CINZAS E BRUMAS

30 ROKAR E ANOMALIA


Em Zival, John e Sike passam seu primeiro dia. Ao amanhecer, eles deixam a casa de Vivian e a encontram logo na saída. Ela os encara, boquiaberta:


— Oh... caramba! Como seu ferimento já cicatrizou?! O que você é?! Algum tipo de monstro dos vales de Sence?!


John, desconfortável com a comparação, apenas resmunga para si mesmo:


— Tsc... Por que toda jovem faz a mesma pergunta?


Sem dar tempo para explicações, Vivian continua empolgada:


— Bom, já que está tão bem, vamos caçar um pouco!


Sike, ainda sonolento, questiona:


— Caçar? Mas ainda é de manhã. Não podemos simplesmente comprar algo para comer?


Vivian retruca com um olhar severo:


— Nossos mercadores não negociam com forasteiros, a menos que provem seu valor para a tribo. Por isso, vamos atrás do próprio alimento!


— Ei! Eu já lutei com o Rokar! — protesta Sike. — Eu não provei meu valor?!


Vivian solta uma risada debochada:


— Meu pai apenas brincou com você, "Foguinho". Se ele realmente estivesse lutando, você não estaria mais aqui. Mas, como ele gostou do seu jeito engraçado de se irritar, permitiu que ficassem na aldeia.


John interrompe, o tom de voz ficando subitamente sério:


— Vivian, o quão forte é o seu pai?


O tom enérgico de Vivian muda para algo mais denso e respeitoso:


— Meu pai, Rokar, é o soberano dos Homens-Feras. As histórias dizem que, no auge, ele combateu o Mestre Cavaleiro Zilion. Alguns dizem que ele venceu; outros, que empataram. Mas não existe uma única história em que ele tenha perdido. Ele enfrentou o humano mais forte de Ludí e, por causa disso, o Império se sentiu ameaçado. Começaram a isolar nosso povo, criando preconceito contra nossa tribo em terras humanas. Pararam de negociar conosco. Aos poucos, fomos nos isolando nas fronteiras, até que pensassem que nem existíamos mais. Resumindo: meu pai é forte o suficiente para fazer o Império tremer, e eu tenho orgulho disso!


John sente o peso daquelas palavras.


— Isso é incrível, Vivian. Seu pai é realmente um homem formidável se enfrentou o Sir Zilion.


— Não é?! — ela sorri, radiante com o elogio.


— Peço perdão pelo que o Império fez vocês passarem — diz John, sinceramente.


Vivian pisca, confusa:


— Ué, por que você está se desculpando?


Antes que John pudesse cometer um deslize, Sike salta e cobre a boca do cavaleiro com a mão, apontando freneticamente para a mata:


— Olha, Vivian! Um javali! Corra e não deixe ele escapar!


— Javali?! — os olhos dela brilham. — Faz dias que não como essa carne!


Ela sai em disparada como um raio entre as árvores. Assim que ela se afasta, Sike solta John e esbraveja:


— Ficou maluco, seu idiota?! Não percebeu que eles odeiam os imperiais? Não ouse contar que você foi um Mestre Cavaleiro de Rôga!


John coça a cabeça, sem graça:


— Ah, entendi, entendi... Não precisa ficar nervoso por causa disso, Foguinho.


— Eu vou torrar essa sua barba, seu desgraçado! — Sike ameaça, com as mãos já faiscando.


Subitamente, um estrondo massivo ecoa na direção para onde Vivian seguiu. O chão treme. Os dois partem em disparada e encontram a felina ferida no braço, diante de um Troll gigante.


Sike reage instantaneamente, lançando um feitiço que congela os pés da criatura, enquanto John salta para um soco direto no rosto do monstro. Contudo, o Troll explode o gelo com pura força bruta e rebate John com as costas da mão, arremessando o cavaleiro contra as árvores.


— Ei! Não ataquem de qualquer jeito! — grita Vivian, recuperando o fôlego. — Esse monstro tem algum tipo de inteligência! Droga, o que uma coisa dessas está fazendo aqui?!


John se levanta, limpando o sangue do canto da boca.


— É... eu já vi Trolls desse tipo onde não deveriam estar. Mas esse é bem maior.


O monstro solta um rugido estrondoso que faz os pássaros fugirem da floresta. Em resposta, vultos começam a emergir das sombras: dez Trolls menores surgem para flanquear o grupo.


Encurralados por dez monstros e uma anomalia gigante, Vivian, Sike e John se colocam em posição. A caçada acabou de virar uma luta pela sobrevivência.