedo indicador o meio da armação.

O homem ergueu-se da cadeira, deu a volta e parou diante do rapaz, repousando as mãos de maneira firmes sobre os ombros dele. Então o girou em direção da saída e o empurrou de volta para ela, enquanto se explicava.

— Sim. E eu sei que você tem uma e que ela é muito bem prendada. Afinal, essas bochechas rechonchudas e seus obentos[1] recheados e caprichados são a prova irrefutável disso. Agora vai, sensei. Descanse e aproveite o final de semana com sua dama. Leve-a em algum lugar bonito como um parque, ou apenas se divirtam como adultos. Quem sabe daqui alguns dias, não teremos algumas crianças-gênios como você correndo pelo QG.

Foi empurrado para fora, após receber novos tapas nos ombros, e a porta foi fechada. Estava chocado.

Não fora somente as palavras constrangedoras do mal-entendido do seu chefe, afinal, não era casado e não tinha uma esposa, mas o fato de ele ter comentado sobre suas bochechas....

O mau humor, o qual estava tentando conter durante a semana, transbordou de repente. Há muito vinha percebendo seu ganho de peso e tentando em vão controlá-lo. Mas agora, a situação começava a ficar evidente, por mais que tentasse, estava ficando impossível esconder. Havia até aumentando as horas de treino e da academia e nada estava dando resultados.

Seus esforços não eram mais suficientes para evitar que engordasse. Por isso estava evitando passar muito tempo em casa. Enquanto estivesse fora, ocupado com o trabalho, não estaria comendo.

E o que o maldito do seu chefe fazia? Estava dando a ele um fim de semana inteiro de folga! Será que ele não fazia ideia do quanto de peso iria ganhar nesses dois dias?

Elevou as mãos à cabeça e apertou-a em sinal de desespero.

“Nem pensar! Eu vou reivindicar uma mudança nessa escala e...”, voltou para porta, apertou a maçaneta, a girou, e notou que estava trancada.

— Vá para casa, Okumura-sensei — o chefe, que parecia ter previsto sua reação, demandou de lá de dentro. — Você estará de folga esse fim de semana e ponto final.

— Mas, chefe! — bateu na porta e tentou argumentar. — Você não entende, estou prestes a virar uma bola-exorcista!

— Sem mais, Okumura. Pare de fugir da sua esposa e dos futuros bebês que ela deseja ter.

— Mas eu não tenho esposa!

...

Depois de muito tentar e nada conseguir, decidiu encontrar outra forma: trocar o plantão com alguém. Com certeza havia algum colega que gostaria de folgar naquele fim de semana.

— Não — recebeu a primeira resposta seca e sem justificativa.

Nem teve tempo de contra-argumentar e o colega Minoru fechou o armário com um baque, empinou mais o nariz languescido e virou as costas, dando por encerrada a conversa que mal iniciara ao se retirar.

Sentiu uma veia latejar em sua fronte com tamanha indiferença. Estava certo que os dois não se falavam muito, mas era motivo para ser tão frio?

“Próximo!”

...

— Gomen, Yukio-kun. Eu estou em uma missão em etapas com a minha equipe e não poderei parar até concluirmos — respondeu o colega que trocava seu sobretudo por uma roupa comum no vestiário.

— Mas...

— Já tentou o Harada? — ele sugeriu, mais simpático que o primeiro.

— Não, mas estou indo até ele agora, obrigado.

— Boa sorte!

...

Harada enfiou a mão dentro do saquinho de batatas secas e trouxe a mão gorducha carregada com elas. Enfiou todo conteúdo na boca de uma única vez, deu duas mastigadas e engoliu sem muito esforço, voltando a repetir o gesto.

O barulho do saquinho de salgados e das mastigadas do colega que trabalhava no monitoramento interno, fizeram a veia de irritação, que já pulsava na testa de Yukio, ficar mais evidente. Harada estava maior do que o exorcista se lembrava e mal cabia na cadeira. Por um momento, aquilo fez Yukio recordar-se da própria condição. Acabou se imaginando ali, daqui alguns anos, ou até mesmo meses, sedentário, e com o triplo do tamanho. Deu as costas para o homem, crispando os punhos, deixando o outro confuso.

— Sensei? — o colega exorcista perguntou, já que Yukio havia aberto a porta abruptamente, chamado seu nome e apenas o encarado. Era como se ele tivesse vindo pedir algo e desistido do intento ao vê-lo. — Algum problema?

Yukio parou, ajeitou os óculos no rosto mais uma vez, mas não conseguiu ir embora com aquilo engasgado em sua garganta. Voltou-se para o colega e explodiu em indignação.

— Não se sente mal em estar assim, Harada-san?

— Assim como? — Ele parou de mastigar para tentar entender do que o colega falava. Mas não esperava a resposta que viria a seguir.

— Gordo!

Os olhos pequenos e fundos de Harada apareceram em sua face redonda ao se arregalarem. Por um pequeno instante ele sentiu os ombros pesarem. Estava diante do desejo feminino personificado em pessoa. Okumura Yukio era um homem bonito, e não aquele bonito estilo galã, mas o bonito natural, que não precisava se esforçar muito para ser, de porte atlético, cabelos volumosos e acastanhados, e ainda tinha aqueles olhos, cujo o tom chegava a ser uma afronta divina, azuis-turquesa. Um rapaz que também era muito inteligente, o misto do intelectual, devido aos óculos, com o sexy, devido às duas pintas que tinha abaixo do olho esquerdo e uma terceira estrategicamente localizada perto da boca. Mas antes de tudo aquilo, Yukio sempre fora um rapaz de personalidade gentil, de sorriso discreto, quase sedutor. Certamente, a diferença entre eles era gigantesca, mas o respeitava acima de tudo pelo o homem bom que sempre aparentara ser. Por isso, sentiu-se decepcionado, não pelo fato dele tê-lo chamado de “gordo”, afinal, era gordo realmente, mas sim pelo tom de reprovação usado, quase como se o tivesse chamando de desleixado.

— Não sei o motivo de ter vindo até aqui para me ofender, Yukio-sensei. Mas, eu vou responder sua pergunta. Desde criança eu tenho tendência para engordar. Enquanto meus amigos podiam correr para todos os lados, eu me cansava facilmente e era sempre deixado para trás ou de fora das brincadeiras que exigiam muito esforço. Perdi as contas de quanto chorei por receber apelidos redondos: “baleia”, “bola”, “gorducho”, “saco de areia” e outras coisas mais “delicadas”, se é que me entende. Obviamente, alguém que é tão bonito como senhor, jamais saberá o que é passar por isso. Eu... cheguei a desejar a morte. Até parei de comer e fui parar no hospital. E foi quando acordei, alguns dias depois de ser renutrido através de soro, que eu percebi o tamanho da burrice que havia feito. Principalmente, ao ver o desespero impresso na face da minha mãe e da minha avó. Ambas, que sempre cozinharam, com todo amor que sentiam por mim, sentiram-se culpadas por eu ter tentado me matar. Elas choraram muito e eu nunca senti uma dor como aquela. Então eu aprendi: sempre haverá quem nos ame como a gente é. Desde aquele dia eu descobri que o amor é expresso de várias maneiras, pela comida também. Senti que era amado pela minha mãe e pela minha avó. Assim, passei a viver mais feliz e a me aceitar como eu era. Claro que passei a me cuidar com excessos, faço exercícios até hoje, vou regularmente ao médico, mas não me privo de receber o amor de quem me ama, comendo bem. Acredita que até que encontrei o amor da minha vida sendo desse jeito? Ela era filha da confeiteira do bairro e, assim como a mãe, ela aprendeu o ofício dos bolos. Eu já era um cliente assíduo antes de ela começar. Lógico que nunca nutri sentimentos por aquela linda menina; era apenas impossível, eu pensava. Mas, um belo dia, quando menos esperava, recebi a declaração vinda dela. Quase caí da cadeira onde estava sentado, achei que ela estivesse brincando comigo. Meu coração batia tanto que achei que teria um infarto — ele suspirou e sorriu saudoso. — Eu perguntei como alguém como ela havia se apaixonado por alguém como eu. E, muito encabulada, a Naname me respondeu que havia se apaixonado pela primeira vez ao ver minha satisfação ao escolher e comer o primeiro bolo que ela tinha feito para confeitaria. Um bolo que nem estava com a aparência lá tão boa, mas o conteúdo era maravilhoso. Sabe, Yukio-sensei, se eu não tivesse descoberto o amor, talvez, agora, estaria me sentindo muito mal por estar sendo recriminado por um colega de trabalho o qual eu sempre respeitei e admirei, não só pela beleza, mas por ele sempre ter se mostrado ser mais que um recheio bonito, por ser inteligente e gentil. Mas, depois que descobri o amor, eu descobri também que eu apenas preciso estar bem para mim mesmo e para quem me ama de verdade, não me importa mais o que os outros pensam ou deixam de pensar. Espero que eu tenha respondido sua dúvida, pode ir.

...

Yukio destrancou a porta e entrou a passos mansos dentro de casa. Seguiu o aroma bom da comida que sempre impregnava o ambiente interior da sua casa e sorriu ao encontrar o irmão debruçado sobre a mesa bem posta. O pequeno gato-demônio se espreguiçou ao lado dele ao acordar com sua entrada. Tratou de fazer um gesto para Kuro, colocando a mão sobre os lábios, para que não fizesse barulho. Rin dormia profundamente, tanto que roncava, a boca aberta despejando baba sobre o braço. Agachou-se e ficou do lado dele na cadeira, contemplando-o por um tempo.

Tocou-o nos cabelos, afastou-os da testa e afagou-os com carinho, e enfim as lágrimas que havia se esforçado para sufocar desde o término da conversa com Harada transbordaram, criando uma pequena poça entre a pele debaixo dos olhos e os aros dos óculos. Percebeu os olhos de Kuro curiosos sobre ele e apenas balançou a cabeça, tentando passar ao felino que estava tudo bem. Retirou os óculos e esfregou o punho fechado sobre o rosto.

— E- eu não vou mais me enganar. Eu te amo. Muito. Muito, nii-san.

Sem pensar direito sobre aquele turbilhão de sentimentos que remexia seu interior e o fazia chorar, Yukio debruçou-se ao lado do corpo do irmão e encostou seus lábios sobre os dele.

Kuro sentou-se na bancada de mármore para onde pulara quando Yukio se aproximou de Rin, e ficou acompanhando tudo. Pendeu a cabeça para o lado. Não compreendia o que aquele gesto significava, mas entendia que era uma demonstração de afeto entre humanos. Por isso, manteve-se indiferente e até bocejou. Depois disso ergueu a pequena pata diante do rosto e passou a lambê-la.

As orelhas pontudas de Rin se moveram como se captassem, mesmo no mundo dos sonhos, aquela demonstração de carinho do irmão.

Yukio se afastou rapidamente ao perceber que Rin se movia e sentiu o rosto afoguear ao dar-se conta do que havia feito. Lembrou-se de Kuro, mas ao olhar o gato do irmão banhando-se como se nada tivesse acontecido, respirou mais tranquilo e procurou disfarçar seu embaraço.

Rin esticou os braços, se espreguiçou e abriu a boca em um bocejo, ainda sonolento. Ao ver o irmão ao seu lado, estendeu a mão e tocou o rosto dele, notando que a umidade que fazia o rosto dele brilhar eram lágrimas. Ficou preocupado.

— O que houve, Yukio?

— Nada — o mais novo tratou de negar rapidamente, balançando também a cabeça. — Está tarde. Vamos para cama, nii-san? Você dormiu de mau jeito, debruçado na mesa, deve estar todo dolorido.

— Como assim não é nada? Você está chorando.

— Ah? Isso? — ele passou os dedos no rosto e sorriu sem graça. — Deve ter caído algo durante a missão, meus olhos não pararam de lacrimejar desde que saí do quartel.

— É isso mesmo, Yukio? — desconfiou.

— Garanto que sim, nii-san. Mas fico feliz que tenha ficado preocupado. Obrigado.

Aquele ponto de vista pegou Rin de surpresa e o fez levantar da cadeira abruptamente e, envergonhado, apontou o fogão, querendo mudar de assunto imediatamente.

— Mas, eu fiz o jantar e a mesa está até pronta.

— Eu vi. Mas acho que você quis dizer que fez um banquete, não foi?

— É?

— É muita comida para comermos agora, antes de dormir, nii-san. Vamos deixar para amanhã — sugeriu Yukio, puxando Rin pelo punho e saindo com ele da cozinha.

Kuro pulou da bancada para o chão e os seguiu.

— Podemos chamar mais gente para almoçar conosco — adicionou, ao se deter diante da porta de Rin e soltar do punho dele.

Rin coçou o nariz, bocejou novamente e deu de ombros.

— Por mim, tudo bem. Vou chamar o pessoal da academia.

— Que tal eu convidar um amigo dessa vez?

— Não sabia que tinha amigos.

— Vou ignorar sua ironia — rebateu, dando as costas para Rin e adentrando o cômodo que ficava de frente ao do irmão. — Boa noite — desejou ao fechar a porta.

Rin resmungou por não ter tido tempo de responder o “boa noite” e fez um bico de contrariedade, entrando em seu quarto em seguida, sendo acompanhado por Kuro, que pulou para cama assim que ele desabou sobre ela.

Ficou pensando no irmão e na desculpa sem sentido que ele inventara para disfarçar as lágrimas. Ainda havia aquela estranha sensação que o despertara do sono. A princípio, imaginou que fosse a Shiemi, a amiga tinha aquela estranha mania de chegar de supetão e surpreendê-lo com algum gesto impensado. Por isso ficou confuso quando abriu os olhos e viu que se tratava do irmão.

Virou para o lado e abraçou o estômago, sentindo-o contrair. Não conseguia imaginar que Yukio pudesse tê-lo beijado enquanto dormia.

“Rin, você está com dor de estômago?” Kuro perguntou, pulando para cima dele.

— Só estou confuso.

“Confuso?”, o felino questionou, pulando de volta para cama e encarando seu dono com a cabeça pendida para o lado.

Mas bastou encarar Kuro e aquela ideia iluminou sua mente. Kuro era a resposta para suas dúvidas. Sentou-se na cama e apanhou o pequeno por debaixo dos braços.

“O que foi, Rin?”

Abriu a boca, mas não conseguiu falar. Estava tenso. Simplesmente não sabia como faria aquela pergunta tão constrangedora.

“Rin?”

— Não é nada não, Kuro — garantiu, largando o felino e voltando a se deitar.

“Está tão estranho quanto seu irmão”

— Como meu irmão? Por quê?

— Não sei. Não entendo vocês humanos.

— Você sabe por que o Yukio estava chorando?

Sem se preocupar se estava dedurando Yukio ou não, Kuro contou a verdade para Rin, incluindo, a parte constrangedora do beijo. Assim que terminou de narrar o ocorrido, Kuro viu o rosto e até as orelhas pontudas de Rin serem cobertos por uma intensa cor rubra.

“Rin?”.

...

Yukio saiu do banho distraído, resmungando uma canção enquanto secava os cabelos na toalha, por isso não notou aquele monte formado no meio da sua cama e sob seu edredom. Mantendo-se alheio, sentou-se à beira do leito, e continuou com a tarefa de secar os cabelos. Somente quando terminou, e descobriu a cabeça, que o monte atrás dele ficou evidente pelo reflexo do espelho na sua frente. Assustado, deu um pulo para fora da cama, e puxou o edredom, revelando Rin encolhido na sua cama.

— O que está fazendo aí, nii-san?

— Vim dormir com você, bleh! — mostrou a língua ao responder malcriado, como se a resposta fosse óbvia.

— E por que isso agora? — Yukio perguntou, menos energético. Aproveitou para pendurar a toalha no suporte e voltou para se sentar à beira da cama novamente. — Faz muito tempo que não dormimos mais juntos. Não acha que já estamos crescidinhos?

Apesar de Rin concordar com um meneio positivo de cabeça, Yukio notou que seu argumento não o convenceu, porque ele continuou encarando-o enquanto sacudia a cauda de um lado para o outro, sinal claro que estava agitado e prestes a aprontar uma das dele.

Yukio suspirou fundo e largou os ombros.

— Apenas pare de balançar essa cauda. Isso me irrita — resmungou, e fez um gesto para que Rin se afastasse. Mas assim que se deitou, o irmão o agarrou, exatamente como suspeitara, Rin estava querendo aprontar uma das suas.

— Não faça isso, nii-san!

— Nah, Yukio? Somos gêmeos, né? Eu sinto falta da minha outra metade. Você não sente o mesmo? — perguntou Rin, fechando os olhos, enquanto entrelaçava as pernas no corpo do irmão.

— Vai me sufocar assim — Yukio advertiu, mas sorriu, desistindo de resistir ao agarre.

Yukio virou-se para ficar de frente com Rin e foi suficiente para que o mais velho se aconchegasse novamente. Fez um afago na cabeça encostada em seu peito e Rin apertou mais os olhos, gostando do carinho que recebia na cabeça. As bochechas ficaram vermelhas e a cauda mais agitada.

— Yukio?

— Hm?

— Seu coração está batendo tão rápido.

— Não era para estar? Com você agarrado em mim desse jeito? Não somos mais crianças, nii-san.

— E o que tem de diferente?

A pergunta inesperada fez o rosto de Yukio se afoguear. Rapidamente ele fugiu do olhar vívido que o irmão mais velho lhe lançava a espera de resposta.

— Nada — respondeu, simplesmente.

— Hã? Por que está se esquivando? Responda olhado para mim, Yukio!

— Apenas durma, nii-san.

— Não! Eu quero saber. Diga! — ordenou, impaciente, subindo sobre o corpo do irmão e sentando-se sobre o ventre dele. — Qual é a diferença em dormirmos juntos agora, nah?

A atitude de Rin fez Yukio arregalar os olhos. Pensou que se ele fosse um pouco mais esperto entenderia a resposta que estava bem evidente naquele instante. Afinal, Rin havia sentado justamente sobre a parte do seu corpo que mais demonstrava os sentimentos impuros que sentia.

“Fico feliz por você ainda ser tão ingênuo, nii-san, e não...”

— Você está duro, Yukio? — aquela pergunta despudorada interrompeu os pensamentos de Yukio como uma bala; fazendo-o gelar. Não apenas isso, Rin resfolegou-se sobre seu ventre como se quisesse se certificar do fato, concluindo ele próprio a resposta. — Sim, você está duro.

— Nii-san, o- o- o- o- que... — Yukio gaguejou, tentou levantar, mas Rin o manteve no mesmo lugar, forçando as mãos sobre o peito coberto por uma fina regata branca.

Parecia loucura, mas Yukio viu a expressão de Rin mudar de repente. Os olhos, de um tom azul bem diferente dos seus, ficaram mortiços e a língua umedeceu seus lábios. O irmão sorriu e as presas salientes ficaram visíveis por um momento. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, sentiu as mãos de Rin deslizarem por cima da regata até chegarem a base da sua cueca, onde ele segurou firme. Encarou-o ainda mais confuso, buscando uma explicação, mas o irmão mais velho apenas deu um sorriso matreiro, antes de concluir o que imaginava que ele faria.

Rin escorregou o corpo em direção aos pés da cama e puxou junto consigo a cueca de Yukio. Os olhos do mais velho dobraram de tamanho devido a surpresa de ver o membro do irmão mais novo despontar ereto como uma lança. Admirou com interesse aquela região e o sorriso esperto em seus lábios se tornou ainda maior.

— Estou surpreso — comentou ele. — Achei que fosse coisa da minha cabeça, mas você sente mesmo desejos pervertidos por... — Rin deteve-se ao notar que o corpo de Yukio tremia.

Voltou-se para o rosto do caçula e a expressão que viu despertou algo que pulsou dentro dele. Lágrimas escorriam pelo canto dos olhos turquesa do irmão e o rosto dele estava completamente vermelho; até as orelhas. Yukio ainda encobrira a boca com ambas as mãos, enquanto soluçava abafado, tentando se justificar.

— G- g- gomenasai[2], ni- ni- nii-san... E- e- estou t- tão c- c- constrangido por não conseguir m- me controlar... — ele choramingou soluçante, fazendo Rin balançar a cabeça negativamente, alcançando o rosto dele e segurando-o entre suas mãos. Juntou sua testa com a dele e encarou os olhos agora inundados.

— Você faz pose de durão, mas ainda é o mesmo bebê chorão que eu sempre amei.

— Ni- nii-san...

— Yukio... — Rin respirou fundo. — Ouvir você repetir “nii-san”, “nii-san”, “nii-san” a vida toda nunca foi algo fácil para mim. Tente imaginar como é para mim vê-lo agora, nesse instante, tremendo dos pés à cabeça enquanto seu rosto corado está sendo banhado por lágrimas. — Rin soltou um novo suspiro, fechando os olhos, como se precisasse acalmar uma fera dentro de si.

— E- eu não estou entendendo, ni- nii-san...

— Me dê a sua mão — Rin pediu, abrindo os olhos. Então afastou sua testa da do irmão, apanhou a mão dele e direcionou-a em seu peito.

Era uma confusão só. O ritmo do coração de Rin era frenético, um pulsar ritmado como a bomba de um motor. Yukio enfim compreendeu.

— Nii-san, você também...

— Isso é que você não viu o estado que está aqui embaixo... — Rin comentou e se aproximou novamente do rosto do irmão, segurou-o de novo com ambas as mãos, e limpou as lágrimas que restaram pelas bochechas com a língua. Só então afirmou: — Eu quero muito devorar você nesse momento, Yukio.

Os olhos do mais novo cresceram em espanto.

Mas Yukio respirou mais calmo, ainda tremulante, sentindo o hálito quente de Rin tocar em seu rosto, adentrar suas narinas e provocar arrepios que desconhecia ser capaz de sentir. Era a realização daquele estranho desejo. Um desejo que havia brotado ainda na infância, mas que optara por deixar adormecido em seu subconsciente por considerar impuro e imoral. Principalmente para eles, que viveram em uma igreja, doutrinados pela religião católica.

Porém, naquele momento, sentia que todos seus pensamentos reprimidos vinham à tona revividos por aquele que sempre fora o objeto dos seus pensamentos corrompidos: o próprio irmão. Umedeceu os lábios como se fizesse um convite mudo e Rin, que não era nada ingênuo como imaginava, o aceitou, avançando sobre sua boca e o beijando.

Chamas Azuis.

Quando os lábios do irmão mais velho tocaram os seus sentiu como se tivesse sendo envolto novamente pelas chamas azuis que despertavam quando o espírito de luta de Rin estava elevado. As chamas que ele próprio experimentara na pele ao ter os genes demoníacos, herdados do pai, despertos na luta que tiveram contra o próprio. Chamas que não queimavam seu hospedeiro, mas o protegia. A sensação de ter a boca de Rin sobre a sua e o corpo dele pressionando o seu era tão quente e enlouquecedora que se comparava com as chamas azuis.

Suas mãos envolveram o pescoço do irmão mais velho e sentiu o ventre dele aumentar a pressão sobre seu membro descoberto. Todavia, mesmo protegido pelo calção de dormir, Yukio também foi capaz de sentir a ereção de Rin firme.

Abriu as pernas, fazendo com que o mais velho se encaixasse entre elas, e o viu soltar da sua boca para emitir um gemido estrangulado.

— Deveria... se... livrar... desse calção, nii-san... — pediu com a respiração entrecortada.

O próprio Yukio estava em ponto de êxtase com aquele beijo sôfrego e a esfregação sobre seu corpo, ele não tinha certeza até onde avançariam, por isso queria ao menos gozar sentindo a ereção nua de Rin esfregando-se na sua.

Rin obedeceu imediatamente, retirou primeiro a camisa por cima da cabeça e a jogou de qualquer jeito no chão, em seguida desceu o calção, com certa urgência, como se não quisesse perder o contato com o corpo do irmão um minuto que fosse.

— Yukio... — ele sussurrou, voltando a tocar o rosto do caçula, mas apesar de o mais novo oferecer-lhe os lábios novamente, ele desviou da oferta, e avançou sobre o pescoço.

Um arrepio correu as costas de Rin e fez até mesmo sua cauda enrijecer quando Yukio começou a gemer estimulado por seus toques. Não deteve-se, e nem iria se deter, continuou depositando beijos e lambidas pelo pescoço do irmão, até descer para o ombro, passar para o peito e lamber o tecido da regata.

— Deixe-me tirar, nii-san... — Yukio objetou, querendo se livrar da camisa, mas Rin negou com a cabeça e aumentou o sorriso excitado em seu rosto.

O mais velho tinha algo melhor em mente. Ele usou dois dedos para esticar o tecido que protegia um dos mamilos do gêmeo caçula e sorriu ao visualizar o botão rosa despontar sob ele. Umedeceu os lábios o máximo que pode e com a ponta da língua passou a atiçar o mamilo embaixo do tecido.

A reação de Yukio foi arquear o corpo inteiro da cama, inclusive a cabeça, a qual jogou para trás. Aquele estimulo fazia com que arrepios generalizados brotassem por todo seu corpo e fizessem seu sexo pulsar como se estivesse prestes a explodir. Gemia incontrolavelmente com a boca entreaberta e nem sequer conseguiu conter a saliva que se acumulava e que começava a escorrer pelo canto da sua boca. Não imaginava que aquela região do seu corpo fosse tão sensível.

As reações do irmão mais novo fizeram o extinto de Rin se aflorar e intensificar. Ele sentia as mãos tremendos enquanto sua boca sugava um mamilo e depois o outro sob o tecido fino da camisa regata. Parou por um instante e apreciou o resultado: os mamilos rosados e inchados ficaram visíveis pelo tecido que ficara transparente devido sua saliva. Seu corpo se ascendeu como no estopim. Deslizou as mãos sobre a lateral do corpo de Yukio e finalmente puxou a regata para cima da cabeça dele e o viu erguer os braços para ajudá-lo com a tarefa de se livrar daquela peça estimulante, mas incômoda.

Ambos se vislumbraram completamente nus.

Mas Rin parecia em êxtase maior ao contemplar o mais novo. A respiração sôfrega e desregulada de Yukio fazia com que o peito dele subisse e descesse em um ritmo frenético, os dois mamilos que haviam sido tão judiados estavam eriçados e os bicos rijos. Rin passou a língua nos lábios novamente, extasiado com aquela visão. Sempre amou Yukio, um amor incondicional, que fazia seu peito queimar e o desejo de sempre protegê-lo ser maior que seu próprio desejo de viver. Morreria pelo irmão caçula sem pestanejar. Ele era sua metade, não sabia viver sem ele. Porém, jamais imaginou que aquele sentimento fosse se converter em algo tão carnal, ao ponto de desejar devorar cada centímetro daquele corpo tão convidativo ao deleite.

— Está me deixando constrangido me encarando desse jeito, nii-san — a observação de Yukio fez Rin despertar.

O rosto dele havia corado mais e as pintas embaixo dos olhos pareciam ainda mais lindas.

— Só estava pensando se você sempre foi bonito desse jeito.

— Como?

— Hm — negou com a cabeça.

— Está se arrependendo do que começou?

Rin sorriu e debruçou-se sobre o corpo de Yukio, alcançando novamente os lábios dele e depositando um beijo breve. Então aproximou da lateral do rosto do irmão e, rente a orelha, e sussurrou com os lábios úmidos do beijo: — Nada mais importa. Eu te disse, não disse, Yukio? Hoje eu vou te devorar. E quando eu estiver metendo com força dentro de você, quero ouvi-lo gritar e gemer o meu nome, entendeu? Meu nome: Rin.

O Okumura mais velho encarou o mais novo e, como esperado, sorriu ao ver o rubor no rosto dele aumentar.

— Eu não sabia que era tão depravado, nii-san.

— Né? — ele sorriu, mostrando as presas e sacudindo a cauda no ar; como se a observação tivesse sido um elogio.

Beijaram-se mais uma vez, desta vez, mais profundamente.

Mãos e bocas embalaram o ritmo daquele jogo sensual, línguas se encontraram, tocaram-se e se estimularam de todas as formas que encontraram.

Yukio não quis ficar passivo, fez questão de mostrar a Rin que também não era nada ingênuo, e quase o enlouqueceu com o sexo oral. Mas parou antes que o irmão gozasse. Tudo indicava que iriam até o final e não queria precipitar o orgasmo antes que Rin cumprisse a promessa que sussurra ao pé do seu ouvido. Por isso que, quando largou o pênis que expelia o pré-gozo, ouviu o irmão pedir com certa urgência para que se debruçasse sobre a cama.

Todavia, antes que aquele Rin afobado começasse a penetrá-lo sem preparo algum, abriu a gaveta do criado mudo, ao lado da cama, e buscou entre os objetos lá dentro um tubo de creme o qual entregou nas mãos do irmão.

— Use isso, nii-san.

Rin apanhou o tubo de creme e leu a descrição com perplexidade. Olhou do tubo para o irmão debruçado na cama e percebeu as orelhas dele ficarem mais vermelhas.

— Né, Yukio, você usava isso para...

— Não pergunte! — rebateu depressa. — Apenas use os dedos para lubrificar o máximo que puder aí atrás e use um pouco em seu próprio pênis. Não terá graça nenhuma se eu sentir muita dor — explicou e em seguida afundou o rosto envergonhado no travesseiro que abraçava.

A boca de Rin se abriu, mas logo voltou a fechar, entendera muito bem que o irmão vinha praticando, não era preciso perguntar. E, por hora, preferiu pensar que era com algum objeto e não com outra pessoa.

Abriu o tubo com cuidado, despejou o conteúdo viscoso sobre dois dos seus dedos e, como orientado, passou a introduzi-los entre as nádegas de Yukio. Aquele processo fora um tanto embaraçoso, mas fascinante, sentiu seus dedos comprimidos passarem com dificuldade pela resistência estreita do orifício anal, mas quando conseguiu atravessar, eles se acomodaram lá dentro e pôde ter uma ideia do que o esperava. O lugar era apertado em demasia, quente e estava ficando úmido graças ao lubrificante. Sua boca começou a salivar e o coração disparou. A voz de Yukio estava abafada, mas reconhecia os gemidos que vinham toda vez que atingia algum ponto que o fazia contrair seus dedos.

— Oh... Isso é incrível.

— Chega, nii-san, eu vou enlouquecer — Yukio finalmente se manifestou depois de alguns minutos. — Entre de uma vez.

Rin assentiu, mas tomou uma nova decisão, segurando-o pela lateral, forçou-o a se virar.

— Espere, nii-san, o que vai...

— Quero fazer olhando pra você — Rin explicou, erguendo as pernas dele para o alto, enquanto direcionava seu membro ereto para entrada que havia sido bem preparada.

Aquela posição era muito embaraçosa e Yukio tentou esconder o rosto.

— Não, espere, nii-san, assim não... Ah! — sua fala foi cortada ao sentir o sexo do irmão o invadindo.

Rin, como prometera, entrou com força. Quando deu por si ele já estava debruçado sobre seu corpo, suas pernas erguidas para cima, enquanto o quadril de Rin se impulsionava contra suas nádegas, fazendo o sexo dele afundar e atingir o limite do seu corpo. Sua mente se apagou, não fora mais capaz de raciocinar direito. A sensação que o preenchia era tão extasiante que a única coisa que desejava era gozar. Rin repetiu o processo de entrada e saída várias vezes seguidas. Ele entrava e saía com força, enquanto ofegava.

— É tão quente... — Rin sussurrou. — Ah, Yukio, é tão bom.

— Nii... — O mais novo deteve-se ao sentir que o sexo do irmão atingia um ponto o qual não o permitiu mais se segurar, seu membro passou a espirrar sêmen e seu interior começou a convulsionar enquanto Rin continuava atingindo a região. Passou a gemer incontrolavelmente e acabou atendendo o desejo do irmão ao chamá-lo pelo nome, principalmente quando sentiu que o orgasmo quente dele o preenchia. — Rin! Rin! Rinnnnn!

Rin retesou-se até a cauda espetar-se no ar. Forçou-se a última estocada e deixou o membro pressionado pela convulsão de Yukio bombear seu esperma para dentro dele até transbordar. Alcançou a boca dele e o beijou, apenas deixando-se extasiar com o vibrar intenso de cada fibra do seu corpo. Ficaram naquela mesma posição até que o êxtase que energizava seus corpos se esvaísse por completo e só sobrasse o cansaço.

Quando tudo se acalmou, Rin retirou o sexo frígido e lambuzado de dentro de Yukio e deitou-se ao lado dele. Ambos permitiram-se apenas se abraçarem, respirarem e serem conduzidos pelo sono.

...

Na manhã seguinte, Kuro arranhava a porta do quarto de Yukio.

“Rin? Rin, você está aí dentro? Fome, Rin! Estou com fome!”, o felino ralhava na porta.

Ao perceber que não seria atendido, Kuro saltou, agarrando com as duas patas a maçaneta redonda da porta, e forçando o peso para baixo a fez girar e destravar. Voltou para o chão e empurrou a porta com a cabeça, uma brecha pequena suficiente para o seu corpo magro passar por ela. Farejou o ar, sentindo aquele odor diferente, mas não se incomodou, pulou para cama e viu os dois irmãos nus, agarrados um no corpo do outro. Até mesmo a cauda de Rin envolvia o corpo de Yukio. Eles ainda estavam dormindo profundamente. Kuro tentou acordá-los passeando sobre eles, batendo com a patinha no rosto de um e depois do outro, mas nada.

“Yukio, fome. Rin, fome!”.

Quando percebeu que os dois exorcistas não iriam acordar de forma alguma, Kuro deu-se por vencido, suspirou e decidiu dormir mais um pouco também, acomodando-se em uma pequena brecha que encontrou entre a cabeça dos dois.

Somente quando o sol entrava pela janela e o calor do dia tornava permanência no quarto abafado insuportável, que Yukio despertou, notando Kuro entre eles.

— K- Kuro? — Mas o felino não atendeu seu chamado e tanto ele quanto irmão se esticaram preguiçosos na cama, enquanto a saliva escorria pelo canto das bocas dos dois. — Parece que os gêmeos aqui são vocês.

Yukio buscou os óculos no criado mudo e apanhou o relógio da cômoda, consultando as horas, era quase hora do almoço e seu estômago acabou reclamando com um grande ronco ao ser lembrado daquele fato. Mas não teve tempo de se constranger, pois o barulho do seu ronco foi logo acompanhado pelo do estômago do irmão e de Kuro; apenas sorriu.

— Nii-san, vamos, acorde, está hora de colocar as mãos na massa.

— Ohayo[3]... — Rin resmungou, esfregando os olhos, e bocejando, quando sentiu as patinhas de Kuro, que se despreguiçava ao lado do seu rosto, entrar em sua boca. Tossiu. — Ei, Kuro! O que está fazendo aqui? — ele perguntou com o rosto corado, já que ele e o irmão estavam nus.

O felino despertou, não entendendo o ar exacerbado do dono.

“Já é tarde. Estava com fome, Rin! Ainda estou com fome! Você e o Yukio não acordavam nunca”, reclamou.

— Ele está certo, nii-san. Está tarde, vamos preparar o almoço. Vou tomar banho.

O mais velho assentiu, Yukio estava sorrindo, e o que aconteceu entre eles durante a noite não dava indícios de que mudaria a rotina deles. Ficou mais tranquilo. Talvez, aquela descoberta viria apenas para complementar o que sentiam. Sorriu ao ver Yukio descer da cama e acompanhou com o olhar interessado o corpo nu, principalmente quando o viu de costas. Hipnotizou-se com o balançar meticuloso das nádegas. Mas parou assim que sentiu as garrinhas afiadas de Kuro agarrar aquela parte do seu corpo que começava a se animar também.

— Oie, Kuro! Está ficando maluco? — bronqueou ele, o rosto mais vermelho, apanhou o felino pela pele do pescoço e o ergueu diante do seu rosto. — Meu pinto não é algo para você espetar com essas garras afiadas! — advertiu entre dentes.

“É que eu não sabia que vocês humanos tinham caudas nessa região também, Rin. Estava crescendo, eu só quis brincar”.

Rin estapeou a própria testa, mas caiu na gargalhada em seguida.

O riso alegre e exacerbado do irmão preencheu o peito de Yukio que já estava no banho. Lembrou do colega de serviço que abriu seus olhos e mentalizou que precisava agradecê-lo. Harada tinha razão, o amor se manifestava das mais diferentes formas.

...

Aquela tarde, esquentaram o banquete que Rin tinha feito na noite anterior, acrescentaram mais alguns pratos e Yukio fez questão de chamar um convidado especial para almoçar com eles.

“A campainha está tocando, Rin”, Kuro avisou.

— Podem continuar servindo a mesa, eu atendo — se propôs Yukio, retirando o avental e indo até a porta.

— Boa tarde, Harada-san — ele sorriu para o homem que estava com uma criança no colo, e uma linda jovem ao seu lado.

— Obrigado pelo convite, Okumura-kun. Essa é a minha esposa, Naname.

— Prazer em conhecê-lo — ela respondeu de forma delicada, reverenciando-o.

— O prazer é todo meu, Harada-san.

— E essa aqui é a nossa preciosa Chiharo-chan. Fale oi para o nii-san, querida.

— Prazer em conhecê-lo, nii-chan.

— O prazer é meu, Chiharo-chan — disse e reverenciou a pequenina com um meneio de cabeça. Em seguida abriu espaço na porta para que a família passasse. — Entrem, por favor, a comida já está na mesa.

O colega de serviço e sua família se espantaram com a fartura e os pratos à mesa.

— Nossa, isso sim é um verdadeiro banquete, Okumura-kun.

— É uma forma de me desculpar pela minha grosseria de antes. E, também, uma forma de agradecer. Seus conselhos me fizeram abrir os olhos e perceber o quanto eu estive agindo de maneira equivocada e egoísta, Harada-san. Comigo e com a pessoa que é mais importante para mim nesse mundo.

O homem assentiu com um sorriso e Yukio chamou o irmão.

— Rin?

— Nani[4]?! — ele apareceu com a forma de assado nas mãos, a qual depositou no centro da mesa.

— Cumprimente os convidados. Esse é o Harada-san, a esposa e sua pequena filha.

— Sejam bem vindos. Prazer em conhecê-los — Rin os reverenciou. — Olha, vocês têm uma filha! Posso pegá-la?

Rin parou diante do grande Harada, que o observava ainda surpreso, mas foi a filha abrir os bracinhos para ser pega por ele, e o homem se desarmou. O garoto parecia elétrico, tinha aquele sorriso gigante no rosto, as bochechas coradas e os olhos estreitados que esbanjavam simpatia. Quem era ele para julgar as formas de amar?

— Você quem cozinhou, Rin-san? — a esposa acompanhou o rapaz e a filha que sorria ao ser erguida no alto por ele.

— Você agora é um avião, vrummm. — A criança gargalhou. — Hm! Eu adoro cozinhar — respondeu à mãe da criança. — É uma das poucas coisas que faço bem. Nah, como é o nome dela?

— Chiharo.

— Ei, Chiharo-chan, quer comer a comida do onii-san?

— Hm. Mas antes, quero avião, onii-chan, avião.

Harada colocou a mão no ombro do colega e só então sorriu gentilmente.

— Parabéns. Ele é um garoto bonito e adorável.

Yukio espantou-se ao ver que o colega já havia entendido, coçou a nuca, um tanto envergonhado. Achou melhor não chocá-lo mais com o fato de que eram irmãos.

— Desculpe-me pela grosseria de antes. E por não prepará-lo sobre o fato de ele ser um garoto.

— Esqueça, rapaz — o colega meneou a cabeça. — Não existem regras para o amor, não é? — Apontou com a cabeça para a esposa que era uma jovem bonita, delicada e gentil e que escolhera ele, um homem com triplo do peso dela. — Vamos comer antes que esfrie — envolveu os ombros de Yukio e o levou para a mesa onde todos já estavam acomodados. — Vamos descobrir o quanto de amor esse seu garoto depositou nesse banquete.

— Sim!

Rin sorria com as expressões de satisfação dos convidados à mesa. Aquele sempre foi seu maior tesouro: ver a alegria de quem saboreava sua comida. Mas desde a noite passada, outra expressão de satisfação passaria a reinar em seu baú de tesouros: a expressão de prazer de Yukio ao ser devorado por ele.

Voltou-se para o irmão sentado ao seu lado e seu coração palpitou quando seus olhares se encontraram, desviaram para evitar constranger também as visitas, mas debaixo da mesa, onde Kuro brigava com um pedaço do assado, suas mãos se encontraram em um aperto firme e caloroso que praticamente declarava que a chama azul daquele amor, nem tão cedo iria se apagar.

Fim.

Vocabulário de Expressão

[1] Obentos – marmitas.

[2] Gomenasai: desculpe-me.

[3] Ohayo – Bom dia.

[4] Nani? – O que foi?/ O quê?

Notas finais
No final de setembro do ano passado eu recebi uma review da minha filhota Bruninha e nela ela me cobrou uma promessa que tinha feito a ela em 2011. Olha como é a cabeça de um autor. Às vezes eu me perco até em coisa que prometi há muito tempo atrás. Então, se tenho uma dívida com vocês, podem cobrar. A Bruninha o fez e depois de eu ficar com a cara lavada de tanta vergonha por ter me esquecido, eu comecei a pensar em um plot para desenvolver um dos presentes que ela me pediu: uma fic de Alone x Kagaho (Saint Seiya LC) e outra Okumuracest. Pensei que a melhor data para entregar o presente seria no aniversário dela e tracei para mim mesma essa meta. Mesmo com fim do ano chegando, decidi que iria fazer esse trabalho extra. Então, em outubro, comecei a rever toda a séria Ao no Exorcist, inclusive OVAs e o filme, que confesso não ter sido trabalho nenhum, pois amo essa série, e é uma das minhas favoritas. Depois que concluí essa etapa, já em novembro, começando minha correria no serviço, eu comecei a pensar no plot e passei a desenvolvê-lo devagar até que agora, no final do meu prazo, tive que acelerar pra poder conseguir terminar e estou muito feliz por ter conseguido. Filhota, você está há anos comigo, acompanha praticamente todos meus trabalhos. Então estou muito envergonhada por não ter feito esse presente para você antes e ainda ter esperado você me cobrar. Não ficou a altura, acho que poderia ser um trabalho maior e melhor, mas considere que é o primeiro. Deixe-me concluir meus outros trabalhos em andamento que irei pensar nessa fic de Kagaho x Alone, mas não deixe de me cobrar! Na verdade, eu tenho uma ideia para esse trabalho, que também envolve Ikki e Shun, por isso não quero fazer algo pequeno. Mas, hoje, 25/01/2015, seu aniversário, esse é o meu presente para você! Não só de aniversário, mais pela amizade, pela fidelidade e pelo carinho que você sempre dedicou à mim e aos meus trabalhos durante esses anos todos. Amei fazer essa fic, porque amo mesmo o anime Ao no Exorcist, e esses dois gêmeos protagonistas. Primeiro, por eles serem um dos primeiros gêmeos de animes que não são idênticos, e pela série ser tão rica, com humor, drama, ação, tudo em doses moderadas e bem distribuídas. Quem me conhece como fujoshi ou me acompanha mais de perto, sabe que tenho um fetiche louco por incesto, mais ainda por twincest, por isso que, essa fic, foi um presente para mim também escrever. E esse será só o primeiro conto de vários que farei nesse arquivo proibido aqui. Dando uma palhinha do que pretendo trabalhar aqui: Yuuki x Yuuta (Kimi to boku); Itachi x Sasuke (Naruto); Ikki e Shun (Saint Seiya); Yoru x Hikari (Pintando O Sete), são algumas das ideias. Mas, já aviso, que não é nada para agora, preciso priorizar os trabalhos em andamento mais antigos. Feliz aniversário, filhota! Obrigada pelo carinho que sempre teve por mim. Espero que goste do seu presente, tanto quanto gostei de escrever. Não só você, mas espero que mais leitores venham aqui prestigiar mais esse trabalho que fiz com muito empenho. Beijos, feliz aniversário!