CINZAS E BRUMAS

61 SENTENÇA E LONNAI


O campo de batalha se aquieta. O solo ainda estala, cedendo perante as imensas fissuras abertas na terra arrasada. Um homem com o punho quebrado e visivelmente exausto caminha mancando sobre a destruição. John para sua caminhada ao chegar perto do jovem mago, ainda caído.


​Ele se agacha e, com a mão boa, estapeia levemente o rosto de Sike, dizendo sem ânimo:


​— Vamos, moleque. Pode parar de fingir que está dormindo. Já dei um jeito no lagarto.


​O mago não reage, mergulhado num sono profundo causado pela extrema fadiga mágica. O cavaleiro solta um longo e pesado suspiro e murmura:


​— Aaah... Você realmente vai fazer eu te carregar, não é?


​John, então, agarra Sike, eleva o rapaz e o acomoda sobre os ombros. Com o aprendiz nas costas, ele inicia a caminhada tortuosa, avisando:


​— Vamos, fedelho. Acho que já deu pra nós por hoje.


​Ao dar o primeiro passo, o mundo para.


​O som úmido, visceral e oco de carne sendo perfurada rasga o silêncio. John sente um calafrio excruciante subir por sua espinha, ao mesmo tempo em que sente algo escorrendo quente e molhando seus pés. Sangue.


​Ele olha lentamente para baixo e arregala os olhos: a ponta inquebrável de sua própria espada anã, a Rezarti, transpassa o seu abdômen. Atrás de suas costas, uma voz rasgada sussurra:


​— Deveria verificar se o seu oponente realmente morreu... Mestre Cavaleiro.


​É o General Ron. De volta à sua forma humanoide original, ele está trêmulo e visivelmente abalado pelo golpe devastador de John. Com o crânio amassado e o rosto banhado em sangue dracônico, ele sorri de forma macabra e continua:


​— Você é incrivelmente forte, John Dickson! Pena que lhe faltou a frieza necessária para abandonar lixos como esse garoto!


​Após o escárnio, o general chuta violentamente as costas do cavaleiro, retirando a lâmina em um solavanco brutal. O impacto faz John despencar e derrubar Sike de seus ombros. Com a imensa ferida aberta pela espada de Aetherium, John fica estirado de bruços, agonizando sobre uma poça crescente do próprio sangue.


​Ron desfere uma saraivada impiedosa de chutes contra as costelas do humano, berrando em euforia predatória:


​— Vamos, levante-se! Não era você o grande humano que iria derrotar um general draco?! Faça alguma coisa, cão imperial! Ou você morrerá esmagado junto com o lixo do seu amiguinho!


​Após extravasar sua raiva nos golpes, o draco cessa a fúria. Com uma expressão de satisfação doentia, ele conclui:


​— Realmente... parece que acabou, cavaleiro.


​Ele ergue a garra, preparando-se para rasgar o pescoço de John, e finaliza:


​— Morra, humano!


​Mas antes que a garra desça, uma massiva saraivada de projéteis arcanos chove dos céus, atingindo o general em cheio. O impacto explosivo é forte o suficiente para arremessá-lo violentamente para longe do corpo estendido de John. Pego de surpresa e protegendo o rosto, Ron rosna:


​— O quê?!


​Nos céus manchados pela guerra, cruza Roxin, o majestoso grifo da Casa de Airgid. E, montado em suas costas, está o herdeiro elfo do trono de Vilini: o Príncipe Lórien.


​O elfo salta da sela e, em queda livre majestosa, ativa o seu lonnai em pleno ar. Uma forte e imponente luz azulada banha todo o campo de batalha. O príncipe dispara outra onda de projéteis contra a terra, mas, com a sua aura espiritual ativada, a magia se torna absurdamente mais densa e devastadora. Ao ver a tempestade de luz se aproximando, Ron cruza os braços para se defender e grita, enfurecido:


​— AGORA É A PORCARIA DE UM ELFO?!


​A rajada varre o alvo, levantando uma cortina espessa de poeira e detritos. Lórien aterrissa agilmente no solo e corre de encontro aos aliados. Ao chegar perto e ver o estado crítico e ensanguentado dos dois, ele arregala os olhos e diz com profundo pesar:


​— Sike... John...


​Cortando a fumaça de explosão, o draco ressurge avançando como um relâmpago na direção do príncipe para o confronto direto. Visivelmente maníaco, ele berra:


​— EU NÃO VOU ACEITAR MAIS ATRASOS PARA O LORDE MAHUMA! MORRA!!!


​Ao perceber que o embate físico é inevitável, Lórien se distancia dos companheiros caídos e assume a postura de combate. O elfo salta para trás, mantendo distância do draco para obter a vantagem tática do longo alcance; no entanto, sem árvores ou um ecossistema natural por perto, suas habilidades inatas são severamente limitadas, não surtindo o efeito de domínio de território que um alto-elfo possuiria no meio da floresta. É apenas uma questão de tempo até que a força bruta de Ron o encurrale.


​Enquanto a luta ruge lá fora, algo indescritível acontece na mente em colapso de John Dickson.


​Caído ao chão, o cavaleiro deixa de escutar o som da batalha. A sua visão desliga, dando lugar a um plano infinito, escuro e silencioso.


​No centro desse vazio, uma única fogueira crepita. John olha para as chamas e, estranhamente, o calor o preenche com um profundo e reconfortante sentimento de paz. Sentada próximo ao fogo, repousa uma figura desconhecida: um homem de cabelos grisalhos e longos, vestindo uma armadura de metal amassada pelo tempo, com uma espada quebrada fincada na terra imaginária ao seu lado.


​John Dickson olha fixamente para o homem, cuja aura exala a presença de um antigo mestre guerreiro. A figura retribui o olhar e, com uma voz rústica, firme e acolhedora, diz:


​— Vamos, sente-se à fogueira. Diga a ela o que o seu coração anseia. Se há algo que deseja intensamente, apenas peça a ela.


​John, receoso, mas movido pelo estranho conforto magnético do lugar, aproxima-se do fogo. Sentando-se perto das brasas, ele questiona:


​— Quem é você, velho cavaleiro? Onde eu estou?


​Com um riso grave e sereno, o desconhecido responde, atiçando a fogueira com um galho seco:


​— Que pergunta tola, rapaz. Você é quem me arrasta para cá e, ainda assim, não sabe onde está?


​Ao escutar a resposta, a mente de John dá um estalo. Ele associa imediatamente o momento à sua memória da luta contra Rokar, onde viu e conversou com o espírito de Tessia. Lendo o rosto do guerreiro loiro, o desconhecido sorri:


​— Ora, parece que se lembrou de algo.


​Receoso, John assente:


​— Sim... Recentemente, passei por algo muito parecido...


​Ele estreita os olhos para o velho cavaleiro de cabelos grisalhos e pergunta com extrema cautela:


​— Você... também está morto... velho cavaleiro?


​Cruzando os braços, fazendo o metal velho ranger, o homem reflete:


​— Hum... O que você considera como "morto"? Algo que não respira mais neste mundo material, ou algo que foi totalmente esquecido?


​Dickson fica em absoluto silêncio. O ancião continua:


​— Bom, se a resposta for a primeira opção, então sim, eu estou morto há eras. Mas, se a segunda opção for a correta... então eu ainda vivo. Fora deste plano.


​Sentindo a urgência de sua situação no mundo real bater como um martelo na consciência, John perde a paciência para os enigmas. Ele se levanta bruscamente e diz:


​— Pare de dizer bobagens, velho! Preciso sair daqui agora!


​Interrompendo a pressa do guerreiro, o desconhecido exclama, com uma voz que reverbera pelo éter:


​— Poder.


​John recua, atônito, e murmura:


​— O quê?


​A figura o encara nos olhos:


​— Você busca poder, não é, John Dickson? A sua jornada desde o início foi baseada em poder. Recrutar um jovem mago no deserto para derrotar o Império foi uma busca por poder. Conseguir um favor bélico dos elfos foi uma busca por poder. Mas isso ainda não é o suficiente, não é mesmo, John?


​O silêncio tenso ecoa pelo enorme vazio. O velho quebra o gelo com um tom solene:


​— Contudo... se é poder absoluto o que você necessita neste exato momento para sobreviver, então assim o terá. Afinal de contas, ele já é seu.


​Cada vez mais confuso com a própria mente, John indaga:


​— Mas... como assim? Onde está esse poder?


​O velho aponta para as chamas e repete:


​— Já lhe disse. Peça para a fogueira.


​John obedece e fixa o olhar intensamente no fogo. Como em um passe de mágica espiritual, as chamas mudam drasticamente de cor. Um tom de azul vívido e radiante toma conta das brasas. O fogo azul sobe violentamente, engolindo e envolvendo todo o corpo do guerreiro como um manto invencível.


​Com um sorriso orgulhoso, o velho ancestral conclui:


​— Muito bem. Agora você pode se retirar. Já entendeu o que deve ser feito.


​Sentindo o calor infinito em suas veias, John faz uma última pergunta enquanto seu espírito começa a ser puxado de volta:


​— Quem é você, velho?


​Desvanecendo junto com as cinzas da fogueira, o desconhecido se despede:


​— Que ironia divina. Sangue do meu sangue, e lhe pareço um estranho. Faça o que tem que fazer, John Dickson!


​No mundo externo, o caos impera. Lórien está em claríssima desvantagem tática devido à exaustão e à falta de um terreno favorável. Após tentar fugir, o elfo é abruptamente superado em velocidade e agarrado com força brutal pelo pescoço.


​O draco levanta as garras, mirando a garganta do herdeiro de Vilini. Mas, milésimos de segundo antes de desferir o golpe letal, uma detonação monumental de energia azul-celeste radiante ocorre a poucos metros deles. A pressão atmosférica esmaga o ar. Ambos congelam, virando os rostos para o pilar de luz.


​Ron, sentindo a própria pele formigar diante de tanta potência, grita, furioso e cego:


​— TEM MAIS UM INSETO QUERENDO MORRER?!


​Lórien, no entanto, protegendo os olhos, arregala-os em puro choque ao reconhecer a figura que se levanta de dentro da luz:


​John...?


​O elfo gagueja, incrédulo perante a anomalia:


​— Mas isso é... Um lonnai?!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.