C.L.O.E: Ciência,Lealdade,Obrigação e Exterminação
2 Um Bot Assiste Desenho em Minha Casa
Eu devia minha alma à Greta, pois quando a policia chegou e tentaram me levar embora algemado sem escutar minha história, ela me defendeu por um bom tempo, na verdade apenas tempo o suficiente para Bach acordar, eu não o deixaria sozinho na bendita oficina depois de uma crise. Ele não tinha família e eu não tinha família, o que nos tornava a família um do outro em momentos como aquele.
–Minhas pernas estão dormentes. Minha cabeça tá dormente. Minha alma vai escapar...
–Eu não acredito que você acredita em alma, pensei que você fosse um homem da ciência. – Eu estava o ajudando a sair do caminhão.
–Quem desenhou estas drogas tão altas, odeio caminhões a partir de hoje!
Eu não sabia se perdia um bom comentário ou um bom amigo naquele momento, uma vez que sem caminhões a bunda dele estaria sendo chutada para a rua. Ele estava doente e com o cérebro sobre efeito de remédios então eu ia deixar passar o fato de ele ter insultado meu amado caminhão. Ao descer suas pernas bambearam e ele caiu de joelhos no chão de cascalhos que rodeavam todo o litoral.
–Nossa, você parece até bêbado.
–Vou descontar do seu salário... cada Band-Aid que eu colocar em mim do trajeto desse caminhão até a entrada da sua casa.
Uma característica dos cascalhos é que se alguém próximo a você se mexer você sabe, pois eles produzem um barulho peculiar, eu e Bach estávamos parados por uns segundos para ele se recompor, mas alguém estava andando nos cascalhos próximos a nós. Assustado, me virei para trás e bruscamente me dei de cara com dois homens ambos de terno azul-marinho e com crachás federais em seus peitos.
–... Quem são vocês. – Eu perguntei gaguejando um pouco.
–Você é Daniel Suun, o proprietário deste terreno?
–Sim.
–Dan, quem são esses caras? – Bach sussurrou.
–Pode nos provar isso?
Eles se aproximaram e eu forcei Bach para trás de mim, dei alguns passos para trás. Minha carteira e os documentos do depósito estavam dentro da casa, demoraria um pouco para servir de muleta para Bach até lá, mas eu também não queria deixa-lo sozinho com aqueles dois homens que mais pareciam extraterrestres.
–Bach vem comigo e tenta andar rápido, meus documentos tão dentro de casa.
–Não se preocupe, Sr. Suun. Pode ir que ficamos aqui com seu amigo. –Disse o E.T nº 1.
–Olha eu não sei não...
–Não tem problema, Dan. Não é como se eles fossem me sequestrar. – Ele estava tentando disfarçar o medo que tinha daquela situação, algo não estava certo e eu não queria aquelas pessoas na minha propriedade. Eu me afastei em passos longos e rápidos, para não dizer correndo, olhando para trás a cada instante para checar se Bach ainda estava acenando com um sorriso nervoso perto do caminhão.
Eu passei meu Key-Card na porta mais de uma vez até ele funcionar, estava ficando arranhado e era por isso que o identificador da casa estava negando a minha entrada. Minha carteira estava encima do balcão da cozinha, mas foi algo que seria ligeiramente invisível para muitos, claro que nunca para mim, pois moro nessa casa há 12 anos. Eu raramente movia minhas coisas de lugar, também nunca fui alguém que tropeçasse nos próprios moveis ou tivesse tendência a bater o dedinho no canto deles, mas eu podia notar que a mesa de centro estava um pouco fora do lugar. Ela tinha o formato de uma grande caixa retangular e o espaço onde ela sempre esteve era o mais empoeirado, mas havia um pequeno traço no chão, de apenas alguns milímetros talvez que estava sem poeira. Aquilo me deixou um pouco receoso.
–Sr. Suun? – Um dos E.Ts chamou.
–E-Estou indo!
Eu tentei ignorar meus pensamentos e voltei a procurar os documentos da casa, que logo acabei encontrando em uma das gavetas de minha cômoda. Eu corri até os homens de terno azul e os mostrei minhas documentações.
–Parece tudo certo, somos da segurança De um navio de pesquisa cientifica do governo, Sr. Suun. Estávamos a caminho de São Paulo. – Disse o E.T nº 2.
–Lógico que uma cidade como Santa Olga também atraiu nossa atenção, são inúmeras as revelações científicas e comerciais que saem daqui, mas infelizmente não estava em nossa rota de viagem até... o acidente. – Disse o E.T nº 1.
–Acidente? – Bach era milésimos de segundo mais curioso que eu.
–Nosso navio bateu em uma rocha e uma de nossas mercadorias caiu no mar. – Ele soou um tanto irritado pelo evento, eu pude escutar seus dentes rangerem. – Sorte que flutua, então é mais fácil achar de lancha pelo litoral. As águas daqui são um tanto calmas, não deve estar longe ou pode ter parado na praia.
–Por isso estão no meu depósito?
–Sim... achamos que talvez ela estivesse por aqui. – Sua voz continuava a soar estranho.
–“Estivesse por aqui”, diz como se essa coisa andasse.
–Bach, não enche, eles são do governo isso é jeito de falar.
O telefone do E.T nº 2 começou a tocar e ele se afastou. O E.T nº 1 se virou de costas para nós para observar seu colega conversando ao telefone. Tudo o que faziam, ate mesmo cada gesto deles era suspeito demais, estavam me dando nos nervos e Bach não era como eu, quando se sentia curioso sobre algo ele simplesmente falava a primeira coisa que vinha em sua cabeça.
O E.T que falava ao telefone se virou para seu colega e foi até ele, após sussurrar algo em seu ouvido ele voltou a se afastar para falar ao telefone. Mas o E.T nº 1 se aproximou de mim e de Bach com um sorriso disfarçado em seu rosto.
–Sentimos muito pelo incômodo Sr. Suun, nosso superior pede encarecidamente que autorize uma nova busca em breve pelas redondezas daqui.
–A praia não é minha.
–Só em caso de termos que passar por seu depósito novamente.
–... Claro, sem problemas.
–Muito obrigado pela sua paciência, tenham um bom dia.
Enquanto o outro se despedia o E.T nº 2 desligava seu telefone e seguia seu colega passando por nós dois.
–Sr. Suun... – Ele me cumprimentou assentindo com sua cabeça, mas seu rosto se tornou um tanto cruel ao olhar para Bach, o mesmo olhar que os outros entregadores me davam. — ... Bach.
–E.T.
Eu queria poder soca-lo naquele minuto, mas eu não encontrei forças, pois estava me controlando para não rir.
Quando os dois “seguranças” saíram finalmente pude levar Bach para dentro, é claro que no caminho lhe dei alguns cascudos e isso é uma ação rara que alguns empregados podem fazer em seus chefes como insultar suas mães de vez em outra. Acendi as luzes da sala e fui para a cozinha fazer café, Bach estava quase cochilando em meu sofá e assistindo um filme na TV.
Fui pego por meus pensamentos novamente enquanto observava a cafeteira automática, eu havia trocado minha Key-Card semana passada, será que o sistema de segurança de minha casa estava estranhando a nova?
–Dan...
Eu olhei para trás onde Bach me chamava, acabei por vendo uma das cenas mais marcantes de minha vida repetitiva e sem graça. Eu já havia visto muitos filmes de terror e nunca tive medo nenhum de fantasmas ou zombies e essas coisas, mas aquilo me fez sentir um arrepio que nunca na minha vida eu havia sentido. Aquela coisa com certeza era um bot, mas com muito mais certeza não era um bot comum, pois seus olhos eram escarlates com um tom um pouco púrpura e também eram bastante penetrantes como se aquilo pudesse vez meus órgãos por debaixo de minha carne e aquilo não tinha pele nem aparência humanoide, estava deformado na posição de um animal sem pele, apenas seu esqueleto agarrado ao teto e olhando para mim e para Bach. Sua boca cerrada não mostrava se tinha dentes ou não, mas eu esperava que aquilo não tivesse que abri-la. Pela primeira vez na minha vida eu senti terror, senti vontade de gritar por ajuda como uma criança faria por seus pais. Olhei para Bach que se encontrava exatamente abaixo da coisa, ele tremia e respirava alto como se estivesse tendo um ataque asmático, estava em pânico.
–N-Não se mova, Bach...
A coisa estão saltou para o chão fazendo com que Bach ficasse em choque a observando, então olhou diretamente para ele e em seguida seus membros começaram a se contorcer, seu esqueleto estava se remodelando como um cubo mágico. Logo aquela coisa parecia um pouco menor e seu formato estava mais humano mesmo que sem pele nem preenchimento entre seu esqueleto metálico. Para falar a verdade aquilo estava pequeno como uma criança e menos assustador do que no início, seus olhos também possuíam um formato mais redondo, suave...
–O-Ola...?
Ela olhou para mim e se aproximou. Eu estava aliviado por aquela coisa estar se afastando de Bach, mas ao mesmo tempo ela estava vindo em minha direção, o que me deixou parado como uma estátua. Eu mal podia sentir meus pulmões se movendo.
–Posso mudar de canal? – Perguntou com uma voz doce como a de uma menininha.
–A... A-A vontade.
Ela voltou para o sofá e se sentou ao lado de Bach, suas pernas agora curtas balançavam por não tocar o chão, ela pegou o controle sobre a mesa de centro e colocou em um show infantil que mostrava pessoas vestindo roupas ridículas e ensinando matemática com música. Ela soltou uma pequena e bela risadinha, sua voz era perfeitamente gravada, diferente do som que era reproduzido pelas cordas vocais dos outros bots, era quase humana.
–Você sabia que é impossível se dobrar um papel mais do que 7 vezes? – Ela perguntou para Bach.
–Sabia sim... – Bach tinha cabelos por todo seu rosto, mas a área envolta de seus olhos era um dos únicos lugares em que se podia avistar sua pele, ele estava ficando verde de tão nervoso, poderia vomitar a qualquer instante.
Eu me aproximei dos dois e me sentei ao lado da menina monstro robô, seus olhos vermelhos se mantinham no show e eu e Bach trocávamos olhares de pânico.
–Por que sua pele é assim? – Ela apontou para a área branca em meu pescoço e em seguida para as partes em minhas mãos.
–Eu tenho Vitiligo.
–O que é isso?
Sua voz possuía até mesmo as pequenas falhas da mudança de idade de uma criança.
–É... como posso te explicar... é uma coisa que vem com a sua genética.
–O que é genética?
A atenção que ela estava depositando no show estava se voltando para mim, ela possuía uma pergunta atrás da outra, eu diria que sua memoria e a área de comportamento embutidas em seu cérebro artificial eram de uma criança de no mínimo 7 anos. Bach parecia estar relaxando, e eu podia ver um pequeno traço de sorriso querendo aparecer no lado esquerdo de seu rosto.
–Uma coisa que você ganha do seu pai e da sua mãe.
–Eu não tenho pai e mãe... então eu não tenho genética, nem Vitiligo...
–É.
Naquele momento minha cabeça voltou a raciocinar, lembrei-me dos dois homens que estavam no depósito mais cedo e pensei que seria melhor ligar para eles, pois para mim ela se parecia bastante com uma carga valiosa e ela parecia estar perdida. Bach estava observando-a ver o show, ele estava fascinado por ela, eu dei um espirro e ele acabou que olhando para minha cara por um instante. Virei meus olhos varias vezes para o corredor até que ele percebesse o sinal.
–Aah, ei Dan, você tem creme pra barbear em algum lugar?
A menina robô monstro não parecia nos dar atenção naquele momento.
–Sim, vamos lá pra eu te mostrar.
–Claro, claro...
Hollywood teria vergonha de nossa atuação naquele momento, pois aquilo estava péssimo, nós nos levantamos rapidamente e fomos correndo para o quarto. Eu passei a Key-Card em minha porta nos trancando do lado de dentro.
–O que é aquele bot?! – Gritou Bach com um enorme sorriso no rosto.
–Deve ser a carga importante que aqueles caras mais cedo estavam procurando. Ela tá perdida.
–Parece mais foragida.
Então um barulho surgiu na porta. De repente a luz verde que aparece no passe onde se encaixa a Key-Card começou a piscar e a porta se abriu, mostrando a coisinha no observando do outro lado. Eu poderia apenas desmaiar naquele minuto, pois ela novamente conseguiu fazer meu sangue congelar, mas em vez disso eu apenas sorri para ela com minhas pernas bambas.
–Eu não gosto dos homens de azul, ele querem me fazer machucar as pessoas.
–Por que eles querem isso?
–Para se protegerem de pessoas ruins que também machucam.
Bach se aproximou dela e se ajoelhou a sua frente como se a estivesse examinando, pois é da natureza das maquinas serem peculiares nos olhos de Bach e é natural do Bach ser curioso.
–Você é um bot de segurança, provavelmente feita para algum multimilionário político ou cientista.
–Não faz sentido, não é? – Seu sorriso se abriu mostrando lindos dentes de porcelana polida.
–Como?
–Machucar alguém se seu propósito é proteger...
Ela deu meia-volta e voltou para a sala para assistir seu show infantil, deixando eu e Bach confusos e imóveis no quarto. Machucar uns para proteger outros já era coisa que a polícia sempre fazia e algo que é natural de todos os seres, mas é quase impossível de se evitar. O que mais estava me intrigando naquele momento na verdade era o porquê de criar algo no formato e com a voz de uma criança para proteger alguém e proteger usando o que? Bach se levantou do chão e ainda de costas para mim apenas virou um pouco seu rosto de lado.
–Não fale nada pra aqueles E.Ts, Dan.
–Não vou.
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