CINZAS E BRUMAS
51 RECUPERAÇÃO E PEDIDO
Na ala curativa, John está sentado ao lado da maca de Lórien enquanto o príncipe se recupera dos custos devastadores de usar o seu Lonnai com infusão. O cavaleiro observa o estado do elfo e diz:
— O negócio tá feio assim, príncipe?
Lórien dá uma breve risada fraca e responde:
— Haha, não é uma das minhas melhores condições, Senhor Dickson.
John cruza os braços e fala:
— Bom, aquela enfermeira disse que se qualquer outro elfo usasse essa técnica da forma que você usou, já estaria em estado crítico e com danos quase irreversíveis. Então eu acho que isso faz de você alguém bem forte, eh?
Uma voz vinda da entrada da ala responde com tom de deboche:
— Nah, ele nem é tão forte assim.
Os dois se viram e olham para a porta. Encostado no batente, está um jovem elfo, que continua:
— Se eu fosse dar uma nota para ele, receberia um sete... com muito esforço.
Lórien abre um sorriso sincero no rosto e diz, surpreso:
— Keldrin?! Quando você voltou?!
O jovem elfo entra na sala e responde:
— Faz pouco tempo, mas não pude ficar parado ao saber que meu irmão mais velho estava nas últimas.
John pergunta, levantando uma sobrancelha para Lórien:
— Irmão? Quer dizer que ele também...
O recém-chegado estufa o peito e se apresenta:
— É isso aí, humano! Meu nome é Keldrin! Sou o Segundo Príncipe de Vilini e irmão mais novo desse espantalho aí do seu lado! Ajoelhe-se, humano!
Lórien interrompe o irmão imediatamente, com o tom severo:
— Pare com isso, Keldrin! Esse homem é meu convidado. Trate-o com o devido respeito.
Keldrin solta um longo suspiro e provoca:
— Ahh, quando falaram que você não estava bem da cabeça, eu não acreditei muito. Mas trazer um humano para dentro do Palácio de Airgid é algo difícil de aceitar.
O jovem príncipe muda o tom. Fechando a feição em uma expressão dura, ele continua:
— Mas o pior de tudo é saber que você defendeu o sangue nobre dos dracos sobre este solo. Pode ao menos me dar uma explicação, irmão?
Lórien perde o semblante de felicidade ao ver o irmão e abaixa o olhar, respondendo com pesar:
— Eu... tenho uma dívida, Keldrin. E isso foi a coisa mais importante que nosso pai nos ensinou. A dívida de um Airgid tem que ser honrada, apenas isso.
Os dois se olham em silêncio por alguns instantes, até que Keldrin põe as mãos sobre a cabeça, bagunçando os cabelos, e resmunga irritado:
— Ahh, droga! Por que o papai tinha que ser tão bom?!
Ele se vira para Lórien e cede:
— Tá legal, senhor certinho, eu entendi. Mas isso ainda não tira a gravidade da situação!
O príncipe mais velho aperta os lençóis com as mãos enfaixadas e responde:
— Eu entendo, irmão... Eu recebi a devida punição. Não vou mentir dizendo que aceito facilmente, mas, no momento, é o que tenho que suportar.
Keldrin fala, agora com um olhar compreensivo e pesado:
— Eu... fiquei sabendo da decisão da nossa mãe de te exonerar... Eu sinto muito, irmão.
Nesse exato momento, Sike entra correndo na sala, derrapando no piso liso, e diz, afobado:
— Aí, pessoal! Acho que deu ruim!
Ele para, olha para Keldrin de cima a baixo e pergunta:
— Opa, quem é esse aí?
John, mantendo uma expressão perfeitamente séria, responde ao mago:
— Ele é um executor pessoal da Rainha. Disse que veio atrás de um humano que estava andando por aí sem autorização.
Sike começa a tremer as pernas violentamente, gaguejando:
— R-rainha?! Ah, tá! Eu... eu acho que vi o ordinário indo naquela direção! Eu vou atrás dele!
Ele faz menção de fugir, mas Lórien rapidamente tenta tranquilizar o mago:
— Calma aí, Sike. O Senhor Dickson está brincando. Esse é meu irmão mais novo, Keldrin.
O jovem príncipe acena para Sike. O mago, recuperando a cor do rosto, força um sorriso:
— Ah, sim! Muito prazer, Alteza!
Logo em seguida, ele lança um olhar mortal para John — que está visivelmente segurando a risada — e cochicha entredentes:
— Isso vai ter volta, seu velho imbecil...!
Lórien interrompe a briga e questiona:
— O que você ia dizer com tanta pressa, Sike?
Sike arregala os olhos, lembrando-se da urgência:
— É verdade! A Senhorita Mirabel! Parece que ela será transportada para ser negociada com um general de Drake!
Lórien pula de seu leito, ignorando as dores no corpo, e pergunta, agitado:
— O quê?! Como assim?!
Keldrin assume a palavra, com o semblante sombrio:
— Aparentemente, o General Ron de Drake fez todo o posto avançado de Zelena de refém para negociar a posse da princesa deles.
Lórien continua atônito:
— General Ron?! Como alguém do nível dele está na linha de frente desse jeito?! Isso é insano!
Keldrin cruza os braços e fala:
— Realmente, é uma tática bem inusitada. Mas não podemos deixar mais vidas de civis sendo ameaçadas em troca de uma prisioneira.
O príncipe mais velho aperta os punhos com força, fazendo os nós dos dedos ficarem brancos, e questiona a si mesmo em pensamento:
Essa... é realmente a única forma...?
O silêncio tenso ecoa pela ala, até ser quebrado pela voz grave e decidida do cavaleiro de cabelos loiros:
— E se nós interviermos na negociação?
Todos na sala viram-se para ele e questionam em uníssono:
— O quê?!
John mantém a calma e continua sua linha de raciocínio:
— Olha, eu e o Sike viemos atrás de um favor seu, Príncipe Lórien. E é um dos grandes. Você deve a sua vida para o Sike, mas o maior interessado no favor sou eu. Então, se eu e esse mago aqui eliminarmos um general inimigo e salvarmos a princesa e a cidade, eu poderia cobrar esse favor de você, correto?
Lórien olha para John, completamente sem reação diante da audácia da proposta, e murmura:
— Senhor Dickson...
Após processar a oferta, o elfo engole o próprio orgulho. Ele curva a cabeça em profundo respeito e declara:
— Eu, Príncipe Lórien da Casa de Airgid, peço a sua ajuda, ex-Mestre Cavaleiro John Dickson!
Keldrin dá um passo para trás, completamente espantado, e gagueja:
— E-ex-Mestre Cavaleiro...?!
Uma aliança mortal e improvável se forma nas sombras de Vilini para resgatar a princesa e enfrentar o monstro da Nação de Drake.
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