CINZAS E BRUMAS

24 SACRIFÍCIO E FÚRIA


Os feixes de luz cortam o ar em direção a Sike. Antes que o atinjam, John salta e chuta o prodígio para o lado, salvando-o de ser perfurado. O mestre cavaleiro se recupera do movimento e grita:


— Acorda, garoto! Ou vai morrer para esse cara com esse nome ridículo?!


Sike se levanta rapidamente, batendo as mãos no rosto para afastar o choque inicial. Ele respira fundo e retruca:


— É, você tem razão. Não sei como ele usa a luz, mas ele ainda tem esse nome tosco. Não posso perder para ele!


A audácia da dupla irrita Tamuth profundamente. Ele rosna, perdendo a compostura:


— Ei, seus merdas! O que tem de errado com o meu nome?!


Tomado pelo surto de raiva, Tamuth lança uma nova saraivada de feixes. Sike ergue as mãos e levanta uma espessa barreira de gelo. O som da luz colidindo contra o cristal ecoa pela floresta; a barreira suporta o impacto, mas exige uma concentração absurda do mago. Enquanto isso, John continua lidando com os assassinos. Mesmo vendo a força descomunal do cavaleiro, eles não recuam.


Um dos assassinos lança uma adaga diretamente no rosto de John. Ele desvia no último segundo com um movimento seco.


— Ridículo — desdenha o cavaleiro.


Mas o assassino sorri. John percebe o erro tarde demais: o alvo nunca foi ele, mas sim Sike, que está vulnerável enquanto mantém a barreira. John dispara em velocidade total. Ele alcança a lâmina a milímetros do rosto do amigo, parando-a com a mão, mas a distração tem um preço. Um segundo assassino aproveita a brecha e perfura a clavícula de John por trás.

O mundo de Sike desacelera. Ele ouve um engasgo abafado atrás de si. Ele sente um peso bater contra suas costas, desestabilizando sua concentração. E então, ele sente o calor.

Sangue quente respinga na barreira de gelo imaculada e mancha a túnica de Sike.


O silêncio que se segue é mais ensurdecedor do que qualquer explosão. Sike olha para o sangue do amigo escorrendo para suas próprias botas. O choque se transforma em um vazio frio e, então, em uma pergunta dolorosa que quebra sua alma:


— John... por que... eu sou tão fraco?



Sike explode. A raiva pura transmuta a mana ao seu redor; a barreira de gelo se torna instantaneamente um mar de chamas devoradoras. Tamuth interrompe o ataque, impressionado com a densidade da energia que flui do garoto.


— Isso! É disso que precisamos! — exclama o vilão.


Com as veias saltando na testa, Sike estala os dedos. Os três assassinos são congelados em blocos de gelo sólido no mesmo instante e, logo em seguida, incinerados de dentro para fora até sobrarem apenas cinzas dentro dos cristais. Cego pela ira, Sike se vira para Tamuth e o envolve em um globo de gelo reforçado, paralisando o adversário.


Ele concentra uma quantidade absurda de mana nas mãos, pronto para reduzir Tamuth a pó. No entanto, uma mão firme agarra seu pulso. É John.


— Pare, seu idiota. Se continuar, não terá força nem para caminhar — diz o cavaleiro, a voz firme apesar do ferimento.


Sike se acalma lentamente ao ver o amigo de pé. Ele olha ao redor, atordoado com o cenário de caos: gelo e chamas espalhados por todos os lados.


— John... o que... o que eu fiz?


— Bom, acho que não precisamos pensar muito se olharmos para os lados — responde John. — Agora, se não for muito incômodo, dá para me dar uma ajuda aqui?


Sike congela levemente o local da apunhalada, estancando o sangramento de John.


— Certeza que vai ficar bem só com isso? — pergunta o mago, preocupado.


— Claro. Já sofri coisas muito piores. Você sabe como meu corpo funciona; daqui a pouco estarei novo em folha.



Subitamente, o casulo de gelo de Tamuth começa a rachar e explode em um flash ofuscante de luz. O vilão ressurge, mas está visivelmente abalado. Ele cambaleia, ofegante.


— Você... com tanto poder, tanto potencial... desperdiça isso com uma vida banal?! — grita Tamuth, cuspindo as palavras. — Você poderia rivalizar com o próprio Vince Elanter! Sabe o que eu precisei sacrificar para ter esse poder?!


Tamuth ergue as mãos, acumulando uma esfera de luz instável e massiva.


— Vou te mostrar, seu caipira inútil, como se usa o verdadeiro poder!


No momento em que ele se prepara para o disparo, seu nariz começa a jorrar sangue. O corpo dele falha. A magia artificial cobra seu preço.


— Não... agora não... — sussurra Tamuth, enfraquecido.


Antes que ele possa reagir, John aparece à sua frente. O punho do cavaleiro está erguido e carregado de uma força bruta.


— Poder? Se é poder o que você quer... ENTÃO PODE FICAR!


John desfere um golpe devastador que racha o chão sob os pés de Tamuth, esmagando o rosto do vilão contra a terra. O impacto encerra a batalha. A dupla sai vitoriosa, deixando para trás os destroços de um poder que nunca deveria ter sido criado.