CINZAS E BRUMAS
50 SILÊNCIO E ESCURIDÃO
Nas masmorras profundas da capital, Mirabel é trancafiada em uma cela. Após algumas horas, a própria Rainha desce para o nível do cárcere para interrogá-la. List para em frente às grades da princesa draco e diz, com um tom cortante:
— Isso é realmente engraçado. Após anos de complicações diplomáticas e nove meses de guerra aberta, a princesa da nação inimiga se apresenta em frente ao meu trono de cabeça erguida. Tenho que admitir, draco: se não for burra, é muito corajosa.
Mirabel olha para a rainha imponente e responde com a voz cansada, mas firme:
— Senhora List Airgid, sei que sou sua inimiga e não há razão para me dar ouvidos. Mas, se a senhora ao menos sentir honestidade em minhas palavras, por favor, volte atrás em sua sentença ao Príncipe Lórien! Ele não possui culpa alguma! Fui eu quem quis acompanhá-lo.
A Rainha se mantém em absoluto silêncio diante do pedido. Ela muda de assunto, avaliando a garota:
— Não está desconfortável? Em uma cela úmida e fria como essa? Aposto que é completamente diferente do luxo a que está acostumada.
A draco responde com um pequeno e tímido sorriso:
— Ah, eu acho que já me acostumei com esse tipo de coisa. O silêncio, a escuridão... em qualquer lugar que eu vá, aparentemente, é só isso que me aguarda.
A princesa olha para as palmas de suas próprias mãos, pequenas e frágeis para os padrões de sua raça guerreira, e diz:
— Eu... acho que é isso que a minha fraqueza atrai. Seja em meu próprio povo, ou em uma nação estrangeira. Neste mundo, não há um lugar confortável para os fracos...
List tenta analisar o fluxo de energia de Mirabel enquanto ela fala, mas continua sem sucesso. Porém, as palavras da draco chegam aos ouvidos da Rainha, e ela sente o peso e a veracidade absoluta nelas. A matriarca então testa a garota:
— Você ficaria feliz se eu devolvesse a posição de General para Lórien?
Mirabel vira-se rapidamente para a Rainha e diz, com os olhos brilhando de esperança:
— S-sim! Eu ficaria muito contente!
A Rainha pergunta friamente, desprovida de qualquer emoção visível:
— Você morreria por isso, Mirabel de Drake?
O lugar silencioso, cheio de ecos e sombras, torna-se o palco de uma escolha impossível. Mas a draco apenas sorri com uma pureza desarmante e responde:
— Haha... Apenas isso? Por favor, Rainha, seja rápida. Eu nunca gostei de sentir dor.
List se espanta internamente com tamanha entrega pessoal. É algo quase extinto em um mundo tão violento e egoísta. Poderia parecer apenas uma mentira para impressionar, mas a Rainha sabe que aquelas palavras carregam uma lealdade inabalável.
Em total silêncio, a Rainha dá as costas e se retira da presença de Mirabel. Ela volta à sala do trono com os pensamentos confusos e decisões amargas para tomar. Nesse exato momento, o Comandante Griss entra com extrema urgência na presença de List e diz, ofegante:
— Minha Rainha, perdoe minha pressa, mas temos um problema terrível!
A matriarca senta-se no trono e responde:
— Pode relatar, Comandante.
Griss fala, mal conseguindo conter o tremor na voz:
— Um soldado acabou de chegar do posto avançado em Zelena e está gravemente ferido! Ele relata que um General de Drake apareceu no posto e o dominou em poucas horas!
A Rainha, furiosa, exige:
— Como assim?! Qual é o tamanho do exército inimigo?!
Griss, com o suor escorrendo pelo rosto, responde sob imensa tensão:
— E-ele diz que não há exército, minha Rainha... Apenas um general... O General Ron, de Drake!
List entra em fúria absoluta. A pressão esmagadora de seu poder vaza do corpo, rachando as paredes de cristal e a madeira ao redor de sua sala:
— Ron?! Aquele canalha! Então ele partiu para o tudo ou nada, não é?!
Griss recua um passo, mas continua o relatório:
— Senhora, o soldado ferido nos contou que Ron exigiu um acordo...
A Rainha respira fundo para se acalmar e pede para o comandante prosseguir. Ele continua:
— Ele afirma que não matará os moradores de Zelena, a menos que devolvamos a draco que está conosco!
List congela. Nesse instante, ela confirma a veracidade da história de Mirabel, percebendo que a garota está de fato sendo caçada implacavelmente pelo próprio povo. Griss conclui:
— Aparentemente, Ron deu dois dias de prazo para entregarmos essa draco... Como devemos prosseguir, senhora?
A matriarca pensa em silêncio. A política, a guerra e a sobrevivência de seu povo caem sobre seus ombros. A imagem do sorriso resignado da garota cruza sua mente por uma fração de segundo, mas é rapidamente esmagada pelo peso da coroa. Ela não pode sacrificar seu povo por piedade. Após alguns segundos de puro cálculo militar, ela decide:
— Entregaremos a draco! Preparem as carruagens e os soldados para efetuarem a troca!
Do lado de fora da grande porta do salão, escondido nas sombras, Sike está encostado na parede com os braços cruzados, escutando toda a situação. Enquanto isso, no fundo do cárcere, a Princesa Mirabel encontra alguma paz entre o silêncio e a escuridão, alheia ao fato de que seu destino acaba de ser selado.
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