CONFISSÕES DE ELENCO
3 Convite
"Tudo certo para amanhã?"
Perguntou (em inglês, claro)
Ai-meu-Deus, ele pensa que eu sou ela!
(Óbvio que pensa, esse é o whatsapp, dela)!
Fiquei paralisada por uns segundos, olhando para a mensagem — Naquele momento, eu não era mais eu, eu era Felicity Smoak! — Mentira, era eu mesma, totalmente idiotizada, lendo e relendo aquela mensagem, sem saber o que fazer.
E ele continuava digitando:
"Adiantaram a gravação em uma hora, te espero às 7:h, na portaria, ok?"
Ai, caramba, ele espera por uma resposta... Não posso continuar com isso, tenho que dar o recado a ele, rápido.
–"Hi"
(foi tudo o que consegui digitar com agilidade, meu Tico-e-Teco não estavam funcionando bem nem para me expressar em português, imagina em inglês! )
No geral eu consigo compreender quase tudo o que falam, mas quando se trata de escrever ou me expressar em inglês, as palavras simplesmente se escondem em algum canto escuro da minha mente...E era justamente por isso que eu estava fazendo aquele intercâmbio, precisava me aperfeiçoar no idioma!
"I'm not Felicity, She lost this..." Digitei por fim.
("eu não sou a Felicity, ela perdeu isso")
Eu gostaria de ter digitado algo mais coerente, mas não consegui formular uma frase decente por causa do nervosismo de estar falando com Ray Palmer!!!! Sou mega fã dele! Eu daria um rim por esse homem! Sério.
Ele foi super simpático, e me assegurou de que tentaria entrar em contato com a Felicity pelo interfone, para avisar que eu pretendia devolver o celular, e se tudo desse certo, ela me telefonaria dentro de alguns minutos para combinar o local de entrega do aparelho.
Fiquei com aquela história de que ele iria "interfonar para ela" na cabeça, e até joguei no Google tradutor ver se tinha lido certo. Mas era isso mesmo, só precisei esfregar um pouquinho da minha dignidade na lama ao subir a conversa deles para saber do que falaram antes para compreender que o Ray e a Felicity moram no mesmo prédio. (isso explica o interfone) E o motivo dele ter perguntado se estava tudo certo para amanhã, já que seu carro está na oficina e a Felicity tinha combinado de dar uma carona para ele até o sete de filmagens.
Não havia muitas conversas deles dois. E o tom era quase sempre formal (do jeito que a gente fala quando se é amigo, mas não tem muita intimidade com a pessoa, sabe?)
Eram apenas bons colegas de trabalho, Ufa.
Me distraí tanto lendo a conversa deles que até esqueci de ensaiar o meu inglês, caso a Felicity telefonasse.
Corri de volta para o Google tradutor, afim de formular uma explicação decente, mas já era tarde demais. O celular dela estava tocando, e meu estômago congelando.
—Hello?
Atendi tentando imitar um sotaque americano, mas bastou ouvir a voz dela do outro lado da linha, para que a retardada que há em mim desse as caras. Meu inglês saiu tão ruim que eu devia estar parecendo um índio recentemente alfabetizado tentando se comunicar na cidade grande, traduzindo para o português, eu devo ter falado mais ou menos assim:
– "Eu sou Aline, eu encontrar seu celular Comic Con. Eu pretender dar o celular a você".
Mesmo assim, ela foi extremamente gentil comigo, e a todo momento, agradecia por eu devolver o aparelho. Ela estava com a agenda lotada de gravações no dia seguinte, e nem sabia em que horário estaria livre para me encontrar, então, perguntou se eu não me importaria de ir até os estudos onde eles estariam gravando para devolver o celular.
Preciso ressaltar que quase desmaiei ao ouvir essa proposta?
– "Sim, Eu poder ir amanhã."
Ela me passou o endereço e as coordenadas para chegar ao sete, depois pediu meu nome completo e documento de identificação para deixar uma autorização da minha entrada na portaria.
Pensei que nem fosse conseguir dormir de ansiedade (mas consegui), o que foi ótimo, porque assim a manhã chegou rápido como um relâmpago.
Nunca prestei tanto a atenção na aula como naquele dia, era como se eu quisesse aperfeiçoar todo meu inglês numa tacada só.
E lá estava eu, rumo ao encontro dos meus ídolos, e me sentindo muito importante por conseguir adentrar os estúdios da CW!! E quanto a isso, fraquejei bonito, pois comecei a tirar fotos de tudo o que via pela frente, e compartilhei no grupo de Olicity do whats, deixando minhas amigas loucas por mais detalhes, tão loucas que fui obrigada a silenciar o aparelho para não chamar atenção.
Quase me perdi lá dentro, mas finalmente cheguei ao sete, e quase cai para trás quando vi o Queen (ao lado dela) durante a gravação, estavam longe, mas eu seria uma hipócrita se negasse o quão íntimos os dois pareciam ser.
Por um segundo me arrependi de não ter lido sobre o que conversavam no whatsapp, e de não ter fuxicado suas fotos... Mas logo me lembrei de como ela parecia aliviada ao me agradecer copiosamente na ligação da noite anterior, e me senti bem comigo mesma por ter sido honesta (apesar dos pesares).
Ela tinha pedido para eu entrar em contato com a Fanta quando chegasse aos estúdios, pois ela estaria ao seu lado e passaria o recado. (Foi assim que descobri, que além de amiga, a tal de Fanta é a assessora dela também).
Informei que já estava por perto, e de blusa verde (para me identificarem).
E para o meu desgosto, quem veio pegar o telefone não foi a Felicity, e sim a Fanta.
Ela me estendeu a mão com cara de poucos amigos, fiz menção de aperta-la mas tive medo de que a criatura esmagasse meus dedos. Então me limitei a sorrir, fazendo-a me imitar.
–"Você entende minha língua?" (perguntou, falando em pausas, como quem se comunica com um bebê).
– Sim, eu entendo. (Respondi, com minha clássica estratégia de imitar o sotaque americano, eu conseguia ser eficiente nisso quando se tratava de frases fácies e curtas).
O sorriso torto dela sumiu do rosto.
–Ok, diga-me, quanto quer pelas fotos.
–O que?
–As fotos do celular da Felicity, quanto quer por elas?
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo, e obriguei meu cérebro a expulsar as palavras que eu sabia em inglês do canto escuro da minha mente, e trazê-las para a luz, onde poderia usa-las.
–"Eu só querer devolver o celular da sua amiga. Eu não querer seu dinheiro". — Expliquei.
Ela arregalou os olhos, alarmada.
"-Porque não quer o meu dinheiro? Já fechou negócio com alguma revista? Diga-me qual é o site? Não é possível que você já tenha tido tempo de passar os arquivos para eles, diga-me quanto quer por elas, eu cubro a oferta."
–Não! -exclamei ofendida, e pretendia completar a frase, explicando que eu não tinha olhado nada, mas as palavras sumiram da minha mente, e eu fiquei na defensiva. Isso só serviu para deixar a mulher mais desesperada.
– Por favor — implorou a senhorita nome de refrigerante — "a Felicity tem conseguido manter sua imagem impecável na mídia, e um escândalo desses só prejudicaria a carreira dela. — Explicou.
– Eu não saber de nada, eu não olhar as fotos. — Assegurei, com a voz trêmula.
Ela não pareceu convencida.
– Diga-me o preço. — Exigiu, sem perceber que tinha aumentado o tom de voz, chamando a atenção de todos no ambiente, e atrapalhado a gravação. De repente, todos estavam me encarando, inclusive a Felicity e o Queen!!
Poxa vida! Como todo bom fã que se preze, eu sempre desejei que eles soubessem da minha existência, mas nunca imaginei que aconteceria dessa forma, tão... constrangedora.
"-Algum problema?" -Perguntou um dos produtores, ao se aproximar de nós.
A nome de refrigerante se prontificou em explicar:
"-Esta moça encontrou o celular da Felicity, sem senha de bloqueio. E eu estou tentando negociar um preço justo para manter a confidencialidade de seus arquivos pessoais."
–Mas eu não querer dinheiro! — Exclamei, fuzilando-a com o olhar.
"-Vamos fazer uma pequena pausa nas gravações! — Anunciou o produtor — Felicity, venha até aqui, por favor.
Reparei quando o Queen a olhou com ar interrogativo, mas ela pediu gentilmente para que ele aguardasse um pouco.
(Não ouvi o que disseram, mas deu para entender pela linguagem corporal).
Em seguida, ela se aproximou, com os olhos aflitos, me encarando com uma expressão de dar dó.
E por um minuto esqueci que eu era uma fã deslumbrada, só queria convence-los de que sou honesta.
Respirei fundo, olhando bem nos olhos dela e comecei a me expressar, da melhor forma que pude.
–"Felicity, eu não querer dinheiro pelas suas fotos, eu não olhar nada. Você precisar acreditar em mim, eu não , ver nada, eu prometo!
(na verdade eu estava tentando "jurar" que não tinha visto nada, mas na hora eu não me lembrava de como se dizia "Eu juro" em inglês, e acabei falando "eu prometo".
–Está vendo?! Ela se recusa a contar para quem vendeu as fotos, eu não sei mais o que fazer! -Reclamou Fanta.
–Espera! — interrompeu o produtor — tem algum spoiler importante nesse celular? Você não baixa os textos da série nele não né Felicity?
–EU-NÃO-OLHAR-NADA! — Repeti, indignada.
Felicity suspirou, passando os olhos analíticos de mim para eles.
–"Eu acho que podemos acreditar nela." — Concluiu.
Aquelas palavras caíram como um guarda-chuvas brotando em meio a tempestade sobre mim.
Estendi a mão e entreguei o celular direto para a dona, ela me lançou um sutil olhar condolente, e só então eu percebi que haviam lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
—_"Eu só vim, entregar o celular" — Falei, surpreendendo a mim mesma pelo inglês perfeito — "Agora preciso ir porque já estou atrasada para uma entrevista de emprego". -Menti. Não tinha entrevista nenhuma, eu só não aguentava mais ficar ali.
–Tem Spoilers ou não? -Insistiu o produtor, me ignorando.
(Ótimo, agora, além de mau caráter eu era invisível também)
Felicity fez uma careta, com cara de culpada.
–Faço o Download todos os textos e leio pelo celular...
–MAS QUE DROGA FELICITY(sim, ele gritou com ela) Felicity, VOCÊ PRECISA TER MAIS CUIDADO!
–A culpa não foi dela. — defendeu Fanta — o celular estava comigo, fui eu que perdi.
Felicity perdeu a paciência:
–Gente, calma! Eu não acredito que esta garota tenha agido de má fé. Mas... se vocês fazem tanta questão, eu posso usar o "sonde-me" para provar.
–Sonde-me? O que é isso?
–Um aplicativo que mostra o dia e horário do último acesso de qualquer aplicativo do celular, e... Pronto, aqui está, o último acesso à minha galeria de fotos aconteceu ontem, as 14:46h da tarde. Não foi esse o horário em que você me pediu o celular emprestado para tirar uma foto com o Will Smith? -Perguntou, retoricamente, encarando a amiga num tom de irmã coberta de razão.
Vibrei por dentro, enquanto Felicity continuava:
–E quanto ao histórico de downloads, que é onde estão armazenados os textos... Olha! -Exclamou com ironia- ninguém mexeu aqui também.
"-Foi o que eu disse!"
(Enfatizei, com os braços cruzados e cara de triunfo).
Eles ficaram tão sem graça, mas tão sem graça, que me convidaram para festa uma festa de Halloween que aconteceria a noite, como forma de desculpas (e recompensa).
Na realidade, quem me convidou foi o produtor, e eu não sei se foi só por educação ou não, só sei que aceitei sem pestanejar!
É lógico que eu não tinha uma fantasia decente (nem tempo, nem dinheiro para comprar), então pensei em me fantasiar de zumbi, ou qualquer outra coisa que desse para fazer apenas com maquiagem e roupas rasgadas, mas tive medo de fazer papel de ridícula, como a Lindsay Lohan, naquele filme "meninas malvadas" e decidi optar pelo clássico "louca sexy", vestindo-me de Arlequina, com uma pintura leve, cílios postiços, batom vermelho, maria chiquinha com as pontas coloridas, meia calça Preta, vestido xadrez curto, e salto alto.
Pronto!
Me senti um pouco deslocada no início da festa, mas... bastaram três taças de vinho e uma selfie com Roy haynes para me sentir soltinha da Silva, até o inglês estava melhor, e precisei ir à um canto isolado para me recompor (Deus me livre de dar vexame numa festa dessas).
Andei meio aérea, passando do salão de luzes piscantes, direto para um corredor largo, cheio de cômodos praticamente vazios, decidi ir para o último, porque achei que correria menos riscos de encontrar alguém lá, pois estava louca para tirar aquele sapato que estava me matando!
Agora, lembra daquela menina recatada que não teve coragem de vasculhar o celular de sua atriz favorita? Então, ela simplesmente não existe com álcool nos miolos!
Eu ainda tinha uma taça cheinha de vinho tinto na mão, quando avistei a Felicity e o Queen num cantinho isolado da sacada. Eles estavam concentrados demais para me ver, e não me orgulho de ter jogado meu senso crítico pelo ralo quando me escondi na penumbra para tentar observa-los com mais atenção, sentindo-me uma integrante da imprensa marrom* quando percebi o que estava fazendo. Eles pareciam estar discutindo, com as emoções a flor da pele. E, de onde eu estava, era possível entender cada palavra do que diziam...
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